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deus é água

Ele se arrastava, buscando auxílio com as mãos pelos portões de cores vivas dos prédios de apartamentos de cinco dormitórios. Acima dos espetos prateados (já próximos da ferrugem) da grade de um dos prédios novos e imensos, soprava a brisa pesada de cloro da piscina apinhada de crianças insolentes. Ele estancou seus passos sob uma mirrada sombra e apoiou o corpo ao pé do casulo de alvenaria branco do prédio que quase rascava a superfície das nuvens longínquas. Sob a opressão daquele dia de verão, que trazia no centro do céu a orbe solar num tom sanguinário alaranjado, o homem suarento lutava para trazer ar aos pulmões debilitados pelo longo caminhar.

Correu os olhos sem pressa pelo longo da rua de poucas almas. Escancarado estava o sofrimento daqueles poucos que, como ele, sentiam a pele derretendo enquanto buscavam sair da vista do calor imperdoável. À sombra do caule de galhos esguios que feneciam diante dos seus olhos semicerrados, o cheiro de cloro lhe penetrava as vias nasais, e sua umidade rançosa foi muito bem vinda pelo seu cansaço, o qual, aos poucos, parecia começar a se debandar.

Acima da alta e verdejante grade que impedia que esfarrapados como ele pudessem amainar o suor que queimava a face com a água oleosa da piscina das crianças, o homem ouviu as vozes suplicantes das mulheres de vocabulário restrito ralhando centenas de ordens por segundo. Tais pedidos, cheios de impaciência, nascidos do batalhão de babás que se postavam à beira da piscina, saltavam a imensa muralha de ferro do prédio e perturbavam-no quase tanto quanto o calor daquele dia incinerante.

Notou um casal de crianças pular de um carro escuro que acabara de encostar bem à frente da portaria onde a sombra da árvore magricela parecia abanar-lhe como um leque. Elas se encaminharam animadas em sua direção. Pressionaram o botão do interfone sem esconder a ansiedade em submergir nas águas redentores da piscina resguardada pela muralha intransponível cor de couve, acessível somente a alguns poucos escolhidos.

"A gente vai à piscina"- comemorou a menina, com a boca quase dentro do ouvido do interfone. "O Michael convidou" - completou o astuto garoto que a acompanhava, notando que aquela informação, àquele instante, poupá-los-ia de alguns segundos extras estorricando sob o Sol inclemente.

A porta também verde se abriu num estalo metálico, que soou ao homem encostado na portaria como as cornetas do paraíso. Ele imaginou a quantidade de ar-condicionado que deveria ser necessária para assegurar o bem-estar dos anjos no céu, e se viu descansando, deitado, imperturbado, sobre uma nuvem umedecida em água gelada, cercado de um ar refrescante a beijar seu rosto fustigado.

O estrépito da porta quando esta bateu e se fechou escandalosamente o trouxe de volta àquele inferno terrestre e ele viu as duas pequenas crianças saltitando prédio adentro, o deixando à mercê da bocarra daquele forno que estava pronta a engoli-lo. Então apertou também o botão do interfone, o qual queimou-lhe a ponta do dedo indicador. Lançou um olhar cheio de pontas ao aparelho pendurado como quem censura o próprio cão que acabou de lhe morder a mão e no breve instante em que aguardou a voz inquisidora do porteiro atrás dos vidros negros, tentou conter seu desespero, o qual era infinitamente maior que a dor que incomodava a ponta do dedo trêmulo. Não conseguiu.

"Não tem nada aqui. Vai dando o fora" - brandiu a voz pelo interfone. "E logo!"

Ele engasgou as palavras, as quais saíram embaralhas de sua boca e soaram para o porteiro como um ganido hediondo.

'Sério. Vai saindo. Tô com o dedo no telefone, em três toques a polícia tá aqui te carregando pra longe... “

Ele, como que em seu último suspiro, pôde se fazer entender: "Estou passando mal. Chama ajuda...". E desabou defronte a porta da entrada do prédio.

Minutos depois ele se viu dentro da área usufruida pelos moradores do edifício. Sob uma sombra protetora, deitado, via um imenso ventilador girando ensandecido, pendendo do alto teto alvo da portaria.

'Você já tá melhor..," - constatou, insatisfeito, o porteiro, agora através de sua própria boca, sem o intermédio daquele aparelhinho desafiador. Sentiu que poderia muito bem se levantar e arrastar a cara daquele porteiro por todo o asfalto incandescente da rua que se estendia horizontalmente ali adiante. "...respira um pouco aí e toma teu rumo antes que alguém te veja aqui" – completou, enquanto levantava o mendigo com quem pesca um saco de lixo de uma caçamba de detritos.

O mendigo soube então que aquele era o momento. Enquanto era pescado do chão, fingiu demonstrar não compreender o que ocorria além das telas reforçadas de vidro do casulo sombrio e então avisou : 'Acho que o carro quer entrar aqui...”. O porteiro, que se encontrava de costas para o portão verde couve da garagem, porque naquele instante se prestava a afugentar imediatamente o esquálido elemento do prédio luxuoso, precisou se virar completamente para atender um dos 112 patrões moradores do local. Mas quando buscou a imagem de um carro embicado através da calçada, viu apenas uma mulher negra esvaindo-se em suor enquanto claudicava até a teto precário do ponto de táxi na calçada do outro lado da rua.

E notando que havia acabado de ser enganado, voltou-se imediatamente à direção do maldito mendigo. Mas ele não estava mais ali.

Enquanto corria, ele sentia que seu cabelo chamuscava e que sua pele pegajosa, fedendo, grudava em suas roupas velhas e carcomidas, empapadas pelos litros de suor produzidos durante aquela tarde interminável. Sob o olhar das babas incrédulas, descreveu no ar uma majestosa trajetória oblíqua até a superfície da água da piscina cheia de crianças estarrecidas. Mergulhou e concluiu que Deus só poderia ser um corpo líquido, aprazível feito um mar calmo, com o qual toda a sede era saciada e todo o corpo permanecia imaculado, mesmo diante da imundice dos Homens. E com um sorriso no rosto, imergiu nas águas revoltas, em meio às crianças paralizadas, e se banhou por longos e redentores segundos. E ao mesmo tempo em que seu pulmão era inundado pelo liquido transbordante da piscina, ele, saciado, perdia a consciência pela última vez, enquanto a incredulidade das babás e a perplexidade das crianças se transformavam em um grito uníssono.


A Vingança da Irmã Transexual - Episódio 1 : Problemas no Motel


 “Bastardo, adiantou-se na pura sacanagem mais uma vez?” Ele perguntou, com os olhos presos ao incansável giro do ponteiro dos segundos do relógio de parede do outro lado da sala, ao mesmo tempo em que tinha a impressão que seu cérebro estava sendo congelado pelo jato de um extintor de pó químico daqueles vermelhos, sabe?

Levantou-se da mesa, onde gostava de passar as tardes fumando crack e derrubando pratos e copos com as pernas, e se aproximou do relógio de parede mancando - não havia razão alguma para manquejar durante aquele breve trecho, mas o fez por que era um cretino. Ele sabia disso, eu sei disso e você muito em breve vai saber também.

‘Droga!’ ele pensou. ‘A questão de trinta minutos ainda eram cinco horas e quinze minutos da tarde e o dia ainda estava clarinho como um cream-cheese em um temaki superfaturado. Por que é que o tempo se acelera para sacanear as pessoas com fortes tendências a se atrasar?’ perguntou, enquanto contemplava o negrume que adejava além das persianas da janela.

Ele acreditava que a escuridão diária era causada por alguma multinacional do ramo de lavanderias que costurava milhares de jaquetas de couro e as dispunham sob a abóboda terrestre de modo que enquanto as jaquetas se livram de alguma umidade inconveniente com a ajuda da luz, destituem os homo sapiens do calorzinho sempre gostoso que sopra do Soile.

E acreditava também que já deveria ser mais de oito horas da noite. E era. E era também mais de oito e meia e de nove horas. Para falar a verdade, era mais que nove e meia e dez horas. Mas não mais que dez e meia, por que era precisamente dez e quinze.

E ele estava atrasado. E sabia disso. E por estar atrasado, sabendo disso, estava chateado com ele mesmo, comigo, com os relógios, com o Corinthians e com o tempo, principalmente. Mas, naquele dia, estar atrasado o deixou mais irritado do que o de costume, uma vez que isso significava que inevitavelmente chegaria tarde ao único evento em que não deveria atrasar-se: a Conferência Internacional para Pessoas com Fortes Tendências a se Atrasar, onde apresentaria sua aguardada pesquisa sobre os benefícios humanitários da abolição de relógios.

Para seus ouvidos, o som da cega corrida do ponteiro dos segundos do relógio da parede da sua sala ribombava atordoantemente como o fragor dilacerante produzido por um quarteto de cordas composto somente por chimpanzés de fraldas. Ele, ainda fingindo manquejar por ser idiota, se arrastou cheio de dificuldades  até o telefone, onde pressionou o com dedo mindinho o botão intitulado on. Discou um número rápida e violentamente. Seu celular vibrou, ele o tirou das calças e disse “Alô?”. Ele respondeu “Oi, sou eu”. Ele disse “Oi, e aí?” Ele respondeu “Ah, vamos indo”. Ele disse “Sei como é”.  E ele falou “Olha parece que estamos atrasados. Mas tudo bem. Precisamos pegar sua noiva em sua casa e depois iremos à Conferência. Antes disso, porém, troque as cuecas e borrife abundantemente um perfume qualquer sobre as novas. Assim ficaremos bem”. Ele disse “Ok” antes de desligar.

Ignorou o farol vermelho, atravessando o movimentado cruzamento a bordo Ford Ka de sua irmã gêmea, sob o som das buzinas dos ônibus e dos carros que freavam e se esparramavam desordenadamente pela rua e pelas calçadas. Não ouviu nenhuma dessas buzinas e também não notou os guinchos dos pneus, ou o rumor daquelas latarias todas sendo amassadas, ou sequer os últimos berros das dezenas de vidas que se perdiam naquele instante, pois estava dirigindo impropérios para sua futura sogra, ao celular. Esta lhe dizia que ele já havia apanhado sua filha, trinta minutos atrás, e teimava em perguntar se aquilo haveria de ser mais uma das brincadeiras do rapaz. Ele falou que aquilo não brincadeira porra nenhuma. Ligou para o celular da noiva e ela atendeu, e da outra ponta da linha pôde ouvir aqueles invejáveis risinhos que florescem somente em um clima de efervescente teor sexual, sabe?

 ‘Onde você está, Carmelinha?’
‘Ora, mas quem és?’
‘Eu, oras bolas, seu noivo!’
‘Há-Há’.
Ela afastou a boca do telefone e informou alguém ao seu lado enquanto ria: ‘Tem um cara aqui no celular dizendo que é você, Miele!’ Mas aí sua voz ganhou preocupação. ‘E está ligando do seu número.’
‘Carmelinha, só pode ser mais um engano, desligue, é melhor, já estamos entrando aqui no motel’ – pediu a voz do outro lado.
E ela desligou.

Todos os pensamentos desordenados sobre aquilo que acabara de acontecer logo foram nublados por uma raiva incrivelmente incontida que começou a jorrar por dentro suas veias, e ele afundou os dois pés no pedal do freio do Ka e voltou de ré pelo mesmo cruzamento, fazendo com que novos carros, e dessa vez até duas ambulâncias, que vinham em resgate, se juntassem à massa disforme de metal, gasolina em chamas e sangue espraiado sobre o asfalto.

Ele pensou, tristonho como um recém-nascido, que ninguém lá de cima e também cá embaixo se importava com a extrema dor que naquele momento lhe machucava tanto quanto se graúdas saúvas carnívoras fossem soltas pelo interior de meus alvéolos pulmonares. E agora, além de seu atraso, vinha a seu conhecimento que ele mesmo já havia apanhado sua noiva Carmela e que neste momento ela e ele mesmo (?) deveriam estar apresentando seus documentos de identidade e escolhendo uma suíte barata para passar a próxima meia dúzia de horas em um motel borrifado pela fragrância afrodisíaca do vapor do rio Tietê.

Então veio à sua cabeça, enquanto, de ré, desviava dos veículos que cresciam e das estridentes buzinas que corriam em sua direção, que Carmela só poderia estar neste tal motel à beira do mefítico Tietê. Afinal, com 13 anos de idade, quase nenhum estabelecimento deste tipo permitia a entrada dela, com exceção do River of Love, onde o casal tinha um esquema firmeza.

Jogou o carro sobre o meio fio e subiu a breve rampa do River of Love numa corrida asmática, desviando dos muitos e trepidantes carros que formam uma fila enorme e ansiosa. Agarrou-se à cabine, arfando reimas, tossindo salivas, as quais, juntas, misturavam-se com o ar que entrava e saia. E quando notou que o ar entrava e saia rapidamente de si, ficou enojado de uma forma que quase perdeu a consciência, pensando na atual situação em que Carmelinha devia se encontrar.

Depois que seus olhos começaram a dar sentido às formas desfocadas e linhas desencaixadas do ambiente circundante, viu à sua frente o aspecto desmotivado e pouco propício a se solidarizar com o próximo que fluía da recepcionista. Ele tentou de tudo para convencê-la que estava sendo vítima de um ato de traição a poucos metros dali e que precisava entrar. Mas quando as buzinas impacientes da infindável fila cresceram e quase incineraram o parco ar que o mantinha em pé, ele começou a sentir sua nuca ensopada. Virou-se com curiosidade e nojo e viu uma Kombi decorada com motivos de uma banda de axé-music, onde um mínimo de seis amorenados homens junto a um número incontável de fêmeas se acotovelava por detrás das janelas para tentarem acertar seu olho ora com chicletes melados com um liquido viscoso e esbranquiçado, que ele rezou que fosse saliva seca, ora com cuspes certeiros, debilitantes e pegajosos– e foi aí, sem vislumbrar possibilidade de êxito, e tendo a face escarrada pelos interiores daquele grupo pestilento, que ele resolveu abandonar-se e desistir da vida e tudo o mais.

Coxeava pelo longo caminho de volta, arrastando a sola dos pés pelo áspero asfalto da rampa que agora descia, quando sentiu o ar ficar um pouco leve e confortável depois que abaixaram suavemente o vidro fosco de um dos carros de motor rosnante.  Levantou os olhos e viu um par de seres humanos que jamais pensou compor uma fila longa em um motel. Abancadas nos assentos de um Doblô castigado, estavam duas gentis freiras sorrindo-lhe um riso maternal, pedindo-lhe que ele se aproximasse prontamente. Ver aquelas figuras cheias de graça, talvez prontas para lhe erradicar todas as infinitas dores que perpassavam seu corpo, fez com que ele, por um momento, se esquecesse que ele mesmo estava traindo a si próprio.
Adiantou-se quase de joelhos até elas, pronto para receber algum tipo de benção redentora, e ouviu da primeira freira:

‘Que porra você estava fazendo ali, meu filho? Não sabe que todos aqui têm pressa em conseguir um quarto?’
‘Desculpe, mas eu... ’
‘Filho! Todos são iguais diante Dele. Todos querem um quarto. Aguarde a sua vez, tá ok?’

Ele abaixou os olhos quando notou seu sangue ferver como uma pastilha de vitamina C.  E não agüentando a nova desonra imerecida, com os dedos das mãos afastados uns dos outros e com as pernas arqueadas para fora como uma rã lançada de uma catapulta,  saltou através da janela do carro e passou a esganar sem dó os pescoçinhos finos das religiosas enquanto solfejava a música tema de A Noviça Rebelde em sua cabeça.

Foi tudo muito rápido. Vestiu-se com os respeitosos trajes de uma das freiras. O corpo desta, nu, ele rapidamente desmembrou usando uma faca descartável de plástico que guardava na meia esquerda. Pôs alguns trechos do corpo da monja no porta-luvas. As orelhas, dedos e nariz, ele conseguiu alocar com eficiência no case de CDs. Mas a maioria do corpo ele jogou com certa displicência para debaixo dos bancos. A fila em sua frente andava. Sua vez estava próxima. A outra freira permaneceu intacta, no banco do passageiro. Ele deixou-a como se ele dormisse, com o rosto apoiado na janela, placidamente.

‘Olá! Boa noite’ – rosnou a recepcionista.
‘Boa noite. Queremos um quarto’ – respondeu, caprichando nos agudos.
‘Qual tipo de quarto?’
‘O mais barato mesmo, minha cristã. ’
‘Como assim?’ - seus olhos cresceram, querendo pular fora das órbitas.
‘O que foi? Não me diga que odeia a Igreja e que por isso não nos deixará entrar. ’ – respondeu, imitando com exatidão os trejeitos de um homem travestido de freira.
‘Imagina, Freira Freire. Estou brincando com a senhora. A suíte para o exorcismo de hoje já está preparada desde a tarde!’
‘Suíte?’
‘Sim, prontíssima. Vejo que hoje vocês terão muito trabalho. O sujeito aí no banco de trás parece estar bastante debilitado pelas forças do mal.’

Miele olhou pelo retrovisor, olhou de novo e não acreditou no que via e nem na força de seu azar: amarrado e amordaçado, o sujeito cujos traços e formas em nada agradavam o encarava com um sorriso demoníaco.

O Odiado Pescador de Enguias de Shandong

De acordo com o China Daily, em 2008, um chinês caiu em uma banheira de hidromassagem cheia de enguias enquanto se preparava para uma sessão de esfoliação em um spa de Beijing e teve de ser levado ao hospital às pressas. Não resistindo aos ferimentos internos, foi a óbito às 21h32min do dia 29 de fevereiro.

Esse chinês, cujo nome era Zhang Nan, era um homem simples que beirava os 40 anos de idade à época da tragédia. Era original da litorânea Weihai, extremo leste da província de Hubei, mas era, entretanto e sobretudo, um homem só e completamente apaixonado pela vida marinha.

Passava as manhãs e as tardes de seus dias com os pés a brincar pela superfície do excelso Mar Amarelo, enquanto aprumava a esguia vara com que buscava pescar enguias. Chegava a levar para casa duas dúzias dos naturalmente gelatinosos animais todos os dias, e deles se alimentava muito bem. Com o restante lucrava um mínimo sustento, vendendo-o depois de transformá-lo em uma boa quantidade da principal iguaria da localidade: gelatina de enguia.

Os animais marinhos, tão sórdidos como as línguas peludas das lhamas de Cuzco, muito antes de Zhang Nan avistá-los pela primeira vez pelas profundezas do mar, já eram iguarias tradicionais e muito apreciadas entre os ingleses, que as nomearam de jellied eel e se alimentaram delas repetidas vezes durante os difíceis tempos dos bombardeios alemães. As enguias eram pescadas do próprio Tamisa, e depois disso, eram acrescidas de purê de batata e empadões de carne antes de devoradas pela trépida fome.

Mas, ao contrário dos ingleses, Zhang Nan fatiava as enguias pescadas e as cozia em caldo de peixe, feito de suco de limão, noz moscada e temperos básicos. Depois era só colocar o produto final em pequenos potes de plástico descartável e vendê-lo.

Seu processo era conhecido pela patuléia de Weihai, apesar de inimitável. O que não era de conhecimento, apesar de alguns suspeitarem, era que das 12 enguias pescadas, em média, por dia, Zhang Nan guardava sigilosamente uma, à qual só daria atenção quando a cidade aquietava-se e, já de pijamas, espreitava os braços de Orfeu a cingir seus muros.

Então, em seu quarto, Zhang se despia e depois de deitar a enguia cuidadosamente sobre os lençóis, mantinha relações sexuais com o animal morto até a primeira incidência dos oblíquos raios solares do dia posterior.
Pelo fim da noite de 28 de fevereiro de 2008, em Weihai, à porta de seu mefítico tugúrio, uma senhora - já com o fígado a boiar sobre a superfície de uma pequena lagoa de rum, amoras e enguias fatiadas - observava as adejantes estrelas a brilhar sob o manto negro do universo quando passou a notar a incômoda presença de um carro estacionado em frente à entrada da reservada e parcamente visitada morada de Zhang Nan.

Para ela, incômodo muitíssimo maior foi ver seis homens carregando Zhang nu e o arremessando violentamente por sobre os bancos traseiros e não poder esboçar reação solidária alguma - quando pôde dar seu primeiro desequilibrado passo em direção ao veículo, a senhora já o via a metros distante, levantando uma comichosa poeira que a fez espirrar, tossir, e que foi a provável razão que a levou a vomitar copiosamente parte do tóxico conteúdo que carregava em suas entranhas sobre o deitado e igualmente alcoolizado Zhang Nam, um coreano que, com extrema competência e sucesso, se passava por chinês havia 34 anos.

No dia seguinte, já em Beijing, o cativo pescador de enguias de Shandong foi arrastado pelas orelhas até o spa “The Peninsula” e, manietado, à beira de uma banheira de hidromassagem cujo interior era repleto, vejam só, de inúmeras e agitadas enguias, viu-se diante de Zhang Mam, o Ministro da Pesca chinês.

Mam sorriu em tom zombeteiro e agradeceu o pescador por sacrificar-se heroicamente pelo crescimento econômico do país e por oferecer a vida para alavancar os descendentes números da exportação nacional no setor. E então, com clara repulsa, o empurrou para dentro do conteúdo enfurecidamente faminto, o qual penetrou diversas e repetidas vezes por todos os orifícios possíveis do pescador antes de se dar por vingado e saciado.

Já no mês de março daquele mesmo ano, a China obteve aumento considerável em sua balança comercial, alcançando US$ 256 milhões de faturamento e registrando um aumento superior a 40% em suas exportações de enguias se comparado ao mês anterior, o último mês de Zhang Nan.

Há pelo menos duas décadas corre o persistente rumor que o país asiático, diante de épocas de  dificuldades econômicas do setor pesqueiro, tem por hábito oferecer carne humana às enguias como forma de estimular a captura desses animais e o conseqüente crescimento do número de toneladas exportadas.

O aumento das exportações, segundo os principais periódicos do país, de fato, se deve principalmente à expansão da indústria de pesca, à melhora tecnológica contra desastres naturais e ao aumento da demanda no mercado internacional, incluindo o Japão e Europa.

Já para os periódicos marginais e para algumas organizações sociais, o aumento deve-se unicamente ao sacrifício, em épocas de crise, de seres humanos odiados por enguias.

O Vagabundo


Não poderia estar mais errado quem afirmava que Mardônio não passava de um madraço irrecuperável, que nada mais era que outro largado componente da desmesurada massa de ociosos. Afinal, aquilo não era uma questão de vagabundagem. Realmente não era.


Nascido na aurora do novo século, Mardônio viu as primeiras cores da vida terrestre somente após um hercúleo esforço. Sua mãe, por não mais respirar e poder auxiliar no parto, deixou ao infante toda a tarefa de vir à luz.






Não se nega que até o termo de seus cinqüenta e quatro anos, Mardônio tenha se divertido pacas e se preocupado pouco. É verdade que vivia em um espaçoso e sossegado palacete com seu misericordioso tio. Também não se pode negar que estudou o necessário quando ainda mancebo e relacionou-se como seus semelhantes o tanto suficiente já na vida adulta. Suas atividades, de fato, nada tinham que lembrassem a horrenda labuta. Gostava era de ler Aristófanes em grego, espraiado em seus aposentos; de trocar a água da dentadura da Vó Guiomar por gim; e de andarilhar, enquanto sonhava com o que o futuro podia trazer-lhe, pelas imensas plantações de laranja-lima que anteriormente haviam sido de seu avô.

Foi então que em 1954, seu tio aconchegou-se em um lado na cama de Mardônio, enquanto este já estava pelas últimas linhas de Lisístrata, pela quinta vez. O borrego irmão mais jovem de sua mãe trazia nos olhos um pesar inédito, uma tristeza notória, e aquilo o assustou imensamente; seus modos, que haviam sido sempre um pouco borrelos, tinham dado lugar a uma senilidade atordoante.

Disse o tio, acompanhado por um esterto arrastado: "Mardônio, em pouquíssimos instantes eu estarei morto..." E, dito isso, caiu morto, para a completa surpresa do menino Mardônio, que precisou ainda ler as últimas letras da comédia grega para então clamar por socorro.

Dias depois, Mardônio veio entender aquilo que seu tio viera compartilhar. As laranjas-limas já não eram boas o suficiente para o gosto dos paulistas da capital. Eles as estavam trocando por outras, provenientes de Matão, as quais diziam ser mais proveitosas, mesmo ante sua qualidade notadamente inferior.

Mardônio então atinou. Aquilo haveria de ser o fim da centenária lavoura, o ocaso da doce e mansa vida que levara até então.

O primeiro caminhão a passar pela estrada diante de Limeira levava Mardônio, uma quantia irrisória de papel-moeda em sua maleta, e também a ânsia do homem em trabalhar. O caminhoneiro, por perceber aquela ansiedade latente, pôs Mardônio em frente ao amplo volante, incumbindo-o de direcionar o veículo e sua provavelmente valiosa carga, e então passou a dormir pesadamente até chegar à capital paulista.

Foram duas as semanas que Mardônio levou para encontrar seu primeiro emprego. Na manhã do seu primeiro dia, ele, de fato, havia acordado contrariado; não gostaria de deixar sozinha aquela dama tão companheira, aquela coberta tão quentinha e maleável. Mas o fez. E feito, encaminhou-se obstinado. Mas ao lá chegar, seus olhos incrédulos tinham à frente apenas uma massa cinzenta e ainda chamuscante. O almoxarifado havia sido consumido pelas chamas desavisadamente durante a madrugada anterior, o que punha Mardônio novamente no time dos indolentes.

Foram mais seis semanas sem desempenhar atividade remunerada até o dia em que um senhor um tanto afetado pela idade o aceitou como cozinheiro de sua lanchonete. Mas, outra vez, ao chegar contrariado ao comércio de seu novo empregador na manhã seguinte, avistou o local em plenas chamas, deitando uma abaçanada fumaceira pelas ruas adjacentes.

Nos próximos dezoito anos, período em que Mardônio sofreu em decorrência dos parcos recursos e arranjou-se como deu, a cidade de São Paulo computou cerca de 112 incêndios - número que, curiosamente, coincidia com o número de empresas em que Mardônio havia arranjado, porém jamais exercido, algum cargo ou atividade.

No dia 24 de fevereiro de 1972, Mardônio acordou com a certeza de que dessa vez as coisas dar-se-iam de maneira distinta da dos ulteriores acontecimentos; tinha algo em si que lhe assegurava que aquele dia haveria de ser o dia em que trabalharia pela primeira vez.

Com claras dificuldades, guinchando um som metálico e arrastado, um dos elevadores do Edifício Andraus escalava 22 andares . E enquanto ascendiam, Mardônio  imaginou o obscuro corredor que o conduziria até a entrada da firma de papéis fotográficos onde começaria como atendente naquela mesma manhã - em sua fantasia, a porta tinha a aparência de uma porta enferrujada dessas de cadeias. Mas no mesmo instante em que pôs seus calçados maltratados para além das portas descortinadas do elevador, notou que pelo ar dançavam miúdos pedaços de papel esturricado, e que mais adiante, a própria porta da firma, que nada tinha de metálico, já se encontrava devorada pelo fogo, revelando as entranhas da firma em processo de incineração.

E durante os vindouros  dois anos, Mardônio não encontrou alternativa exceto alugar gratuitamente um espaço embaixo de um viaduto perto da Praça das Bandeiras, enquanto, pertinaz como somente ele, ainda vasculhava a metrópole em busca de uma atividade remunerada.

Atividade que encontrou somente em 1974, quando, na cálida manhã de sexta-feira do primeiro dia de fevereiro, ele, então com 73 anos, viu-se sentado na mesa da Agência de Turismo Gastão, localizada no décimo terceiro andar do suntuoso Edifício Joelma. Mardônio, finalmente, viu-se, naquele instante, a trabalhar! E foi somente naquele instante, pois no instante seguinte o teto em chamas do andar superior despedaçou-se e esmagou toda a área da sala onde ele ainda sorria, imaginando a felicidade do falecido tio em vê-lo finalmente a trabalhar.




Roubaram a bicicleta do Da Vinci - Parte 1


Léo. Somente Léo. Terminava aí, na letra "o". Para além da vogal, somente silêncio. Bom, isto é o que dizia Léo. "Mas olha ali, meu, olha aí no RG pra você vê! Olha aí! Tá vendo? Pois então, é Leonardo o nome do cara. Lê mais aí. Viste? Leonardo da Vinci. Esse é o nome do Léo, Perícles!"

Nenhum de nós conseguiu assimilar com presteza aquela desmesurada informação. Ela pareceu oprimir todos no laboratório. Olhei bem ao redor. Todas as sobrancelhas curvadas em plena interrogação. Certamente, longe de qualquer comichosa dúvida, muitos voltaram a vista para algum canto de desktop,a Alguns poucos ousaram pairar o olhar por sobre o acelerador de partículas. Naqueles confusos minutos, uma questão irrespondível era por nós compartilhada: por que ele, durante todos aqueles meses confraternizantes de estágio, ter-nos-ia obliterado seu nome completo de batismo, nome-homenagem demasiado acertado, mui apropriado para um homem da resplandecência intelectual de Léo?

Do silêncio nasceu a ribombante risada de Péricles Arraia - 40 centímetros de circunferência de panturrilhas - recorde medonho. Dois piscar de olhos depois, ruidosas  e desvairadas risadas foram paridas uma a uma, vindas à luz em uma sequência misteriosamente ordenada; como se algo próximo de um terrível efeito dominó tivesse apoderado-se dos físicos dos colegas físicos. Depois, as risadas se foram espraiando, jmas já cavalgavam biliosas, rumando para minha baia. Senti como se tivesse defecado meu almoço nas cuecas de algodão de uma só vez, tamanha havia sido a rumorosa gargalhada que explodira de minha garganta. Ora, era uma felicidade intensa! Aquele nome parecia necessitar-se de escárnios incontidos.

Entretanto, o que houve foi que, para minha completa infelicidade e ruína, eu, de fato, havia defecado a totalidade de meu almoço nas minhas cuecas recém-lavadas de algodão. E isso não contribuiu de forma nenhuma para meu bem-estar ou para a minha planejada ascensão social. Mas vamos nos esquecer desse detalhe, não nos é válido escrutinar com tamanha avidez esta história que lhes conto. Singremos ainda pelo mesmo mar, porém, sem deixar que nossas voláteis atenções vislumbrem litorais de sorridentes terras.

Foi então que no dia seguinte, tanto eu, Euclídes, como o pobre Léo, fomos tornados alvos dos mais impensados opróbrios e também das mais extensas ignomínias. Mas naquele mesmo dia, enquanto almoçávamos escondidos no banheiro, nós dois notamos, como que no mesmo instante, a necessidade de pararmos de ser avacalhados por todos aqueles físicos e matemáticos espertalhões de uma figa.

Com suas hirsutas costas das mãos e seus oblongos e graxos dedos, que eram de uma sordidez tão intragável que ele próprio evitava estendê-los em um costumeiro gesto de cumprimento, cônscio de que seu gesto seria rechaçado peremptoriamente por todo o corpo científico, Léo pôs de lado sua marmita ainda pela metade e me sigilou algo que ainda hoje teimo em compartilhar.

Naquele banheiro diminuto, ainda enquanto Pedrinho permanecia abancado sobre a privada tratando de evacuar de seu interior o tanto que podia, Leonardo da Vinci me assegurou ser capaz de viajar no tempo de uma forma incrivelmente acessível. Revelou-me que dessa forma nos poderíamos encontrar-nos libertos de toda a chacota à qual estávamos sendo expostos desde o dia ulterior. Eu achei ótimo tudo aquilo.

Mais tarde, sob total privacidade, isolados de qualquer contratempo, Léo me confidenciou seu esdrúxulo plano. De acordo com ele, para viajar através do tempo e espaço, bastava subir em uma bicicleta e alcançar a velocidade de 35 quilômetros por hora. Porém, o detalhe que já lhe escapava tornava aquilo apenas um tantinho mais complicado: a velocidade deveria ser alcançada de ré, com o ciclista de costas, ou seja, contra o movimento natural da bicicleta.

Depois da concisa explicação, que no momento não me pareceu carecer de conteúdo adicional, ele olhou bem dentro dos meus olhos. Estávamos jantando lá em casa. Deliciávamos um impecável Fettuccine à Carbonara, receita indicada por Karina Pedrisco, enquanto as luzes das velas que se consumiam lentamente cinzelavam em seu semblante formas ainda mais robustas e irresistíveis... - bom, mas deixemos essas frívolas informações de canto. Urge-nos explicações sobre o propósito da viagem temporal, que segundo Léo era simplesmente matar Leonardo Da Vinci.


Otto Von Schwintzger, o homem que peitou um avião, enquanto aguardava um pastel de queijo


Ele acordou de pé. Já em vias de sentar-se. Ou seja, nem lá nem cá. Se bem que, deixa-me ver, é, bom, agora ele se sentou mesmo.  Então, sim, agora ele se encontra sentado, de fato. E está olhando para uma xícara de chá. Sai uma fumaçinha de lá, e ela parece cheirosa e quentinha. Tenho certeza que ele deve estar pensando alguma coisa como “que fumaçinha cheirosa e quentinha essa desse chazinho”.

Ele acordou já sentando, no meio do movimento descendente, como falei ali em cima, né?  Certo, então vamos prosseguir. Acho que ele agora deve ter pensado alguma coisa como “é ótimo acordar desse jeito, sem ser deitado numa cama ou em alguma coisa semelhante. Já acordar vestido e no trabalho, enquanto estou sentando na minha cadeirinha. Um sonho de americano esse, indiscutivelmente. Que coisa gostosa!”

Eu teria pensado isso, eu acho - ou será que não? - não, provavelmente sim.

Mas olha lá, ele começou a uivar. De felicidade, acho. Não sei. Agora parou. Que maluco. Deu uma ganidinha, e agora, enquanto esse frêmito ainda sacoleja seus interiores, resolveu pegar o telefone. Lá vai, ele vai falar. Leva o telefone à orelha e diz, se dirigindo como se interagisse com uma entidade invisível posicionada sobre sua cabeça, no alto da sala, entre o lustre e a janela enorme que se abre para a paisagem mais famosa do mundo, nesse começo de setembro.

“Bom dia, meu assessor maravilhosamente competente. Tu és esplendido, ó profissional estonteante! És ou não és?”

“Sou sim, sim sou, sim, acho.” respondeu uma voz sincera e tímida, vinda do outro lado da linha, precisamente do andar 93.

“Ora, então és como suspeitei. Esse ponto já me é bem claro agora.”

“Sim, parece que está claro que lhe parece claro.“

“E como vai seu dia? Digo, pessoalmente...”

“Estou com um pouco de dor de cabeça. Mas hoje é terça-feira, Mister Schwintzger, e tem uma festinha ali no West Upper Village”.

“Ora, ora, ora, meu garoto, ora! Ora! Mas que bela notícia. Não tem como não notar que você trabalha todos os dias, de manhã até o fim da tarde, e às vezes até de noite, e de madrugada, e também de manhã, de novo. Então: é bom sair um pouco, ir atrás das raparigas, não é, hem?”

“Sim! Mil sins! E hoje acordei meio putão, sabe?”

“Sei sim. Sim sei. Opa, como sei. Eu próprio já fui muito putão nessa vida.E sabe de uma coisa, meu menino, ainda tenho meus dias de putão...”

“Ora, mas isso é legal demais, Mister Schwintzger. Gostaria muito de um dia ter a honra de acompanhá-lo em mirabolantes putarias pela nossa New York City. Alias, seria ótimo se o senhor me acompanhasse esta noite, pois eu realmente estou precisando lhe comunicar uma coisa o quanto antes. Infelizmente, não é algo muito legal.”

“Mas que história esquisita é essa, meu querido assessor? Justo durante essa manhã inestimável, quando ainda mal fulgura um dia tal qual este que desabrocha defronte nossas faces , tão intenso e radiante, tu me vens com essa muito esquisita conversa de “coisa não muito legal”?”

“À noite podemos conversar melhor, meu querido mestre Mister Otto Von Schwintzger. Olha, você é como um segundo pai para mim. Eu não poderia viver sem sua presença a me guiar pelas áridas veredas de nossa existência. Se acontecesse uma tragédia horrível, tipo, sei lá, se um avião batesse aqui e explodisse uma quantidade infindável de gasolina incinerante exatamente sobre essa sala, e eu não estivesse nela, e estivesse apenas o senhor - eu não poderia sobreviver!; sabe, sem sua gentileza a me guiar, seria como se eu mesmo morresse no momento desse improvável acidente que usei como esdrúxulo exemplo!”

“Obrigado,meu  assessor. Mas agora repare as horas aí em seu relógio. São 8:30! Já é hora do meu pastel de queijo de terça-feira, hem? Não é? Pode ir pegar lá para mim? Sem pressa, ok? Eu não vou sair daqui.”

Bom, agora ele desligou o telefone. Levantou, abriu a janela. Ligou o rádio, lá toca La Bamba, Richie Valens. Assobia, acompanhando a levada gostosa. Remexe as cadeiras contidamente. Anda até a porta. Abre, antes de fechar, antes de abrir de novo, enquanto ouve as lamúrias da madeira da que acaba de fechar mais uma vez, pela última vez.

Esquenta mais um pouco de água. Sobe o vapor. Assobia. Vai até a janela. Para de assobiar. Nas mãos apenas a caneca esfumaçante. Está parado. Não ouço sibilo algum. Mas há um zunido crescente, engordando aos poucos, esganiçando um berro metálico vindo de lá de fora, além da janela, que preenche toda a sala, e faz vibrar toda a estrutura do prédio. Ele parece meio assustado. Bom, agora é claro que ele está assustado, e muito. Porque ele vê um avião berrando, monstruoso, rasgando o céu da manhã recém-desperta. Lá vem, em sua direção, pronto para engoli-lo em meio aos gritos das turbinas e os guinchos dos metais.

Mas não vai ficar assim, ao que parece. Ele começa a tomar distancia, empertigado-se corajosamente, caminhando para trás, morosamente. Afastasse mais e mais da janela aberta e então corre em sua direção, veloz como pode, enquanto o hercúleo bico adentra a sala e explode parte do prédio gigantesco 

Ele - e isso acontece em um brevíssimo instante – consegue adentrar o vôo 11 da American Airlines através de uma milagrosa cavidade escancarada, pois, um centésimo de milésimo de segundo antes os vidros da cabine de pilotos espatifaram-se ao chocar-se com a carcaça do World Trade Center. E durante um milésimo de décimo de segundo, Mister Schwintzger, filho de um nazista morto em Nuremberg, vocifera “Toma essa seu pequeno árabe imundo“, enquanto atira o conteúdo infernal da xícara no rosto do piloto suicida, antes que os dois e mais quase uma centena de vidas sejam incineradas pela explosão das toneladas de gasolina da aeronave.

Se você estivesse lá nesse dia, durante aquela coisa toda desmoronado e sujando tudo – alias, os verdadeiros heróis americanos foram os limpadores de rua-, poderia ter encontrado o aluído assessor, mantendo nas mãos um pastel murcho e salpicado de farinha de concreto, falando com um monte de tijolos, alvenaria e ferro retorcido, que tinha a curiosa forma de uma camelo, as seguintes e tão tementes palavras: “finalmente quando eu tive coragem de contar que eu tinha engravidado a mãe dele, uma senhora iluminada que você nem ninguém jamais conhecerá, que no alto de seus 84 anos mantém uma lucidez invejável, pelo que falam lá na casa de repouso, um avião bate sem querer nesse prédio. O cara não viu o Word Trade Center na frente não? - como isso me é possível, oras? Ele era meu segundo pai, e eu só queria ser um tipo de segundo pai dele”

Vespúcio e sua vespa - Parte 1

Muitos ainda hão de lembrar-se da horrenda tragédia ocorrida no dia da inauguração do Instituto de Depilação Vanessa em Vespasiano, Minas Gerais, Brasil, 1989.

Entrementes, pouquíssimos hão de lembrar-se do dia em que Creuza, tendo nos braços seu pequeno recém-nascido e fugindo de meia-dúzia de funcionários de um restaurante, depois de ser abandonada por um misterioso piloto de um  balão movido a gás hélio, número atômico 2 (dois), adentrou a fronteira da tal localidade conhecida como Vespasiano, incrustada timidamente no estado de Minas Gerais, Brasil, no ano de Nosso Senhor de 1974.

É fato também que ninguém além dos envolvidos conhece a verdadeira razão para Creuza chegar a Vespasiano fugindo de furiosos funcionários depois de abandonada pelo dono do balão, ou o motivo pelo qual seu mirrado rebento recebeu a alcunha do destemido Américo Vespúcio, sendo que a ignóbil moçoila jamais teve a menor noção de que existisse para além dos mares de morros mineiros algo como o Oceano Atlântico ou a Europa, e que se pudesse chegar a este através do outro.

Na época em que Creuza deixou sua cidade natal, a mui popularesca novela Roque Santeiro era um sucesso estrondoso de audiência. E talvez inflamado pela narrativa atordoante da produção televisiva, ou pelo excesso de cachaça que já empapava seu fígado degenerado, o insano prefeito de Matosinhos - cidade onde Creuza nasceu e reproduziu-se um bom número de vezes - aprovou a lei que tornava obrigatório registrar todos os nascidos do sexo masculino com a alcunha de Lima Duarte.  

Quase uma dezena de meses depois dessa decisão idiota, a bastante embuchada Creuza deu à luz a dois meninos maravilhosos, belos, e com apenas umas duas ou três verrugas na cara, mas recusou-se peremptoriamente a chamá-los de Lima Duarte ou de qualquer outro nome que não emergisse de sua própria inteligência.

Como ninguém se importou com tal recusa (as crianças vieram ao presente mundo em dia de jogo do Atlético-MG, em um ermo pasto enlamaçado, distante de qualquer par de globos oculares que não pertencesse a ovelhas ou bodes), Creuza pode viver tranquilamente durante algumas boas semanas com os únicos de seus filhos que não foram raptados por nenhum dos inúmeros abutres que circundavam o espeço aéreo da região, e se dedicou a pensar nomes para os meninos.

Mas não conhecia nome algum além de Lima Duarte e Benjamim Constant, e como seus filhos anteriores foram nomeados respectivamente de Benjamim Constant, Constant Benjamim, Benjamim, Constant e Benjamim Constant II, Creuza viu-se sem nome algum para suas mais recentes crias.

Então, em uma manhã dessas daí, Creuza esgueirou-se até o sebo do velho Albino Pinto, ali na praça central de Matosinhos, e perguntou se não haveria de existir por aquelas prateleiras lavadas em poeira uma tal de “Encicropédia Bitranica”.

O velho foi, e voltou com um grosso volume de capa vermelha. Creuza pediu que ele abrisse o livrão em qualquer das páginas e lesse o primeiro nome com os quais seus olhos remelentos topassem.

- Bucéfalo! – vociferou Albino Pinto.

Creuza emputeceu-se, e imediatamente ordenou uma nova tentativa. O velho empertigou-se diante da negação da mulher, e depois de abrir em uma nova página de forma completamente aleatória, a ponta de sua unha recém-lixada achou o nome Américo Vespúcio.

- Hum, esse tá é bom! - conferiu a mulher – Agora outro!
- Amedeo Clemente Modigliani! – vibrou o velho, assim como haveria de vibrar meses depois, quando o salafrário do marido de sua filha marcasse o gol contra mais inexplicável da história do “Casados X Solteiros da cidade.

A mulher inflou-se em dúvidas, mas desistiu de teimar em usar o cérebro em assunto frouxo como aquele e fez a dupla de nomes ser aceita por seu espírito de mãe. Mas antes de sair do sebo plenamente satisfeita,  aplicou uma justa voadora na pilha de livros que guardava a entrada daquele sebo sem razão.

Horas depois, Creuza pegou seus filhotes no colo e subiu até o cume da mais alta montanha daquele geologicamente aturdido perímetro. Sentia-se decidida em chispar daquele lugar e nunca mais reencontrar Albino Pinto, cujo pinto havia sido, nove meses e algumas boas semanas antes, o promotor de todo o embucho e posterior parimento das crianças que ela agora carregava onerosamente por sobre os ombros fustigados.

À beira de uma faminta e profunda garganta, cavada longos quilômetros terra abaixo, nossa querida Creuza fez-se distraída por observar uma pedra que se mantinha calada mesmo quando importunada por musgos e formigas e mulheres em fuga, e foi aí que seu amado Amadeu Modigliani largou de seus braços e mergulhou rumo o breu de onde nascia o pestilento abismo, e depois de deitar-se estrondosamente por entre algumas especialmente afiadas rochas que decoravam o piso do precipício, o menino passou a apresentar um aspecto físico muito parecido com o de uma gostosa sopa de mandioquinha.

Entristecida, Creuza tratou de sinalizar ferozmente, pedindo carona para que as nuvens apressadas que corriam para o poente tirassem-na de lá imediatamente.

E então, para o fascínio dos olhos lacrimosos, indo contra todo o bom senso que permeia esta narrativa, desceu de uma alva nuvem um balão enorme, o qual fez questão de pairar ao lado da mãe enlutada por alguns momentos como um beijo-flor analisando o aroma de um tentador botão. De dentro do veículo alado, uma mão estendeu-se cheia de ternura; aconchegou a mãe e filho sob sua proteção, e partiu por entre as nuvens para Vespasiano, Minas Gerais, Brasil - e isso foi em 1974.

O Tenente-Brigadeiro-do-Ar Hércules Arraia, que pilotava com maestria ímpar o balão imenso, certificou-se que qualquer júri neste planeta lhe daria razão e, sendo unânime sua absolvição diante de um juiz hipotético, estaria de volta aos céus e ao seu balão sem tardar.
Pensou nisso realmente, vislumbrando a possibilidade de arremessar para fora do balão, com um satisfeito sorriso no rosto, aquela mulher e o bebê que não cessavam um instante sequer, respectivamente, de falar e de cagar - apesar de certa hora terem trocando as atividades - mas isto foi uma vez só e queria apagar de sua lembrança a imagem da mulher acocorada, surpreendida pelas primeiras palavras do menino Vespúcio.
O fato desencadeador de todo aquele cruel exercício de imaginação judiciária, que felizmente não foi levado a cabo, e que havia aborrecido sua comumente tranqüila alma, foi perceber que a mulher estava utilizando suas calças oficiais guardadas na mala como fraldas descartáveis para o menino - e para ela também, na ocasião do terrível momento supracitado.
Mas Hércules Arraia sabia que era homem bom e que podia até imaginar uma morte horrenda para aqueles dois pobres coitados, mas empurrá-los daquela altura jamais haveria de acontecer. Tinha outra alternativa em mente.
Pousou o balão no estacionamento de balões do Frango Assado, já a poucos quilômetros da cidade de Vespasiano, e disse, sem deixar de transparecer certa ansiedade “Acho bom comermos alguma coisa. Mas antes preciso validar este ticket. Vá em frente e pegue algo suculento para este meninão desjejuar. Encontro-os logo em seguida”. “Farei isto sim, Tenente- Brigadeiro-do-Ar”, consentiu a mãe do diminuto Américo Vespúcio.
Longos minutos após este breve diálogo, a mãe com o filho em belos sonhos entrou na ampla e bem vigiada área reservada para balões e foi como se uma injeção fosse aplicada diretamente em seu átrio superior esquerdo ver que o balão não maijazia colado à terr, mas planava metros e metros acima dali, demasiado longe, próximo de ser engolido por uma monstruosa nuvem de tormenta. E ela nem tinha ali nos bolsos quantidade suficiente de papel moeda para pagar as coxinhas e beirutes que engoliu durante os longos minutos anteriores.
E foi em frangalhos; a pé; fugindo agora dos funcionários de dura descompaixão da rede rodoviária de alimentos lesada pela burla; carregando sobre si um pesado neném com claros problemas no tubo digestório - que a mulher chamada Creuza atravessou a divisa entre a mística Birirituba e Vespasiano, e deu os primeiros passos na cidade que haveria de ser palco de uma tragédia impensável, a qual seria causada em parte por seu próprio filho, aquele ali dormindo pesadamente em seus braços, 15 anos depois, quando este incendiaria o Instituto de Depilação Vanessa, em pleno dia de inauguração, por terem acidentalmente assassinado sua única amiga, uma frágil vespa.

A décima nona sexta-feira de Carnaval



Dona Expedita morreu com exatos 90 anos e exatos 9 quilos. Seu velório deu-se em minha décima nona sexta-feira de carnaval - aquele dia do calendário nacional contrário a qualquer ato não festivo e zombeteiro, e muito menos enlutado.
   
A senhora em questão – poucas vezes vista em vida por meus olhos - era prima de primeiro grau de minha avó; então, lá estava eu, na obrigação de neto solidário, com a viagem cancelada, fingindo um choro contido, à beira do esquife, confortando a confraria de senhoras inconsoláveis.

Avistei pelo lado contrário do caixão, ainda emulando um choro negro de luto, aquela que só poderia haver de ser minha há muito não vista priminha querida, moçoila mui amiga de minha distante meninice. Encontrava-se ela, naquele momento, exatamente como minha persona, creio eu, cumpre afirmar: simulando uma aturdida dor; suas frágeis mãos cobriam parte da nasa sílfide e da tremeluzente boca fulva, enquanto tímidas lágrimas orvalhavam rosto abaixo.

Nossos olhares se encontraram quando o padre já avançava em suas solenes palavras de conforto e quando as senhoras presentes pareciam submergir ainda mais gravemente rumo o profundo leito do oceano do saudoso pesar, em meios aos seus próprios ganidos de incontrolável lamúrio.

Ela produziu um sinal desesperado com seus olhos marejados e nesse instante nossa interação deu-se misteriosamente.   Se cientistas tivessem observado e catalogado minhas atividades corporais, ter-se-ia provado a existência da tal muito comentada comunicação telepática, pois eu entendi perfeitamente o que aquela ansiosa sinalização ocular me dizia.

Encontrei-a fora da sala oprimida pelo choro incansável, pelo calor e pelo enfarado cheiro das murchas coroas de flores. O som agora mais contido das palavras absurdas do padreco ainda pairava sobre nossas cabeças quando ela revelou, com os lábios molhados acariciando as curvas da minha orelha incrédula, sua inapropriada intenção.

Abandonamos o banheiro do velório sem que ninguém tivesse conhecimento sequer de que havíamos entrado, ou que por lá permanecemos por extasiantes e inenarráveis 4 minutos, despedimo-nos e por mais de doze anos ficamos sem jamais esbarrarmos pelos banheiros ermos da existência, até que outra vida de nós tirada foi inadvertidamente.

Pobre tia Maurinha, 98 anos, 98 quilos, velório agendado para pleno sábado de aleluia, data em que lá estava eu, empertigado, pronto a cumprir meus deveres de homem preocupado, idôneo, prontificado para não titubear em instante algum, jamais.

Ora, olhe lá, veja lá, lá!, quem é que acaba de adentrar a minúscula sala - ela, minha prima distante:  os pesos dos anos a curvarem-lhe o dorso;  arrastando-se imperceptivelmente para dentro de meu campo de visão, enquanto outro desses cidadãos vestidos de preto fala insanidades incessantes. 

Acompanha-a dessa vez um homem. É seu marido decerto. Já ouvira falar dele, e ao notar que as descrições são de uma exatidão ímpar , percebo que minhas esperanças de reencontro se esvaem junto da alma da titia.

Porém, sou captado por seus olhos, aqueles que telepaticamente ordenam um novo, furtivo e premente encontro às escondidas.

Conforme percorríamos conjuntamente a linha horizontal dos eventos justapostos da vida humana, encontrávamo-nos aleatoriamente durante as cada vez mais freqüentes ocasiões de luto compartilhado da família– certa vez, foi na cerimônia de seu doente pai; em outro momento, na atroz despedida de minha própria esposa.

Entendemos que aquilo que fazíamos era uma forma de vencer a tristeza da perda - enquanto alguns rezavam para um ente numinoso e insondável, nós nos trancávamos no mesmo ermo banheiro da casa de velórios e procurávamos começar a seguir uma vida da maneira que podíamos.

Décadas e décadas de perdas e encontros experimentamos até que notei a iminência do velório de um de nós. Havia, contudo, um resquício do calor carnavalesco mesmo em pleno julho dos últimos dias terrenos. Tinha em mim que um último encontro no santificado banheiro far-me-ia satisfeito para o mistério post-mortem.

Assim, contratei um capataz e este pôs fim aos dias do marido dela. E lá nós encontramos pela última vez em vida, na mais especial de todas aquelas vezes. Enquanto, aos prantos, seus inúmeros netos se contorciam aninhados sobre o apinhado colo de suas três filhas órfãs de pai, minha envelhecida prima se contorcia aninhada sobre meu corpo esguio e carente de vitalidade, e aos prantos nos beijamos pela primeira e única vez.

Meses depois, quando ela se foi, eu também vivia meus últimos instantes. Na ocasião de seu pouco freqüentado velório – ela se foi em plena véspera da final da copa de 1994, de modo que o velório e enterro se deram exatamente enquanto aconteciam  os dois tempos regulamentares, os posteriores dois tempos complementares de 30 minutos e os nove pênaltis da partida que fez de nossa pátria a maior vencedora da história do esporte mais popular do planeta – então não me foi difícil obrigar os poucos que ali se encontravam a deixarem a casa de velórios por alguns momentos e me abandonarem solitário com o cadáver de minha prima.

Sabendo da iminência de minha finitude, em um último esforço físico, deitei-me com enormes dificuldades sobre o gélido defunto do amor da minha vida, e ali então fechei os olhos para sempre. E entre um estampido e outro dos fogos do tetra a eclodir pelo céu azul daquele decisivo inverno, desejei voltar à minha décima nona sexta-feira de carnaval, enquanto fui-me resignado.

O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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