Martin Donnely inspirou profundamente. Ergueu o corpo gordo da cadeira e foi ao púlpito, subindo os degraus da escada do palco em passos calculados, preparadíssimo para o tradicional discurso de segunda-feira. Os alunos, entretanto, compondo a plateia, logo cedo, nada preparados para ouvi-lo, apenas tentavam manter-se despertos sobre os acolchoados assentos do anfiteatro da Universidade de Cambridge naquele princípio de 1952.
“Decidam aí, senhores!”, começou o mestre, em tom amigável inédito, após um pigarro extravagante, dando origem a inúmeros olhares confusos que foram nascendo entre os ouvintes, sob o silêncio refrescante e sonolento da primeira manhã da semana. “Os parcos pelos nas rodelas dos peitos de suas namoradas lhes aborrecem tanto assim? Ora, decidam aí, senhores! Optem pela ignorância e os alisem tenramente, como se fossem um gostoso lenço de seda, ou reconheçam a pelagem excessiva e apreciem as nuances desses finos fios de cabelos mamários”.
Foi um grande choque. Indiscutivelmente.
“Mas, mestre, alguns pelos não são mais aceitáveis e coçam nosso rosto, nosso buço e queixo. Certa vez até espirrei em uma pobre mama depois que um pelinho safardana adentrou desavisadamente meu nariz”, hablou um meninote, ameaçando levantar-se de sua poltrona, irado, assustando-me deveras e afastando para muito longe o sono imenso que me abatia.
“Ora, mestre! Ora! Mestre, ora!”, disse outro meninote, igualmente irritante. “Estamos em plena década de 1950. Quero uma quenga lisa como uma mesa de madeira envernizada!”
Um farfalhar intenso levantou-se entre meus colegas de classe, pairando sobre nossas cabeças ensebadas como um enxame, enquanto o mestre apenas nos observava, calado, estudando-nos o comportamento. Após breve reflexão, decidi compartilhar minha opinião com os presentes, rasgando aquela nuvem intensa de comentários com minha voz trovejante. “Não me importo com esses tais pelos na teta, não”, redargui, silenciando os sons alheios dissonantes por apenas um momento, pois fui imediatamente vaiado com toda a fúria alcançada pelos pulmões dos colegas. Não podendo mais prosseguir em minha exposição, sentei-me à cadeira, resignado, e fiz força para não derramar uma sequência envergonhante de lágrimas. Falhei.
“Garotos, compreendo muito bem a repulsa, a época em que vivemos e o prazer que sentimos ao deslizar as palmas das mãos sobre uma mesa de sala esmeradamente encerada. Mas, escutai-me bem, jovens mancebos. Deus pede que aceitemos os outros da forma como são”. O mestre tentava amenizar o fervor que incitara nos alunos, injetando força e autoridade em seu discurso. “Façam como o último colega, o chorão ali, deixem de lado se das bordas circulares dos mamilos de seus amores brotam alongados e nojentos pelos escuros encaracolados. Deixem de lado isso, filhos de Deus, ora bolas. Para o bem de todos vocês! Ora bolas! Bolas! Ora! Não permitam que um fino chumaço pendente afaste para sempre o amor de suas vidas”.
Martin Donnely quase implorava-nos, pedindo que reconsiderássemos nossas posições. Estava envolvido emocionalmente até o pescoço com o tema de seu curioso e já histórico simpósio. Mesmo apoiando-o completamente, perguntava-me por que estaria ele abordando aquele tema naquele instante, naquele dia, naquele preciso momento em que Marte e Saturno estavam alinhados com Escorpião. Alguns pelinhos despontando de doces e rosados mamilos femininos não me causavam repulsa nenhuma e apesar de sua insólita fala, comecei a nutrir certa simpatia por sua curiosa personalidade, que nunca nem fez menção de irromper durante suas aulas regulares e mui entediantes.
Horas depois fui ao seu sombrio escritório no quinto andar da Torre Central do campus. Era o auge do inverno e me escondia sob um casaco de camurça que ganhei de papai. Superei altos lances da escada espiralada para encontrá-lo triste, debruçado sobre sua escrivaninha, sondando as profundezas de suas fossas nasais com o auxilio de um exagerado crucifixo dourado que pendia de um cordão amarrado ao redor de seu pescoço. Convidou-me para adentrar, tentando ocultar a melancolia que lhe dominava. Não pude, contudo, deixar de notar os olhos molhados precipitando fios de lágrimas sobre seu rosto pálido. Disse-lhe, ao pé de sua ampla escrivaninha, apinhada de grossos e poeirentos tomos de livros, que apreciei cada sílaba proferida em seu discurso da manhã e que concordava inteiramente com cada linha de seu ponto de vista.
“Posso ver-lhe as tetas?”, perguntou-me subitamente o professor de Religião, com a testa desencantada e retesada em uma incômoda interrogação. Sua tristeza me entristecia.
“O senhor, preclaro mestre, quer analisar as rodelas de meu peito, aquelas que parecem um par de fatias de salames desbotados, ilhado por rasos mares de pelinhos escurecidos?” – perguntei. “É exatamente o que quero, doce mancebo! Sou fascinado por peitos cabeludos”, disse-me, ainda sentado à cadeira de seu escritório de cortinas cerradas, enquanto, em seu rosto, construía-se um puro sorriso sacana e, sobre a mesa, queimava uma vela perfumada. Lembrei-me então que minhas notas não eram das melhores em Religião e que havia uma boa chance de reprovação ao fim do ano, de modo que me livrei da camisa branca que tinha embaixo do casaco e desnudei meu peito branco e desgalgado. Tudo aconteceu celeremente, de tal forma que não pude atinar por completo tudo aquilo que era desfraldado diante de minha vista despreparada. Ele lambeu os beiços secos e, como um bebê faminto diante da fartura alimentícia da mãe, aproximou a boca ávida de meu mamilo esquerdo rígido pelo frio. Fechei os olhos com presteza. Meus maxilares pressionavam febrilmente os dentes rangentes. Senti a umidade de uma língua áspera dançando ebriamente sobre minha peitoca, pouco antes de um contato doloroso de dentes em leves mordiscadas. Só pude abrir os olhos assim que notei sua falta de atividade. Vi-o em pé, satisfeito, recompondo-se, desacelerando as expirações. Não pude me conter! Disse-lhe, sem medo de qualquer castigo posterior: “Mestre, posso…. eu….ver-lhe as tetas?”.
Aguardei-lhe, com os olhos semicerrados, fitando suas feições impassíveis por uma breve eternidade. “Mas é claro”, disse, descobrindo prontamente seus fartos e enrugados mamilos, que não possuíam pelo algum. Estes reluziram sob a luz fraca da vela bruxelante. Curvei-me e estiquei o pescoço como uma receosa tartaruga expondo sua cabeça para além do casco, abocanhando morosamente uma alface. Rocei a língua, em amplos movimentos circulares, sobre seu gigantesco bico, que, vermelho, parecia a ponta melada de um tubo de batom. Seu corpo estremeceu. Martin Donnely disse, “Oh! Que delícia”.
À noite, a lua cheia em grave tom acusatório encarava-me através da janela. Tentava dormir, sem sucesso algum, em minha cama postada em um canto triste do dormitório do segundo andar. Mesmo depois de dois prolongados banhos quentes no banheiro do vestiário do primeiro andar, ainda sentia a saliva pegajosa do professor queimando meu mamilo esquerdo e escorrendo sobre meu abdômen. Evitei suas aulas durante a semana. Não sabia como me comportar diante dele. Não sabia como ele reagiria em minha presença. A semana prosseguiu cinza e o frio agigantava-se cada dia mais. A vida me era tão fustigada durante aquelas tenebrosas horas, que o céu e a terra pareciam petrificados sob uma pesada tristeza que a tudo contaminava.
Na sexta-feira meus colegas de sala e eu estávamos enfurnados no congelante vestiário central do campus. Preparávamos-nos para a aula de educação física no campo principal, quando o professor Ferdinand Whithmarsch entrou esbravejando, socando os armários e chutando as paredes e bancos. De sua testa suada saltitava uma veia prestes a explodir.
Em um urro animalesco, pediu que nos calássemos. Disse que precisava tratar de um assunto muito delicado. Mas que antes disso, necessitava que todos tomassem banho ali mesmo no vestiário e retornassem para sua preleção sem a camisa do uniforme de rugby. Da mesma maneira como aconteceu com a palestra do professor Martin Donnely na segunda feira anterior, nos entreolhamos, sem compreender. Mas, como alunos que só querem se livrar dos professores e de seus ensinamentos descartáveis, logo estávamos todos de banho tomando, diante dele, sem camiseta, com os mamilos duros como pedras de gelo.
“Quer dizer que as meninas aqui sentem repulsa diante um bom e tenro mamilo peludo?” – berrou, babando, com os olhos quase saltando para fora das órbitas. Tinha os punhos cerrados, vermelhos, zunindo diante dos rostos dos pseudoatletas calados e chocados postados à sua frente. “É isso mesmo?”
Jerry Williamson, curvado sobre si, com a cabeça baixa e com os dentes chiando como pandeiros no carnaval, tentou expor sua posição, utilizando-se de sua voz banhada em uma xícara de chá do puro medo adolescente. “Não, professor, não, não, não é isso”, gaguejou. “É que muitos de nós preferimos um mamilo que não possua pelos. Mas tenho certeza total que ninguém aqui negaria a oportunidade de manusear com a boca uma dupla de peitos com alguns pelinhos a mais”.
Whitmarsch pareceu não acreditar em nada do que o pobre Williamson e seus olhos tremeluzentes disseram. Agarrou-o pelas orelhas com as duas mãos, levantando-o uns oitenta centímetros do chão de azulejos brancos do vestiário. “Veja só, Williamson! Você tem inúmeros pelos mergulhados nesta massa amarela e pegajosa que habita suas orelhas miúdas, não é?”. “Tenho um pouco sim, senhor, professor”. “Pois sua mãe deixa de beijá-lo à noite e na manhã seguinte furta-se de levar-lhe café preto e enormes fatias de pão com manteiga à sua cama quente e cheirosa?”. “Não, nunca deixou e nem vai deixar, eu espero, mestre professor”. “Pois então, jovem Williamson, reveja essa posição. Dispensados da aula, após essa lição de moral”, ordenou, dirigindo-se a todo o medroso corpo estudantil, e largou o pobre Willy, que desabou no chão feito um saco de carvão. Caminhei às pressas, deixando meus colegas ainda estupefatos para trás. Agarrei a mala com minhas roupas e, quando ia abandonando o vestiário, ouvi o professor chamar meu nome e me virei. Ele estava com a mão esquerda sobre o mamilo direito, apoiando a cintura sobre uma pia, sem a parte superior de seu uniforme de treinador. Aplicava leves beliscões com o polegar e o indicador em sua teta já assanhada. A dois passos da saída do vestiário, mantive-me imobilizado, como se diante dos olhos da Medusa. Os alunos apressavam o passo, lavados de temor como uma manada de guinús tentando manter a vida para si diante das investidas de um felino faminto. “Venha cá, Tyler. Preciso te pedir um favor inadiável”. Temerosamente, dirigi-me em sua direção, esbarrando nos últimos alunos a sair do vestiário. Caminhava como se atravessasse um ringue de patinação ensaboado. Não conseguia de modo nenhum definir em qual momento ele havia se livrado do blusão do uniforme. “Veja, Tyler, veja a cor dos meus biquinhos”. Vi. Seus mamilos eram marrons, sem pelos, e possuíam um encantador tom rosado – uma bicoloração mamilesca inédita. “Mas que mamilos curiosos o senhor possui aí, professor Whitmarsh”, disse, profundamente interessado. “Ora, nunca ninguém notou esta minha qualidade, sabia? Agora me deixe vislumbrar seus mamilos quentes ainda cheirando a sabão. Soube que eles têm uma plumagem sublime.”
Ele beliscou-os, timidamente, com seus ásperos e rijos dedos de atleta. Depois os apertou e parou e permaneceu assim por um tempo. Parecia segurar dois prendedores de roupa, prestes a coloca-los sobre uma toalha para secar no varal ao sol. Lembrei que havia uma grande chance de ser reprovado em Educação Física, então sorri, estimulando-o a iniciar suas carícias. Ele, avidamente, grudou seu rosto em meu tórax e passou a mordiscar meu mamilo esquerdo como os dentes do fundo de sua arcada, como um cão filhote roendo um osso de boi. Quando suas arfadas pareceram diminuir de intensidade, foi minha vez de pedir-lhe para manipular sua mama rosa e marrom. E ali, protegido do inverno que varria o campus e pintava de cinza escuro os gramados e os tijolos dos prédios, babamos no peito um do outro por cinco minutos, apreciando nossas mamas suculentas. Deixei-o sob o chuveiro de água abundante e quente. E, agradecendo a presteza como as coisas se deram, escafedi-me dali tão logo pude, sem saber dos fatos insólitos me ainda me aguardavam com ansiedade extrema.
Horas depois, com os mamilos mordidos inchados e ardendo horrorosamente, estava próximo do prédio de Filosofia plantando bananeira junto de meus bons colegas Sanderson e Willy Nelson Jr. Fui então, no meio de uma atrevida manobra, alvejado na face ruborizada pelo inverno por uma bolota de fezes de pomba próxima da liquefação. Sanderson disse prontamente que era melhor eu me lavar antes que alguém visse aquilo e socasse meus bagos gratuitamente, de modo que me apressei em encontrar o primeiro sanitário disponível. Na Ala Leste do Prédio de Filosofia descobri um inusitado e sombrio lavabo. Enxaguava a cara apinhada de espinhas com água fria, na esperança de expulsar aquela camada de merda que já quase endurecia devido ao frio polar de Fevereiro, quando fui interpelado por um canto angelical nascido das vibrações das cordas vocais perfeitamente afinadas de uma fêmea estonteante. Bernadet era seu nome. Era faxineira do campus já há trinta anos. Agora, aos noventa e três, mesmo curvada e ranhenta, ainda desempenhava suas funções com um vigor espantoso, irradiando uma beleza pelancuda por toda a extensão dos corredores e banheiros da tradicional instituição de ensino. Saindo de trás da porta da única cabine do lavado, sob uma atmosfera dominada pelo cheiro de urina curtida, ela chegou próxima de minha face ainda umedecida e salpicada por persistentes restos de cocô e beijou minha boca com seus lábios murchos, cujo cheiro lembrou-me uma par de meias molhadas esquecidas na gaveta. Hipnotizado pelo toque argiloso de sua boca esguia, demorei a perceber que ela já estava junto ao meu ouvido, murmurando e gemendo febrilmente. “Gostaria que você visse meus mamilos. Eles andam meio cabisbaixos”, pediu. Não neguei seu convite, mesmo sem saber por quê, e, minutos depois, com o maxilar exausto, já estava com a face lavada e com um leve sorriso satisfeito plantando atrevidas bananeiras novamente com meus bons camaradas Sanderson e Willy Nelson Jr. As mamas da nonagenária faxineira eram incomparáveis e passei a sonhá-las a cada instante desperto. Durante os seminários e avaliações, ao invés de cálculos e teorias, vinha à minha lembrança aquele par de mamas decrépitas. Mesmo breves, os inesquecíveis cinco minutos passados no lavado do prédio de Filosofia me perturbavam de tal forma que minhas péssimas notas conseguiram ficar ainda mais risíveis e preocupantes. Na terça-feira seguinte, durante uma manhã tristemente escurecida pelas nuvens de um temporal que se assomava sobre as torres de Cambridge, fui levado ao escritório do professor de Literatura Inglesa para uma conversa pormenorizada a respeito da queda do meu já fraco desempenho acadêmico. Bati em sua porta e um ranger estridente me acompanhou enquanto penetrava o aposento. O professor Edward Francis estava de pé. Tinha o corpo coberto por um relevo acidentado de músculos rígidos, empapados em seu próprio suor, e, sem vestes na parte superior, levantava um par de pesos de 50 quilos. Vestia um diminuto short azul desbotado de lycra barata, que lhe cingia a fina cintura e cobria seus diminutos genitais. Das duas caixas de som instaladas sobre uma ampla janela, a partir da qual se divisava o intermitente campus acinzentado encolhendo-se sob as nuvens negras do temporal iminente, uma canção de Carlos Gardel choramingava levemente às margens da quietude e preenchia com dificuldades o escritório do mestre musculoso.
“Sabias, jovem Tyler, que além de escritor e teatrólogo, sou também matemático autodidata?” – questionou-me, esnobemente, com um sorrisinho escavando as pontas de seus rotundos lábios rosáceos. “Aposto que não sabia de mais essa capacidade minha!”.
Empurrou uma cadeira, a qual apontou com o dedo longo afetado, sugerindo que ali me sentasse. Começou a secar as axilas ressumadas com uma toalha de rosto, assobiando o tango argentino do cantor uruguaio.
“Não sabia não, professor Francis” – assegurei, sinceramente, enquanto me ajeitava no banco sem braços.
“Ora, já sabia que não sabias. Sei que sabes que pouco sabes sobre os assuntos deste mundo. Mas ao contrário do senhor, sei de uma infinidade de fatos, inclusive sei que possui um par de mamilos bons de morder”.
“É o que afirmam por aí, professor” – reconheci, com certo orgulho.
“Sabe como uma nota quatro transforma-se em um oito, querido Tyler?” – ele mudou de assunto.
“Multiplica-a por dois?”
“Em casos normais, sim, mas, em sua situação, apenas a aplicação de uma sequência de mordidas em seus dois jovens e peludinhos mamilos faria com que tal milagre ocorresse” – redarguiu, antes de arremessar sobre meu rosto assustado a toalha empapada em líquido cítrico de seu sovaco.
Desde que havia conhecido Bernadet havia prometido a mim mesmo que pararia de morder mamilos alheios e que nunca mais deixaria que os meus, já inchados e doloridos, fato que dificultava o sono e as trocas de roupas, fossem mordiscados pelo cada vez maior número de docentes que se interessava pela coisa, mesmo que isso significasse minha reprovação ou expulsão da Universidade de Cambridge. “Olha, professor. Fico verdadeiramente grato pelo seu interesse em meus mamilos, mas eu prefiro não envolvê-los mais em assuntos acadêmicos”.
Ele, que havia ficado de pé durante toda a extensão de nossa conversa, subitamente arriou sobre sua poltrona. Parecia chocado por uma surpresa incomensurável. Seu sorriso transformara-se em uma massa tremelicante de lábios pálidos. Sua tez, antes empapada em suor, estava agora congelada pela frustração. Com as sobrancelhas arqueadas em tom ameaçatório, questionou, “O que quer me dizer? Não o compreendo”.
Ergui-me do assento magro e doloroso e respondi, empertigado, inflado por toda a coragem que consegui represar. “Quero dizer que não mais irei deixar meus peitos disponíveis para professores mordê-los conforme queiram. Não mais alugarei minhas tetas para outros mamarem”. E dito isso, em um berro fulminante o bastante para roer a estrutura da edificação na qual estávamos, atirei-lhe a toalha encharcada, devolvendo-lhe o golpe com intensidade superior, e me dirigi caminhando à porta, aturdido, impregnado pelo asco que sentia. Antes de abandonar o prédio, porém, ainda no ermo corredor e a poucos passos do início da escadaria espiralada que me guiaria de volta ao campus, tive o pescoço covardemente sufocado pela mesma toalha de rosto e lutei para me desvencilhar do ataque repentino que veio pelas costas. A acidez do suor frio rascava meu pescoço, como se aquele toalha possuísse em sua superfície milhares de invisíveis filetes de estilete. Com as duas mãos tentava impedir o contato terrível contra minha pele, mas já começava a perder a consciência. Antes de ceder à força covarde do mestre, vislumbrei, à luz rarefeita do corredor, os mamilos quase centenários de meu amor. Acordei tremendo e em pânico. Estava de volta ao escritório do Professor Francis. Tinha as mãos amarradas por grossas cordas ao encosto daquela mesma cadeira. Vislumbrei mestre Francis realizando frenéticos levantamentos de peso, enquanto fazia polichinelos. A muralha de músculos de seus braços parecia à beira de um colapso, prestes a explodir, e ele arfava a cada movimento, próximo da completa exaustão. Continuava trajando apenas o mirrado short azul e sorriu ao ver que eu recobrara os sentidos. Aproximou-se de mim e beliscou meu mamilo que se encolhia de medo. A dor assemelhava-se ao terror congelante de uma agulha penetrando minha carne. Gritei, mas ninguém ouviu – tinha a toalha suada enfiada na boca, servindo de mordaça. Prometi que sairia daquela situação são e que não permitiria viver sem perpetrar uma vingança merecida e horrorosa contra o responsável por aquele ultraje inaceitável. Professor Francis riu diante da minha impotência, vendo-me me debater, preso junto ao assento. Meus olhos vertiam lágrimas com sabor de ódio e desespero. Ele debruçou-se e mordiscou meu peitinho esquerdo e depois mordiscou meu peitinho direito e depois mordiscou meu peitinho esquerdo e depois mordiscou meu peitinho direito e depois mordiscou meu peitinho esquerdo e depois mordiscou meu peitinho direito e depois repetiu tudo duas vezes, com os olhos a cintilar como um par de faróis no negror da noite. Calado, eu urrava de dor e raiva. Entretanto, um providencial ruído de batidas na porta do escritório superou o som do sangue fervilhando em minhas artérias. O professor vestiu um terno e calças e surpreendido foi à porta atender o visitante. Por alguns minutos fiquei sozinho. Com a porta às minhas costas, não me era possível observar a interação entre Professor Francis e o bendito e inesperado bípede pluricelular que lá estava. O que pude fazer foi afrouxar um pouco o nó dos punhos. Mas então senti um toque ansioso nas costas. Era Bernadet. Vê-la ali estancou a inclemente dor que esganava meu coração e me sedou por breves instantes. Foi sua pressa em libertar-me que me devolveu à gravidade da situação. Voltei a tnetar remover as amarras de minhas mãos. Ela retirou a toalha empapada de suor e beijou-me apaixonadamente. O dulçor de seus lábios finos e secos misturou-se com o acre das glândulas sudoríparas do professor teatrólogo e matemático, e só não vomitei porque seria ridículo demais. Livre das cordas e tendo abandonado a cadeira que me servia de cativeiro, vi o corpo musculoso do Professor Francis desfalecido, estirado próximo à entrada do escritório. Tínhamos pouco tempo para fugir dali. Naquele momento, qualquer imagem referente ao meu futuro naquela instituição de ensino desvanecia de minha imaginação na velocidade dos meus batimentos cardíacos desesperados. Quando Bernadet saltou sofregamente sobre o corpo inconsciente do professor soube que não havia escapatória para nosso amor. Durante minha vez de saltá-lo senti sua mão gélida agarrando firmente meu tornozelo, amarrando-se em mim como uma algema inviolável. Ele estava desperto novamente. Gritei para Bernadet correr, descer a escada espiralada ao fim do corredor e misturar-se entre os alunos no campus, e ela obedeceu. Antes, porém, lançou em minha direção uma vassoura, com a qual, imaginei, o havia nocauteado antes. Agarrei o cabo da vassoura e com as cerdas de palha quebradiças de 40 centímetros dei-lhe sucessivos golpes na face até que ele voltasse à inconsciência e o corpo inerte lançasse mão de meu tornozelo quase necrosado. Fechei a porta rangente do escritório e sai à caça de Bernadet, abandonando o cenário grotesco com um plano de fuga mirabolante já sendo esquadrinhado por minha criatividade alucinada. Uma chuva intensa inundava o campus e o horrendo frio fazia arder minha tetinha assada. Saltei em direção do gramado alagado. Cada gota da chuva furiosa era como um golpe certeiro de um punho destruidor e fazia meu corpo vacilar. Vaguei sob a chuva por horas, revirando cada canto dos prédios, com as roupas pesadas e encharcadas, mas não reencontrei Bernadet. Então, enquanto subia o primeiro lance de escadas, que dava para o segundo andar e para meu dormitório, a umidade da chuva e minha descrença na superação daqueles imensos obstáculos venceram-me e desmaiei pesadamente, durante um passo.
Acordei com um par de enfermeiros agarrados à suas pranchetas, anotando com canetas informações referentes à minha condição física. Gemi logo que voltei a travar contato com meu corpo alquebrado. Sentia uma forte dormência no cotovelo, devido, provavelmente, à queda que sofri na escada. Suspeitei que depois de desmaiar, rolei escada abaixo e me surpreendeu o fato de não contar mais danos no corpo.
Ao meu lado, na cama vizinha, ainda inconsciente e coberto por fartas mantas de lã, estava o professor Francis. Sua face estava inchada feito meus peitinhos. Estava ligado a tubos de soro através de suas veias de professor safado. Meu coração, que havia boiado em infindáveis e inabaláveis mares quentes de serenidade durante minha perda de consciência, voltara e espernear dentro de minha caixa torácica e engasguei em desespero. Os enfermeiros se aproximaram ao verem-me consciente. “O encontramos desmaiado na escada do prédio do dormitório 3. Você estava quase congelado. Você deu sorte. Willie Nelson Jr. ligou e pediu socorro à enfermaria”, disse um deles. “Fizemos alguns exames e notamos algumas coisas estranhas em seu corpo”, informou o outro, com seriedade preocupante. “Seus dois mamilos parecem ter sido mastigados por algum tipo de animal enfurecido. A condição deles não é das melhores.” Eles me olharam, aturdidos, ainda agarrados à suas pranchetas, esperando divisar a normal reação de um paciente diante de tal horrorosa informação. Entretanto, não a viram. Perguntaram, então, “O senhor tem algum roedor em seu quarto? Deve saber que eles são expressamente proibidos pela Reitoria”. Respondi que não tinha nenhum roedor no meu quarto. Mas que gostaria muito de ter um companheiro. Contei-lhes que me sentia muito sozinho ali na Universidade. Que era natural do interior da Inglaterra e que andava me masturbando muito. E que começava a achar que professores formavam um complô para mordiscar minhas tetas. Disse que o professor ao lado era um deles. E que eu havia nocauteado-o com uma vassoura que pertencia a uma senhora faxineira com quem havia praticado sexo anal dias antes e por quem estava perdidamente apaixonado. Confessei também que estava com uma dilacerante gonorreia desde então. E quando dei por mim cada um deles mordia violentamente uma de minhas tetas. De modo que nada pude fazer. Algum tempo depois bateram à porta da enfermaria. Os enfermeiros saíram de cima de mim prontamente. Entraram empurrando uma maca. Nela havia um corpo coberto por um cobertor branco. Pelo tamanho do cadáver tive certeza que era de Bernadet. Ele era tão miúda. Do tamanho de um pigmeu com ananismo. Aquilo nem era uma toalha, parecia mais uma tolha de rosto. Levantei da cama e puxei o tecido, que era um lenço na verdade. Era ela mesmo. Dura como o meu bilau, naquele instante. Estava branca e encharcada, em posição fetal. Parecia um ovo de avestruz. “Encontramos ela atrás da estátua de Sir. Bonald McDonald. Deve ter desmaiado em algum momento. O frio fez o resto”, disse o bombeiro, o maior deles, debochadamente.
Fui até perto dele e dei-lhe toques agradecidos no ombro. A ele, ao bombeiro que o acompanhava e aos dois enfermeiros, perguntei: “Alguém aí tem um tesoura bem pontiaguda?”. “Ora, meu jovem, que sorte essa a sua, hein? Olha uma aqui, bem brilhante!”, respondeu imediatamente um daqueles que há pouco tinha meu mamilo quase a descer-lhe a goela. Tirou a tesoura de uma gaveta, a qual devia usar para cortar gaze. “Veja só essa sorte a minha! Muito Grato”, disse tomando a arma em minhas mãos. Após mostrar gratidão e muita educação, enfiei a tesoura uma centena de vezes na jugular de cada um dos quatro homens e depois decepei as duas tetas do professor inconsciente. Ele acordou para ver me retalhando-lhe a esquerda. Gritou como um bebê no escuro.
Minutos depois, enquanto tomava um cappuccino no café central do campus fui levado pela policia à delegacia onde passei doze horas até ser levado novamente para o mesmo café. Meu cappuccino ainda estava ali, pela metade. Frio. Mas tomei mesmo assim. E pedi outro. Ao fim deste fui levado pela policia à sala do reitor onde deveria dar explicações referentes a todo aquele sangue derramado. Deixaram-me ir ao dormitório antes, onde me despedi de meus grandes colegas Willie Nelson e Péricles Gasoduto. Lá fiz uma breve mudança de roupas.
Miríades de flocos de neve e orquídeas dançavam, planavam e descendiam pesarosamente do céu leitoso enquanto eu era escoltado pelos policiais. Pouco depois, encontrei-me cercado por professores. Todos sóbrios, de ternos e gravatas escuras. Conhecia-os bem. Principalmente seus dentes e línguas. Alguns jamais havia visto e notei uma vibrante curiosidade em seus olhos quando entrei na sala. Sentavam-se ao redor de uma mesa redonda enorme. Eu vestia um terno de tweed cor de bosta. Espetara uma flor na lapela que tinha as sete cores do arco-íris. Exibia contente um tapa olho pirata, e tinha delineado improvisadamente um bigode a la Dali com uma caneta Bic azul. Na delegacia, depilara as sobrancelhas e meu saco escrotal com um lamina enferrujada. Assentado sobre uma cadeira pontiaguda e fria, do lado oposto ao dos docentes, ouvi, sob um silêncio sepulcral respeitoso, as primeiras considerações do Reitor James Hunt. Hunt devia pesar 150 quilos. Seu queixo se conectava diretamente com o início de seu tórax inchado e flácido. Os olhos eram azuis como uma piscina no Caribe. Parecia um cego. Era calvo e tinha um nariz delicado como o de um mamute. “Não é a primeira vez que um aluno assassina bombeiros e enfermeiros antes de retalhar os mamilos de um professor aqui em Cambridge. E não será a última. A questão, nobre e estimado aluno Peterson Tyler”, disse-me, olhando com seu olhar vago, “é que nosso corpo docente tem uma clara necessidade de afagos furtivos com alunos com qualidades iguais às suas. Em suma, gostam de um rapaz com a “peitoca” peluda. De modo que, para que possa se formar nesta Universidade, sua pessoa terá que prosseguir a deixar que seus mamilos sejam mordiscados impunemente pelos professores. É este o acordo. Caso aceite, a policia será dispensada e você poderá voltar às aulas normalmente”.
Eu sorria. Meu saco coçava. Penteei o bigode. Disse, “entendo”. O reitor pegou uma folha debaixo de uma pilha de caixas de esfihas. No contrato para bolsa de estudos, há uma clausula que torna obrigatório que alguns alunos selecionados permitam que os professores mamem em seus peitos. Seus pais sabiam disso quando assinaram o termo, Tyler.”
Cocei o saco de novo. Estava incomodando demais. Meu bigode também coçava. O arrancaria assim que saísse de lá. “Não sabia de nada disso. Herr Reitor”, disse.
“Entendo”, afirmou o Reitor, novamente. Com um gesto de mão, chamou um ajudante ali presente para próximo de si. Cochichou e o ajudante foi até uma ampla porta de madeira, de costas. A porta que ficava do meu lado direito abriu-se em silêncio e de lá, instantes depois, saíram papai e mamãe. Papai vestia um longo vestido de seda, cor de bege, com detalhes em prata, e segurava um guarda-chuva com babados de um rosa incrível. Tinha os olhos delineados por um lápis escuro que lhe valorizava os olhos negros. A boca estava coberta por um batom cereja cintilante. Mamãe usava regata, um par de luvas de boxe e tinha uma ereção. Eles se sentaram lado a lado, próximos ao Reitor, à mesa circular de carvalho milenar. “Seus pais, Tyler! Eles sabem de tudo o que aconteceu. Veja como eles estão decepcionados com você”.
Levantei da cadeira. “Sei que meu comportamento foi péssimo. Que matei gente e cortei um par de mamilos inocentes. Mas perdi a cabeça ao ver Bernadet morta. Estou com gonorreia também. Andava me masturbando muito antes de conhecê-la. Convivo apenas com homens e faz um frio do caralho nessa porra de lugar. Qualquer um enlouqueceria em uma situação como esta”, confessei.
“Tyler, querido”, disse meu pai. Ele estava de pé e se abanava com um leque chinês enorme. Tinha as unhas pintadas de cor de merda, as quais combinavam com meu terno. “Para que você pudesse estudar aqui, eu precisei passar pelo mesmo que você está passando. Meus peitos foram fuzilados pelas metralhadoras de dentes do corpo docente desta respeitosa instituição de ensino. Mas veja, valeu a pena. Você está estudando aqui. Terá um futuro brilhante”. Ele, sensível, tirou um lenço umedecido da pequena bolsa e tocou com destreza as pupilas secas.
“Tyler, porra”, disse minha mãe, ajeitando a cueca debaixo do short de boxeador. “Seu pai também passou por isso. Lembro que ele nem mais jantava, pois apenas o descer da comida machucava seus mamilos recém-mastigados. Honre esse esforço soberbo. Não refugue feito uma bichinha diante deste obstáculo ínfimo em sua vida”.
Os dois se sentaram. O Reitor levantou. Foi até meu pai, morosamente, e abaixou-lhe o vestido. Inclinou-se sobre ele e passou a mordiscar com força o mamilo de meu progenitor. Meu pai mordeu os lábios para não gritar. O Reitor descolou a boca e me olhou. “É isso que você quer, Tyler? Que eles tenham os peitos destruídos por nossas arcadas dentárias famintas? Hein?”. Voltou a morder meu pai. Via seu maxilar se fechar e abrir. Escutava-o arfando. Meu pai chorava. Sua boca aberta, muda. De lá não nascia som algum.
“Está certo, Herr Reitor. Voltaremos à nossa programação normal. Deixe-os em paz”, ordenei, impedindo que aquilo se prolongasse. Alisei o bigode, tentando mostra uma calma que há muito não existia. O bigode também não existia. “Porém, devo informar-lhes que meu peito está liso. Retirei toda a pelagem que tinha sobre ele”. Pois é. Além das sobrancelhas e do saco, depilara o peitola na cadeia. Ouvi um gemido coletivo do outro lado da mesa. Os professores se desesperaram. Alguns levantaram, zonzos. Outros bateram na mesa com os punhos em riste. O Reitor pediu silêncio. “Não importa. Esse seu ato de rebeldia não surtirá efeito algum. Nós esperaremos que os pelos voltem a crescer. Enquanto isso as atividades serão suspensas”, ordenou.
Tive duas semanas de paz, durante as quais, enlutado, voltei a me dedicar aos estudos e tentei aceitar o que me ocorria. Ao término das duas semanas, tudo voltou. E por mais uma semana sofri abusos. Aceitei-os. Sem pesar. Numa noite de quinta feira, quando 500 orangotangos invadiram o restaurante principal e alguns alunos resolveram espancá-los com tacos de críquete, fui à suíte principal do Reitor. Era a noite dele.
Hunt morava em um amplo apartamento de estilo vitoriano em um prédio afastado. Lá, equipado por uma graúda tesoura de cortar grama, decepei seus mamilos e guardei-os em uma pochete de couro, sob minha jaqueta do time de rugby. Tranquei-o no banheiro e abandonei o lugar. Lá fora, muitos cadáveres de orangotangos espalhavam-se como um tapete negro e vermelho pelos gramados outrora verdejantes de Cambridge. A caçada continuava. Alguns dos pobres símios haviam escalado as torres e os prédios, e os alunos propunham planos para agarrá-los. Visitei em seguida o dormitório de Whitmarsh. Sai de lá com mais um par de mamilos na pochete. Duas horas depois, após outras visitas às alcovas de meus mestres, somava uma dúzia de mamilos. Encaminhei-me à quadra de vôlei, onde música e vozes preencheram tudo a minha volta. Fui até uma das geladeiras e peguei uma forma de gelo. Esvaziei-a e depositei em cada cubo um dos mamilos recolhidos. Completei os compartimentos com água fria e fui encontrar Willie Nelson, Jerry Williamson, Péricles Gasoduto, Rammy O’Relly, Frankie Crispie e Tutta Delaware. Meus grandes camaradas. Eles tinham as mãos manchadas de sangue. As roupas também. O Reilly vestia a pele de um dos hominídeos e um chapéu de cowboy. Reuni-os sob a luz mortiça da lua minguante, fora do ginásio onde se localizava a quadra, e comuniquei-os que aquela era minha última noite em suas companhias. Eles pouco se importaram com o que eu dizia e logo voltaram à quadra para buscar mais bebidas. Interceptei-os durante o retorno e disse-lhes que eu faria aquela gentileza e que gostaria de propor um brinde à nossa amizade eterna. “Apenas pegue a bebida, seu idiota”, disse Delaware. Voltei ao ginásio e fui direto ao bar. Em uma bandeija levei sete copos de whisky. Com duas pedras de gelo cada. O meu tomei puro. E comemoramos meu último dia em Cambridge.