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Midori Tanaka

A senhora que mudou o mundo, falecida ontem e nascida meio século antes, em Hokaido, chamava-se Midori Tanaka e, por ter o pai o nobre ofício de pescador, conheceu ainda  nipônica infante o animal que mudaria sua vida e conseqüentemente a minha e a sua.

Ao acompanhar o pai ao mangue, numa manhã de névoa incômoda, a senhorita Tanaka avistou próximo de seus pés descalços e enlameados um grande caranguejo correndo medrosamente para dentro da lama espessa. Foi aí, conforme contou, que ela entendeu o horror da existência humana e desejou a partir daquele instante ser como um caranguejo e poder viver enterrada em um túmulo gélido de barro.

Entendeu, também nesse mesmo minuto, que deveria protestar contra todo esse mundo, contra tudo que não fosse uma paz fria e barrosa.

Nessa época a pequena Midori começou a caminhar imitando o caranguejo sempre que se visse diante da frustração e injustiça, andando de lado, com as perninhas flexionadas e jeito desesperado. Se tivesse que ir ao médico ou ao judô ela andava normal, pra frente, mas se o médico mandasse fazer exame de sangue ela saia andando como um caranguejo, esbravejando, fincando as patinhas fortemente para fora da consulta ou, se tomasse um ipon imprevisto, lá ia ela para o vestiário chorando, fugindo da dor assim como o animalzinho assustado daquela manhã nebulosa. Mas isso vem pouco ao caso.

O que é valido de nota é como isso mudou o mundo.

Foi assim.

Perdeu o pai e meses depois sua mãe enlouqueceu – alguns biógrafos haverão de teorizar que sua mania em protestar e seu andar animalesco promoveu a abreviação da vida dos pais.

Por ser bela, Midori logo encontrou uma maneira de sustentar-se honestamente sendo gueixa em Okinawa. 

Ficou poucos dias na função, mas partiu engrandecida, ainda mais certa de sua decisão feita quando menina. Protestar era seu modo de estar, já que caranguejo, nessa vida, não mais poderia ser. Ela, mesmo tendo sofrido posteriormente ataques por ter sido, mesmo que por intantes, uma gueixa (muitos tiveram a  indecência de chamá-la de Carangueixa), jamais sentiria arrependimento por tal, pelo contrário, acreditava que se não fosse por isto não haveria de mudar o mundo tal como fez.

Imediatamente, após abandonar a labuta de gueixa, foi até a esquina mais próxima e começou a andar como um caranguejo, febrilmente, correndo paralelamente pelas calçadas, indo até o fim da rua e voltando. Ganhou notoriedade pelos 40 dias de protesto ininterrupto pelo qual submeteu-se e por fim tornou-se um símbolo da rebeldia e contestação japonesa. 

Então, no Japão, a população olhava e se visse que a menina estava por ali, andando de lado como um caranguejo, e não importava o porquê do protesto, iam todos protestar com ela e com os outros e a causa ganhava força e tudo o mais e era legal e ela andava como um caranguejo.

Esse tilintar seco e triste das patinhas insatisfeitas da menina reverbaram assustadoramente como uma bala de canhão lançada por sobre as muralhas da tradição petrificante, indo tombar danosamente sobre o sistema capitalista ocidental.  Então, nos protestos e em manifestações por direitos civis etc., que já tinham a voz arrefecendo, não mais se gritava selvagemmente por tanto tempo e em vão ou eram cantadas musiquinhas com rimas pobres ou batiam panelas ou deitavam-se diante de tanques enraivecidos - essas vozes moribundas, fadadas a terem as súplicas jamais atendidas, calaram-se e resolveram simplesmente andar assim como anda um caranguejo de mangue, assim como andava uma pequena menina do outro lado do planeta- e caladas, essas vozes minguantes foram finalmente ouvidas.

E então o mundo mudou.

Diante de qualquer injustiça ou ingerência o mundo punha-se com as pernas dobradas e andava em passos curtos, frágeis, de lado. E não havia nada que permanecesse inalterado diante de centenas de milhares de pessoas imitando um caranguejo medroso.

Terminaram as guerras. Vimos uma elevação implacável dos direitos civis de todas as minorias. Declaramos o fim da corrupção mundial, do tráfico de mulheres, de crianças, de drogas de armas, de animais. O fim dos governos e do trabalho, das mazelas, do preconceito, do dinheiro e da incompreensão, e até o Corinthians finalmente venceu a tal da Libertadores da América, um torneio de futebol supervalorizado pelos nativos de onde antes se chamava Brasil.

Em uma entrevista para um programa de televisão que eu comandei, anos antes do dia de ontem, ela resumiu-se em poucas palavras: “eu gosto de andar da mesma forma como anda um caranguejo; protestar me é natural por que não sou um caranguejo, se fosse não protestaria, somente andaria ridiculamente, como um caranguejo com medo de tudo o que não é escuro e distante”.

Vais pegar o ônibus, ó curioso animal?

Às 5:30 da madrugada – hora combinada – já estava eu com meu o táxi estacionado em frente ao prédio, apenas aguardando o cliente descer.

Averiguei o aroma das axilas. 


Tudo ok.


Então o bater metálico do portão do prédio levantou-me do banco, e pulei para fora do táxi e fiz-me quase em continência, como se estivéssemos, eu e meu batalhão invisível, em plena  visita surpresa de general.

O que vi, entretanto, não era general, coronel, cabo-armeiro, nem ao menos um tenentezinho; era sim um pequeno macaco bastante elegante, arrastando plácidamente uma mala com rodas em minha direção. Trajava um paletó cinza muito bem passado e assobiava a música de abertura dos Trapalhões.

Deslizou até meus pés sua enorme mala de rodinhas; não dirigiu-me palavra alguma, nem um olhar sequer. Depositei sua mala estranhamente pesada no porta-malas do táxi como quem deita um bebê de colo em um berço. 

Depois o símio ajeitou no rosto uns chamativos óculos escuros de haste vermelha caqui e entrou no táxi, em um pulinho lépido.

“Deve ser um desses artistas afeminados”, falei para mim, no silêncio da minha própria cabeça, e assenti com a formulação, “com certeza, cara, um macaquinho afeminado”.

Iniciei ali a prestação de mais um serviço incriticável, enquanto ele indicou o destino final: Rodoviária Novo Rio.

Vai pegar o ônibus, ó curioso animal?, perguntei para mim mesmo, novamente, mas perguntando para ele, telepaticamente. Procurava testar minha capacidade de refletir sobre as informações que me eram dadas. Estava me saindo bem, até então...

Enquanto os pneus esfarelavam-se sobre o espinhoso asfalto carioca, procurei lembrar-me se já havia  tido um passageiro macaco em meu táxi. Não, nunca tive.

Ele permanecia em silêncio, conforme contornávamos as curvas sinuosas e desertas da Linha Amarela, em uma velocidade imbecilmente alta. Depois de sermos quase ensanduichados por dois ônibus conduzidos por motoristas tão ou mais inconsequentes que eu, ele se virou - imaginei que ele iria pedir pra descer, como faz boa parte dos meus clientes. Mas não.

- Não se lembra de mim, Clóvis, seu cretinão?
- Oi?
- Sou eu, o Silvinho, o macaco do circo.
- Opa! Fala aí, Silvinho!
- Fala aí, cara, tudo bom?
- Não, não muito, na verdade. Mas e sua pessoa, vais bem ?

- Mas é claro que não vou. Você deveria estar preso depois de tudo o que fez comigo e com meus colegas, naquele circo imundo . Durante anos fomos humilhados, obrigados a usar batom, peruca; vestido cor de rosa, de noiva, de paquita, fazer malabarismo com ovo, comer banana -  eu não gosto de banana. Não ria, Clóvis, pois hoje nos vingaremos de você!

- Foi mal, Silvinho. Mas vocês merecem. Se não fossem os macacos, não existiriam os humanos, e assim, não existiriam táxis, e assim não existiriam passageiros de táxi nem buzinas, e eu não estaria em um táxi de madrugada levando um macaco para uma rodoviária. Vocês vieram com esse papinho frouxo de evoluir e tal, aí viraram atração de circo. Não se faça de vítima.

- Basta! – ordenou o primata enfezado.
- Silvio, qual o problema em se vestir de mulher? Todos adoravam vocês lá – disse o motorista ex-treinador, tentando acalmar a súbita revolta do outro mamifero.
- Olha, desde que o circo faliu estamos a sua procura. Vejo que não tens arrependimento.  Vamos para Ipanema, então! Temos uma surpresinha!

Aí ele assobiou e da mala pesada no porta-malas pularam uns trinta pequenos macaquinhos, todos igualmente elegantes, perfumados e emputecidos.

- Tá bom, mas vai ficar caro, já vô avisando; e outra, eu não posso levar mais de quatro pessoas no táxi, alguém aí vai precisar descer, viu?
- Clóvis, você parece não entender, nós estamos te seqüestrando, você fará o que nós mandarmos...
- Ahh tá... entendi. Onde em Ipanema?
- Posto 9.
- Hummm... eu sabia, Silvinho...

Entretanto, alguns macacos quiseram buscar pó na Rocinha, de modo que chegamos quando já era meio dia em Ipanema. Um sol de arder a alma do asfalto.

Estacionei o táxi e eles vieram com uma historinha esquisita:

- Durante a tarde toda você vai vestir esse biquíni fio dental e caminhar pela areia. Pra você sentir na pele o que nós sentíamos diante do respeitável público, e não pense em fugir, se não a gente zoa seu táxi, tá me ouvindo, cumpadi?
- Poxa, Silvinho, mas que macaquinho boiola cruel que você é, hein?
- Sou mesmo, tá?!

Seis horas depois encontrei-os no táxi, eu tinha boas novas: fui um sucesso absoluto na praia, me adoraram por lá, fiz amizades que resistem até hoje e arrecadei uma boa grana dos turistas que acharam que eu era algum tipo de retardado. Pedi desculpas por tudo o que tinha feito e ofereci a eles a idéia de abrir uma sociedade para explorarmos o mercado gay carioca. Hoje eu e Silvinho temos uma agência internacional especializada em turismo gay e vamos nos casar em Buenos Aires no fim do ano. Já compramos nosso apartamento na Barra e, quando voltarmos, adotaremos um bebê. Eu quero muito uma menininha japonesa; ele, um pequeno micoleão- dourado. 


Ele tende a vencer a disputa. 

Tristessa abstém-se do Carnaval



Atrás do balcão da cozinha, Beneditch - olhos miúdos de brilho vivo; movimentos plásticos e agradáveis, porém, em muito breve, relutantes e inseguros; senhor de pensamentos ágeis, certeiros, porém, talvez em uma dezena de minutos, de clareza indubitavelmente comprometida - está fazendo uma salada.

Ela é exótica, tropical, colorida e pecaminosa como a festa, segundo ele, segundo Beneditch, o homem ali atrás do balcão de granito preto indiano da cozinha de azulejos lisos e engordurados da casa alugada, paga em euros, em 12 vezes, a última para dezembro; um germânico, um ubermensch, irrefutavelmente, fantasiado de grego, com um lençol branco cobrindo-lhe uma pequena fatia do corpo branco e murcho.

Um ubermensch só, de tão ampla quanto inusitada ciência, a qual se desenrola por áreas do conhecimento muitas vezes ignoradas por prostitutas paraguaias como minha persona.

Um bodisatva vindo ao mundo em Rottal-Inn, Baviera, cujos extasiantes conhecimentos - originados de horas de debruçamentos infatigáveis sobre páginas empoeiradas de volumes bronzeados das bibliotecas públicas impecáveis - desdobram-se por temas delicados e de atual importância como, por exemplo, (poucos exemplos):  os percalços do comércio de queijo de cabra – e sua qualidade microbiológica – na Lombardia, durante a expansão do Sacro Império Romano de Carlos Magno; Beneditch, um resplandecente bodisatva vindo ao mundo para acelerar nosso processo iluminatório, de ciência jamais titubeante frente à tarefa magnânima de esclarecer a incompreensão dos não doutos ao surgirem questões relacionadas, por exemplo, e apenas mais um, ao vibrante método semiológico de Braund para o diagnóstico anatômico e etiológico das doenças do sistema nervoso de cães, gatos e patativas.

Pois sim, este homem, este ubermensch, claramente distinto de nossos modos rudes, agora, após eficazmente descascar um purulento abacaxi, arranca-lhe os miolos – e aqui os olhos vivos brilham ainda com mais vigor: o relampejar da herança assassina de seus bárbaros ancestrais; os kanis, ali sobre o granito preto indiano de alta resistência à abrasão, já desembalados e lavados, aguardando as mãos iluminadas disporem-nos de maneira inédita sobre a travessa de porcelana comprada ainda em Mite, horas antes do vôo transatlântico. O lambari, tendo as entranhas defumadas no forno, provavelmente regozija-se em um convulsionar escorregadio, deslizando pelas águas eternas do paraíso, e, com certeza, inflama-lhe o coração ter a honra de alimentar o corpo de um ubermensch, de um germânico bodisatva poucas antes visto pela população inculta de Trancoso, Bahia.

Pois em alguns segundos nosso afável Beneditch começará a sentir os efeitos do coquetel de drogas ( o nosso Boa Noite Cinderela) que eu, Tristessa, prostituta paraguaia radicada no sul da Bahia, depositei furtivamente em sua taça de cristal, antes de verter cuidadosamente cerca de 100 ml do precioso  Trockenbeerenauslese.

Benê avisa que o lambari em breve estará pronto e me chama para deitar na rede da varanda; seus olhos indicam o cansaço forçado. Puxa a saia de seu vestuário carnavalesco e tomba sobre a rede estendida. Eu deito ao seu lado e ele, com os movimentos prejudicados e fala embromada, confessa seu amor pelo carnaval, pelas praias e pela prostituição de ótima qualidade disponibilizada em todo território brasileiro.

Eu conto o quanto repudio esse acontecimento nojento, esses cinco dias de pura cretinagem consentida e dou-lhe uma noção do número de estrangeiros velhos e murchos que surgem e pedem serviços de crianças e as levam para casas alugadas à beira-mar ou então as carregam mar adentro em suas lanchas brilhantes. No carnaval não há respeito, é isso o que eu acho, permitem a monstruosidade que raramente durante o ano irrompe tímida, mesmo sempre ali, presente em cada peito.

Ele não escuta, ou não entende, já está quase lá.

Vejo seus olhos vivos e maliciosos lutarem contra o peso das pálpebras, contra o desejo de união dos cílios curtos. Sua consciência expandida e valorosa para nada adiantará quando a confusão levantar e o corpo desligar. E, enquanto lá fora, essas malditas buzinas, esse chover de papel picado e essas musicas imbecilizantes incomodarem a paz natural desse cenário edênico, eu, calmante, usurparei alguns bens desse alemão safado e chisparei escorregadia e fleumática, como o pobre lambari, para Encarnacíon, mi ciudad natal, reverei mamacita e descansarei o corpo, como sempre faço durante essa festa maldita, e depois, meses depois,volto renovada, preparada para servir todos os batalhões de turistas sexuais europeus, para comer suas saladas curiosas, para beber champagne, vinho, para passear em suas lanchas e ganhar a vida. 

O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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