Garry José Bronhovitch jamais
deixou de carregar nos bolsos das calças duas caixas de fósforos, seis
pares de luvas de látex descartáveis, quatorze tabletes de manteiga sem sal e,
ao menos, uma edição capa dura do Antigo Testamento versão pocket com folhas de
papel jornal.
Era assim.
Quem via Bronhovitch saindo da Blockbuster ou espiando com seus olhos negros as revistas adultas nas bancas da cidade logo se assustava e tratava de segurar o riso. Afinal, ele tinha dois braços delgados, compridíssimos e, nas extremidades destes, dois finos punhos impressionantemente flexíveis - sendo capaz de girar simultaneamente com muita agilidade suas duas mãos em sentidos opostos enquanto reproduzia à beira da perfeição o som das ferozes turbinas de aviões supersônicos em dia de exibição.
Quem via Bronhovitch saindo da Blockbuster ou espiando com seus olhos negros as revistas adultas nas bancas da cidade logo se assustava e tratava de segurar o riso. Afinal, ele tinha dois braços delgados, compridíssimos e, nas extremidades destes, dois finos punhos impressionantemente flexíveis - sendo capaz de girar simultaneamente com muita agilidade suas duas mãos em sentidos opostos enquanto reproduzia à beira da perfeição o som das ferozes turbinas de aviões supersônicos em dia de exibição.
Quando requisitados,
especialistas e numerosas baterias de testes e exames (Garry sofreu uma
inesperada convulsão durante a retirada de uma unha encravada na clínica pedológica
do Instituto de Depilação Vanessa) ratificaram sua ampla capacidade
respiratória, constataram suas taxas de colesterol em níveis satisfatórios e
contaram números regulares e esperados de hemácias e plaquetas a boiar pelo seu
sangue grosso de origem caucasiana.
Por mais que enfiassem objetos
pontiagudos por toda a extensão de seu corpo esguio durante os poucos mais de
quatro dias de internação, os médicos do hospital de San Diego, Califórnia,
Estados Unidos, não encontraram tumor, diabetes, câncer, otite, gastrite,
gonorreia ou uretrite aguda nenhuma em Garry - e ainda aproveitaram para
retirar por conta própria aquela pontinha de unha afiada ainda mergulhada na
carne dura do seu dedão esquerdo.
E essas boas notícias alegraram
Garry ainda mais quando ele relembrou, tendo recebido alta e sendo levado de
volta para casa depois dessa arrastada passagem pelo hospital, que mantinha
vinte e um pares de meias brancas cheirosas na segunda gaveta da cômoda de seu
quarto; que guardava secretamente quatro Penthouse’s bastante castigadas
embaixo dos seus livros de escola, e que, diariamente, independentemente de onde
estivesse ou da ocasião, punha seu blackberry para despertar às quatro horas da
manhã para comer três paçocas e anotar num bloco de notas timbrado da IBM suas
recentes vivências oníricas.
Sabia que ainda guardava em algum
canto de sua casa um grosso cobertor tricolor que o reconfortaria e manteria
seu calor corporal inalterado mesmo ante a mais polar frente fria vinda de
Vladvostok.
Sabia ainda que, ao chegar à sua
residência, ligaria sua televisão de oito polegadas e não teria dificuldade em
encontrar algum programa que o agradasse.
Sabia que seu blue-ray e suas
imensas duas caixas de som estéreo estariam implorando para serem utilizadas e
que - e isso era o mais importante-, era sexualmente ativo e conseguia criar
mirabolantes narrativas pornográficas em um estalar de dedos.
Seus batimentos cardíacos amansaram quando ele ouviu o
ranger familiar da porta da entrada da sua casa. Depois de acender as luzes dos
lustres da sala de estar, Garry pôde fechar seus olhos serenamente, sentindo o
saudoso e fraterno silêncio que finalmente o circundava.
Pelo horário avançado da noite, Juanita, a diarista
guatemalteca, já deveria estar descansando no quarto dos fundos. Caso nada
ocorresse fora do esperado, só a encontraria ao fim da próxima manhã.
Seu rosto, combalido pelo
distanciamento repentino do lar e pelo desgaste das horas de ásperos sonos nos
leitos das camas magras do hospital, aparentou preencher-se com cálidas cores e
ele, como sempre fazia quando sentia a dita felicidade formigar em seu corpo,
aproveitou o ermo cômodo para peidar - como se este gesto, que em outros
momentos poderia ser acertadamente interpretado como deselegante, o libertasse
das indesejáveis pestilências que sofrera no hospital.
Partiu para seu quarto, incontido, quase alcançando ritmo de
corrida; os batimentos acelerando-se em um ritmo perigoso e os músculos
retesando-se ansiosos. Gotículas de suor brotavam da testa e reluziram sob os
lustres da escada conforme escalava-a e depois dirigia-se para o fundo sinuoso
do corredor.
O disco prateado Rocco Goes to Montreal foi inserido no
leitor de mídia do blu-ray pela mão tremente de Garry. Das caixas despontou um
rumor suave que, conforme teve o volume aumentado, transformou-se em um hipnotizante
blues americano.
Um sorriso nasceu em seu rosto, dilatando-se gradativamente,
e ele pôde então ouvir o som tímido e quase esquecido de seu próprio riso.
Garry, antes de livrar-se das calças, sacou o tablete de
manteiga e o par de luvas dos bolsos; com dois palitos retirados da caixa de
fósforos acendeu uma rotunda vela vermelha aromatizante e deixou-a consumir-se
lentamente sobre o criado-mudo.
Da gaveta da cômoda pescou dois pares de meias.
Abriu o Livro Sagrado em uma página aleatória. Deteve-se por
minutos no seguinte trecho, enquanto lágrimas vertiam de seus olhos: “Porque
também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para
levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo
Espírito; os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus
esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas (isto é,
oito) almas se salvaram pela água; no qual também foi, e pregou aos espíritos
em prisão”.
Buscou depois as edições sobreviventes da Penthouse e também
as abriu sobre a coberta tricolor, disponibilizou-as de modo que pudesse
vislumbrar quatro fotos que, na sua maneira de observar as coisas, eram as mais
estimulantes visualmente.
Finalmente para a televisão de oito polegadas passou a
lançar olhares transbordantes de lascívia.
Sorridente, Rocco abordava uma mulher de biquíni branco, à
beira de uma banheira.
Vinte segundos depois, Garry saiu arfando do quarto. Tinha o
corpo lavado de suor e uma sede sufocante. O olhar ardente e a furiosa rigidez
do corpo pareciam agora domados de certa forma.
Afinal, para ele - assim como deve ser para inúmeros
cidadãos, sobre quem muito ouvimos falar- quatro dias sem punheta é um castigo
que não desejamos nem aos nossos piores inimigos.
Garry José Bronhovitch adentrou sua cozinha e tomou três copos de
Catuaba em três rápidos goles. Verteu metade de um saco de amendoim de
quinhentas gramas para dentro da bocarra aberta e mastigou tudo aquilo com
sérias dificuldades.
Depois demorou-se em uma extensa inspiração e foi acordar
Juanita. Tinha ainda quatro dias de atraso pra tirar das costas.
