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Desgraça no Largo da Pólvora


O ônibus estava escuro e repleto de pobres e feios cretinos cansados após um dia dedicado à atividades completamente irrelevantes para a continuidade e melhoria da condição da espécie humana no Planeta Terra.

Superei a catraca após encostar meu Bilhete Único num aparelho cujo nome nunca tive a curiosidade nem necessidade de saber e cumprimentei com um leve meneio de cabeça o mano com a jaqueta da Torcida Independente. Ele não reagiu, provavelmente sonhando com as pernas do Kaká, e continuou dormindo pesadamente com a cabeça apoiada no vidro gorduroso entreaberto por onde uma brisa agradável feito um peido soprava para o interior do veículo lastimável.

Grandes cobradores. Sempre nos dando novas razoes para que não sejam trocados por máquinas de última geração que, além de menos dispendiosas, poderiam realizar o trabalho de forma muita mais rápida e eficaz.

Analisei os assentos disponíveis no ônibus. Não havia nenhum. Quer dizer, havia meio. Uma senhora gorda ocupava 1,5 assento ou 75% de dois assentos na fileira do meio, logo após a porta localizada na parte intermediária do ônibus.

Uma filha da puta. Olhava para as pessoas caminhando pelas ruas. Mergulhada em algum pensamento que a reconfortava deveras. Sorria e tinha os olhos brilhantes e vivos.

Arranjei-me no corredor. Empurrando massas e massas de carne humana suada, impossibilitando o fluxo e impedindo o direito de ir e vir de todo o cidadão. Não havia muito o que ser feito além de ser chacoalhado e empurrado, pisoteado, cutucado, cuspido; rezando para que o trânsito não atrasasse demais a viagem até o ponto onde eu por fim desceria alquebrado, um pouco menos esperançoso quanto a vida e um futuro menos horrendo que o presente.

Faltando apenas três pontos para me ver livre daquele espaço claustrofóbico, mais uma leva barulhenta de homo sapiens invadiu o ônibus. Uma leva irrelevante para a prosseguimento da história humana, um grupelho asqueroso que poderia muito bem ser apagado sem nenhum prejuízo para a felicidade geral da nação. Tornaram o ar respirável ainda mais exíguo, espremendo minhas costelas quase ao ponto de quebrá-las ao se acomodarem em meio ao mar de corpos inertes.

Rangendo perigosamente a cada balanço, o ônibus sôfrego arrastou-se por mais alguns metros como um soldado que acaba de perder as pernas ao pisar sobre uma mina terrestre e busca, desesperado mas impotente, alcançar um refúgio seguro na trincheira mais próxima, deixando para trás apenas um rastro de sangue escuro e restos de tecido, osso e músculos destroçados. O que o ônibus deixava como rastro era a dignidade humana.

Uma boca se aproximou do meu ouvido. - Meu nome é Klaus, sou claustrofóbico - disse.

Virei em sua direção: - Meu nome é Eutanásio, a vida é sagrada.

Ele concordou com um movimento de cabeça e encostou um canivete suíço contra meu rim direito. Passei-lhe minha carteira, meu Motorola com antena e dois Tridents. Ele desceu no próximo ponto. Deu uma longa respirada sobre a calçada. Mastigava um dos chicletes. Estava longe daquele ambiente opressor.

“Boa, Klaus. Vá, amigo. Cuide bem de meus pertences, longe de ambientes claustrofóbicos como esse”.

Acenei timidamente. Ele não notou.

No próximo ponto, o último antes do meu, uma menina pediu passagem para conseguir saltar. Dei educadamente dois passos para trás, disponibilizando amplo espaço para ele se enveredar rumo ao mundo exterior.

Ela, talvez por ter calculado errado, roçou sua bunda magra sobre meu pênis, que jazia naquele momento meio inconsciente dentro da minha Zorba alviverde.

Ela disse alto, rindo, descendo os degraus. "Que pinto pequeno".  

Meu rosto formigou. Os rostos mortos foram inflados por um sopro animador, o sopro criado sempre que alguém passa ser humilhado publicamente. As bocas murchas ganharam contornos de um riso zombeteiro. Até um japonês me tinha como diversão. Todos me olhavam.  Que desgraça. 

Saltei no meu ponto, no Largo da Pólvora. O coração esgotado. Os risos persistiram até a porta do ônibus se fechar atrás de mim.

Pensei em arroz e em salmão. Trabalhava em um restaurante japonês. Meu dia mal havia começado. 

O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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