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Latrocínio no Setor de Laticínios

Acabei de chegar ao baile de formatura da minha prima Geovânia Pires do Rego.

Passei o dia inteiro me maquiando. Coloquei meus melhores brincos, arrumei o cabelo no salão, depilei a virilha, pernas e axilas, passei o vestido no ferro Walita da vizinha, escovei os dentes duas vezes, e tantas outras coisas. E, finalmente, cá estou. Linda. Preparada para curtir muito esta noite, que é muito especial para mim e para todos os meus familiares.

Ansiosa como sou, mal cheguei e já esquadrinhei o perímetro da Eric Leonardo Salão de Festas. Fiz isso para que eu não tenha de perder minutos preciosos da festividade na fila que se formará inevitavelmente ao servirem a janta.

Já averiguei também as condições dos banheiros caso a comida não caia bem. Também fui ver se os seguranças tinham corpos bonitos.

Alguns sim, outros não. Mas quem sou eu para ficar escolhendo, né?

Agora estou aqui na mesa com o pessoal da minha família, somos em 32, entre irmãos, primos, tios e agregados. Legal demais rever meu primo Washington, que só pôde estar aqui graças ao indulto do Dia das Mães. Curioso ele estar aqui, sendo que estamos em setembro. Mas acontece, né?

Na mesa ao lado, uma família de 12 chineses se aglomera. Ouço um deles perguntando se vai ter pastel. A chinesa idosa que veste um casaco de lã levanta os olhos pesados, balança demoradamente a cabeça e responde: vai, senti um cheilinho de flitula.

De fato, o ambiente está dominado por uma profusão estonteante de odores. Muitos perfumes cortam o ar e se chocam contra minhas narinas sempre atentas. Muitos Axe e shampoos Monange.

Pois é, meu bem, trabalhar no Boticário há quase dois meses e meio acentua nossa capacidade de identificar fragrâncias. Recomendo.

E, olha, ter esse sentido apurado não é exclusividade minha, não, meu bem. Meu finado avó, o seu Gurgel, esfaqueado aos 31 anos de idade durante uma partida de truco, trabalhou como faxineiro no banheiro da estação rodoviária do Tietê e sempre gabava-se do poder olfativo que possuía.

Sabia reconhecer, dizia, pelo – ai, que vergonha falar isso, cara! - pelo cheiro do cocô (pronto, falei!) o que havia sido consumido nas refeições e as possíveis doenças dos usuários do sanitário.

Infelizmente ele próprio não foi capaz da antever, com suas narinas sobrenaturais, que uma faca Ginzu viria a penetrar seu crânio através das têmporas enquanto ele gritava “truco, ladrão”.

Além de não conseguir prever sua própria morte, ele foi incapaz de vaticinar que minha mãe havia sido infectada com Ebola na época em que trabalhou como assessora de imprensa na Tanzânia.

Perdi mommy, o anjo da minha vida, quando eu tinha apenas onze anos. E ela, com 20 - mas 20 anos muito bem vividos! -, deixou um gap irreparável in my life (vocês vão ter que me desculpar, mas ando fazendo aulas de inglês no OpenEnglish, com professores americanos 24 horas por dia, e quero utilizar um pouco do vocabulário).

A estrela da noite, a Geovânia, minha prima, sempre foi uma guerreira. Aos 45 nos ela finalmente está se formando no ensino fundamental.

Minha avó, quem esfaqueou meu avô na partida de truco, sempre lembra os familiares que Geô só aos 27 anos aprendeu a escrever o nome do cachorro dela. O nome do cachorro dela era I. Escolheram o nome justamente para facilitar e motivá-la a aprender a escrever. Deu relativamente certo.

Alguns têm a impressão que se o cão se chamasse Io ela ainda estaria no processo. Mas o que importa é que ela é uma batalhadora. Hoje sabe reconhecer umas 20 letras e balbucia algo próximo de 32 palavras.
Parece pouco, mas foi o bastante para conseguir o diploma do ensino médio aqui em São Paulo.

De modo que não preciso dizer para vocês como hoje é um dia especial.

Mas quer saber? Estou um pouco com inveja dela, não vou negar.

Ainda não me formei.

Precisei largar tudo (estudo, Facebook) quando surgiu a chance de trabalhar no Bob´s. A partir daí foram só conquistas na minha vida, e passei a descrever uma trajetória digna dos grandes seres humanos desse planeta. Do Bob´s para o Burguer King. Do Burguer King para o McDonalds. Do McDonalds para o Subway. E agora no Boticário.

Nessa correria doida do dia a dia, deixei os estudos de lado. Mas tudo bem. Ainda leio muito. Código da Vinci. Padre Marcelo Rossi. Guia de Viagens do Zeca Camargo. Dicionário de Sinônimos e Antônimos.

Um dia pretendo voltar a estudar. Mas não tenho certeza total, é uma certeza média, digamos assim. Muitos dos meus ídolos nunca estudaram e olha onde estão, poxa! O Latino, muitos dos meus MCs favoritos, o Mc Gui, o Mc Donalds, o Mc Guime -  hoje estão todos entre os brasileiros mais influentes do século XXI, segundo me contam quando vou ao salão.

E outra, se formar nem sempre é uma boa. Lembro-me da formatura do meu primo Abidal. Quando ele subiu ao palco para pegar o diploma na colação de grau, o lugar se transformou num pandemônio, repentinamente. Todos gritando “Ô Abidal, pega no meu pau”.

Algumas pessoas não têm respeito. Não tem Deus no coração. Credo.

Vi que algumas moças e moços do buffet (se diz bife, né? ou bifê?- ah, sei lá, meu!) começaram a trazer imensas travessas fumegantes com muita comida e coisas assim.

Levantei da mesa, empurrei um chinês, corri, agarrei meu prato e já me adiantei para receber a primeira colherada.

Tudo isso com muita agilidade para meus 130 quilos. Tô um pouquinho acima, sim, mas já perdi 300 gramas desde o ano passado. Falam que o mais difícil é começar a perder. Que depois vai rápido. Bom, eu já comecei a perder. Agora só falta a parte de emagrecer.

Como primeira da fila, estiquei o prato para receber a primeira colherada de fettuccine ao funghi. O prato pesou com a quantidade de macarrão depositada ali e quase veio ao chão. Olhei para o menino do buffet, equilibrando o prato, e ele riu.

Pedi mais uma colherada pro danadinho, já que o macarrão parecia delicioso. Ele colocou. Ui!

Não tirei os olhos do rosto dele durante a segunda colherada, de forma que ele poderia ter colocado merda ali e eu jamais teria percebido.

Ele era lindo, o servidor de macarrão.

Bem escurinho. Com um bigode negro, lustroso. Tinha alguns pontos brancos de pus de espinha na cara, que lhe davam um aspecto parecido ao dos cookies de chocolate com gotículas de chocolate branco que andavam vendendo no Subway quando trabalhei lá.

Ainda hipnotizada pela beleza daquele mancebo, automaticamente empunhei minha colher, enchia-a de comida e engoli sem pensar uma boa parcela do macarrão depositado no prato, o que deveria equivaler ao peso de um saudável recém-nascido.

Foi um impulso comer ali, ainda na fila, na frente de todos aqueles formandos do Ensino Médio. Mas aconteceu. Não sou dessas que ficam se martirizando pelos erros. Aconteceu e pronto, meu!

Quando a comida desceu, após dar uma arranhada um pouco esquisita nas proximidades da faringe, passei a notar que o garoto agora me olhava com um ar de incredulidade, um pouco assustado, com nojo até. Estava sobressaltado e olhava repetidas vezes para o pulso da mão esquerda.

Que menino idiota, meu, pensei de mim para mim mesma.

A fila já começava a se impacientar. Resolvi ir embora, equilibrando o pesado prato com as duas mãos, e deixar aquele menino pateta para trás.

Mas antes de voltar à mesa, voltei a mirá-lo, por curiosidade.

Ele continuava com os olhos colados em mim. Ainda com uma expressão assustada, como se acabasse de ter sido assaltado. De vez em quando, olhava para o pulso.

Que garoto esquisito.

Mas era gato.

Depois de comer aquela quantidade absurda de massa e dar uma provadinha na sobremesa, resolvi dançar com a tia Marlúcia, que já peidava sem parar.

Tocava então “Gostava tanto de Você”, do Tim Maia –  que saudades do Tim, meu! Salve, salve, Tim! Mestre da nossa música popular do Brasil.

E então ele apareceu ali na pista de dança, com o uniforme da Eric Leonardo Buffets e Festas – uma holding da Eric Leonardo Enterprises.Chegou perto. Temerário. Mas já um pouco safado.

Passou a apalpar-me carinhosamente o abdômen, os tríceps murchos e o papo. Em verdade vos falo, fiquei excitadinha.

Durante a dança, ele permaneceu ao meu lado. O interessado meninão me desejava claramente. Ora! Queria possuir-me por completo.

E não só ele.

Infinidades de outros bípedes pluricelulares me olhavam incrédulos, dominados pela lascívia, subjugados pelo despudor e pelo sentimento empreendedor masculino de concatenar orgias em ambientes não indicados como velórios e reuniões de funcionários.

Ele me beijou depois que a tia Marlúcia retornou para a mesa sob o pretexto de tomar um remédio para gases. Apalpou minha bunda. Mas contidamente. Achei bem esquisito. Mas já estava caidinha.

Criei coragem e levei-o para conhecer minha família.

Apresentei-o a meu pai, um pouco encabulada.

O gato, ao contrário, pareceu desabrochar-se com a interação. Contou, para minha completa surpresa, que havia trabalhado no ramo de franquias, em um hospital para idosos e na fábrica da Bauducco de Guarulhos, sendo o responsável, nesta última empresa, em colocar a quantidade exata de açúcar na mistura que posteriormente viria a se transformar num panetone.

Em todos esses casos, ele, usando de sua lábia marota e irresistível, sempre traia a confiança da chefia, inventando histórias críveis, tais como ir à reuniões para assinatura de contratos ou realizar visitas técnicas, para, na verdade, beber cerveja pelos botecos de Interlagos com seus amigos travestis filiados ao Partido Verde. 

Ele falava, contando suas peripécias nesta existência, e eu, cada vez mais excitada. Apesar de, notei então, seu corpo exalar um cheiro similar ao da superfície do Rio Pinheiros.

Finalmente, belisquei o cabeçote de seu pinto e lhe falei, ao pé do ouvido. “Vamos ao botel?”

Ele perguntou, “onde?”.

“Ao botel”, respondi.

“Que?”.

“Botel, porra. Para drepar”.

“Ah, sim”.

Despedi-me triunfantemente de minha família e da Gêo, e chispei veloz como qualquer mulher há treze meses sem sexo dirige-se para um motel ensebado. Ali no quilômetro 8 da Anhanguera, perto de Caieiras, deparamo-nos com o lugar ideal. Foi uma noite de amor intenso, por módicos 70 reais.

Apesar de sentir que ele não estava inteiramente à vontade, satisfiz-me como mulher.

Dormi e sonhei que era a Demi Moore. 

Pela manhã precisei aliviar um pouco de peso resultante da farta janta. Meu garanhão descansava de seus heroicos e delirantes feitos. Na ponta dos dedos, como Ayrton Senna nas voltas finais, fui dar uma defecada no banheiro da suíte.

Tudo certo. Dois toroços (forma informal para se referir a fezes de tamanho não muito comum devido à grossura e ou tamanho) boiavam na água, como um casal de férias nos mares de Ibiza.

Ao sair do toalete, enquanto ainda ressoava da privada castigada o rugido decrépito da descarga, deparei-me com meu menino junto à porta.

Olhava-me como que febril.  Suava abundantemente e, com as mãos a tapar as vias nasais, parecia completamente fora de si. 

- Você deu a descarga ali, mina? Foi? O que tinha lá?

- Só cocô, meu amô – respondi, rindo.

Depois de aparentemente controlar um jato de vômito que lhe subiu das entranhas, ele se acalmou.  Suas feições afrouxaram-se e ele perguntou se eu havia sentido algo de diferente durante a noite. Intestinalmente falando.

Disse que não, que estava tudo nos conformes. Aproveitei o diálogo para comunicar-lhe meu irrefreável desejo de ingerir alguma gororoba doce e/ou gordurosa o quanto antes.

Ele acatou e lá nós fomos desjejuar na padaria mais próxima.

Era de manhã, de modo que não era de tarde e muito menos de noite.

Na padaria, ainda trajando meu vestido da noite anterior, pedi uma porção de torresmo consideravelmente oleosa, uma de minhas favoritas, apenas para despertar por completo.

Ele sentou-se ao meu lado, pediu um suco de melancia. Parecia esperar por alguma coisa, ansioso, muito incomodado. Suspeitei que seu estado de nervosismo quando me interceptou na saída do banheiro estava começando a retornar.

Alegrei-me ao ver o garçom vindo com os pedidos.

Ao aninhar o alimento servido com meu braço esquerdo, agarrei, com a mão direita, um pote graúdo de Doriana ali na vitrine ao lado e deixei-o ali sobre a mesa, para poder mergulhar os pequenos torresmos na manteiga. 

Ele ficou imóvel, apreciando, talvez, eu desjejuando. Pareceu-me que sua feição ganhava cada vez maiores contornos de asco. Misterioso aquele homem. Manteria trancado no peito um coraçãozinho de ajudante de formatura perfeitamente triste e revoltado?

Aquilo me entristecia. Porque aquele homem estava tão diferente após nossa noite tórrida de amor? Onde estava aquele calor que eu havia conhecido na pista de dança? Onde estaria escondida aquela energia?

Aquelas questões eram-me obscuras demais, e respostas eram insuficientes naquele instante.

Estava próxima de cair em prantos, e molhar meus preciosos torresmos. Antes de a segunda porção chegar (dessa vez pedi frango a passarinho - outra porção das minhas favoritas), decidi retirar-me momentaneamente para o sanitário mais próximo para que assim escondesse minhas lágrimas de desolação.

Enclausurei-me em uma cabine e, aproveitando a placidez do sanitário, resolvi excluir de uma vez por todas o saudoso jantar de meu organismo. E assim fiz, tortuosamente.

E assim feito, ouvi um tilintar esquisito.

Oh! Havia um belíssimo relógio dourado, um Rolex, boiando ali em meio das bolotas de cocô de médio calibre.

Deveria valer um bom dinheiro aquele relógio, imaginei. Como havia parado ali? Não tinha nada na privada antes de eu sentar. Ou havia?

Tirei-o cuidadosamente da privada, tratando de não esbarrar em nada. Depois de secar, o coloquei cuidadosamente, enrolada em papel higiênico, no fundo da bolsa. 

Aquele mistério fez-me esquecer dos problemas que passava a enfrentar com o bonitão do Buffet de formatura, cujo nome, realizei então, nem sequer havia perguntado. 

Quando abri a porta, ora bolas, lá estava ele novamente! Olhava-me furiosamente, os olhos ardiam em duas labaredas.

Informei-lhe que aquela maneira de agir estava me deixando assustada e que não podia acreditar que, além disso, ele havia deixado minha meus pedidos à mercê de qualquer famintinho surrupiador de porções.
Desesperada, tratei de me apressar, saindo em busca de meus estimados franguinhos. Contudo, ele me segurou pelo braço, com força desmedida. 

- Perdi a paciência, sua gorda. Cadê o relógio que você comeu?

- Que relógio?

Silêncio. Ele estremecia. As palavras não saiam de sua boca.

- Como eu poderia comer um relógio? Isso é impossível! – disse.

 - Meu relógio! Você comeu o meu relógio na festa ontem. Escorregou para o prato, para dentro do macarrão e você comeu. Nem tive tempo de impedir.

 - Você está louco, garoto do buffet.

 Comecei a chorar, ganindo, desamparada, esperneando, totalmente entregue à louca crueldade da crueldade louca daquele louco e cruel homem.

 - Porque és tão cruel e louco? Não percebe que me encontro totalmente entregue à sua louca crueldade? – perguntei.

 - Percebo! Mas não percebes, gordinha, que o relógio me é importante demais?

Saí do banheiro, desvencilhando-me de suas mãos, correndo, ganindo meu choro faminto. Ele veio atrás.
Quando voltei para a mesa, um homem entrou na padaria.

Tinha na mão uma pistola.

Era um assalto, ele declarou apontado a arma para os funcionários e clientes. Pensei nos frangos. E então no relógio de ouro.

O malfeitor discutiu com o gerente. Deu um murro na boca de uma senhora. Puxou o celular de um menino jovem e, então, veio na minha direção.

“Minha comida jamais, seu vagabundo”, gritei. E empurrei o cara do buffet para cima dele.

Peguei a travessa com os frangos a passarinhos, que eram tantos e tão suculentos, e corri para a parte de trás da padaria.

Precisava esconder meus pertences valiosos em algum local, para que o meliante calhorda de uma figa jamais os encontrasse. Depositei a travessa no chão, escondida atrás de caixas empilhadas de leite desnatado. O setor de laticínios me pareceu o lugar perfeito. Era geladinho. E eu suava abundantemente.
Busquei identificar onde se encontrava o ladrão.

Não o vi. Talvez tivesse desistido de me perseguir. Ou, quem sabe?, o buffet boy (meu inglês está tinindo) o havia desarmado.

Era a hora de tirar o relógio e escondê-lo ali entre duas embalagens de Philadelphia. 

Pesquei o papel com o objeto do fundo da bolsa e, quando estiquei o braço para depositá-lo ali na vitrine, ouvi sua voz horrenda.

- Que tá fazendo ai, sua gorda escrota?

Ser chamada daquela forma me aborreceu deveras.

- Nada. Estava pegando o leite pra conferir a data de validade.

- Pode passar esse papel ai.

Entreguei o relógio para ele. Os frangos a passarinho permaneciam longe de sua atenção escondidos atrás da pilha de leite.

Ele desembrulhou o papel higiênico e então seus olhos brilharam. Não esperava que havia um relógio caríssimo sob o papel.

De repente, o malfeitor foi empurrado contra a estante de laticínios. Era o misterioso buffet boy de volta.
Começou uma briga brutal. Com socos e pontapés. O bandido então puxou a arma da cintura e apontou para o menino da festa. Disparou.

Foi chocante para mim ver o corpo tombar no chão, já inerte, tenda a ida escapulido décimos de segundo antes.  Horas atrás aquele corpo quente me penetrava o ânus e, agora, estava branco feito um queijo prato.
O assaltante apontou a arma para o teto e atirou diversas vezes para o alto, gritando: “não quero mais nenhuma gracinha aqui”.

As balas chocaram-se contra as luminárias, as quais vomitaram vidro partido das lâmpadas. Já sem o relógio, pulei sobre meu prato de frango a passarinho, para protegê-los dos objetos cortantes. Nenhum de nós foi ferido.

No chão, abraçando a travessa, vi que os franguinhos estavam pálidos, assustadiços com aquela violência tão comum no mundo dos humanos.

 O assaltante veio ao meu encontro, lentamente.  - O que esconde ai agora, obesa do caralho?

Abri os braços, revelando minha querida porção de frango a passarinhos, supercrocante.

Ele riu e pegou a travessa com a mão, na outra, a arma que havia matado o garotinho do buffet.

Olhou bem para mim. Recarregou seu revólver. E arremessou a porção no chão. Depois pisou sobre os franguinhos, feito o Seu Madruga.

Não havia necessidade alguma daquilo. Ele era um monstro.

Não só havia matado um jovem inocente de pênis avantajado, como roubado o relógio que eu havia comido e, por sinal, tentado roubar também. Mas, não feliz com essas monstruosidades todas, resolvera ainda jogar meu desjejum no chão.

- Mostro! – urrei contra ele.

Resolvi que era hora de agir.

Iria desarmá-lo em nome daquelas dezenas de vida (do meu amante e dos franguinhos que foram abatidos à toa) perdidas.

Tentei levantar rapidamente para agredi-lo. Mas ele me alvejou com cinco balas no estômago antes - bem antes vamos dizer - de eu me aproximar dele.

Tombei no chão como um boi depois de tropeçar num cupinzeiro.

Notei que estava morrendo. Não havia saída. Vítima de um roubo. Depois assassinada.

Tombada no chão, vi que um dos frangos a passarinho estava próximo de mim.

Tentei agarrar um.

Com a ponta dos dedos, belisquei a pele fria e gordurosa. Puxei o pedaço, com a mão tremendo, já fria. Mordi a carne deliciosa. Mastiguei uma, duas, três vezes. Engoli. Morri.


O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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