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Caríssimo Senhor Gorraba

Caríssimo Senhor Gorraba, 

envio-lhe esta carta pois sei que o senhor já atravessou situação semelhante.

Hoje acordei com uma forte dor na região escrotal. Talvez eu tenha dormido com a perna sobre ela. Talvez tenha exprimido-a com a parte interna de minhas coxas durante um terrível pesadelo. Ou, quem sabe?, um agressor vingativo tenha socado-a durante meu pesado sono e eu nada reparei. Não sei ao certo. O que é certo é que segui todas as indicações médicas. Tomei litros de água quente sentado sobre um cupinzeiro. Participei de duas sessões da polêmica técnica terapêutica chamada de Transfusão Fecal.  Por fim, orei aos céus. Nada disso funcionou. Encaminhei-me com a alma vazia de esperança até a catedral na rua Guillaume. Lá perguntei ao sacerdote se aquela dor escrotal irrefreável poderia ser uma espécie de castigo divino. Ele disse que não poderia opinar até manusear a região enferma com as mãos. Rapidamente, no alto de sua graça, o sacerdote revelou-me que saliva humana era a única cura para tal moléstia. Não me contive de felicidade. Planejava chegar a minha residência e, através de um método ainda não determinado, aplicar minha própria saliva no local. Mas não era essa a solução, disse-me o homem de Deus. O sacerdote me confidenciou que apenas saliva de terceiros surtem efeitos em casos assim e que devem ser aplicados com a língua. Ele me olhou. Levantou as hirsutas sobrancelhas. E então eu entendi tudo.

Foi assim também como aconteceu contigo, Caríssimo Senhor Gorraba?

Ass: Malaquias Passarôlho

Vai pegar o ônibus, ó curioso animal?


Às 5h30 da madrugada, lá estava eu em meu táxi, estacionado em frente ao prédio, aguardando somente o cliente descer.

Averiguei o aroma das axilas. Tudo OK.

Foi aí que o portão do prédio bateu em um estrondo. E eu pulei para fora do táxi, imaginando que meu cliente se aproximava. Fiz-me então em continência, imediatamente, como se estivéssemos, eu e meu batalhão invisível, em plena visita surpresa de general.

O que vi, entretanto, não era general, coronel, cabo-armeiro, nem ao menos um tenentezinho; era sim um pequeno macaco bastante elegante, arrastando placidamente em minha direção uma mala com rodas. Trajava um paletó cinza muito bem passado e assobiava a música de abertura dos Trapalhões.

Ele deslizou até meus pés uma enorme mala, sem dirigir-me palavra alguma, nem ao menos um olhar. Depositei então sua bagagem estranhamente pesada no porta-malas do táxi, como quem deita um bebê de colo em um berço, iniciando a prestação de mais um serviço incriticável.

O símio ajeitou no rosto uns chamativos óculos escuros de haste vermelho caqui e entrou no táxi em um pulinho lépido.

“Deve ser mais um desses artistas afeminados”, falei para mim, no silêncio da minha cabeça, e assenti com a formulação: “com certeza, cara, um macaquinho afeminado”.

Adentrei meu táxi e ele indicou seu destino: Rodoviária Novo Rio.

Vai pegar o ônibus, ó curioso animal?, falei para mim mesmo, novamente, mas perguntando para ele, telepaticamente. Procurava testar minha capacidade de refletir sobre as informações que me eram dadas. Estava me saindo bem, até então, em minha opinião.

Enquanto os pneus esfarelavam-se sobre o espinhoso asfalto carioca, procurei lembrar-me se já havia tido um passageiro macaco em meu táxi. Não, nunca tive.

O macaco permanecia em silêncio, conforme contornávamos as sinuosas e desertas curvas da Linha Amarelam em uma velocidade imbecilmente alta. Depois de sermos quase ensanduichados por dois ônibus conduzidos por motoristas tão ou mais inconsequentes que eu, ele se virou e olhou-me na cara, mastigando os dentes de tensão. Imaginei que ele pediria para descer, como faz boa parte dos meus clientes. Mas não.

- Não se lembra de mim, Clóvis, seu cretinão?

- Oi?

- Sou eu, o Silvinho, o macaco do circo.

- Opa! Fala aí, Silvinho!

- Fala aí, cara, tudo bom?

- Não, não muito, na verdade. Mas e sua pessoa, vai bem?

- Mas é claro que não, porra! Você deveria estar preso depois de tudo o que fez comigo e com meus colegas naquele circo imundo. Durante anos fomos humilhados, obrigados a usar batom, peruca, vestidos cor de rosa, de noiva, de paquita, fazer malabarismo com ovo, comer banana. Eu não gosto de banana, cara. Clóvis, hoje nos vingaremos de você!

- Foi mal, Silvinho. Mas vocês mereceram! Se não fossem os macacos, não existiriam os humanos e não existiriam táxis, e assim não existiriam passageiros de táxi nem buzinas ou faróis de trânsito. Assim, eu não estaria em um táxi de madrugada levando um macaco a uma rodoviária. Vocês vieram com esse papinho frouxo de evoluir e tal, e aí viraram atração de circo. Não se faça de vítima.

- Basta! – ordenou o primata enfezado.

- Silvio, qual o problema em se vestir de mulher? Todos adoravam vocês lá – disse o motorista ex-treinador, tentando acalmar a súbita revolta do mamífero de óculos.

- Olha, desde que o circo faliu estamos a sua procura. Vejo que não tens arrependimento em sua alma. Vamos para Ipanema, então! Temos uma pequena surpresa!

Aí Silvinho assobiou e da mala depositada no porta-malas pularam uns trinta pequenos macaquinhos, todos igualmente elegantes, perfumados e emputecidos.

- Todos esses aí? – perguntou assustado Clóvis. Vai ficar caro, já vô avisando. E outra, eu não posso levar mais de quatro pessoas no táxi, alguém aí vai precisar descer, viu?

- Clóvis, você parece não entender, nós estamos te sequestrando, você fará o que nós mandarmos a partir de agora.

- Ahh tá... Entendi. Onde em Ipanema?

- Posto 9.

- Hummm... Eu sabia, Silvinho...

Entretanto, alguns macacos quiseram buscar pó na Rocinha, de modo que chegamos quando já era meio dia em Ipanema. Um sol de arder a alma do asfalto.

Estacionei o táxi sobre o meio fio da avenida e eles vieram com uma historinha esquisita.

- Durante a tarde toda você vai vestir esse biquíni fio dental e caminhar pela areia. Para você sentir na pele o que nós sentíamos diante do respeitável público, e não pense em fugir, se não a gente zoa seu táxi, tá me ouvindo, cumpadi?

- Poxa, Silvinho, mas que macaquinho boiola cruel que você é, hein?

- Sou mesmo, tá?!

Seis horas depois encontrei-os no táxi. Eu tinha boas novas. Fui um sucesso absoluto na praia, me adoraram por lá, fiz amizades que resistem até hoje e arrecadei uma boa grana dos turistas que acharam que eu era algum tipo de retardado. Pedi desculpas aos macacos por tudo o que tinha feito e ofereci-lhes a ideia de abrir uma sociedade para explorarmos o mercado GLS carioca. Hoje eu e Silvinho temos uma agência internacional especializada em turismo gay e vamos nos casar em Buenos Aires ao fim deste ano. Já compramos nosso apartamento na Barra e, quando retornarmos, adotaremos um bebê. Eu quero muito uma menininha japonesa; ele, um pequeno mico-leão-dourado. 

Ele tende a vencer a disputa. 

Deus fica triste quando não apertamos a descarga - Director's cut


Após a missa das sete, fui acometido pela vontade arisca de minha memória e passei a lembrar-me de Tia Marlene discursando sobre como Deus fica triste sempre que deixamos de apertar a descarga. 

As asserções da professora ressoavam tão solenes, cristalinas e carregadas por um ameaçador tom através dos caminhos turvos da minha memória, que pude relembrar detalhadamente do instante em que ouvi aquilo pela primeira vez, quando ainda era um jovem banguela, dono de cuecas amareladas e de um couro cabeludo polvilhado por caspas graúdas.

Sentado à minha escrivaninha, imerso na tristeza só da minha profissão, revi diversas e saudosas passagens de Tia Marlene: observava-a, mesmo com quatro décadas nos separando, tomando os dez primeiros minutos do recreio, problematizando apaixonadamente os grandes dilemas comportamentais de nossa espécie, mencionando o Inferno, que aguardava faminto as almas dos pecadores, dos subversivos e dos petistas, reforçando a responsabilidade gerada pela benção do livre-arbítrio, lembrando-nos da salvação pela caridade, pregava a sumária partilha do lanchinho com o colega que esqueceu a lancheira na perua, e, por fim, ordenava que jamais, nunca, sob hipótese alguma, nos esquecêssemos de apertar a descarga.

Sentado à escrivaninha de minha alcova, algo, então, começou a me incomodar. Não sabia, pois, se havia cumprido totalmente aquele último mandamento ao longo dos recentes anos.

Minha alma inflou-se em incertezas. Será que em algum momento, por pura distração, eu havia me esquecido de apertar a descarga ao utilizar um desses banheiros da vida?

Por toda a noite aquela dúvida zunzunou em minha cabeça e se calou apenas depois que li o nome Marlene Assis de Sá no obituário do jornal, na manhã seguinte.

Enquanto atravessava a nave principal da Igreja onde habitava, acenei rapidamente para as senhoras que ao brilho do primeiro raio solar já se postavam sobre a madeira fria dos enormes bancos da Igreja, à espera da missa inicial do dia.  Ouvi alarmados “Aonde vai, Padre Isidoro?”. Mas não havia tempo de informá-las, aquelas velhas surdas, seria necessário repetir três vezes a horrenda informação. Passei por elas, fingindo não vê-las. Precisava chegar ao velório. Era-me premente.

Pois quando lá cheguei, um homem veio ter comigo. Tinha cravado na pele um forte cheiro de tabaco, que contaminava todo seu redor. Ele me perguntou se eu era o Padre Larousse, que faria a cerimônia. Respondi que não, e só ali notei que ainda vestia a batina.

Respondi ao homem, com aquela minha característica bondade. Disse que fui batizado com a alcunha de Isidoro Ludovico e Araújo, e que tinha sido aluno da Tia Marlene, décadas atrás, no colégio Nossa Senhora Virgem Maria das Causas em Tramite. Informei-lhe também que era padre, sim, mas estava lá apenas para me despedir daquela mulher de tamanha importância em minha formação humanitária.

Ele abriu um amplo sorriso, como se ouvisse um sincero elogio à sua agradável fragrância, e fez questão de me guiar até o salão onde o caixão estava depositado.

Morta, ela continuava igual à de antes. Já carregava durante a vida aquela pálida rigidez de todo o cadáver. A única diferença realmente perceptível é que, agora, ela pouco falava. 
Sentei-me ao lado do caixão, guardando o local, tomando cuidado para que nada de errado acontecesse durante a realização da cerimônia. Sentia que minha presença tranquilizava tudo e todos ao redor. Falei com alguns dos presentes, gente da mais pura educação e humanidade. Não deixei de elogiar Tia Marlene sempre que pude, confirmando aos meus interlocutores que suas aulas e ensinamentos me guiaram em direção à cidadania responsável. “Se hoje sou este padre incrível que sou, devo muito a ela”, disse um bom par de vezes. Notava os olhos das velinhas iluminando-se sempre que rememorava o passado da falecida. Algumas, durante os diálogos, apertavam meu braço; outras corriam a mão sobre meu peitoral; outra chegou até a escorregar o ventre murcho sobre minha virilha. Sorri, mas me afastei, perdoando-a pelo pecado. Sempre fui bom em perdoar.

Conforme as horas foram passando, notei certo desconforto entre os presentes. O homem do cheiro de cigarro aproximou-se de mim com certo incomodo. “Padre, o Padre Larousse foi parado numa Blitz aqui perto e se recusou a fazer o teste do bafômetro. Ele e a Honda Biz dele estão retidos na delegacia. Parece que você terá que fazer a cerimonia. E ai, topas?”, perguntou e ofereceu-me uma bala de café.

“Lógico. Topo. Será uma honra para mim. E posso pôr no currículo. Isso conta muito na hora de achar uma paróquia melhor”, informei-o, com o drops a derreter sobre minha língua afiada.

Cheguei novamente ao lado do esquife e pigarreei. “Rám-Rá” – foi o som do pigarro, lembro-me bem. Pigarreei novamente. Saiu um “Rúmmm-Ah-arú” dessa vez. Os presentes se aproximaram, ombro a ombro, olhando-me encantados, ansiosos em ascultar minha oratória irretocável.

“Hoje estamos reunidos aqui para honrar a querida lembrança da Tia Marlene. Uma professora, uma irmã, uma amiga, uma mãe, uma santa”. Mal terminava essa frase de abertura e já captava o espocar incontido dos choros na audiência atenta. “Esta mulher aqui...”, continuei e apontei para o caixão. Mas, ora, vejam bem, atenção aqui, não havia corpo algum. O caixão tinha apenas algumas coroas de flores e nada mais.

Olhei automaticamente para as pessoas ali diante de mim. Mas seus olhares apenas vagam pelo salão. Perdidos em outro tempo e espaço. Olhei de novo em direção ao caixão. Ele continuava vazio. E ao olhar de novo para quem me escutava notei que alguns olhavam com dó para o caixão. Para onde o corpo deveria estar. Eles olhavam para o corpo. Então apenas eu não o via? Antes de poder responder aquilo, vi Tia Marlene entre a senhora que roçou a virilha sobre mim e o homem que havia me oferecido a bala de café. De pé, ela ria de mim, debochadamente.

Senti meu estomago se liquefazer, gélido. Precisei ir ao banheiro. Pedi licença antes e disse que tinha esquecido uma coisa no carro. E então, no meio do meu discurso fúnebre, abandonei o local, suando, em meio a palavras sinceras.

No banheiro, entretanto, o problema era maior do que supus inicialmente. Meu intestino sacolejava feito um barco de papel em um oceano feroz. Não havia alternativa por mais que tentasse me convencer que era apenas um problema com gases. Puxei as saias da batina e sentei-me sobre o frio assento da privada. Gritei ao mesmo instante que os primeiros tabletes de fezes mergulhavam ruidosamente na água sanitária da privada da única cabine do toalete.

Minutos depois, nascia ali, sem aviso algum, uma dúvida aterradora entre apertar ou não a descarga. Nesse instante, surgiu de dentro do banheiro, saindo do interior de um secador de mãos automático e sobrevoando a posta trancada da cabine, o espírito de Tia Marlene, claramente incomodado pelo forte odor.

“E então, não vai puxar?” – ela questionou-me, testando meu nobre espírito, planando a centímetros do teto encardido do sanitário.

“Lógico que vou, eu jamais deixei de puxar descarga alguma, ora!” afirmei, tentando me convencer daquilo.

“Pare de se enganar. Nós dois sabemos da inverdade dessa sua afirmação, menino Isidoro. Você jamais apertou uma descarga em toda a sua vida, meninote traiçoeiro!“

“Isso é mentira, tia Marlene” – esbravejei, engasgado pelo choro que nascia.

“Não é, Isidoro. Aceite.”

Atordoado pelas convulsões do choro, desistindo de manter aquela mentira que eu teimava em crer, disse aflito: “Desculpe, Tia Marlene. É que eu adoro imaginar a cara de nojo de quem entra no banheiro”.

“Acalme-se, meu menino.” Ela me abraçou, tentando domar minha alma pecadora.

“Perdoe-me, faz favor.”

“Eu não posso te perdoar, Isidoro. Tu é que tens que se salvar.”

“Mas como, Tia?”

“Pense em algo. Agora deixe-me partir. Aqui a coisa está complicada”. E se transformou em fumaça, sendo sugada novamente pelo secador de mãos;

O dia do enterro da Tia Marlene marcou também o termo da minha vida como padre. Ao sair do banheiro notei que boa aparte daquilo havia sido uma alucinação, terrível alucinaçação, oh!, horrível, sim. O padre Larousse terminava sua fala quando voltei ao salão. Brilhantemente ele relembrava a passagem de Tia Marlene. Eu em momento alguma havia tomado a palavra. Naquele dia mesmo deixei de ser um mediador entre Deus e os homens e resolvi buscar a salvação da minha própria alma.

Hoje, trabalho dez horas diárias nos banheiros da Rodoviária do Tietê em São Paulo e outras seis no banheiro masculino da estação de metrô da Sé - e sempre que posso visito as instalações sanitárias dos postos de gasolina das rodovias.

Desde o velório, jamais deixei de apertar a descarga e comecei a cultivar o inabalável hábito de averiguar a limpeza de todos os vasos sanitários que posso, mesmo das privadas não utilizadas por mim.

E, muitas vezes, enquanto estou sentado no banheiro lá em casa, Tia Marlene aparece e conta como Deus fica feliz da vida sempre que me vê a apertar uma descarga.

Os Mamilos Retalhados de Cambridge


Martin Donnely inspirou profundamente. Ergueu o corpo gordo da cadeira e foi ao púlpito, subindo os degraus da escada do palco em passos calculados, preparadíssimo para o tradicional discurso de segunda-feira. Os alunos, entretanto, compondo a plateia, logo cedo, nada preparados para ouvi-lo, apenas tentavam manter-se despertos sobre os acolchoados assentos do anfiteatro da Universidade de Cambridge naquele princípio de 1952.

“Decidam aí, senhores!”, começou o mestre, em tom amigável inédito, após um pigarro extravagante, dando origem a inúmeros olhares confusos que foram nascendo entre os ouvintes, sob o silêncio refrescante e sonolento da primeira manhã da semana. “Os parcos pelos nas rodelas dos peitos de suas namoradas lhes aborrecem tanto assim? Ora, decidam aí, senhores! Optem pela ignorância e os alisem tenramente, como se fossem um gostoso lenço de seda, ou reconheçam a pelagem excessiva e apreciem as nuances desses finos fios de cabelos mamários”.

Foi um grande choque. Indiscutivelmente.
“Mas, mestre, alguns pelos não são mais aceitáveis e coçam nosso rosto, nosso buço e queixo. Certa vez até espirrei em uma pobre mama depois que um pelinho safardana adentrou desavisadamente meu nariz”, hablou um meninote, ameaçando levantar-se de sua poltrona, irado, assustando-me deveras e afastando para muito longe o sono imenso que me abatia.
“Ora, mestre! Ora! Mestre, ora!”, disse outro meninote, igualmente irritante. “Estamos em plena década de 1950. Quero uma quenga lisa como uma mesa de madeira envernizada!”
Um farfalhar intenso levantou-se entre meus colegas de classe, pairando sobre nossas cabeças ensebadas como um enxame, enquanto o mestre apenas nos observava, calado, estudando-nos o comportamento. Após breve reflexão, decidi compartilhar minha opinião com os presentes, rasgando aquela nuvem intensa de comentários com minha voz trovejante. “Não me importo com esses tais pelos na teta, não”, redargui, silenciando os sons alheios dissonantes por apenas um momento, pois fui imediatamente vaiado com toda a fúria alcançada pelos pulmões dos colegas. Não podendo mais prosseguir em minha exposição, sentei-me à cadeira, resignado, e fiz força para não derramar uma sequência envergonhante de lágrimas. Falhei.
“Garotos, compreendo muito bem a repulsa, a época em que vivemos e o prazer que sentimos ao deslizar as palmas das mãos sobre uma mesa de sala esmeradamente encerada. Mas, escutai-me bem, jovens mancebos. Deus pede que aceitemos os outros da forma como são”. O mestre tentava amenizar o fervor que incitara nos alunos, injetando força e autoridade em seu discurso. “Façam como o último colega, o chorão ali, deixem de lado se das bordas circulares dos mamilos de seus amores brotam alongados e nojentos pelos escuros encaracolados. Deixem de lado isso, filhos de Deus, ora bolas. Para o bem de todos vocês! Ora bolas! Bolas! Ora! Não permitam que um fino chumaço pendente afaste para sempre o amor de suas vidas”.
Martin Donnely quase implorava-nos, pedindo que reconsiderássemos nossas posições. Estava envolvido emocionalmente até o pescoço com o tema de seu curioso e já histórico simpósio. Mesmo apoiando-o completamente, perguntava-me por que estaria ele abordando aquele tema naquele instante, naquele dia, naquele preciso momento em que Marte e Saturno estavam alinhados com Escorpião. Alguns pelinhos despontando de doces e rosados mamilos femininos não me causavam repulsa nenhuma e apesar de sua insólita fala, comecei a nutrir certa simpatia por sua curiosa personalidade, que nunca nem fez menção de irromper durante suas aulas regulares e mui entediantes.
Horas depois fui ao seu sombrio escritório no quinto andar da Torre Central do campus. Era o auge do inverno e me escondia sob um casaco de camurça que ganhei de papai. Superei altos lances da escada espiralada para encontrá-lo triste, debruçado sobre sua escrivaninha, sondando as profundezas de suas fossas nasais com o auxilio de um exagerado crucifixo dourado que pendia de um cordão amarrado ao redor de seu pescoço. Convidou-me para adentrar, tentando ocultar a melancolia que lhe dominava. Não pude, contudo, deixar de notar os olhos molhados precipitando fios de lágrimas sobre seu rosto pálido. Disse-lhe, ao pé de sua ampla escrivaninha, apinhada de grossos e poeirentos tomos de livros, que apreciei cada sílaba proferida em seu discurso da manhã e que concordava inteiramente com cada linha de seu ponto de vista.
“Posso ver-lhe as tetas?”, perguntou-me subitamente o professor de Religião, com a testa desencantada e retesada em uma incômoda interrogação. Sua tristeza me entristecia.
“O senhor, preclaro mestre, quer analisar as rodelas de meu peito, aquelas que parecem um par de fatias de salames desbotados, ilhado por rasos mares de pelinhos escurecidos?” – perguntei. “É exatamente o que quero, doce mancebo! Sou fascinado por peitos cabeludos”, disse-me, ainda sentado à cadeira de seu escritório de cortinas cerradas, enquanto, em seu rosto, construía-se um puro sorriso sacana e, sobre a mesa, queimava uma vela perfumada. Lembrei-me então que minhas notas não eram das melhores em Religião e que havia uma boa chance de reprovação ao fim do ano, de modo que me livrei da camisa branca que tinha embaixo do casaco e desnudei meu peito branco e desgalgado. Tudo aconteceu celeremente, de tal forma que não pude atinar por completo tudo aquilo que era desfraldado diante de minha vista despreparada. Ele lambeu os beiços secos e, como um bebê faminto diante da fartura alimentícia da mãe, aproximou a boca ávida de meu mamilo esquerdo rígido pelo frio. Fechei os olhos com presteza. Meus maxilares pressionavam febrilmente os dentes rangentes. Senti a umidade de uma língua áspera dançando ebriamente sobre minha peitoca, pouco antes de um contato doloroso de dentes em leves mordiscadas. Só pude abrir os olhos assim que notei sua falta de atividade. Vi-o em pé, satisfeito, recompondo-se, desacelerando as expirações. Não pude me conter! Disse-lhe, sem medo de qualquer castigo posterior: “Mestre, posso…. eu….ver-lhe as tetas?”.
Aguardei-lhe, com os olhos semicerrados, fitando suas feições impassíveis por uma breve eternidade. “Mas é claro”, disse, descobrindo prontamente seus fartos e enrugados mamilos, que não possuíam pelo algum. Estes reluziram sob a luz fraca da vela bruxelante. Curvei-me e estiquei o pescoço como uma receosa tartaruga expondo sua cabeça para além do casco, abocanhando morosamente uma alface. Rocei a língua, em amplos movimentos circulares, sobre seu gigantesco bico, que, vermelho, parecia a ponta melada de um tubo de batom. Seu corpo estremeceu. Martin Donnely disse, “Oh! Que delícia”.
À noite, a lua cheia em grave tom acusatório encarava-me através da janela. Tentava dormir, sem sucesso algum, em minha cama postada em um canto triste do dormitório do segundo andar. Mesmo depois de dois prolongados banhos quentes no banheiro do vestiário do primeiro andar, ainda sentia a saliva pegajosa do professor queimando meu mamilo esquerdo e escorrendo sobre meu abdômen. Evitei suas aulas durante a semana. Não sabia como me comportar diante dele. Não sabia como ele reagiria em minha presença. A semana prosseguiu cinza e o frio agigantava-se cada dia mais. A vida me era tão fustigada durante aquelas tenebrosas horas, que o céu e a terra pareciam petrificados sob uma pesada tristeza que a tudo contaminava.
Na sexta-feira meus colegas de sala e eu estávamos enfurnados no congelante vestiário central do campus. Preparávamos-nos para a aula de educação física no campo principal, quando o professor Ferdinand Whithmarsch entrou esbravejando, socando os armários e chutando as paredes e bancos. De sua testa suada saltitava uma veia prestes a explodir.
Em um urro animalesco, pediu que nos calássemos. Disse que precisava tratar de um assunto muito delicado. Mas que antes disso, necessitava que todos tomassem banho ali mesmo no vestiário e retornassem para sua preleção sem a camisa do uniforme de rugby. Da mesma maneira como aconteceu com a palestra do professor Martin Donnely na segunda feira anterior, nos entreolhamos, sem compreender. Mas, como alunos que só querem se livrar dos professores e de seus ensinamentos descartáveis, logo estávamos todos de banho tomando, diante dele, sem camiseta, com os mamilos duros como pedras de gelo.
“Quer dizer que as meninas aqui sentem repulsa diante um bom e tenro mamilo peludo?” – berrou, babando, com os olhos quase saltando para fora das órbitas. Tinha os punhos cerrados, vermelhos, zunindo diante dos rostos dos pseudoatletas calados e chocados postados à sua frente. “É isso mesmo?”
Jerry Williamson, curvado sobre si, com a cabeça baixa e com os dentes chiando como pandeiros no carnaval, tentou expor sua posição, utilizando-se de sua voz banhada em uma xícara de chá do puro medo adolescente. “Não, professor, não, não, não é isso”, gaguejou. “É que muitos de nós preferimos um mamilo que não possua pelos. Mas tenho certeza total que ninguém aqui negaria a oportunidade de manusear com a boca uma dupla de peitos com alguns pelinhos a mais”.
Whitmarsch pareceu não acreditar em nada do que o pobre Williamson e seus olhos tremeluzentes disseram. Agarrou-o pelas orelhas com as duas mãos, levantando-o uns oitenta centímetros do chão de azulejos brancos do vestiário. “Veja só, Williamson! Você tem inúmeros pelos mergulhados nesta massa amarela e pegajosa que habita suas orelhas miúdas, não é?”. “Tenho um pouco sim, senhor, professor”. “Pois sua mãe deixa de beijá-lo à noite e na manhã seguinte furta-se de levar-lhe café preto e enormes fatias de pão com manteiga à sua cama quente e cheirosa?”. “Não, nunca deixou e nem vai deixar, eu espero, mestre professor”. “Pois então, jovem Williamson, reveja essa posição. Dispensados da aula, após essa lição de moral”, ordenou, dirigindo-se a todo o medroso corpo estudantil, e largou o pobre Willy, que desabou no chão feito um saco de carvão. Caminhei às pressas, deixando meus colegas ainda estupefatos para trás. Agarrei a mala com minhas roupas e, quando ia abandonando o vestiário, ouvi o professor chamar meu nome e me virei. Ele estava com a mão esquerda sobre o mamilo direito, apoiando a cintura sobre uma pia, sem a parte superior de seu uniforme de treinador. Aplicava leves beliscões com o polegar e o indicador em sua teta já assanhada. A dois passos da saída do vestiário, mantive-me imobilizado, como se diante dos olhos da Medusa. Os alunos apressavam o passo, lavados de temor como uma manada de guinús tentando manter a vida para si diante das investidas de um felino faminto. “Venha cá, Tyler. Preciso te pedir um favor inadiável”. Temerosamente, dirigi-me em sua direção, esbarrando nos últimos alunos a sair do vestiário. Caminhava como se atravessasse um ringue de patinação ensaboado. Não conseguia de modo nenhum definir em qual momento ele havia se livrado do blusão do uniforme. “Veja, Tyler, veja a cor dos meus biquinhos”. Vi. Seus mamilos eram marrons, sem pelos, e possuíam um encantador tom rosado – uma bicoloração mamilesca inédita. “Mas que mamilos curiosos o senhor possui aí, professor Whitmarsh”, disse, profundamente interessado. “Ora, nunca ninguém notou esta minha qualidade, sabia? Agora me deixe vislumbrar seus mamilos quentes ainda cheirando a sabão. Soube que eles têm uma plumagem sublime.”
Ele beliscou-os, timidamente, com seus ásperos e rijos dedos de atleta. Depois os apertou e parou e permaneceu assim por um tempo. Parecia segurar dois prendedores de roupa, prestes a coloca-los sobre uma toalha para secar no varal ao sol. Lembrei que havia uma grande chance de ser reprovado em Educação Física, então sorri, estimulando-o a iniciar suas carícias. Ele, avidamente, grudou seu rosto em meu tórax e passou a mordiscar meu mamilo esquerdo como os dentes do fundo de sua arcada, como um cão filhote roendo um osso de boi. Quando suas arfadas pareceram diminuir de intensidade, foi minha vez de pedir-lhe para manipular sua mama rosa e marrom. E ali, protegido do inverno que varria o campus e pintava de cinza escuro os gramados e os tijolos dos prédios, babamos no peito um do outro por cinco minutos, apreciando nossas mamas suculentas. Deixei-o sob o chuveiro de água abundante e quente. E, agradecendo a presteza como as coisas se deram, escafedi-me dali tão logo pude, sem saber dos fatos insólitos me ainda me aguardavam com ansiedade extrema.
Horas depois, com os mamilos mordidos inchados e ardendo horrorosamente, estava próximo do prédio de Filosofia plantando bananeira junto de meus bons colegas Sanderson e Willy Nelson Jr. Fui então, no meio de uma atrevida manobra, alvejado na face ruborizada pelo inverno por uma bolota de fezes de pomba próxima da liquefação. Sanderson disse prontamente que era melhor eu me lavar antes que alguém visse aquilo e socasse meus bagos gratuitamente, de modo que me apressei em encontrar o primeiro sanitário disponível. Na Ala Leste do Prédio de Filosofia descobri um inusitado e sombrio lavabo. Enxaguava a cara apinhada de espinhas com água fria, na esperança de expulsar aquela camada de merda que já quase endurecia devido ao frio polar de Fevereiro, quando fui interpelado por um canto angelical nascido das vibrações das cordas vocais perfeitamente afinadas de uma fêmea estonteante. Bernadet era seu nome. Era faxineira do campus já há trinta anos. Agora, aos noventa e três, mesmo curvada e ranhenta, ainda desempenhava suas funções com um vigor espantoso, irradiando uma beleza pelancuda por toda a extensão dos corredores e banheiros da tradicional instituição de ensino. Saindo de trás da porta da única cabine do lavado, sob uma atmosfera dominada pelo cheiro de urina curtida, ela chegou próxima de minha face ainda umedecida e salpicada por persistentes restos de cocô e beijou minha boca com seus lábios murchos, cujo cheiro lembrou-me uma par de meias molhadas esquecidas na gaveta. Hipnotizado pelo toque argiloso de sua boca esguia, demorei a perceber que ela já estava junto ao meu ouvido, murmurando e gemendo febrilmente. “Gostaria que você visse meus mamilos. Eles andam meio cabisbaixos”, pediu. Não neguei seu convite, mesmo sem saber por quê, e, minutos depois, com o maxilar exausto, já estava com a face lavada e com um leve sorriso satisfeito plantando atrevidas bananeiras novamente com meus bons camaradas Sanderson e Willy Nelson Jr. As mamas da nonagenária faxineira eram incomparáveis e passei a sonhá-las a cada instante desperto. Durante os seminários e avaliações, ao invés de cálculos e teorias, vinha à minha lembrança aquele par de mamas decrépitas. Mesmo breves, os inesquecíveis cinco minutos passados no lavado do prédio de Filosofia me perturbavam de tal forma que minhas péssimas notas conseguiram ficar ainda mais risíveis e preocupantes. Na terça-feira seguinte, durante uma manhã tristemente escurecida pelas nuvens de um temporal que se assomava sobre as torres de Cambridge, fui levado ao escritório do professor de Literatura Inglesa para uma conversa pormenorizada a respeito da queda do meu já fraco desempenho acadêmico. Bati em sua porta e um ranger estridente me acompanhou enquanto penetrava o aposento. O professor Edward Francis estava de pé. Tinha o corpo coberto por um relevo acidentado de músculos rígidos, empapados em seu próprio suor, e, sem vestes na parte superior, levantava um par de pesos de 50 quilos. Vestia um diminuto short azul desbotado de lycra barata, que lhe cingia a fina cintura e cobria seus diminutos genitais. Das duas caixas de som instaladas sobre uma ampla janela, a partir da qual se divisava o intermitente campus acinzentado encolhendo-se sob as nuvens negras do temporal iminente, uma canção de Carlos Gardel choramingava levemente às margens da quietude e preenchia com dificuldades o escritório do mestre musculoso.
“Sabias, jovem Tyler, que além de escritor e teatrólogo, sou também matemático autodidata?” – questionou-me, esnobemente, com um sorrisinho escavando as pontas de seus rotundos lábios rosáceos. “Aposto que não sabia de mais essa capacidade minha!”.

Empurrou uma cadeira, a qual apontou com o dedo longo afetado, sugerindo que ali me sentasse. Começou a secar as axilas ressumadas com uma toalha de rosto, assobiando o tango argentino do cantor uruguaio.
“Não sabia não, professor Francis” – assegurei, sinceramente, enquanto me ajeitava no banco sem braços.
“Ora, já sabia que não sabias. Sei que sabes que pouco sabes sobre os assuntos deste mundo. Mas ao contrário do senhor, sei de uma infinidade de fatos, inclusive sei que possui um par de mamilos bons de morder”.
“É o que afirmam por aí, professor” – reconheci, com certo orgulho.
“Sabe como uma nota quatro transforma-se em um oito, querido Tyler?” – ele mudou de assunto.
“Multiplica-a por dois?”
“Em casos normais, sim, mas, em sua situação, apenas a aplicação de uma sequência de mordidas em seus dois jovens e peludinhos mamilos faria com que tal milagre ocorresse” – redarguiu, antes de arremessar sobre meu rosto assustado a toalha empapada em líquido cítrico de seu sovaco.
Desde que havia conhecido Bernadet havia prometido a mim mesmo que pararia de morder mamilos alheios e que nunca mais deixaria que os meus, já inchados e doloridos, fato que dificultava o sono e as trocas de roupas, fossem mordiscados pelo cada vez maior número de docentes que se interessava pela coisa, mesmo que isso significasse minha reprovação ou expulsão da Universidade de Cambridge. “Olha, professor. Fico verdadeiramente grato pelo seu interesse em meus mamilos, mas eu prefiro não envolvê-los mais em assuntos acadêmicos”.
Ele, que havia ficado de pé durante toda a extensão de nossa conversa, subitamente arriou sobre sua poltrona. Parecia chocado por uma surpresa incomensurável. Seu sorriso transformara-se em uma massa tremelicante de lábios pálidos. Sua tez, antes empapada em suor, estava agora congelada pela frustração. Com as sobrancelhas arqueadas em tom ameaçatório, questionou, “O que quer me dizer? Não o compreendo”.
Ergui-me do assento magro e doloroso e respondi, empertigado, inflado por toda a coragem que consegui represar. “Quero dizer que não mais irei deixar meus peitos disponíveis para professores mordê-los conforme queiram. Não mais alugarei minhas tetas para outros mamarem”. E dito isso, em um berro fulminante o bastante para roer a estrutura da edificação na qual estávamos, atirei-lhe a toalha encharcada, devolvendo-lhe o golpe com intensidade superior, e me dirigi caminhando à porta, aturdido, impregnado pelo asco que sentia. Antes de abandonar o prédio, porém, ainda no ermo corredor e a poucos passos do início da escadaria espiralada que me guiaria de volta ao campus, tive o pescoço covardemente sufocado pela mesma toalha de rosto e lutei para me desvencilhar do ataque repentino que veio pelas costas. A acidez do suor frio rascava meu pescoço, como se aquele toalha possuísse em sua superfície milhares de invisíveis filetes de estilete. Com as duas mãos tentava impedir o contato terrível contra minha pele, mas já começava a perder a consciência. Antes de ceder à força covarde do mestre, vislumbrei, à luz rarefeita do corredor, os mamilos quase centenários de meu amor. Acordei tremendo e em pânico. Estava de volta ao escritório do Professor Francis. Tinha as mãos amarradas por grossas cordas ao encosto daquela mesma cadeira. Vislumbrei mestre Francis realizando frenéticos levantamentos de peso, enquanto fazia polichinelos. A muralha de músculos de seus braços parecia à beira de um colapso, prestes a explodir, e ele arfava a cada movimento, próximo da completa exaustão. Continuava trajando apenas o mirrado short azul e sorriu ao ver que eu recobrara os sentidos. Aproximou-se de mim e beliscou meu mamilo que se encolhia de medo. A dor assemelhava-se ao terror congelante de uma agulha penetrando minha carne. Gritei, mas ninguém ouviu – tinha a toalha suada enfiada na boca, servindo de mordaça. Prometi que sairia daquela situação são e que não permitiria viver sem perpetrar uma vingança merecida e horrorosa contra o responsável por aquele ultraje inaceitável. Professor Francis riu diante da minha impotência, vendo-me me debater, preso junto ao assento. Meus olhos vertiam lágrimas com sabor de ódio e desespero. Ele debruçou-se e mordiscou meu peitinho esquerdo e depois mordiscou meu peitinho direito e depois mordiscou meu peitinho esquerdo e depois mordiscou meu peitinho direito e depois mordiscou meu peitinho esquerdo e depois mordiscou meu peitinho direito e depois repetiu tudo duas vezes, com os olhos a cintilar como um par de faróis no negror da noite. Calado, eu urrava de dor e raiva. Entretanto, um providencial ruído de batidas na porta do escritório superou o som do sangue fervilhando em minhas artérias. O professor vestiu um terno e calças e surpreendido foi à porta atender o visitante. Por alguns minutos fiquei sozinho. Com a porta às minhas costas, não me era possível observar a interação entre Professor Francis e o bendito e inesperado bípede pluricelular que lá estava. O que pude fazer foi afrouxar um pouco o nó dos punhos. Mas então senti um toque ansioso nas costas. Era Bernadet. Vê-la ali estancou a inclemente dor que esganava meu coração e me sedou por breves instantes. Foi sua pressa em libertar-me que me devolveu à gravidade da situação. Voltei a tnetar remover as amarras de minhas mãos. Ela retirou a toalha empapada de suor e beijou-me apaixonadamente. O dulçor de seus lábios finos e secos misturou-se com o acre das glândulas sudoríparas do professor teatrólogo e matemático, e só não vomitei porque seria ridículo demais. Livre das cordas e tendo abandonado a cadeira que me servia de cativeiro, vi o corpo musculoso do Professor Francis desfalecido, estirado próximo à entrada do escritório. Tínhamos pouco tempo para fugir dali. Naquele momento, qualquer imagem referente ao meu futuro naquela instituição de ensino desvanecia de minha imaginação na velocidade dos meus batimentos cardíacos desesperados. Quando Bernadet saltou sofregamente sobre o corpo inconsciente do professor soube que não havia escapatória para nosso amor. Durante minha vez de saltá-lo senti sua mão gélida agarrando firmente meu tornozelo, amarrando-se em mim como uma algema inviolável. Ele estava desperto novamente. Gritei para Bernadet correr, descer a escada espiralada ao fim do corredor e misturar-se entre os alunos no campus, e ela obedeceu. Antes, porém, lançou em minha direção uma vassoura, com a qual, imaginei, o havia nocauteado antes. Agarrei o cabo da vassoura e com as cerdas de palha quebradiças de 40 centímetros dei-lhe sucessivos golpes na face até que ele voltasse à inconsciência e o corpo inerte lançasse mão de meu tornozelo quase necrosado. Fechei a porta rangente do escritório e sai à caça de Bernadet, abandonando o cenário grotesco com um plano de fuga mirabolante já sendo esquadrinhado por minha criatividade alucinada. Uma chuva intensa inundava o campus e o horrendo frio fazia arder minha tetinha assada. Saltei em direção do gramado alagado. Cada gota da chuva furiosa era como um golpe certeiro de um punho destruidor e fazia meu corpo vacilar. Vaguei sob a chuva por horas, revirando cada canto dos prédios, com as roupas pesadas e encharcadas, mas não reencontrei Bernadet. Então, enquanto subia o primeiro lance de escadas, que dava para o segundo andar e para meu dormitório, a umidade da chuva e minha descrença na superação daqueles imensos obstáculos venceram-me e desmaiei pesadamente, durante um passo.
Acordei com um par de enfermeiros agarrados à suas pranchetas, anotando com canetas informações referentes à minha condição física. Gemi logo que voltei a travar contato com meu corpo alquebrado. Sentia uma forte dormência no cotovelo, devido, provavelmente, à queda que sofri na escada. Suspeitei que depois de desmaiar, rolei escada abaixo e me surpreendeu o fato de não contar mais danos no corpo.
Ao meu lado, na cama vizinha, ainda inconsciente e coberto por fartas mantas de lã, estava o professor Francis. Sua face estava inchada feito meus peitinhos. Estava ligado a tubos de soro através de suas veias de professor safado. Meu coração, que havia boiado em infindáveis e inabaláveis mares quentes de serenidade durante minha perda de consciência, voltara e espernear dentro de minha caixa torácica e engasguei em desespero. Os enfermeiros se aproximaram ao verem-me consciente. “O encontramos desmaiado na escada do prédio do dormitório 3. Você estava quase congelado. Você deu sorte. Willie Nelson Jr. ligou e pediu socorro à enfermaria”, disse um deles. “Fizemos alguns exames e notamos algumas coisas estranhas em seu corpo”, informou o outro, com seriedade preocupante. “Seus dois mamilos parecem ter sido mastigados por algum tipo de animal enfurecido. A condição deles não é das melhores.” Eles me olharam, aturdidos, ainda agarrados à suas pranchetas, esperando divisar a normal reação de um paciente diante de tal horrorosa informação. Entretanto, não a viram. Perguntaram, então, “O senhor tem algum roedor em seu quarto? Deve saber que eles são expressamente proibidos pela Reitoria”. Respondi que não tinha nenhum roedor no meu quarto. Mas que gostaria muito de ter um companheiro. Contei-lhes que me sentia muito sozinho ali na Universidade. Que era natural do interior da Inglaterra e que andava me masturbando muito. E que começava a achar que professores formavam um complô para mordiscar minhas tetas. Disse que o professor ao lado era um deles. E que eu havia nocauteado-o com uma vassoura que pertencia a uma senhora faxineira com quem havia praticado sexo anal dias antes e por quem estava perdidamente apaixonado. Confessei também que estava com uma dilacerante gonorreia desde então. E quando dei por mim cada um deles mordia violentamente uma de minhas tetas. De modo que nada pude fazer. Algum tempo depois bateram à porta da enfermaria. Os enfermeiros saíram de cima de mim prontamente. Entraram empurrando uma maca. Nela havia um corpo coberto por um cobertor branco. Pelo tamanho do cadáver tive certeza que era de Bernadet. Ele era tão miúda. Do tamanho de um pigmeu com ananismo. Aquilo nem era uma toalha, parecia mais uma tolha de rosto. Levantei da cama e puxei o tecido, que era um lenço na verdade. Era ela mesmo. Dura como o meu bilau, naquele instante. Estava branca e encharcada, em posição fetal. Parecia um ovo de avestruz. “Encontramos ela atrás da estátua de Sir. Bonald McDonald. Deve ter desmaiado em algum momento. O frio fez o resto”, disse o bombeiro, o maior deles, debochadamente.
Fui até perto dele e dei-lhe toques agradecidos no ombro. A ele, ao bombeiro que o acompanhava e aos dois enfermeiros, perguntei: “Alguém aí tem um tesoura bem pontiaguda?”. “Ora, meu jovem, que sorte essa a sua, hein? Olha uma aqui, bem brilhante!”, respondeu imediatamente um daqueles que há pouco tinha meu mamilo quase a descer-lhe a goela. Tirou a tesoura de uma gaveta, a qual devia usar para cortar gaze. “Veja só essa sorte a minha! Muito Grato”, disse tomando a arma em minhas mãos. Após mostrar gratidão e muita educação, enfiei a tesoura uma centena de vezes na jugular de cada um dos quatro homens e depois decepei as duas tetas do professor inconsciente. Ele acordou para ver me retalhando-lhe a esquerda. Gritou como um bebê no escuro.

Minutos depois, enquanto tomava um cappuccino no café central do campus fui levado pela policia à delegacia onde passei doze horas até ser levado novamente para o mesmo café. Meu cappuccino ainda estava ali, pela metade. Frio. Mas tomei mesmo assim. E pedi outro. Ao fim deste fui levado pela policia à sala do reitor onde deveria dar explicações referentes a todo aquele sangue derramado. Deixaram-me ir ao dormitório antes, onde me despedi de meus grandes colegas Willie Nelson e Péricles Gasoduto. Lá fiz uma breve mudança de roupas.
Miríades de flocos de neve e orquídeas dançavam, planavam e descendiam pesarosamente do céu leitoso enquanto eu era escoltado pelos policiais. Pouco depois, encontrei-me cercado por professores. Todos sóbrios, de ternos e gravatas escuras. Conhecia-os bem. Principalmente seus dentes e línguas. Alguns jamais havia visto e notei uma vibrante curiosidade em seus olhos quando entrei na sala. Sentavam-se ao redor de uma mesa redonda enorme. Eu vestia um terno de tweed cor de bosta. Espetara uma flor na lapela que tinha as sete cores do arco-íris. Exibia contente um tapa olho pirata, e tinha delineado improvisadamente um bigode a la Dali com uma caneta Bic azul. Na delegacia, depilara as sobrancelhas e meu saco escrotal com um lamina enferrujada. Assentado sobre uma cadeira pontiaguda e fria, do lado oposto ao dos docentes, ouvi, sob um silêncio sepulcral respeitoso, as primeiras considerações do Reitor James Hunt. Hunt devia pesar 150 quilos. Seu queixo se conectava diretamente com o início de seu tórax inchado e flácido. Os olhos eram azuis como uma piscina no Caribe. Parecia um cego. Era calvo e tinha um nariz delicado como o de um mamute. “Não é a primeira vez que um aluno assassina bombeiros e enfermeiros antes de retalhar os mamilos de um professor aqui em Cambridge. E não será a última. A questão, nobre e estimado aluno Peterson Tyler”, disse-me, olhando com seu olhar vago, “é que nosso corpo docente tem uma clara necessidade de afagos furtivos com alunos com qualidades iguais às suas. Em suma, gostam de um rapaz com a “peitoca” peluda. De modo que, para que possa se formar nesta Universidade, sua pessoa terá que prosseguir a deixar que seus mamilos sejam mordiscados impunemente pelos professores. É este o acordo. Caso aceite, a policia será dispensada e você poderá voltar às aulas normalmente”.
Eu sorria. Meu saco coçava. Penteei o bigode. Disse, “entendo”. O reitor pegou uma folha debaixo de uma pilha de caixas de esfihas. No contrato para bolsa de estudos, há uma clausula que torna obrigatório que alguns alunos selecionados permitam que os professores mamem em seus peitos. Seus pais sabiam disso quando assinaram o termo, Tyler.”
Cocei o saco de novo. Estava incomodando demais. Meu bigode também coçava. O arrancaria assim que saísse de lá. “Não sabia de nada disso. Herr Reitor”, disse.
“Entendo”, afirmou o Reitor, novamente. Com um gesto de mão, chamou um ajudante ali presente para próximo de si. Cochichou e o ajudante foi até uma ampla porta de madeira, de costas. A porta que ficava do meu lado direito abriu-se em silêncio e de lá, instantes depois, saíram papai e mamãe. Papai vestia um longo vestido de seda, cor de bege, com detalhes em prata, e segurava um guarda-chuva com babados de um rosa incrível. Tinha os olhos delineados por um lápis escuro que lhe valorizava os olhos negros. A boca estava coberta por um batom cereja cintilante. Mamãe usava regata, um par de luvas de boxe e tinha uma ereção. Eles se sentaram lado a lado, próximos ao Reitor, à mesa circular de carvalho milenar. “Seus pais, Tyler! Eles sabem de tudo o que aconteceu. Veja como eles estão decepcionados com você”.
Levantei da cadeira. “Sei que meu comportamento foi péssimo. Que matei gente e cortei um par de mamilos inocentes. Mas perdi a cabeça ao ver Bernadet morta. Estou com gonorreia também. Andava me masturbando muito antes de conhecê-la. Convivo apenas com homens e faz um frio do caralho nessa porra de lugar. Qualquer um enlouqueceria em uma situação como esta”, confessei.
“Tyler, querido”, disse meu pai. Ele estava de pé e se abanava com um leque chinês enorme. Tinha as unhas pintadas de cor de merda, as quais combinavam com meu terno. “Para que você pudesse estudar aqui, eu precisei passar pelo mesmo que você está passando. Meus peitos foram fuzilados pelas metralhadoras de dentes do corpo docente desta respeitosa instituição de ensino. Mas veja, valeu a pena. Você está estudando aqui. Terá um futuro brilhante”. Ele, sensível, tirou um lenço umedecido da pequena bolsa e tocou com destreza as pupilas secas.
“Tyler, porra”, disse minha mãe, ajeitando a cueca debaixo do short de boxeador. “Seu pai também passou por isso. Lembro que ele nem mais jantava, pois apenas o descer da comida machucava seus mamilos recém-mastigados. Honre esse esforço soberbo. Não refugue feito uma bichinha diante deste obstáculo ínfimo em sua vida”.
Os dois se sentaram. O Reitor levantou. Foi até meu pai, morosamente, e abaixou-lhe o vestido. Inclinou-se sobre ele e passou a mordiscar com força o mamilo de meu progenitor. Meu pai mordeu os lábios para não gritar. O Reitor descolou a boca e me olhou. “É isso que você quer, Tyler? Que eles tenham os peitos destruídos por nossas arcadas dentárias famintas? Hein?”. Voltou a morder meu pai. Via seu maxilar se fechar e abrir. Escutava-o arfando. Meu pai chorava. Sua boca aberta, muda. De lá não nascia som algum.
“Está certo, Herr Reitor. Voltaremos à nossa programação normal. Deixe-os em paz”, ordenei, impedindo que aquilo se prolongasse. Alisei o bigode, tentando mostra uma calma que há muito não existia. O bigode também não existia. “Porém, devo informar-lhes que meu peito está liso. Retirei toda a pelagem que tinha sobre ele”. Pois é. Além das sobrancelhas e do saco, depilara o peitola na cadeia. Ouvi um gemido coletivo do outro lado da mesa. Os professores se desesperaram. Alguns levantaram, zonzos. Outros bateram na mesa com os punhos em riste. O Reitor pediu silêncio. “Não importa. Esse seu ato de rebeldia não surtirá efeito algum. Nós esperaremos que os pelos voltem a crescer. Enquanto isso as atividades serão suspensas”, ordenou.
Tive duas semanas de paz, durante as quais, enlutado, voltei a me dedicar aos estudos e tentei aceitar o que me ocorria. Ao término das duas semanas, tudo voltou. E por mais uma semana sofri abusos. Aceitei-os. Sem pesar. Numa noite de quinta feira, quando 500 orangotangos invadiram o restaurante principal e alguns alunos resolveram espancá-los com tacos de críquete, fui à suíte principal do Reitor. Era a noite dele.
Hunt morava em um amplo apartamento de estilo vitoriano em um prédio afastado. Lá, equipado por uma graúda tesoura de cortar grama, decepei seus mamilos e guardei-os em uma pochete de couro, sob minha jaqueta do time de rugby. Tranquei-o no banheiro e abandonei o lugar. Lá fora, muitos cadáveres de orangotangos espalhavam-se como um tapete negro e vermelho pelos gramados outrora verdejantes de Cambridge. A caçada continuava. Alguns dos pobres símios haviam escalado as torres e os prédios, e os alunos propunham planos para agarrá-los. Visitei em seguida o dormitório de Whitmarsh. Sai de lá com mais um par de mamilos na pochete. Duas horas depois, após outras visitas às alcovas de meus mestres, somava uma dúzia de mamilos. Encaminhei-me à quadra de vôlei, onde música e vozes preencheram tudo a minha volta. Fui até uma das geladeiras e peguei uma forma de gelo. Esvaziei-a e depositei em cada cubo um dos mamilos recolhidos. Completei os compartimentos com água fria e fui encontrar Willie Nelson, Jerry Williamson, Péricles Gasoduto, Rammy O’Relly, Frankie Crispie e Tutta Delaware. Meus grandes camaradas. Eles tinham as mãos manchadas de sangue. As roupas também. O Reilly vestia a pele de um dos hominídeos e um chapéu de cowboy. Reuni-os sob a luz mortiça da lua minguante, fora do ginásio onde se localizava a quadra, e comuniquei-os que aquela era minha última noite em suas companhias. Eles pouco se importaram com o que eu dizia e logo voltaram à quadra para buscar mais bebidas. Interceptei-os durante o retorno e disse-lhes que eu faria aquela gentileza e que gostaria de propor um brinde à nossa amizade eterna. “Apenas pegue a bebida, seu idiota”, disse Delaware. Voltei ao ginásio e fui direto ao bar. Em uma bandeija levei sete copos de whisky. Com duas pedras de gelo cada. O meu tomei puro. E comemoramos meu último dia em Cambridge.

Os Secretos Dias de Meretrício de Vovó


Frangos fervilham nas fornalhas. Fantásticos flamingos forrados de fibras de firmes falhas farmacêuticas flauteavam formando filas nos Flamboyants de folhas flabeladas. Filhos e filhos, finitas farsas, fingindo, falseiam a fartura de feijões que formigam fáceis de faltar. Fora, francamente fora, fadas fabricadas fitam a fraqueza da franqueza. Fora, francamente fora, mas acima, francamente acima, flocos de farpas flageladas e flácidas ficções fumegam flatos no feto acima das fezes fervendo e falamos nas facilidades e futilidades fincadas em finas fitas fascinando favas, fétidas fazendas e faxinas.  Fagulham femininas frutas, fractais focas fulminantes fervem em filmes. Porque não ficas e fracassas fielmente comigo?  E estrelas espúrias e ensopadas esfarelam-se entalhadas em enciclopédias educacionais, enquanto erigem-se enfermeiros empalhados, enciumados e endiabrados, que ensopam de ebola Eva e Edens, espantalhos evocam eternidades enfraquecidas e embaralham as esperadas empanadas especiais da escrava enegrecida.  E por fim, astros bissexuais carcomem-se diariamente; figos grandiosos,  hediondos, invadem jantares lamentosos maldizendo nebulosas operadas por queijos rindo suplícios tal uma viúva xexelenta  zumbi. 

Amélia, Doce Mulinha

Nuvens frias pesavam tristes naquela manhã de domingo
Descolorindo todas as esperanças que eu então trazia
E nada indicavam, neste coração que guardo comigo,
as alegrias que você, Amélia, em breve, me daria.
Amélia, minha doce mulinha
Cavalgarmos felizes para todo o sempre
Amélia, nobre, quadrúpede, rainha
A luz do sol sorrie, reluz, se esparramava pelo ar,
assistindo seu nobre cavalgar,
desenhando bilhões de pontos sob o azul do lago
ao som do seu único galopar.
E agora deixo minha arcada dentária impressa em suas coxas
E sei que isto é apenas o começo
Fecho os olhos e eis você comigo
Tomando mordidas suas nos mamilos, agradeço
Não vou negar, doce Amélia,
E fingir que feliz fiquei em ouvir suas antigas histórias
Outrora, você, mulinha de muitos cavaleiros?
Mas, isto é passado, seu trotar, relincho e rédeas são todos meus, não há mais o que se falar.

Gordos e Prepotentes Lambaris


Os gordos e prepotentes lambaris, que não gastam tempo em retribuir os simpáticos olhares dos interessados observadores além dos vidros do aquário, seu cárcere submerso, tiveram os corações quase que cuspidos, de repente, quando um chacoalho desavisando provocou um alvoroço intenso nas águas onde deslizavam sem razão. 'Aprisionados neste cubo, vivem achando que estão livres na vasta imensidão de um oceano. Parecem comigo e com você'. O efeito foi distinto em mim. A chacoalhada não foi o bastante para perturbar a calma da superfície da minha mente, ou para brotar ondas destruidoras para erodir a praia tranquila na qual passava os dias em repouso. Meus raros músculos persistiram em puro silêncio após a afirmação ouvida. Minhas veias, inertes como piscinas abandonadas. Meu sistema coronário, em horário de almoço. Agradeci por não ser igual aos lambaris e me afastava do aquário e do homem que quis me destruir com uma frase. Lá fora o dia era branco, lento e ecoava por espaços hexagonais dipostos em cima de cada crânio humano colecionado. Eu aceitava meu castigo; haviam me convencido que todos passam por isso. E o grave mantra, que acompanhava minha consciência e seus devaneios, indicava que marchávamos sem direitos ou poderes, equilibrando-nos pela teia de aranha que divide a vigília e o sonho. Então bati com a cara em um paredão transparente, a base de uma gisgantesca redoma de vidro; e além dela, avistei algo enorme olhando pra mim com uma curiosidade pueril e chacoalhando a parede vítrea interminável. Mantive-me em pé, resistindo às investidas sísmicas e depois prossegui a andar, sem fazer ideia de que não rumava a direção alguma.

E Nada Vi


com um espirro, os céus borraram meu terno de azul e branco
e dentro do meu bolso, um punhado de feijões começou a chorar.
- todos sentem sua falta no mesmo instante-
ali onde estava, crianças gargalhavam doces agudos após romperem as portas de todas as casas iguais, de entediantes cozinhas brancas de casas vazias.
as mães, pelas janelas, gritavam reprovações, anunciavam punições, mesmo sendo completas mudas.
e dentro do meu bolso, meus feijões esqueceram o pranto e passaram a assobiar uma melodia libertadora.
- nesta hora pensei em me tornar um instalador de painéis solares -
ali onde estava, um par de expirações depois, um violino passou a repetir incessantemente suas tristezas e, ganhando os ares, subiu já azul, pronto para virar céu.
e ao fim da primeira curva um homem revelou, orgulhoso de sua orelha que caia sobre seus ombros, que eu deveria voltar para meu pote e virar açúcar.
com ele ao lado, virei uma primeira curva e o céu escureceu.
eu queria que chovesse, que transbordassem represas, que Arca alguma salvasse…
ele também.
eu queria que a noite engolisse a luz; queria ter mãos para sempre tatear o bréu inviolável
ele também
- éramos um boa dupla -
e foi aí qie Incontáveis grãos mergulharam nesta ampulheta sem fundo, e com a mente tentando equilibrar-se sobre meus desnivelados ombros em um débil e enojante balanço, corri para olhar o céu, esperando por nada ver
e nada vi…
e fechei os olhos durante uma expiração - uma notável, épica desistência - e pedi que sonhasse com tudo aquilo novamente

31 de Maio de 1998


Sobre o verde gasto da lousa, um binômio quadrado perfeito rabiscado sem certeza persiste esquecido desde a aula anterior. Tomando a frente  da mesma antiga lousa, murmúrios de refrigerantes despejados goelas insatisfeitas adentro são ignorados, enquanto folhas de testes improvisados chocalham sendo passadas de mãos vacilantes para mãos indiferentes. Uma espinha gorda encrustada na bochecha ensebada reluz sob a luz branca que frustra-se ao preencher a sala sepulcral, criando tênues sombras  que reconfortam as feições dos alunos petrificadas pelo extremo frio que proíbe o riso e convida o temor febril. Fora, o cinza invernal paira ameaçadoramente sobre as apressadas formigas de calças e óculos, gritando em agonia além das janelas trancadas da escola. No bolso apalpo as apetitosas pedras de crack que ainda não transformei em fumaça, enquanto me afasto em passos frenéticos. E eu penso nas manias maravilhosas da cozinheira gorda de olhos aguados e rosto ainda rabiscadaode desenhos formados pelas dobras da fronha de cheiro doce de amaciante Ypê Aconchego Azul. E ouço as farfalhas incômodas de inverno que circundam as caminhadas solitárias e cheias de derrota enquanto escorrego ladeira abaixo, antes de ser golpeado por uma sequência desnorteante de faniquitos agudos; e depois ouço as fraudes escancaradas da TV, a descrença compartilhada  daqueles que não piscam diante dela, metros acima da piscina sombreada pelo próprio prédio, cercada por palmeiras importadas, antigo conjunto habitacional das aves agora despejadas pela justiça. E enquanto demoradamente pisco os olhos, lambendo lentamente o seco olhar, fantasio sobre a formidável fragrância da carne em decomposição agarrada aos dentes do fundo da boca de meu amor.

Não engravide Tânia


Não engravide Tânia. Era esse o aviso que precisava ser transmitido, delegado. Transmitido para mim mesmo, no passado. Estranhamente, doutor, mesmo tendo informado-me sobre o porvir, em tom de extrema urgência, não fui capaz de alterar o que já aconteceu.  O objetivo era que eu interpretasse a mensagem como uma advertência, como um vaticínio irrefutável, e me afastar de qualquer fêmea alcunhada de Tânia, fosse quem fosse. Não sei o que aconteceu. Apenas sei que agora estou encarcerado, fruto de um mal-entendido completo. Como tentativa de inocentar-me, conto-lhes agora, delegado e policiais desinteressados, como ocorreu o bizarro incidente, o qual me pegou com as calças arriadas, literalmente, e me arremessou inclementemente para o interior deste pardieiro, com vossas senhorias. Já era começo de noite quando ouvi um rumor nascer do casebre à margem oposta da rua onde labutava sofrivelmente – uso o verbo no passado, pois acho que meus empregadores não mais quererão contar com meus serviços. Naquele dia havia sido despertado às onze da manhã pelo estrondo pavoroso de uma broca a perfurar o asfalto da alameda onde residia - uso o verbo no passado, novamente, pois tudo leva-me a crer que, a partir de hoje, passarei a ser morador da cadeia mais próxima. Apesar de ter despertado cedo, somente às 14h30min encaminhei-me com o costumeiro pesar até o prédio de dois andares no qual trabalhava com clara má vontade. A soma dos fatores desagradáveis e grotescos os quais havia experimentado ao longo daquele dia provocava-me um dor inabalável e sufocante - terrível como se fragmentos de vidro raspassem a superfície de meus olhos. Contudo, aquele sofrimento foi momentaneamente aquietado quando um aprazível canto acariciou minha orelha esquerda, a qual dava para a janela, que dava para a rua, que dava, por sua vez, para a casa, e que deveria dar, pensei, para a fonte da cantiga. Como se liberto após séculos encarcerado em uma caverna depositada nas entranhas do mundo, descolei os olhos da tela do 386 (era o Ano da Graça do Senhor Hare Krishna de 2012) e como um idoso de músculos atrofiados, ergui-me do banco de madeira sem estofamento ao qual meu corpo era mantido pregado por 8 horas todos os dias. As juntas pútridas e ligamentos mofados guincharam ao abandonar o esquelético assento e fui à janela para inspirar o sopro vívido e atraente da noite. Prontamente, cortei a jugular do chefe, sentado ao lado, antes de ganhar a rua deserta e dirigir-me ao portão de onde provinha a canção milagrosa. Sem dar atenção a uma provável morte por atropelamento, cruzei a rua inóspita, como que hipnotizado. Chamei alguém através do interfone instalado no portão de madeira antiga e pedi para falar com o responsável pela música que de lá ganhava a vizinhança. Uma voz respondeu, não pelo interfone - ela vinha de trás do muro. Perguntou-me se havia marcado hora. O portão se abriu inteiramente, convidando-me a entrar, após ter-lhe garantido que a hora marcada era exatamente aquela – para tal, aumentei um tanto minha potência vocálica para que esta pudesse transpor a imponente altura da construção de pedras gastas. Adentrei o terreno, empapado em sombras, dando um passo incontornável rumo à loucura completa. Na escuridão que se abateu logo em meus primeiros passos pelo jardim, consegui divisar uma miúda fresta de luz ao fim do que parecia ser um caminho de terra batida, mas não pude, por mais que tivesse arriscado, encontrar o interlocutor do brevíssimo diálogo anterior. Caminhei na direção da linha imóvel e horizontal desenhada ao fundo da total escuridão. Tateava os pés sobre a trilha improvisada quando a voz chamou-me e senti um calor vulcânico explodir em minha garganta. A voz - era a mesma, podia identificar - soava enfurecida e descontrolada e perdi-me no negror sufocante, sentindo medo pela primeira vez desde que ali havia adentrado. Girei sobre os calcanhares tantas vezes na ânsia de ter a localização daquilo que me dirigiu a palavra que desfaleci, tombando pesadamente sobre a grama úmida da noite infante. Quando despertei, estava à frente do 386, e meu superior, em meio a risadas infantis abafadas, peidava impunemente ao lado. Girei a cabeça na direção da janela e avistei a casa, o portão e a mesma muralha de pedras gastas. Aspirei novamente o teor adocicado da noite, buscando expurgar a produção gasosa daquele que me dava ordens, mas não tive aptidão para tal. Também tentei encontrar algum vestígio da bela melodia a singrar pelo ar próximo, mas também não consegui – o chefe ouvia uma música chamada naquele estágio da evolução humana de sertanejo, estilo musical definido como música clássica pelos estudiosos contemporâneos, e aquilo subjugava qualquer outro som existente. Levantei menos irritado do que instigado pelo que acabara de experimentar minutos atrás e lancei-me novamente à rua. Em seguida, vi-me diante do portão destrancado, o qual, apenas encostado, convenceu-me a entrar por mais uma vez. Confuso como se navegasse um frágil bote por águas desconhecidas e cobertas por névoa espessa e gélida, penetrei novamente o jardim, após empurrar o portão, que gemeu alto, como se gritasse alertando os residentes sobre a covarde invasão. O local permanecia tomado por uma escuridão intensa e desnorteante. Então outra vez ouvi a voz. Ela vinha de algum recanto invisível, “Pai?”, perguntou-me, em tom de surpresa. Corri os olhos por toda a extensa treva, esquadrinhando cada centímetro do breu no qual penetrava. Era uma menina, uma criança que deveria estar brincando quando entrei ali, intempestivamente. O silêncio dominou-me, calando inclusive o som de minha respiração e, estacado no gramado baço, divisei a fresta; uma lua minguante dourada a planar à altura do horizonte. Encaminhei até ela sem medo ou preocupação - só acompanhava-me a curiosidade, o desejo incontrolável de conhecer a identidade daquela menina, a dona da voz que há anos acreditava não ouvir. Enquanto arrastava-me resoluto por sobre aquela escuridão sólida abaixo de meus pés, a fresta curva ampliava-se cada vez mais até que uma lívida explosão englobou-me. Recolhi- me, protegendo os olhos. A claridade perturbante evanesceu-se e a escuridão novamente derrubou-se sobre mim. Vislumbrei a casa na qual havia passado os primeiros e mais deliciosos anos de minha infância. ‘Pai!’, a voz celebrou, encharcada de saudades. E a menina correu para meus braços. Reconheci a face de minha irmã quando ainda uma menina de sete ou oito anos, ao toma-lá sobre o peito. Devolvi-a ao chão, celeremente, em uma mescla de espanto e repulsa, mas, pelas mãos, a menina levou-me ao interior da casa. Nada pude fazer além de acompanhá-la. Sentada à mesa da cozinha, folheando o jornal do dia, reencontrei minha mãe, a qual, após um beijo aliviado, expôs sua preocupação com o inesperado atraso daquele que ela imaginava ser seu marido - o que refirmava, pois já tinha certeza, que naquele momento eu era de fato meu próprio pai. Disse a elas que miríades de obstáculos transpus para sentar-me, extasiado, ao lado de meus dois maiores amores, naquele iluminado momento. Após um sorriso de consternação de ambas, os quais não esconderam certa surpresa pela beleza da minha sincera afirmação, foquei-me no problema que mais me causava aflição e desconforto. Se estava na pele do pai, onde haveria de estar eu mesmo? Pedi licença e deixei-as ali para tratar de encontrar eu mesmo. Por já ser noite, deveria estar de volta da escola e, estimando a idade da irmã, acreditei saber onde e o que estaria fazendo àquela hora do dia. Procurei meu quarto, o qual, lembrava-me muito bem, ficava no andar superior, após o breve lance de escadas que se levantava da sala de estar. Quando adentrei o pequeno quarto ao fim do corredor, após empurrar a porta afobadamente, avistei a mim mesmo deitado na cama, coberto até o pescoço por uma manta de lã, a qual, na altura da cintura, sofria constantes e violentíssimos abalos sísmicos. O menino, de 14 anos, surpreendeu-se com a presença daquele que achava ser seu pai e, em um improviso inútil, parou de masturbar-se para fingir que apenas coçava a virilha. Entretanto, o enrubrecimento, até mesmo para seu pai, caso fosse ele quem estivesse empostado aterrorizado sob o batente daquela porta, o denunciaria sem pestanejo. O menino pareceu tentar formular uma desculpa ou encontrar um assunto súbito que desviasse a atenção do recente acontecimento, mas para nada adiantaria - por vezes revivia aqueles momentos engraçados através dos caminhos turvos da lembrança. Eu tinha pressa em lhe transmitir uma informação vital. Sentei à beira da cama, enquanto um claro aspecto de asco modificava suas feições do menino. “Olha aqui, você precisa acreditar em mim, eu sou você, você sabe disso, e disso sabe por razões que não podem ser esplanadas por causa da estranheza da situação e pelo raro tempo que ainda me resta nesse tipo bizarro de realidade e ..”. “É claro que te entendo, pai”.-  o menino interrompeu.
Amaldiçoei-me por ser burro desde muito pequeno, mas encontrei forças para prosseguir. “Olha, eu sou você daqui vinte anos”, apressei-me em falar. “E eu sou um você de um jeito que você não irá querer ser. Está ouvindo? De jeito algum engravide a Tânia na oitava série e nem no ano seguinte. Ao invés disso, peça pra mudar de escola amanhã mesmo. Isso modificará inteiramente sua vida - pelo menos esta que vivi até agora. Se você engravidar aquela evangélica infeliz, terá que trabalhar desde novo. E então trabalhos cretinos sucederão trabalhos sem sentido e idiotas, chefes despreparados substituirão completos boçais, em um fluxo que só se completará na ocasião de seu completo aniquilamento - algo que eu aguardo com clara ansiedade, para falar-lhe a verdade”. O menino retraia-se, quase se enterrando sobre a suada manta de lã, enquanto expunha-lhe a situação. “Mas tudo isso pode ser mudado se você fizer as escolhas certas a partir de agora...”. Mas então o chefe peidou, o sertanejo invadiu-me a audição e despertei para o pesadelo nosso de cada dia. À minha frente, o 386 e a mesma conhecida e maldita situação. A familiar melancolia servindo-me de alma. Havia informado sobre o futuro, pensei, urrando dentro de minha própria cabeça, mas nada mudou. Possivelmente, eu, um completo cretino, esqueci o incidente ou tomei-o como um sonho constrangedor e alucinado. Enfim, continuava, neste presente inaceitável, enterrado sob uma Cordilheira do Himalaia de Merda, longe de qualquer salvadora missão de resgate. O próximo flato do meu superior hierárquico definiu o restante de minha vida, afundando-me, irremediavelmente, um pouco mais nas profundezas fecais. A nova arrosta foi a gota d’água e decidi pelo suicídio, finalmente. Seria, entrementes, um suicídio bastante diferente. O primeiro sui - homicídio de toda a existência ocorreria após uma nova invasão à misteriosa casa. Lá mataria a mim mesmo, com um vasto e inescrutável sorriso na face, enquanto minha mãe, aturdida e desesperada, tentasse impedir o bestial sufocamento, ao passo que a filha, hipnotizada pela violência repentina do pai, encolher-se-ia contra a parede gélida do corredor, tremelicando diante da absurdidade da cena. Usando com astúcia meu canivete suíço, rasguei lentamente a jugular do meu chefe, como se cortasse uma suculenta peça de picanha mal passada. Instantes depois, estava novamente sobre a escuridão insólita do jardim à procura de mim mesmo. Após penetrar a cozinha vazia, subi o breve lance de escadas, às pressas. Quando invadi o quarto sentia-me muito vivo, mesmo estando a poucos segundos do falecimento. Com a lâmina manchada e os olhos inflamados de rubro, esfaqueei-me ao menos umas duas dezenas de vezes - todas as estocadas com a mesma potência assassina insaciável da primeira. Quando a polícia me algemou e arremessou-me no camburão, antes de aqui chegar, ainda não havia atinado para os eventos recém-ocorridos. Foi só há poucos instantes que compreendi que após assassinar João Gouveia de Medeiros, meu chefe na empresa Bolso Largo Contabilidade Ltda, invadi uma residência cujo proprietário desconheço e assassinei seu filho enquanto este, sozinho na residência, jogava, deitado sobre sua cama de viúva, Call of Duty 3 em seu Xbox 360. Foi exatamente assim que tudo ocorreu, delegado e raivosos policiais.

O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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