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Deus fica triste quando não apertamos a descarga

Após a missa das sete, fui acometido pela vontade arisca da memória e passei a lembrar-me de Tia Marlene discursando sobre como Deus fica triste quando não apertamos a descarga. 

Suas asserções ressoavam tão solenes, articuladas e carregadas por um tom tão ameaçador através dos caminhos da minha memória, que pude relembrar detalhadamente do instante em que ouvi tudo aquilo, quando ainda era um jovem banguela, dono de cuecas amareladas e de um cabelo polvilhado por caspas graúdas.

Revi, então, sentado à minha escrivaninha, diversas e saudosas passagens: Tia Marlene - tomando os dez primeiros minutos do recreio - problematizando apaixonadamente os grandes dilemas comportamentais de nossa espécie. 
Ela citava o Inferno, que aguardava faminto as almas dos pecadores, dos subversivos e dos petistas; reforçava a responsabilidade gerada pela benção do livre-arbítrio; lembrava-nos da salvação pela caridade; pregava a sumária partilha do lanchinho com o colega que esqueceu a lancheira na perua, e, por fim, ordenava que jamais nos esquecêssemos de apertar a descarga.

Algo, então, começou a me incomodar, não sabia, pois, se havia cumprido totalmente aquele último mandamento ao longo dos anos.
 

Minha alma inflou-se em incertezas. Será que em algum momento, por pura distração, eu havia me esquecido de apertar a descarga de algum desses banheiros da vida?

Aquela dúvida zunzunou por toda a noite e se calou apenas depois que li o nome Marlene Assis de Sá no obituário do jornal, na manhã seguinte.
 

Enquanto atravessava a nava princiapal, acenei rapidamente para as primeiras senhoras que acocoravam-se por sobre a madeira fria dos enormes bancos da Igreja, à espera da primeira missa do dia.
  Ouvi alarmados “Aonde vai, Padre Isidoro?”. Mas não havia tempo de informá-las, precisava chegar ao velório, era-me premente.

Pois quando lá cheguei, um homem veio ter comigo. Tinha na pele um forte cheiro de tabaco, que contaminava todo seu redor. Ele me perguntou se eu era o Padre Larousse. Respondi que não, e só ali percebi que ainda vestia a batina.
 

Disse que fui batizado com a alcunha de Isidoro Ludovico e Araújo, e que tinha sido aluno da Tia Marlene, décadas atrás, no colégio Nossa Senhora Virgem Maria das Causas em Tramite. Informei-lhe que era padre, mas estava lá apenas para me despedir.

Ele abriu um amplo sorriso, como se ouvisse um sincero elogio à sua agradável fragrância, e fez questão de me guiar até o salão onde o caixão estava depositado.

Morta, ela continuava igual à de antes - já carregava durante a vida aquela pálida rigidez de todo o cadáver. A única diferença realmente perceptível é que, agora, ela pouco falava. Precisei ir ao banheiro - talvez o cheiro do homem tivesse incomodado meu estômago, ou talvez fosse aquela hóstia meio esquisita da missa das sete do dia anterior.

Entretanto, o problema era maior do que supus inicialmente. Meu intestino sacolejava feito um barco de papel em um oceano feroz - não havia alternativa, puxei as saias da batina e sentei-me na privada.

Minutos depois, nascia ali, sem aviso algum, uma dúvida aterradora entre apertar ou não a descarga. Nesse instante, surgiu de dentro do banheiro, saindo de dentro de um secador de mãos automático, o espírito de Tia Marlene, claramente incomodado pelo forte odor.

“E então, não vai puxar?” – ela disse, testando meu nobre espírito.

“Lógico que vou, eu jamais deixei de puxar descarga alguma!” afirmei, tentando me convencer daquilo.

“Pare de se enganar, nós dois sabemos da inverdade dessa sua afirmação, menino Isidoro. Você jamais apertou uma descarga em toda a sua vida, meninote traiçoeiro! “
 

“Isso é mentira, tia Marlene” – esbravejei, engasgado pelo choro que nascia.

“Não é, Isidoro. Aceite.”- disse, com a voz apaziguadora de uma mãe amorosa.

Atordoado pelas convulsões do choro, desistindo de manter aquela mentira que eu teimava em crer, disse aflito:
 

“Desculpe, Tia Marlene. É que eu adoro imaginar a cara de nojo de quem entra no banheiro”.

“Acalme-se, meu menino.” E ela me abraçou, tentando domar minha alma pecadora.

“Perdoe-me, faz favor.”

“Eu não posso te perdoar, Isidoro. Tu é que tens que se salvar.”

“Mas como, Tia?”

“Pense em algo. Agora deixe-me partir. Aqui a coisa está complicada”

O dia do enterro da Tia Marlene marcou também o termo da minha vida como padre.

Deixei de ser um mediador entre Deus e os homens e resolvi buscar a salvação da minha alma.
 

Hoje, trabalho seis horas diárias nos banheiros da Rodoviária do Tietê em São Paulo e outras seis no banheiro masculino da estação de metrô da Sé - e sempre que posso visito as instalações sanitárias dos postos de gasolina das rodovias.

Desde o velório, jamais deixei de apertar a descarga e comecei a cultivar o inabalável hábito de averiguar a limpeza de todos os vasos sanitários que posso, mesmo das privadas não utilizadas por mim.

E, muitas vezes, enquanto estou sentado no banheiro lá em casa, Tia Marlene aparece e conta como Deus está contente com meu trabalho terreno.

A Cidade e os Sonhos

Corria pelos vales afundados no branco espesso, bainhado pelo cinza escuro que se fazia pele de céu, aquele garoto que optou em fugir.

Outros meninos, diante daquilo, talvez preferissem aguardar a lâmina da guilhotina, outros, de fato, assim fizeram.

Mas por naquele tempo não passar na cabeça de menino algum ver sangue e rostos despedaçados ou de ouvir gritos e clemências de senhores de vozes educadas, foi entendida a razão da paralisia. Os animais eles viam com freqüência retorcerem-se em agonia, mas com gente tudo o que se presenciou foi inédito.

Naquele tempo, se acreditava que a pureza do ar revelava a impossibilidade da manifestação da crueldade e que o vento carinhoso, que não poupava afagos e acostumou à tranqüilidade a população reduzida que caminhava em passos lentos pelas ruelas de pedra polida, manteria ausente qualquer distúrbio aos sorrisos e reverências.

Tudo o que se via, caso se visitasse aquela cidadezinha durante uma terça feira à tarde, era senhoras de cabelos longos, branquíssimos tal qual a neve que tudo cercava, indo apreciar a branquitude que também coloria a terra até as margens do horizonte; via-se também os homens com suas grossos casacos manchados pelo arco íris, compartilhando suas visões sobre o porvir, debruçando-se sobre as mesas das praças e buscando os significados ocultos dos sonhos alheios.

Desvendar as simbologias oníricas era tarefa masculina naquela comunidade, às mulheres bastava a beleza criativa, as situações impensadas e estranhas.

Mas então ninguém mais sonhou, nem homem, nem mulher.

E as reuniões nas praças ganharam uma tonalidade nebulosa. O futuro que se imaginava era agora delimitado por linhas tremulas e confusas e, em seu interior, pintava-se cores interrogantes; as palavras que antes ecoavam em cada vogal um riso gratificante, eram agora a voz do desespero e da incompreensão do destino.

Então, quando, nas ruas, perdia-se a calma costumaz e os pés respeitosos pisavam apressados e temerosos, e nas praças via-se o amanhecer de discussões, algo começou a surgir durante o sono, mas apenas para os homens. Não eram sonhos. Enquanto dormiam, eles viam suas próprias mortes, sentiam o fogo das entranhas dos subterrâneos submergir, evanescendo a neve e queimando suas peles; cheiravam o vapor incinerado das praças e ruas; escutavam o relincho pavoroso dos cavalos ao avistarem gigantescas serpentes negras arrastarem-se pelas janelas dos estábulos e das casas.

E às mulheres, que agora dormiam sem sonhar, e que quando acordadas presenciavam o horror que aquelas imagens causavam à vigília dos homens, nasceu um sentimento estranho de agradecimento. Apesar de não mais sonharem, preferiam a escuridão vazia da noite ao horror das imagens de carnificina e desolação.

Alguns tentavam resistir à sonolência, fugindo como podiam de assistir a si próprios morrerem cruelmente, ora queimados por um incêndio grotesco, ora devorados por serpentes negras. Mas aquele castigo parecia implacável, estavam fadados às noites de pavor e a dias de conflitos com os mesmos à quem outrora eram tão queridos. O ar refrescante da neve agora ardia como nos trópicos e tudo era mal estar.

Não foi o padre, algum homem sábio ou senhora sensitiva; coube às primeiras palavras de uma pequena criança revelar a reposta messiânica que libertaria a cidade incrustada na face oculta da montanha branca.

A mãe não encontrou razão para orgulhar-se da sua criança quando esta balbuciou a solução impensada, sentada em seu cadeirão, durante o almoço; o horror que a frase sustentava fez a mulher levantar e deixar a menina sozinha, confusa com o som que lhe saia pela boca desdentada da filha

O que a menina afirmou naquele princípio de tarde não correspondia com os sonhos trágicos que arrebataram os homens. Tudo levava a crer que eles morreriam sim, mas não conforme os sonhos mostravam.

E a mãe - que correra até uma janela distante e observava a linha escura que separava neve e céu que começava a acinzentar-se - repetia para si a afirmação recente: “Se querem sonhar com a beleza, matem aqueles que sonham com a tristeza”.

Os sonhos extasiantes que brindavam a vida de todos ali eram a força motriz da calma e da paz que envolvia a cidade. Quando as cores deram lugar ao cinza e a morte tornou-se a canção de ninar, a cidade convalesceu. Os homens tornaram arredios e agressivos, mesmo fracos e magros, e as mulheres, tomadas pelo negro vazio do adormecimento, tornaram-se seres indiferentes e afastadas, e a gratidão inicial ia se transformando em revolta calada.

Porém, quando a menina falou pela primeira vez, a desaparecida esperança voltou a resplandecer no horizonte além da neve. A menção ao retorno dos sonhos apaziguou levemente a alma da mãe, mas a dor só cessaria com o fim daqueles que sonhavam com a tristeza.

Os homens estavam completamente surpresos quando avistaram a presença irrefutável de seu fim, naquele início de dia. Primeiro, pela raiva presente na face das afáveis mulheres e segundo porque aquilo não se assemelhava com o que os sonhos previam.

Todos foram levados para a praça central, o local do compartilhamento dos belos sonhos, agora, porém, eles seriam decapitados pelas guilhotinas antigas dos tempos da revolução. Durante uma manhã, as mulheres deram cabo de todos os homens, e à tarde, foram as crianças que, estupefatas pelos ataques, foram rapidamente exterminadas; exceto um único menino, que prontamente correu através do vale que descia para o sudeste.

Assim, além de se ver morrer toda a noite, tornava a escutar diariamente os gritos de pavor seu pai e revia as inapagáveis poças vermelhas que escorriam pelo gelo. Assim foram pesadelos do menino até sua última madrugada, trinta anos depois de sua fuga

Para as mulheres só restou lidar com o sangue, guardar as guilhotinas e o negro do não mais sonhar que as acompanhou durante três décadas, até certa manhã quando saíram todas as ruas e chorando, contaram que sonharam com o perdão de seus maridos e filhos.

O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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