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Meio Médium Ligeiro


Conto-lhes agora um episódio de inconteste influência na história do desporto nacional e também – vejam, não há medo nestas letras - nos atuais rumos de nossa fascinante nação

Vejam de novo, e não digam que os avisos não foram sinalizados: não há hábito imutável e se, hoje, algo não é de maneira alguma, para ti, um agrado, pode muito bem ser, antes de percebível, seu hobby favorito, por exemplo.

Enfim, foi esta a conclusão à qual cheguei  após os curiosos acontecimentos experimentados ao longo de minha carreira como boxeador e na qual ainda creio, mesmo após ter guardado para sempre as luvas vermelhas.

Saibam: da mesma maneira como se comportavam sobre o ringue, minhas mãos não vacilam ao escrever-lhes minhas memórias, e meu coração persiste descansado e guarnecido pela verdade e assim continuará, longe de dúvidas

Bom, foi assim como as coisas escolheram se dar:

Não contava nem duas décadas que eu havia iniciado essa história de existir quando disseram-me que me era urgente dialogar com o plano superior, e que, pelo bem do Senhor e da minha recém iniciada carreira , dever-me-ia sentar no divã em terapia sobrenatural o quão depressa pudesse. E eu, à época, boxeador de cartel malvisto e pouco respeitável (três lutas, quatro derrotas), aceitei os apontamentos oferecidos e até o centro espírita indicado encaminhei-me com a pressa de vencer.

Ser recebido tal como fui, por absolutos estranhos, entregues a um amor irrestrito por tudo e todos, foi-me algo bastante surpreendente. A esta altura, minha mente pouco exigida jamais poderia antecipar, enquanto abraçado ternamente era, as surpresas, a principio desconfortáveis, que ansiavam por mim.

Vindo de família amargurada pela a aridez da vida, pouco dada às palavras e menos ao contato físico, aquele abraço aconteceu de ser foi o primeiro que recebi em toda a vida até então, e, com efeito, senti-me seguro e preparado.

Enquanto devagarmente saia daquele estado ébrio nunca antes vivenciado, tratei de observar quem eram aqueles que, se dependesse de mim, seriam minha família eterna.  Dei-me conta que ali somente mulheres procuravam tratamento, tal qual o que me dispus a fazer, e que, os tratadores, ou médiuns, ou interlocutores do elevado, ou porta vozes da expansão e do entendimento, enfim, os decodificadores do que haverá de ser, eram negros enormes e duros feito pedra.

Contei-lhes tudo de mim e eles, atentamente, ouviram cada palavra encharcada de dor e frustração que disse; informei-lhes sobre uma luta que faria em pouco tempo e eles quiseram saber minha categoria, e cresceu-lhes na face ébana um sorriso de marfim quando disse que lutava nos meio médios ligeiros. “Meio médium ligeiro”, falou um, “aqui tem de monte”. Eu ri também, sem entender bulhufas.

Eram todas, após serem chamadas pela senha, levadas placidamente até uma sala que permanecia fechada, de modo que me pareceu que ali algo de muito mágico e espiritual ocorria; e, de fato, ocorria.

Permaneci, durante aproximadamente uma hora e meia aguardando o chamado; um papel branco, onde havia sido inscrito o número trinta e três, tremulava em minha mão. A sala quente, fechada, e silenciosa mesmo estando completamente tomada, não era a ideal para uma quarta feira de farta feijoada. Mas mantive-me forte, fingindo ser-me impossível a derrota ou humilhação, tal qual fazia antes do gongo inicial.

- Trinta e três! – arrebentou na sala a voz cavernosa e confiável de um deles. Levantei-me, assoprei forte e rapidamente o ar que tinha na boca, aliviado por abandonar a sala infernal e finalmente ser tocado pelas vibrações positivas e benéficas dos prestativos espíritos.

Guiado encontrei a sala também abafada e com cheiro esquisito de suor, ali, encostado no parapeito da janela também fechada, havia uma cama branca, grande, de casal.

Ele - o homem que me guiou pelas mãos até lá - disse-me que não era costume receber homens para os tratamentos, mas que faria uma exceção, pois havia visto resplandecer sobre meus olhos um desejo cru e esperançoso de amor e evolução. Deite na cama, de frente para a parede, posição fetal, por favor, e fique a vontade, disse, sorrindo encantadoramente.

Confirmei a hipótese do cheiro ser de suor, pois os lençóis estavam meladamente empapados. Sua voz pediu gentilmente para que eu fechasse os olhos e pensasse naquilo que queria receber. E aí a coisa ficou estranha, como vocês bem devem ter desconfiado. Fui encoxado fortemente pelo tal homem, que dizia ao pé do meu ouvido que contatara um grande boxeador meio médio ligeiro de tempos idos e que começaria a fazer a transfusão energética.

Como eu não fazia idéia do que era uma transfusão, saltei da cama e, após ver que o negão estava despido de seu abadá branco e pronto pra pelejar, fugi de lá tão rápido pude.

Perdi a luta seguinte e a seguinte até que voltei lá e implorei pela transfusão energética. Ocorreu tudo quase da mesma maneira da primeira, porém dessa vez ele pediu que seria melhor caso a transfusão se desse “pele com pele”. E assim foi. Venci a próxima luta por nocaute logo no primeiro assalto, pela primeira vez. Mas, por ser um rude desconhecedor das leis interplanos­­, achei que uma transfusão daria conta da carreira toda – não era assim.

Perdi a luta seguinte e enfim percebi que precisaria de transfusões semanais ou até, por que não, diárias e até, por que não, de hora em hora.

Anos depois, sagrei-me campeão mundial. Depois, ainda sendo assessorado pela minha estafe (do inglês, staff) espiritual que me acompanha em qualquer lugar desse mundo, concorri ao senado e venci com larga vantagem (eles prontamente contataram o espírito do saudoso Ulisses Guimarães, que cedeu seu brilhantismo democrático e sua base eleitoral a mim via longas e repetidas transfusões).

As transfusões - as quais encarei, em um primeiro momento, com os olhos discordantes - são hoje, por assim dizer, meu hobby favorito; a força para lutar em prol da erradicação da miséria surge delas, longe de dúvidas.

Digo em palestras, em Brasília, em reuniões ou até em conversas informais, que venci as lutas no ringue e no senado devido a minha dedicação e entrega física; entrementes, muitos outros dizem, resolutos, que a razão para todo e qualquer sucesso é simplesmente o amor carnal.



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Reflexões a partir da janela de meu OVNI

Sabeis-vós da existência de nosotros há muito tempo.
Auscultem a própria alma, profundamente, desguardando os segredos enfurnados na mais íntima das gavetas, questionando repetidas vezes num único segundo a dúvida primordial antes respondida sem segurança, e não há maneira de não surgir livre de qualquer incomodo a sensação de que vós sempre soubestes de que estávamos por aí.

E estamos por aí em um ótimo número, bilhões e bilhões de planetinhas assim, iguais este que observo há milênios; mas não há contentamento algum quando rememoro esses fatos, isto é, entre tantas e tantas manifestações biológicas extra terráqueas, fui eu escolhido para estacionar minha carroça intergaláctica quentinha e quietinha em vossa estratosfera e tratar de permanecer a observar, sem espaço para um piscar, cada centímetro desimportante de vossos passos desengonçados e sem propósito.

Estou brincando. Saibam que aprecio o senso de humor dos donos do planeta, os cães, mas o de vós, homo sapiens, apesar de mui inferior, é, por vezes, também bastante gracioso, de modo que dar-me-ei a liberdade de ser engraçadinho assim que quiser, e se reclamarem, lanço-lhes um tirambaço de raio dissolvedor de humanos prontamente, sem dó ou chance para remorso.

Viram? Mais uma de minhas inúmeras anedotas que ainda aguardam por vir. Não existe tal raio dissolvedor coisa nenhuma, e se, por ventura, o dito existisse e calhasse de possuí-lo cá, em minhas mãos, jamais usaria-o contra vós, já que isto resultaria na perda da minha prezada labuta e de minhas observações curiosíssimas; enfim, tenho em mim uma inviolável alegria por acompanhá-los em tais passos sem jeito, mas é hora de compartilhar as anotações que livremente fiz ao longo desses arrastados milênios de análise.

Pois então, semanalmente, escreverei aqui impressão instigante que me arrebatou em algum momento, poderá (i.e, a impressão arrebatadora) ter ocorrido durante o cerco mouro a Granada, ou um sonho erótico com distintíssimas senhouras do Porto, ou apenas uma enumeração a esmo de divagações a respeito do matrimônio.

Grato,
Malaquias Passarolho

Quero Ser Manobrista

No começo eu tava tranquilão, sabe? Puta empresa. Dez andares. Capa da Frisbees, sei lá. Árvore de natal e tal. Mas a arrogância desses caras...

Sapato, sabe? O dedão já inchado. Duas horas pra chamar. E nem tinha sofá pra todo mundo. Fiquei em pé. A cueca querendo sacanear. Uma gorda ficou sentada e falou e falou...

Aí veio uma lá, toda risonha e irritante. Chamou pra entrar. Fiquei meio nervoso. Uma salona branca. Mesa branca. Funcionário branco. Tudo naquele lugar: branco. Acho que é porque eles vendem papel, sabe? O marketing tem dessas coisas. Pensam em tudo.

Sentei lá, eu e mais uns seis. Aí começa a patacoada. Desculpinha pelo atraso, 'fim de ano tem disso, muita coisa pra resolver, férias e tal'.

E o solzão lá fora, sabe? Rachando...

A mulher ficou falando mais um tempo, mas tinha um cara no estacionamento manobrando os carros, lá embaixo, na rua. Muita habilidade ali. Manobrava um, já tirava outro. Aquilo me fascinou - você sabe que esse tipo de atividade me fascina! Agilidade, noção espacial - e  ainda debaixo daquele sol! Apesar de ter umas nuvens e tal.

Aí ela chamou. Ficou olhando meu currículo. 'E você?', perguntou, completamente irritante. 'Fale de você...'

E eu dei uma bocejada, Luciana. O ar tava friozinho, eu tinha acabado de almoçar. Tava com sono. Fechei os olhos com força e abri a boca. Pô, o queixo quase bateu no gogó. Acho que viram todos meus dentes, a campainha lá atrás. E eu acho que viram, no dente do fundo, um teco de alface do McFish que eu almocei , que, pô, só depois eu percebi, com a língua, no elevador, indo embora.

Depois que eu bocejei, eu pedi desculpas, lógico, e subiu o cheiro do McFish. Mas aí eu pensei: a mulher vai sacar que eu sou vegetariano. Pô, e isso conta na hora de selecionar um cara numa empresa dessas. Eles pensam: o cara respeita animal.

Deu uma segurança isso. Aí eu resolvi me soltar. Falar o que vinha na cabeça para surpreender eles.

- Não é possível. O que você falou? - disse Lu, a Luciana.

Já que eu tava com animais na cabeça, Luciana, resolvi falar dos que eu conhecia. Pra mostrar que eu manjo também de bicho, além de engenharia. Falei que meu animal favorito é o leão, porque ele é o rei da floresta...

- O rei da selva! - ela disse, começando a ser irritante também.

É da selva? Cacete. Falei errado então. Será que foi por isso?

- Que não te escolheram?, completou, misteriosamente, como se lesse o que eu pensava.

É. Escolheram um cara lá. Um amigo meu . Uma hora eu me lembro de ter falado que enquanto eles faziam a gente esperar, eu pensava: “vou esfolar a cara do responsável por esse atraso com uma lixa de unha”; “cuequinha apertada essa... porra, agora tem que ser só número 46”, e, “deveria ter pedido mais uma torta de maçã porque essa merda vai longe”.

Falei isso para descontrair, sabe, Luciana? Tá certo que eu tinha pensado aquilo mesmo, mas eu disse zuando. Num ambiente tenso como aquele, gente com senso de humor é bom, muito bom, e eles sabem disso, sabe, Luciana? Bom, você é psicóloga, sabe melhor que eu, né?

Pra finalizar, quis enaltecer um camarada que tava ali do meu lado e mostrar desapego. Aí eu disse: “Peidei quatro vezes desde que sentei aqui. Acho que esse cara aqui percebeu, e, porra, ele não falou nada! Por causa disso, acho que ele merece ser contratado para essa vaga, viu?” E eu achava mesmo aquilo. O cara percebeu e ficou na dele. Ali ele mostrou caráter e honra, sabe?

Descendo no elevador, depois de perceber que havia um enorme naco de alface no dente, chamei ele pra tomar uma cerveja, mas ele falou que não ia não. Aí eu pedi o número do telefonte dele...

- Telefone...-  corrigiu Lulu, dispersa, ou deseperada, não soube dizer.

... É...liguei lá ontem, mas parece que o número não existe. Mas não importa, sabe? Sei que ele ficou com a vaga, graças a mim, e fico muito contente de dar felicidade aos outros, assim.

- Mas, e agora, hein? Você precisa arranjar um emprego, não é querido? Já é hora...

Eu sei!! Mas tudo está mais claro depois desse evento iluminador. Eu quero ser manobrista. Você precisa ver aquele cara do estacionamento. Era muita habilidade. Muita agilidade. Muita noção espacial. E você sabe que esse tipo de atividade me fascina.



O Açougueiro de Zaragoza

Enquanto sobrevoava Ibiza a bordo do meu dirigível movido a energia maremotriz, corria os olhos grudados pelas linhas da página quarenta da propositalmente amarelada primeira edição de antologias em capa dura de grandes reportagens publicadas entre os anos de 1964 e 1968 pelo afamado e mui competente folhetim centenário “El Diário de Zaragoza” – presente inestimável recebido das mãos tementes a Deus do louvável Arcebispo François Labatella, catedrático da Arquidiocese de Marseille, na ocasião da belíssima cerimônia na qual fui agraciado com o prêmio de melhor detetive italiano da década.

Foi ali, na página quarenta, que uma célere, súbita e desconfortável surpresa ordenou a atenção irrevogável de meu espírito inquisidor, de modo que, imediatamente, não pude deixar de dispensar os serviços de toda minha atenciosa tripulação. Ofereci à todos os pára-quedas e demais apetrechos necessários para saltos urgentes feitos de imensa altitude e tomando pelas próprias mãos as rédeas da fera oval alada, dirigi-me sem escala para Saragoza, terra de atraente mistério.

Na página de número trinta e nove da supracitada antologia, lêem-se os primeiros parágrafos do aguçante artigo intitulado “O Açougueiro de Zaragoza”, assinado por Mariquita De Las Cruzes: o mote de meu estranho espanto e razão fundamental de minha não bem sucedida visita a estimulante cidade do nordeste espanhol.

No artigo, escrito em formato fluido, cálido e quiçá hipnotizante, De La Cruzes reporta-nos um trágico momento de inconformável loucura por parte da população – acontecimento tão trágico quanto improvável, a meu ver.

Na década de 50, quando contava ainda com pouco mais de duzentos mil habitantes, a calada Zaragoza foi vítima de uma conspiração jamais dantes vista em território espanhol, sendo abastecida meses a fio por “incontáveis toneladas de carne manipulada espiritualmente”.

Chega a meu conhecimento através do punho intrépido de Mariquita que nas fazendas de gado de corte das cercanias não era raro presenciar sanguinários rituais pagãos de culto ao carnivorismo. Mariquita - de quem assumo não possuir sólidos conhecimentos, escancara, então, os cruéis meandros de uma engenhosa farsa, desvelando, ao longo de sua escrita endiabrada, a participação premeditada de Don Abricó Gutierrez, açougueiro bisneto de turcos foragidos, letrado em magia negra e administração de empresas com ênfase em fazendas de corte de gado. Gutierrez era dono da maioria dos campos de pasto, das fazendas da região e dos principais açougues da cidade, e, manipulando as preferências alimentares dos zaragonezes, lucrou imensa fortuna sem jamais ser indiciado ou incriminado – seu castigo veio de outra forma, como veremos em breve.

Sob a investigação astuciosa e destemida de De Las Cruzes – de quem me comprometo a buscar maiores informações assim que for humanamente viável – é possível compreender o efeito dos tais rituais pagãos na alimentação da população local, a qual, tendo modificada a tradicional estrutura bioquímica do hipotálamo e da matriz ungueal devido aos rituais heréticos, chegava a consumir até catorze vezes a quantidade normal de carne ingerida diariamente.

Enquanto iniciava a leitura do artigo, ainda sobrevoando a estupenda Ibiza, acreditava intimamente se tratar apenas de mais uma entre as infindáveis fraudes baseadas em magia negra e consumo abusivo de carne por parte de uma população manipulada bioquimicamente - mas eu não poderia estar mais errado.

Foi na página 40 da antologia que li a conseqüência atroz e carnicenta de tal conspiração: o abate de gado, galinhas, ovelhas, coelhos, esquilos, chinchilas, porquinhos da índia, etc., mesmo produzindo gigantescas quantidades de carne, não foi suficiente para alimentar a cada vez mais insaciável população carnívora de Zaragoza, de modo que não houve alternativa frente as práticas canibais que ganharam as ruas e fizeram milhares de devorados.

Em meio aos sangrentos banquetes de carne humana, o imperdoável Don Abricó Gutierrez – que além das fazendas e dos açougues, arcava com o sustento de 10 amantes, e talvez esse seja o motivo da tragédia sem precedentes – pareceu arrepender-se de sua fome por fortuna, pois decepou seus 10 dedos das mãos, enviou via correio cada um deles para uma de suas amantes, caminhou decididamente pelas ruas encharcadas em sangue, invadiu o circo local e foi devorado por um leão de meia idade após ter-lhe chutado os bagos.

Mariquita buscou ouvir uma da dezena de amantes do cruel açougueiro em sua reportagem. E aqui reproduzo pequeno trecho da entrevista realizada: “Ainda guardo o dedo – o mindinho- que ele me enviou dentro de um envelope selado“- diz Manuelita de las Nieves. “Ele está uma garrafa, conservado no formol, entre o pote de sal grosso e o espremedor de alho”.

Encerrei a leitura do brilhante texto quando já me encontrava dentro do espaço aéreo de Zaragoza e entendi que era hora de pousar meu dirigível. Neste mesmo instante, lembrei-me de minha imperícia em pousar a aeronave e não pude entender porque demiti sumariamente e obriguei um corpo de excelentes profissionais do ar a realizar um salto em queda livre de quatro mil pés.

Antes do gás do dirigível explodir, choquei-o desesperadamente contra uma lúgubre senhora e seu picolé – que de onde eu estava (gritando dentro da cabine), achei que deveria ser de limão ou de abacaxi, pela cor- Ela, que estava sentada passivamente sobre o banco de uma praça deserta, e que por manter os óculos de grau no bolso da saia de seda curta para uma senhora daquela idade ao invés de pô-lo na cara, não pôde avistar a aproximação da aeronave descontrolada e teve o corpo e o picolé reduzidos a cinzas instantaneamente.

Durante minha permanência na ala de queimados do impecável hospital católico Santa Madre de Díos, enquanto tratava de recuperar os três quartos de meu corpo incinerado, chegou dolorosamente à minha ciência que o instigante relato publicado na Antologia, razão do meu desastre sem precedentes, é na realidade uma obra de ficção configurada escrachadamente pelo outrora pecaminoso poder criativo de um tal satírico francês que deu-se conta do chamado de Deus em território espanhol e que hoje comanda com mãos firmes e tementes a Arquidiocese de Marseille, mas que à época atendia debochadamente pela alcunha de François Laputella.

E foi da instituição citada acima que recebi, dias mais tarde, presente de embrulho pomposo. Em seu interior descobri a segunda edição da maldita antologia, com as grandes reportagens publicadas entre 1969 e 1974. Nas primeiras páginas amareladas da antologia, escrita a mão em letras garrafais, precisas e azuladas, pude ler, depois de muito forçar a única vista que ainda possuía, tal dedicatória:

Amigo Detetive Piercarlo Forlimpopoli,


Espero que minhas estorinhas inocentes em nada tenham contribuído para o triste incidente por ti sofrido


Aguardo, com fé inabalável em Deus, por sua total recuperação


Que Ele esteja contigo


Um abraço,


Arcebispo François Labutella. Arquidiocese de Marseille.

A Pipa da Vovó

Levava sobre o colo a pipa – alisava a fina haste de madeira e o corpo magro de papel gretado como quem afaga alguém próximo do sono. No rosto sábio levava um sorriso seguro, o qual as oito horas de trânsito para alcançar a praia jamais poderiam subtrair.

Desceu a serra em ansiosa alegria. Era levada contente pela imaginada felicidade que iluminaria o rosto do netinho ao ver sua pipa correr os céus do litoral.

Mas maldito o vento que, sem prestar contas a ninguém, apagou como uma onda a linha arqueada do sorriso do netinho traçada nas areias imaginárias da vovó; raptou das enrugadas mãos tremelicantes de amor o presente maravilhoso, e arrastou a vítima indefesa pelo ar, rumo um cativeiro misterioso.

Engano seu, porém, se tens como certa a desistência da senhora.

Ventinho mixuruca nenhum carregaria impunemente o presente muito estimado e a alegria do rosto do netinho.

Então a vovó se pôs a correr em velocidade espantosa atrás da pipa avoada. Veloz como um guepardo faminto ou como um garanhão selvagem liberto finalmente de suas tortuosas amarras; a vovó saltava em seu maiô verde esperança as elaboradas cidades medievais de areia, serpenteava banhistas curiosos e salva- vidas prestativos, driblava carrinhos de milho, de coco, de raspadinha, de churros. Deixou para trás uma constelação de perigosos obstáculos, os quais apontavam afiado gume contra a garganta de seu objetivo de vovó.

A pipa refém tentava desvencilhar-se das mãos cruéis do desalmado e invisível seqüestrador, debatendo-se insanamente pelo ar, sonhando voltar às mãos da doce velhota.

Talvez, então, aquele ventinho sem vergonha tenha tomado conhecimento do ímpeto inabalável das vovós, pois resolveu mudar sua rota de fuga, começando a carregar a pipa em direção ao mar.

E quando já adentrava poucos metros dos domínios de Netuno, a nossa furibunda vovó, com uma assombrosa rapidez de raciocínio, e utilizando uma prancha de boadybord momentaneamente esquecida como trampolim, catapultou-se aos céus, ganhando rapidamente uma altitude considerável.

Tocou ávida a pele fina da seqüestrada e as hastes de pau em cruz, correu as mãos pela rabiola abaixo e, acometida pelas vontades gravitacionais, mergulhou derrotada nas águas gélidas do oceano.

Diante de tal cena, um vendedor aproximou-se da senhora, quando esta já se arrastava pelas areias, e ofereceu, por preço de ocasião, uma frota infindável de pipas, balões, papagaios, e até chapéus de palha.

A vovó não lhe deu atenção alguma. Endireitou o corpo, inabalada, e bateu a areia agarrada ao maiô.

Olhou a pipa, que já ia alto, e esta pareceu lhe acenar pela última vez, ciente de seu trágico destino.

Quando reencontrou o guarda-sol da família, a vovó trazia um gigantesco churros de chocolate, e redesenhava intimamente o sorriso imaginado.

Contudo, o netinho sequer a olhou; seus olhos acompanhavam o poder de destruição que o carrinho de seu amigo do guarda-sol vizinho infligia a uma muralha de latinhas de cerveja, aos pés dos homens que dormiam sob o sol, aos baldes de água de meninas de topless precoce.

Sequer os pedidos ou súplicas chorosas da vovó ganharam sua atenção; e, em reação ao aviso da nora sobre o rápido derretimento que o alimento invariavelmente sofreria, comeu-o ela mesma.

E talvez tenha sido esse churros que causou a diarréia aguda na pobre vovó e que acabou com o feriado de toda a família na paradisíaca Mongaguá.

O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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