Quando alguns raios do Sol incidiram
inconvenientemente sobre todos os seus olhos ainda cerrados e o acordaram, ele notou
que tinha coisa errada. Com as mãos escorregando pelas linhas do rosto, ele
certificou-se alarmadamente que tinha seus dois olhos normais e também mais
dois olhos que não costumavam estar por ali. Acima destes últimos, ele percebeu
a presença também de duas novas sobrancelhas, além das duas outras que sempre
teve.
Ergueu-se ao som das primeiras buzinas mais impacientes do dia, trinta minutos depois de
realizar aquele acontecimento horrendo. À beira do colchão, silenciosamente,
esfregou apenas os olhos que estavam em sua cara desde que nasceu, uma vez que
já sentia um forte asco dos outros dois. “Asco tal qual sentem os pais enquanto
banham seus filhos adotados”, pensou, antes de se arrepender e envergonhar-se
da comparação. Ainda incrédulo, aguardado o restabelecimento dos fatos tais
como eram desde que os percebia, levantou-se imperceptivelmente da cama, sem
saber para onde ir ou o que iria fazer. Sabia apenas que não deveria acordá-la.
Arrastava-se havia pouco, em meio a sua
silenciosa fuga, quando passou-lhe a idéia de ir ver com os próprios olhos
quantos olhos realmente tinham na cara. E por isso, durante o vital trajeto ao
banheiro, ele evitou até pensar. Fazia plena questão de evitar que o quarto
onde sua mulher grávida de oito meses ainda dormia fosse infestado por seus
pensamentos desesperados.
Nesse ínterim, pressionava brutalmente as próprias
têmporas, constringindo-as com a força alucinada de seu maxilar - tinha em si
um misto de noite mal dormida e a sensação de ser alvo de algum
castigo. E foi quando entrou no banheiro que viu finalmente aqueles
quatro olhos injetados e petrificados olhando para si. Seus quatro olhos. E ali
mesmo quis verter lágrimas por aqueles quatro pontos.
Piscou-os todos. Depois só um. E aí todos.
Então só três. E Repetiu. E fez isso até concluir que eles respondiam
obedientemente à sua vontade e então acalmou-se. Chegou até a esboçar um
sorriso que claramente não vingou. Depois desencostou a porta do banheiro e,
com a mulher ainda em sonhos, velozmente abandonou sua casa da mesma maneira
como acordou: assustado, sem saber qual rumo tomar.
Os dois olhos recém-nascidos que se faziam
naquela cara, sabe-se lá por quem ou por qual motivo, não alteravam notadamente
o modo com ele enxergava as coisas. As imagens sobrepostas eram quase as
mesmas, diferenciando-se apenas quanto à altura. Caso os dois novatos o incomodassem
durante o trajeto feito por carro ao seu consultório médico, ele deveria
simplesmente fechá-los.
Em seu consultório achou ter descoberto, antes
de qualquer contato com pacientes, um modo eficaz de esconder aquela
anormalidade dupla incrustada em sua testa. Além de suavizar a entrada do sol
matinal fechando as persianas tanto quanto possível, o oftalmologista
aproveitou seus cabelos longos e ajeitou cuidadosamente a franja por sobre os
olhos. Minutos depois desistiu da estratégia, as pontas ainda remexidas pelo
sono infantilmente tratavam de beliscar a pele dos novos olhos, e então ele
resolveu enfrentar o que estivesse pela frente.
Sua primeira paciente era uma senhora cuja
vista já estava completamente ceifada por um avançado e faminto glaucoma. Nervos
ópticos inválidos. Campo de visão prejudicadíssimo. Ela entrou e ele examinou.
Nada podia ser feito, com exceção de um improvável, remoto transplante.
Ela saiu e ele examinou. Examinou dessa vez a
possibilidade infundada que havia explodido em sua cabeça minutos antes;
tentava agora juntar os fragmentos reduzidos de seu cérebro e ponderar sobre o
que havia pensado enquanto examinava aqueles moribundos olhos. Transplantaria
seus próprios olhos e os colocaria ali onde aqueles dois glóbulos, tais como
uma lâmpada cansada, aguardavam apenas pela escuridão.
Na tarde do mesmo dia, encontrou-se com dois
confiáveis colegas de faculdade. Mostrou aquilo que de forma fracassada tentava
esconder, ora com as mãos ora com um boné comprado às pressas. Explicou seu
plano, fariam aquilo sem envolvimento de nenhum outro e rapidamente, uma vez
que os olhos daquela senhora iriam desligar a qualquer momento. No dia seguinte
realizariam o transplante.
Chegou tarde a sua casa e saiu antes dos raios
alfinetarem seu quarteto ocular. Não viu a mulher acordada, viu apenas um pouco
de seu rosto encoberto pelos cabelos loiros e aquela montanha resguardada pelos
cobertores.
O transplante foi feito sem complicações. A
senhora, então, tinha dois olhos novos, bons; o oftalmologista, dois a menos e
uma profunda satisfação, espessa e calma tal qual uma marola suave.
Chegou cedo a sua casa e tirou as faixas da
testa. Explicou aquilo, aqueles dois buracos profundos na testa. A mulher
chorou e se apaixonou um pouquinho mais - se é que isso seja possível – pelo
pai de seu iminente filho.
Mas no dia seguinte, a claridade que sentiu,
quando a luz furtivamente irrompeu pela janela do quarto, era tão intensa
quanto à do dia anterior, porque ele tinha novamente mais dois olhos na testa. E
tal como naquele dia, partiu depressa de casa. Dessa vez ligou novamente para
os colegas, estes indicaram mais um paciente em vias de perder a visão e
trataram de organizar as necessidades para mais um transplante, nos mesmos
moldes do feito na senhora.
E durante mais uma semana aquilo se repetiu.
Pele amanhã, dois novos e saudáveis olhos brotavam em sua testa; pela tarde,
seus colegas os punham onde eles de fato deveriam estar.
Até que uma manhã, quando automaticamente já
se preparava para partir com seus quatro olhos no rosto, ele percebeu algo não
usual, levou as mãos à testa e notou a falta deles - ali só havia duas
asquerosas cavidades.
Não atinou patavinas. Comunicou os
oftalmologistas com pesar e resolveu entregar-se novamente aos caprichos da
cama. Subitamente, talvez dez minutos depois de pegar novamente no sono, sua
mulher gritou e se contorceu.
No hospital o informaram que sua mulher estava
ótima e já se recuperava. Porém, o médico o levou até um canto pelos braços e
lhe comunicou a falta de olhos da criança recém-nascida.
Ligou para os seus colegas de faculdade. Disse
que tinha um paciente que urgentemente precisava de transplante e um deles
perguntou curioso se os olhos haviam nascido novamente. Ele disse que não, que
dessa vez daria os dele.
