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Com seus próprios olhos


Quando alguns raios do Sol incidiram inconvenientemente sobre todos os seus olhos ainda cerrados e o acordaram, ele notou que tinha coisa errada. Com as mãos escorregando pelas linhas do rosto, ele certificou-se alarmadamente que tinha seus dois olhos normais e também mais dois olhos que não costumavam estar por ali. Acima destes últimos, ele percebeu a presença também de duas novas sobrancelhas, além das duas outras que sempre teve.

Ergueu-se ao som das primeiras buzinas mais impacientes do dia, trinta minutos depois de realizar aquele acontecimento horrendo. À beira do colchão, silenciosamente, esfregou apenas os olhos que estavam em sua cara desde que nasceu, uma vez que já sentia um forte asco dos outros dois. “Asco tal qual sentem os pais enquanto banham seus filhos adotados”, pensou, antes de se arrepender e envergonhar-se da comparação. Ainda incrédulo, aguardado o restabelecimento dos fatos tais como eram desde que os percebia, levantou-se imperceptivelmente da cama, sem saber para onde ir ou o que iria fazer. Sabia apenas que não deveria acordá-la.

Arrastava-se havia pouco, em meio a sua silenciosa fuga, quando passou-lhe a idéia de ir ver com os próprios olhos quantos olhos realmente tinham na cara. E por isso, durante o vital trajeto ao banheiro, ele evitou até pensar. Fazia plena questão de evitar que o quarto onde sua mulher grávida de oito meses ainda dormia fosse infestado por seus pensamentos desesperados.

Nesse ínterim, pressionava brutalmente as próprias têmporas, constringindo-as com a força alucinada de seu maxilar - tinha em si um misto de noite mal dormida e a sensação de ser alvo de algum castigo.  E foi quando entrou no banheiro que viu finalmente aqueles quatro olhos injetados e petrificados olhando para si. Seus quatro olhos. E ali mesmo quis verter lágrimas por aqueles quatro pontos.

Piscou-os todos. Depois só um. E aí todos. Então só três. E Repetiu. E fez isso até concluir que eles respondiam obedientemente à sua vontade e então acalmou-se. Chegou até a esboçar um sorriso que claramente não vingou. Depois desencostou a porta do banheiro e, com a mulher ainda em sonhos, velozmente abandonou sua casa da mesma maneira como acordou: assustado, sem saber qual rumo tomar.

Os dois olhos recém-nascidos que se faziam naquela cara, sabe-se lá por quem ou por qual motivo, não alteravam notadamente o modo com ele enxergava as coisas. As imagens sobrepostas eram quase as mesmas, diferenciando-se apenas quanto à altura. Caso os dois novatos o incomodassem durante o trajeto feito por carro ao seu consultório médico, ele deveria simplesmente fechá-los.
    
Em seu consultório achou ter descoberto, antes de qualquer contato com pacientes, um modo eficaz de esconder aquela anormalidade dupla incrustada em sua testa. Além de suavizar a entrada do sol matinal fechando as persianas tanto quanto possível, o oftalmologista aproveitou seus cabelos longos e ajeitou cuidadosamente a franja por sobre os olhos. Minutos depois desistiu da estratégia, as pontas ainda remexidas pelo sono infantilmente tratavam de beliscar a pele dos novos olhos, e então ele resolveu enfrentar o que estivesse pela frente.

Sua primeira paciente era uma senhora cuja vista já estava completamente ceifada por um avançado e faminto glaucoma. Nervos ópticos inválidos. Campo de visão prejudicadíssimo. Ela entrou e ele examinou. Nada podia ser feito, com exceção de um improvável, remoto transplante.

Ela saiu e ele examinou. Examinou dessa vez a possibilidade infundada que havia explodido em sua cabeça minutos antes; tentava agora juntar os fragmentos reduzidos de seu cérebro e ponderar sobre o que havia pensado enquanto examinava aqueles moribundos olhos. Transplantaria seus próprios olhos e os colocaria ali onde aqueles dois glóbulos, tais como uma lâmpada cansada, aguardavam apenas pela escuridão.

Na tarde do mesmo dia, encontrou-se com dois confiáveis colegas de faculdade. Mostrou aquilo que de forma fracassada tentava esconder, ora com as mãos ora com um boné comprado às pressas. Explicou seu plano, fariam aquilo sem envolvimento de nenhum outro e rapidamente, uma vez que os olhos daquela senhora iriam desligar a qualquer momento. No dia seguinte realizariam o transplante.

Chegou tarde a sua casa e saiu antes dos raios alfinetarem seu quarteto ocular. Não viu a mulher acordada, viu apenas um pouco de seu rosto encoberto pelos cabelos loiros e aquela montanha resguardada pelos cobertores.

O transplante foi feito sem complicações. A senhora, então, tinha dois olhos novos, bons; o oftalmologista, dois a menos e uma profunda satisfação, espessa e calma tal qual uma marola suave.

Chegou cedo a sua casa e tirou as faixas da testa. Explicou aquilo, aqueles dois buracos profundos na testa. A mulher chorou e se apaixonou um pouquinho mais - se é que isso seja possível – pelo pai de seu iminente filho.
Mas no dia seguinte, a claridade que sentiu, quando a luz furtivamente irrompeu pela janela do quarto, era tão intensa quanto à do dia anterior, porque ele tinha novamente mais dois olhos na testa. E tal como naquele dia, partiu depressa de casa. Dessa vez ligou novamente para os colegas, estes indicaram mais um paciente em vias de perder a visão e trataram de organizar as necessidades para mais um transplante, nos mesmos moldes do feito na senhora.

E durante mais uma semana aquilo se repetiu. Pele amanhã, dois novos e saudáveis olhos brotavam em sua testa; pela tarde, seus colegas os punham onde eles de fato deveriam estar.

Até que uma manhã, quando automaticamente já se preparava para partir com seus quatro olhos no rosto, ele percebeu algo não usual, levou as mãos à testa e notou a falta deles - ali só havia duas asquerosas cavidades.

Não atinou patavinas. Comunicou os oftalmologistas com pesar e resolveu entregar-se novamente aos caprichos da cama. Subitamente, talvez dez minutos depois de pegar novamente no sono, sua mulher gritou e se contorceu.

No hospital o informaram que sua mulher estava ótima e já se recuperava. Porém, o médico o levou até um canto pelos braços e lhe comunicou a falta de olhos da criança recém-nascida.

Ligou para os seus colegas de faculdade. Disse que tinha um paciente que urgentemente precisava de transplante e um deles perguntou curioso se os olhos haviam nascido novamente. Ele disse que não, que dessa vez daria os dele.

Médium Ligeiro


Conto-lhes agora um episódio de inconteste influência na história do desporto nacional, assim como nos atuais rumos de nossa fascinante nação.

Vejam, não há medo nestas letras.

Ora, vejam de novo, e não digam que os avisos não foram sinalizados: não há hábito imutável. E se hoje algo não é, de maneira alguma, para ti, um agrado, pode muito bem ser, antes de percebível, seu hobby favorito, por exemplo.

Enfim, foi esta a conclusão à qual cheguei  após os curiosos acontecimentos experimentados ao longo de minha carreira como boxeador. Conclusão esta na qual ainda creio, mesmo após tendo pendurado para sempre as luvas vermelhas.

Saibam: da mesma maneira como se comportavam sobre o ringue, minhas mãos não vacilam ao escrever-lhes minhas memórias. Meu coração persiste descansado e guarnecido pela verdade e assim continuará, longe de dúvidas, quaisquer.

Bom, foi assim como as coisas escolheram se dar:

Não contava nem duas décadas que eu havia iniciado essa história de existir, quando disseram-me que me era urgente dialogar com o plano superior e que pelo bem do Senhor e da minha recém-iniciada carreira  dever-me-ia sentar no divã em terapia sobrenatural o quão depressa pudesse. E eu, à época, boxeador de cartel malvisto e pouco respeitável (três lutas, três vexaminosas derrotas no primeiro round), aceitei os apontamentos oferecidos e até o centro espírita indicado encaminhei-me com a pressa de vencer.

Ser recebido tal como fui, por absolutos estranhos, entregues a um amor irrestrito por tudo e todos, foi-me algo bastante surpreendente. À esta altura da vida, minha mente pouco exigida jamais poderia antecipar, enquanto abraçado ternamente era, as iminentes surpresas, a principio desconfortáveis, que ansiavam vorazmente por mim.

Vindo de família amargurada pela aridez da vida, pouco dada às palavras e muito menos a contatos físicos, aquele abraço aconteceu de ser o primeiro que havia recebido em toda a vida, e, com efeito, senti-me seguro e preparado, para não dizer um pouco "ouriçado".

Enquanto contidamente saia daquele estado ébrio nunca dantes vivenciado, tratei de observar quem eram aqueles que, se dependesse de minha vontade, tornar-se-iam minha família para todo o sempre.  Pouco a pouco, dei-me conta que ali somente mulheres procuravam tratamento tal qual aquele que  me dispunha a fazer, e que os médiuns, ou os interlocutores do elevado, ou, talvez, os porta-vozes da expansão e do entendimento, enfim, os decodificadores do que haverá de ser, eram negros enormes e viris, duros feito pedra.

Contei-lhes tudo de mim, e eles, atentamente, ouviram cada uma das inúmeras palavras encharcadas de dor e frustração que disse; informei-lhes sobre uma luta que faria em pouco tempo. Eles quiseram saber minha categoria. Cresceu-lhes na face ébana um sorriso de marfim quando disse que lutava nos médios ligeiros. “Médium ligeiro?”, perguntou um, “aqui tem de monte." Eu ri também, sem entender bulhufas.

Todas  as mulheres, após serem chamadas pela senha, eram levadas placidamente à sala que permanecia fechada a maior parte do tempo, de modo que me pareceu que ali algo de muito mágico e espiritual ocorria - e, de fato, ocorria, opa se ocorria.

Permaneci, durante aproximadamente uma hora e meia aguardando o premente chamado; um papel branco onde havia sido inscrito o número trinta e três tremulava febrilmente em minha mão. A sala quente, fechada e silenciosa, mesmo estando completamente apinhada, não era a ideal para uma quarta feira de farta feijoada. Mas mantive-me forte, fingindo ser-me impossível a derrota ou humilhação, tal qual fazia antes do gongo inicial.

- Trinta e três! – arrebentou na sala a voz cavernosa e confiável de um deles. Levantei-me, assoprei forte e rapidamente o ar que tinha na boca, aliviado por abandonar a sala infernal e finalmente ser tocado pelas vibrações positivas e benéficas dos prestativos espíritos.

Encontrei a sala também demasiado abafada e perpassada pelo pestilento cheiro de suor acumulado por horas de atividade física - ali dentro , encostada no parapeito da janela também fechada, havia uma cama branca, grande, de casal, de braços abertos.

O homem que me guiou pelas mãos até lá disse-me que não era costume receber homens para os tratamentos, mas que faria uma exceção, pois havia visto resplandecer sobre meus olhos um desejo cru e esperançoso de amor e evolução. "Deite na cama, de frente para a parede, posição fetal, por favor, e fique a vontade", disse, sorrindo encantadoramente.

Confirmei a hipótese de o cheiro ser de suor, pois os lençóis estavam meladamente empapados. Sua voz pediu gentilmente para que eu fechasse os olhos e pensasse naquilo que queria receber. E aí a coisa ficou estranha, como vocês bem devem ter desconfiado. Fui encoxado fortemente pelo tal homem que dizia ao pé do meu ouvido que havia feito contato com um grande boxeador da categoria médio ligeiro de tempos idos e que já estava a ponto de começar a fazer a transfusão energética.

Como eu não fazia idéia do que era uma transfusão energética, saltei da cama e, após ver que aquele homem estava despido de seu abadá branco, fugi de lá tão rápido pude.

Perdi a luta seguinte e a seguinte até que voltei lá e implorei pela transfusão energética. Ocorreu tudo quase da mesma maneira da primeira, porém dessa vez ele pediu que seria melhor caso a transfusão se desse “pele com pele”. E assim foi. Venci a próxima luta por nocaute logo no primeiro assalto, pela primeira vez na ressureita carreira. Mas, por ser um rude desconhecedor das leis interplanos , achei que apenas uma transfusão daria conta de uma  carreira toda – e não era bem assim.

Perdi a luta seguinte e enfim percebi que precisaria de transfusões semanais ou até, por que não, diárias e até, por que não, oras, de hora em hora?

Anos depois sagrei-me campeão mundial. Depois, ainda sendo assessorado pela minha estafe (do inglês, staff)  que me acompanha a qualquer lugar desse mundo, concorri ao senado e venci com larga vantagem (eles prontamente contataram o espírito do saudoso Ulisses Guimarães, que cedeu seu brilhantismo democrático e sua base eleitoral a mim via longas, repetidas e, por vezes, dolorosas transfusões).

As transfusões - as quais encarei, em um primeiro momento, com olhos discordantes - são hoje, por assim dizer, meu hobby favorito  (a força para lutar em prol da erradicação da miséria surge delas, longe de dúvidas).

Em palestras, em Brasília, em reuniões ou até em conversas informais com o eleitorado, digo que venci as lutas no ringue e no senado devido à minha infatigável dedicação e à total entrega física. Entrementes, vejam só, muitos outros dizem, excessivamente resolutos, que a razão para todo e qualquer sucesso nesta vida é simplesmente o amor carnal.


Cinco minutos a mais nesse mundo


No dia em que revelaram algumas necessárias verdades um para o outro, os dois acordaram precisamente na mesma hora e no mesmíssimo minuto: 07:07.

Pois às 07:13, os dois sorriram o mesmo riso gostoso ao verem suas esposas vertendo um fumegante líquido preto em suas xícaras rasas, e sentaram-se famintos às cabeceiras das mesas redondas cobertas por panos brancos em avançado estado de desintegração.

Alimentaram-se os dois exatamente das mesmas coisas durante os longos desjejuns: um prato de Fruit Loops inundado por leite gelado desnatado, seguido de meio pão francês amanhecido, este depois de um arrotinho tímido calado sem sucesso por um guardanapo amarrotado.

Os dois, depois das abluções matinais, despediram-se das respectivas companheiras - eram 08:12- cada qual em sua casa, e partiram para o dia que jamais haveriam de esquecer.

Pois ao atravessar os portões de suas residências (que eram da mesma cor branca e que rangeram arrastadamente da mesma forma, como se já lamentassem o futuro obscuro que haveria de ser vivido por aqueles a quem serviam), foi-se a época de calmaria; das noites bem dormidas; dos desjejuns demorados; dos extensos banhos com as respectivas patroas; das plácidas inalações de ar recém desperto à varanda enquanto o sol erguia-se preguiçoso acima do ronronar das asas dos beija-flores.

Foi-se, de ter ido e não querer voltar mais, a época em que os dois prefeitos daquelas cidades ainda estavam em pleno início de mandato e os escândalos de corrupção, os favorecimentos ilícitos e as usuais tramóias ensinadas nas cartilhas de gerenciamento público ainda não haviam vindo à tona, e que, muito por isso, não havia sossego de modo algum perturbado pelos entremeios e partes circundantes das duas cidades vizinhas e certas vezes imperceptivelmente distintas.

Os dois prefeitos das cidadezinhas, as quais tinham quase o mesmo número de habitantes, a mesma base econômica (prostituição infanto-juvenil) e que também, de fato, tinham as Igrejas centrais com o mesmo nome, se abraçaram durante confortáveis dez segundos em um prostíbulo de luxo à beira de uma erma estrada bastante afastada das duas cidades, e entre palmadas nas costas alheia e apertões nos tríceps frouxos, riram satisfeitos por pôr fim à longa época de obrigatório afastamento.

Confirmaram sentir saudades um do outro – o que era de fato verdade – e logo dirigiram as conversas aos assuntos do dia-a-dia político, abrindo a primeira das garrafas de Juanito Caminante.

Abelardo atualizou o outro homem sobre as novas formas criadas pelo seu gabinete para extorquir dinheiro de dois pipoqueiros e em seguida contou como atirou a panela transbordante de milho de um deles para além da ponte quando resolveram não pingar os 20 reais mensais de custo pela permissão para exercer o comércio no local.

Caio, por sua vez, contou com as mãos trementes e os olhos explodindo em cores feito fogos de Reveillon, como fez a mãe de sua secretária particular cortar as dez unhas dos dedos dos seus pés e depois a obrigou, sob ameaça da demissão sumária da filha. que pagasse a irrisória quantia de 50 reais pelo serviço irrecriminável que ela mesma havia prestado. 

Pouco depois das 12:43, depois de empanturrarem-se sem descanso de miojo Nissin Lamem sabor galinha caipira, resfolegaram, espreguiçaram  e espalharam seus membros para além das cadeiras estofadas, contentes pelo reencontro, pelas lembranças dos fatos recentes divididos há pouco, pelo promissor porvir e pediram sem polidez alguma que mandassem outra garrafa.

O quê os dois não sabiam, porém, era que alguns problemas vinham em um galopar frenético, envoltos, sem serem notados por eles, em uma névoa de um silêncio mordaz, a qual já se preparada para despontar dolorosamente de dentro do pouco de humano que ainda restava a um deles, impactando-lhes, porém, irremediavelmente.

E esse intenso impacto - digno de fazer nuvem cheia d’água estourar fácil como uma bexiga cutucada por agulha - ocorreu momentos depois, quando Abelardo, o mais jovem e mais bem votado prefeito da história da cidade de Jurerêaçu, resolveu ser sincero com seu irmão gêmeo cinco minutos mais moço, Caio, prefeito mais jovem e mais bem votado da cidade de Jurerêaçu Mirim.

Havia chegado o momento que acontecia uma vez por mês: os dois trocariam novamente de papéis e, assim, um assumiria a função do outro junto à prefeitura e à esposa. Mas Abelardo endureceu as feições que até outrora estavam vivas e repletas pela satisfação nascida das ações cruéis para as quais vinha dedicando-se com afinco.

Disse ao irmão que dessa vez não iriam em frente.

O irmão riu debochado. Disse que estava com saudades das coxas da outra mulher e de sua disposição irrevogável ao coito, coisa que essa mulher pecava amiúde. E que iriam continuar com aquele joguinho divertido e que jamais deveriam pensar em desistir.

Abelardo disse que já bastava aquela palhaçada. Que já era hora de cada um ficar com uma de uma vez por todas e que não iria trocar de mulher mais não, que iria ficar com a atual e que Caio que ficasse com a outra. Caio disse que aquilo jamais iria acontecer. Perguntou enraivecido que motivo fazia o irmão poder escolher a vagabunda que quisesse primeiro. Abelardo falou, sabendo da inexistência de qualquer razão válida, que ele tinha cinco minutos a mais nesse mundo e que era pro irmão acatá-lo antes que ele perdesse a cabeça.

Às 12:56, Caio se levantou, empunhando uma arminha mixuruca que carregava pra baixo e pra cima e disparou um tiro que perfurou a boca e depois atravessou as primeiras das vértebras cervicais de Abelardo.

Precisos cinco minutos depois do disparo, às 13:01, um segurança descarregou um pente de seis balas calibre 22 no peito de Caio depois que este ameaçou disparar contra clientes do local.

E foi como se os relógios de suas existências lutassem para movimentarem-se sincronicamente, pois os irmãos Caio e Abelardo viveram exatamente ao longo do mesmo período de tempo aqui nesta terra.

A Diarista Guatemalteca e o Pior dos Castigos

Garry Bronhovitch jamais deixou de carregar nos bolsos das calças uma caixa de fósforos, um par de luvas de látex descartável, um tablete de manteiga sem sal e, ao menos, uma edição do Antigo Testamento versão pocket book, com folhas de papel jornal e capa dura azul.

Bronhovitch tinha dois braços delgados, compridíssimos e, nas extremidades destes, dois finos punhos impressionantemente flexíveis - sendo capaz de girar simultaneamente com muita agilidade suas duas mãos em sentidos opostos enquanto reproduzia à beira da perfeição o som das ferozes turbinas de um avião supersônico em dia de exibição.

Quando requisitados, especialistas e numerosas baterias de testes e exames (Garry sofreu uma misteriosa convulsão durante a retirada de uma unha encravada na clínica podológica) ratificaram sua ampla capacidade respiratória, constataram suas taxas de colesterol em níveis satisfatórios e contaram números regulares e esperados de hemácias e plaquetas a boiar pelo seu sangue.

Por mais que remexessem por toda a extensão de seu corpo esguio durante os poucos mais de quatro dias de internação, os médicos do hospital de San Diego não encontraram tumor, diabetes, câncer, otite, gastrite, gonorreia ou uretrite aguda nenhuma em Garry- e ainda aproveitaram para retirar por conta própria aquela pontinha de unha afiada ainda mergulhada na carne dura do seu dedão esquerdo.

E essas boas notícias alegraram Garry ainda mais quando ele relembrou, tendo recebido alta e sendo levado de volta para casa depois dessa arrastada passagem pelo hospital, que mantinha vinte e um pares de meias brancas e cheirosas na segunda gaveta da cômoda de seu quarto; que guardava secretamente quatro Penthouse’s bastante castigadas embaixo dos seus livros de escola e que diariamente, independente de onde estivesse ou da ocasião, punha seu blackberry para despertar às quatro horas da manhã para comer três paçocas e anotar num bloco de notas timbrado da IBM suas recentes vivências oníricas.

Sabia que ainda guardava em algum canto de sua casa um grosso cobertor tricolor que o reconfortaria e manteria seu calor corporal inalterado mesmo ante a mais polar frente fria vinda de Vladvostok; que ligaria sua televisão de oito polegadas e não veria dificuldade em encontrar algum programa que o agradasse; que seu blue-ray e suas imensas duas caixas de som stereo estariam implorando para serem requisitados ao extremo e que - e isso era o mais importante: era sexualmente ativo e conseguia criar mirabolantes narrativas pornográficas em um estalar de dedos.

Seus batimentos cardíacos amansaram quando ele ouviu o ranger familiar da porta da entrada da sua casa, e, depois de acender as luzes dos lustres da sala de estar, Garry pôde fechar seus olhos serenamente, sentindo o saudoso e fraterno silêncio que finalmente o circundava.

Pelo horário avançado da noite, Juanita, a diarista guatemalteca, já deveria estar descansando no quarto dos fundos e, se nada ocorresse fora do esperado, só a encontraria ao fim da próxima manhã.

Seu rosto, combalido pelo distanciamento repentino do lar e pelo desgaste das horas de ásperos sonos nos leitos das camas magras do hospital, aparentou preencher-se com cálidas cores e ele, como sempre fazia quando sentia a dita felicidade formigar em seu corpo, aproveitou o ermo cômodo para peidar solenemente - como se este gesto, que em outros momentos poderia ser acertadamente interpretado como deselegante, o libertasse des indesejáveis pestilências que sofrera no hospital e o assustara como nada antes havia ousado.

Partiu para seu quarto, incontido, quase alcançando ritmo de corrida; os batimentos reacelerando-se em um ritmo perigoso e os músculos retesando-se ansiosos. Gotículas de suor brotejavam da testa e reluziram sob os lustres da escada, conforme a escalava e depois dirigia-se para o fundo sinuoso do corredor.

O disco prateado Rocco Goes to Montreal foi inserido no leitor de mídia do blue-ray pela mão tremente de Garry; e das caixas despontou um rumor suave que, conforme teve o volume aumentado, transformou-se em um hipnotizante blues.

Um sorriso nasceu em seu rosto, dilatando-se gradativamente, e ele pôde então ouvir o som tímido e quase esquecido de seu raro riso.

Garry, antes de se livrar das calças, sacou o tablete de manteiga e o par de luvas dos bolsos; com dois palitos retirados da caixa de fósforos ele acendeu uma rotunda vela vermelha aromatizante e deixou-a consumir-se lentamente ao lado de sua cama. Da gaveta da cômoda pescou dois pares de meias. Abriu o Novo Testamento em uma página aleatória. Deteve os olhos por minutos em um único trecho, orando e agradecendo pelo seu restabelecimento, até que uma lágrima escorreu dos olhos cerrados. Buscou as edições sobreviventes da Penthouse e também as abriu aleatoriamente sobre a coberta tricolor, a qual já o cobria maternalmente, e disponibilizou-as de modo que pudesse vislumbrar todas as quatro antigas capas ao mesmo tempo. Finalmente para a televisão de oito polegadas passou a lançar olhares transbordantes de lascívia…

Vinte segundos depois saiu arfando do quarto. Tinha o corpo lavado de suor e uma sede sufocante. Porém o olhar ardente e a furiosa rigidez do corpo pareciam agora domados de certa forma.

Afinal, para ele - assim como deve ser para inúmeros cidadãos, sobre quem muito ouvimos falar- quatro dias sem punheta é um castigo para quem nem aos nossos inimigos mais odiados nos desejamos.

Com isso em mente, Garry Bronhovitch adentrou sua cozinha e tomou três copos de Catuaba em três rápidos goles. Verteu metade de um saco de amendoim de quinhentas gramas para dentro da bocarra aberta e mastigou tudo aquilo com sérias dificuldades; depois demorou-se em uma extensa inspiração e foi acordar Juanita. 

Tinha quatro dias de atraso pra tirar das costas.

Sobre como encontrei-me velho e encarcerado em uma cela superlotada



Nesta cela onde vivo os últimos dias de minha velhice, tenho a agradável companhia de uma média de doze respeitosos homens, os quais muito se importam quando o assunto é minha saúde e tranquilidade. 

Não há quem passe alguns minutos por aqui e, ao sair, não carregue a certeza irrevogável de que estes jovens nutrem por mim um emocionante e verdadeiro afeto.

Não haveria de ser de outro modo. 

Sempre que podem, esses bondosos seres humanos fazem festa em meus fios ralos e grisalhos, que escorrem empastados em óleo dos cantos do meu crânio, e, quando já me encolho sob os fartos cobertores de lã tricotados por suas esposas, esses adoráveis homenzarrões, ao pé do meu ouvido vacilante e eternamente agradecido, cantarolam ternamente as adocicadas melodias de minha juventude distante.

Creio que tudo isso ocorra devido ao fato de eu ser o homem mais velho do planeta a cometer um assassinato,  consumindo uma vida humana justamente no dia em que completava meu centésimo vigésimo quarto aniversário. Creio, repito, creio que seja este o real motivo de tanta amabilidade, mas não posso afirmar nada a esse respeito sem sentir a presença de uma dúvida a pairar ameaçadoramente sobre mim. 

O assassinado era um empresário pervertido, afeito a joguinhos esquisitérrimos e teve por mim o corpo empalado merecidamente, quando eu adentrei sua região lombar com a ponta terrível de uma prateada espada samurai.

Espero justificar através da passagem que segue a razão pela qual caracterizei tal angustiante morte de “merecida”.

Toda primeira segunda feira do mês, enquanto muitos olham seus saldos bancários com algum tipo de contentamento no rosto, o diretor-fundador de uma insignificante empresa fabricante de freios para locomotivas convocava os mais quistos funcionários à uma ampla e encarpetada sala de reuniões para que lá  pudesse atirar pontiagudos dardos em suas assalariadas bundas desnudas.

E eu, sim, eu era o proprietário de um desses pobres bumbuns mensalmente alvejados.

Esclarecendo mais a questão: era dever do funcionário levar sua própria tinta para que sua lomba tivesse, ao fim dos preparativos pré-lançamento de dardos, um aspecto bastante próximo ao de um alvo concêntrico multicolorido. E só depois disso os doentis jogos era iniciados.

Esclarecendo um tiquinho mais a questão: o fiofó atingido valia 100 pontos - a mais alta pontuação devido à clara dificuldade de se acertar um dardo em localidade de tão difícil acesso.

Então, com o bumbum em riba, o funcionário rezava para que os dados fossem enterrados profundamente em seus esfíncteres, já que o funcionário que tivesse a bunda atingida nos locais de menor valor, e assim somasse o menor número de pontos, era sumariamente demitido - sim, demitido, sumariamente.

Pois então era costume disseminado abrir o cu o tanto quanto fosse possível para que este expandisse sua área de contato e garantisse mais um mês de labuta e salário para seu dono. 

Em uma dessas doloridas segundas-feiras, após cinco décadas tendo a bunda feita de alvo, tive o desprazer de atingir a pontuação mais baixa entre meus concorrentes/colegas e fui enviado para o olho da rua veloz  e certeiro como muitos daqueles dardos que iam para o olho do meu fiofó inocente.

Contaram-me logo depois de minha demissão, que o Filipe Oliveira tinha tomado cinco dardos no rabo e que passou o dia inteiro a se gabar e menosprezar os outros.

À época, eu já contava cento e vinte e três primaveras, de modo que me empreguei como morador de rua e aluguei três excelentes caixotes de papelão no luxuoso Beco do Boquete que neste momento ainda não tinha tal alcunha.

Conforme os dias sucediam-se e eu não comia e já me encontrava desesperado de fome, tratei de arrancar meus dentes e ingeri-los junto de uma sopa à base de minha própria urina.

Desdentado, porém alimentado, veio-me à cabeça a idéia de oferecer sexo oral a qualquer interessado em meu próprio domicílio – certo tempo depois meu bequinho passou a ser denominado de Beco do Boquete pelos costumeiros freqüentadores, algo que me orgulha sobremaneira.

Foi nesse famigerado beco que reencontrei meu antigo empregador, quando este surpreendentemente apareceu por ali, procurando uma safadeza qualquer.

Depois, satisfeito com serviço prestado, ele logo me ofereceu meu antigo cargo de volta e eu obviamente aceitei, mesmo sabendo da saudade que sentiria daquele lugarzinho tão imundo.

Entretanto, minha bunda prosseguia a não me satisfazer. Logo na primeira segunda-feira de meu retorno fiquei em último lugar. 

As flechas – os dardos tinham perdido a graça - talvez sentindo um dó lacerante, optaram por não me atingir em local nenhum, o que adicionou ao humor perturbado do mandatário dos freios de locomotivas um furor titânico.

Poucos dias depois lá estava eu no Beco, retornando ao meu cruel labor. 

E foram meses horríveis, de freqüentes e incuráveis dores no maxilar, de sopas duvidosas e de choro incontrolável junto aos papelões.

Numa dessas noites modorrentas, precisamente na noite do meu aniversário, enquanto eu lutava contra o peso das pálpebras, eis que o meu ex-empregador surge novamente.

Não, não estava ali por causa de meu cumpleanos e para me desejar felicidade e muitos anos de vida, ou para me dar uma espetada na bunda. Estava sim ansioso, perguntando se eu sabia a senha do e-mail do Oliveira – ele suspeitava de umas trambicagens dele.

Eu falei que sabia sim. Que tinha ela no meu armário ali no escritório – que era de fato um saco de lixo dentro de uma caçamba de entulho. E mais, o que fui pegar não era senha porra nenhuma, meu camaradinha. Era sim uma espada samurai afiadíssima que aceitei como pagamento de um japonês legítimo e que muito me apreciava.

Então, empalei o empresário e me enfiaram aqui nesta cadeia.

E aqui sou feliz; me afagam, me ninam, ouvem meus sonhos, dão-me longos banhos de espuma  e cuidam de mim como um idoso realmente merece ser tratado.

Minha única queixa é que por mais que eu implore, eles não me arranjam dentadura nenhuma,..

O Caso do Judeu Salafrário



Na esquina da Rua das Maritacas com o Beco do Boquete, eu, Michel Brochmann (judeu praticante não muito respeitado pela comunidade de Higienópolis), caminhava apressado e atrasado para o serviço de salafrário que presto em um sobrado alugado ao lado da sinagoga que por muito pouco não arranha a alva pele das nuvens, quando fui interpelado abruptamente por um mendigo estirado sobre fragmentos de um pôster, onde vislumbrei rapidamente uma bundinha magra dessas mulheres não judias de revistas.

Esse morador de rua, que claramente não era judeu como sou eu, mamãe e Hannah, tinha a pele lisa e escorregadia de tão oleosa e negra, e, Deus me perdoe, era tal qual uma foca dessas da televisão, sem a graça das focas que equilibram aquelas bolinhas no focinho mas com o mesmo olhar enraivecido das focas quando estão prontas para aplicar uma bela dentada nos mamilos das suas presas e prejudicar seu sono durante algumas longas semanas.

- Quer ser feliz, barbudão? – berrou o maltrapilho, junto dessa minha orelha esquerda escolhida por Deus que no momento, por convenções sociais, encontrava-se ilhada entre minha longa barba desgrenhada e os esvoaçantes e ensebados cabelos encaracolados de semita que pendem nojentamente para além das bordas do boné do New York Giants enterradas sobre meu crânio e que afanei no último Natal dum desses muitos cristãos bobalhões, ali perto do caixa da padaria do Vitão.

- Gostaria deveras, meu homem imundo – respondi surpreso, insuflado por uma fugaz esperança – Qual o esquema? Vá falando logo, tenho meus assuntos de salafrário ali próximo da sinagoga!

O mendigo levantou-se com dificuldade do chão e aproximou-se de mim, o judeu - um dos inúmeros que teve um vovô perspicaz, prontificado a deixar os móveis e os cofres para trás, abandonando a pátria tão logo o primeiro galo cantasse.

-É bastante simples!- ele me assegurou.

- O quê? – perguntei, cheio de uma curiosíssima curiosidade e também bastante atraído pelo hálito natural dos homens pré-históricos, pré Oral-B, pré-fio-dental explosão total sabor menta de 5 metros.

- Do que você tá falando, cara? – ele questionou.

- Você disse que era bastante simples, não?

- Sim. É muito simples - ele assegurou ainda mais seguro do que antes, quando já me parecia seguro o suficiente.

-Sim. Mas o que é simples?

- Fazer as coisas acontecerem - dizia tudo com uma voz saltitante de alegria satisfeita. - Veja: ontem mesmo eu era um mendigo, desses aí que vivem bem sem trabalhar e são mantidos pelas boas almas dos solidários transeuntes dessa São Paulo de meu Deus. Porém, essa vida mansa não me agradava, carinha. Não me agradava em momento algum. Absolutamente. Então, ontem, meu último dente de leite caiu e eu
pedi para a fada do dente que em vez das costumeiras cinco pedras de crack como presente, eu preferia acordar sendo Adolf Hitler…

E, de fato, aquele homem era Adolf! E eu, de fato, um homem não muito respeitado pelo povo judeu, podia ver aquilo com uma clareza inquestionável.

Eu, Brochmann, mantenedor de assuntos escusos no sobrado de número 57 imediatamente ao lado do suntuoso portão da Sinagoga Talmud Thorá Lubavitch, notei que estava diante de Adolf e também fui capaz de notar meu sangue elevar-se, fervilhar, gaseificar-se, solidificar-se e, depois, por fim, correr pelo interior de minhas veias judaicas no sentido contrário ao usual - como podem notar, eu estava notando coisas demais. E ao notar isso, notei também que aquele famoso bigode era indubitavelmente uma obra de arte das mais esplêndidas deste mundo - indubitavelmente era um genocida de modos ímpares, como pouquíssimos assassinos em massa tiveram a competência de ser.

Mas isto não bastava, distinto e caro leitor.

Aprendi desde muito infante, quando já era judeu, circuncidado e com uma aplicação bancária rendendo 11% ao mês, a odiar aquele homem independente de ter aquele fantástico grupo de pêlos minuciosamente desenhados debaixo do nariz fino de psicopata.

Ora, bem em minha frente, eu tinha o homem que exterminou seis milhões de judeus - aí concluí que algo deveria ser feito.

E então, eu, que de modo algum represento esse distinto e muito afável povo, possuído por um desespero extremo e por um grotesco e incontrolável fluxo de raiva, comecei a enforcá-lo, apertando-lhe o fino pescoço do ditador genocida, que paralelamente é morador de rua, por entre minhas mãos e dedos e anéis e unhas e aliança. E depois, precisos vinte e três segundos depois, abandonei o pescoço nazista e esganado de Adolf e seu corpo desfalecido caiu sobre o pôster do outrora mendigo.

Olhei novamente para a bunda magra estampada no pôster antes de correr veloz como pude, e como um guepardo endiabrado cruzei a frente do sobradinho verde de onde, inegavelmente, ludibrio a lei e engano meus semelhantes.

E feito um raio divino nascido do único Deus que há, prestes a iluminar e confortar meus irmãos comunicando-lhes a justa vingança de nosso povo, adentrei escandalosamente a imensa sinagoga. Por seu refrescante interior minha frase ecoou, engordou, e intensificou-se de uma maneira tão espessa que estava a ponto de ser quase palpável:

“Fui eu, galera! Eu matei Adolf Hitler.”

Junto às longas barbas do Rabino estava Illana, esposa do digníssimo Jacó, mãe de um moleque com não mais de trinta quilos e ainda proprietário de um quase insignificante prepúcio; mulher de mão certeira para a gastronomia iídiche como raramente se viu; desejada por toda comunidade, apesar dos grossos fios negros do buço umedecidos por um sempre presente suor.

O Rabino, que afirmava chamar-se Isaac e que respondia mesmo por tal nome quando chamado, veio apressado para junto de minha pessoa. Seus olhos, que também se dirigiam em minha direção, vinham quase que pipocando para fora das órbitas e, dos cantos dos lábios constringidos, os quais seguiam os passos dos olhos e vinham também em minha direção, descia uma líquida e esbranquiçada baba que borbulhava e que, quando explodia, fazia “ploc-ploc”.

- Seu demônio! Monstruoso! Monstruoso demônio! –ele vociferou, enquanto dava-me tabefes estalados e ardidos.

- Mas que porra é essa, Rabino? - resolvi educadamente questionar, já que não atinava patavinas. - Matei Hitler e tu tratas esse judeuzinho herói aqui com palavras e gestos tão vis e impróprios para um homem em sua posição?

- És o próprio Satã! Ora, o nazista miserável ousa postar-se diante de mim!

Essa última frase, entorpecida de ferocidade e, acima de tudo, questionável, feita por dona Illana, quase não foi ouvida por minhas orelhinhas, já que essa dona já fazia questão de me aplicar um justíssimo mata-leão, deitando-me contra o chão gelado da sinagoga e depois atingindo minha face com um afiado e destruidor ground-pounding.

De modo que só fui perceber que estava morto muito tempo depois. E não só me assustei ao perceber minha própria morte, como um abismal terror correu potoda a extensão de minha coluna vertebral quando vi no reflexo de um espelho (que agora não necessita explicar de onde veio) que era eu também o tal Adolf Hitler, e que talvez por isso eu tenha sido espancado, morto, violentado sexualmente - tudo me leva a crer que por Rabino Isaac- e posteriormente estripado, em minha própria sinagoga.

Mas não só pela dor este relato é constituído.

Logo após minha horrorosa morte, os dois criminosos - os assassinos do Adolf(eu) que havia anteriormente enforcado Hitler(o mendigo) - resolveram dar uma bimbada ali mesmo no chão gelado da sinagoga ao lado do meu corpo destroçado - ato de natureza comemorativa, ouso crer-, jogar meu corpo num container qualquer e depois ir cada um para seu canto.

Naquela mesma noite, porém, qual não foi a aterrorizada reação de Jacó e de seu pequeno filho ao verem, petrificados, que quem punha a louça polonesa na mesa era ninguém menos que Hitler vestindo um surrado avental de cozinha?

E qual não foi o terrível choque da família de Jacó, de Illana e dos amigos convivas algumas semanas depois durante o Bar Miztvah do filho do casal, quando viram o Rabino Isaac, exibindo um aparadíssimo e reluzente bigode quadrado sobre o sorriso demoníaco, cortar o prepúcio do tremente menino enquanto a ensandecida mãe Illana, então transfigurada em ditador (cuja face cadavérica apresentava um bigode tão quadrado e lustroso quanto a do rabino), chorava um pranto de alegria e consternação, já planejando incendiar a própria casa enquanto o marido e o filho dormiam , para depois fugir e se casar com o Rabino em Israel?

E qual não foi a reação das autoridades e da população israelense quando avistaram esse casal apaixonado deixando o Aeroporto Ben Gurion em Tel Aviv, carregando seus pertences agilmente em carinhos de bagagem?

E qual não foi a reação do taxista ao ver os pombinhos com o braço estendido e com os dedos erigidos sobre a palma da mão direita, ordenando com grande impaciência que encostasse o veículo imediatamente?

E, leitor, qual não foi a felicidade insondável daquela meia dúzia de ensandecidos israelenses quando surraram e depois incineraram os corpos castigados do casal, instantes antes de notarem com grande assombro que algo de muito estranho se passava em suas faces?




O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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