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Sua Mãe?


- Sua mãe? - perguntei, a testa retesada em uma dura interrogação.

Colado ao frio esquife, anestesiado pela dor e pela noite insone, a questão vinda da boca tremente do meu filho surpreendeu-me deveras, como poucas vezes algo havia me surpreendido.

Minha voz parecia lutar, escalando minha boca amarga, como se estivesse enroscada por finos e numerosos fios pegajosos, até que finalmente pôs-se para além dos lábios.

- Sua mãe?- repeti.

Passei então a vasculhar cada esquina da memória, mesmo sem deixar o rosto pálido dela, mesmo sem saber se minhas palavras eram ouvidas.....

Sai da Santa Casa só depois que uma chuva estranhamente forte para o inverno havia parado; forte como aquela dor de cabeça que ainda persistia perturbando meu estar - causada provavelmente pela dezena e meia de quentões por mim ingeridos na festa junina do dia anterior.

Contei arrastados minutos em uma sofrida espera no ponto, e então despontou entre as buzinas e freios descalibrados o meu aguardado ônibus verdinho, desengonçado e fiel, pronto para me entregar ao lar.

Atravessei custosamente um pelotão de olhos mareados pelos solavancos causados por infindáveis buracos das vias e, depois de cutucar educadamente o adormecido cobrador, avistei ao fim do corredor - quando já não possuía esperança alguma para tal- um belíssimo banquinho vago, aguardando o descanso merecido do meu corpo castigado pelas culinária junina.

Não encontrei respostas depois de me perguntar como tão generoso assento poderia se encontrar desacompanhado.

Porque ele havia sido renegado pelas nádegas presentes?

Eu, dono de nádegas carentes de conforto, esgueirei-me veloz como pude e, ziguezagueando os troncos empostados dos meus convivas de transporte público, alcancei a cadeira de plástico dura abandonada.

Sentei imediatamente, com pressa, e bendisse todas as cadeiras, assentos, banquinhos e poltronas já projetados, comercializados e por mim utilizados.

Uma expiração demorada carregou para além dos prédios pontudos a roçar a pele sofrida do céu cinza todas as dores de um longo dia de trabalho.

Aquilo já bastava para minha alma, dona de uma lista mínima de desejos.

Porém, algo possivelmente ainda mais prazeroso estava a centímetros distante - no assento imediatamente ao lado. Próxima à janela respingada pela chuva estava sentada uma mulher de cabelos curtos, avermelhados nas pontas, roxo nas raízes e amarelado entre esses extremos; botas grossas marrons resguardavam a chulapa, que, da onde eu estava, acreditei ser de número 44. Uma belezoca daquelas!

São seis pontos até onde desço, então pensei em conversar com ela, mas não havia coragem por ali; pensei em segui-la, sobravam más intenções, mas não havia coragem ali; e finalmente pensei que já era hora de dar sorte na vida. Então, enquanto permaneci sentado, rezei para todos os santos que fui capaz de lembrar para que eu pudesse passar mais alguns momentos ao lado de tal moça – lembrei de 4 nomes, mas só porque era Junho e eu tinha acabado de sair de uma festa junina.

Desci do ônibus. E ela desceu também, então, só me restava segui-la.

Ela andava pé direito, aí o esquerdo. Andava direitinho. Eu também, direitinho, caminhando bastante próximo, seguindo seus passos, desviando das poças da chuva.

Aí eu comecei a ser incomodado por uma poderosa coceira pubiana.

Minha educação resistiu bravamente até eu achar um espaço vazio na rua, uma parte da calçada em obras cheia de grandes poças de lama

A desesperada ansiedade pelo cessar da coceira deu lugar a uma dor próxima da inconvivível. Mergulhei as mãos por dentro da cueca e, como uma adolescente inexperiente, iletrada em assuntos masculinos, acidentalmente belisquei a sensível cabeça do meu bilau.

Meus lábios se abraçaram apertadamente e por poucos segundos resistiram feito heróis à investida monstruosa do grito gutural que nasceu do meu peito. Curvei- me e cambaleei sem rumo. Então o esperado aconteceu: um grito horroroso nascido pelas mãos da mais pura dor foi ouvido pela noite infante.

A questão é que o grito que ganhou os ares escapuliu em um tom notadamente afeminado.

Doeu, também, observar as pessoas procurando uma mulher sendo assaltada, ou uma frágil senhora avistando uma barata do tamanho de um punho, rastejando perto de seus caros sapatos, mas dando-se conta que o autor do grito carregado de moléstia era um homem de barbas. Um mÉdico residente.

Uma mão grossa e grande chacoalhou firmemente meu ombro. Agradeci os santos pela rara, mas providencial imperícia.

Ele solidarizava-se com minha dor - provavelmente já tinha ouvido relatos sobre nossa fragilidade ou talvez ela própria já havia motivado aquela dor indizível.

A cabeça voltava a latejar dolorosamente.

- Não era você que estava sentado do meu lado?

-Sim, era eu. Oi! – grunhi, com o corpo ainda curvado, a respiração carente de oxigênio.

Já temia pela integridade da minha hombridade, e talvez pela vida.

- Eu ia te avisar mais você sentou tão rápido… - sua voz ecoava distante.– Desculpa tá?

- O quê?- perguntei, cheio de confusão e de dor, sem captar a razão do pedido.

- Você não reparou? Tinha uma poça de Todinho naquela cadeira, cara. Sua calça branca tá toda amarronzada aí na bunda. Uma bela bunda, por sinal.

Informação estonteante .

- Por isso ninguém sentou lál - disse ela, no momento em que eu pensei exatamente a mesma coisa, e, com os passos ainda cambaleantes e confusos, tropecei no bico largo da bota direita e mergulhei miseravelmente numa gigantesca poça amarronzada de lama.

A água amenizou a dor peniana por alguns raros segundos e em um momento de pura coragem, disse-lhe:

- Lindo seu cabelo, menina formosa. E seu bumbum não fica atrás.., Digo, lógico que fica atrás! O quequero dizer é ele muitíssimo formoso e..

- Eu entendi!- e riu.

E foi assim, filhão, que eu conheci sua saudosa mãe.

Que Deus a tenha!


O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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