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Aí eu acordei

Eu acordei. Tinha sonhado com uma loira em uma banheira. Eu não estava na banheira com a loira. Levantei da cama já frustrado por não conseguir ao menos ser competente e me pôr naquela banheira ao lado, ou em cima mesmo, da agradável loira. Fui ao banheiro pisando pesadamente a ardósia fria que deixa meu covil ainda mais inóspito. Precisei acender a luz do banheiro para encontrar a pia, o que me fez perceber que ainda não havia amanhecido. E ali, ainda me torturando pela covardia onírica imperdóavel, lavava o rosto, inclinado sobre a pia. A água que respingava de minha face deu a impressão de um banheiro gelado e fez apressar meu retorno à cama. Pois então, ao desligar o interruptor, um pedido educado fez com que eu desistisse momentaneamente de voltar aos sonhos:
- Por favor, não apague a luz.
Reacendi a lâmpada e dei dois passos lentos, reentrando o banheiro.
Dentro da minha banheira, que eu devo ter utilizado umas três vezes no máximo e apenas para banhar meu chiuaua - hoje, já falecido -, estava minha antiga professora de Orientação Sexual, professora Terezinha..
O que foi bastante esquisito, por que ela estava nua, e além disso, ela estava me parecendo bastante receptiva, pois ela fazia-me um convite irrecusável com seu dedo indicador, dobrando-o repetidas vezes. Eu desejava fortemente parar de andar em direção à banheira, mas aquela senhora estava sendo tão receptiva e eu estava tão sozinho desde que meu chiuaua se foi.
Aí eu acordei. Tinha sonhado com uma antiga professora e uma banheira. Eu ,felizmente, não estava na banheira.
Levantei da cama em uma felicidade extrema por ter sido despertado por algum santo antes de adentrar a banheira e fui até o banheiro caminhando sobre o suave carpete que transforma meu covil em um ninho onde o amor reina implacável. O sol já havia despontado e o banheiro recebia exatamente a quantidade de luz que era preciso para deixá-lo esplendoroso. A água morna brindava a inquestionável saúde de minha epiderme facial, e então, enquanto apreciava humildemente a perfeição de meus traços, ouvi a celestial voz de um anjo dourado. Virei, buscando localizar o alado ser, e a encontrei lavando seu corpo perfeito, mostrando sua alva dentição em um sorriso irresistível. Caminhei rápido, sem dar tempo para que qualquer problema interrompesse minha aproximação e então, muito antes do imaginado, estava eu ali, centimetros distante de seu corpo...
Aí eu acordei, tinha sonhado com uma loira e uma banheira. Mas não, eu não estava na banheira com ela. Levantei da cama frustrado e me encaminhei ao banheiro, lavei meu rosto, decepcionado. Então ouvi uma voz, não era suave, nem angelical:
- Porra, Sidney!!
Era minha mulher defecando.
Aí eu não acordei...droga, eu não acordei!

O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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