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A décima nona sexta-feira de Carnaval



Dona Expedita morreu com exatos 90 anos e exatos 9 quilos. Seu velório deu-se em minha décima nona sexta-feira de carnaval - aquele dia do calendário nacional contrário a qualquer ato não festivo e zombeteiro, e muito menos enlutado.
   
A senhora em questão – poucas vezes vista em vida por meus olhos - era prima de primeiro grau de minha avó; então, lá estava eu, na obrigação de neto solidário, com a viagem cancelada, fingindo um choro contido, à beira do esquife, confortando a confraria de senhoras inconsoláveis.

Avistei pelo lado contrário do caixão, ainda emulando um choro negro de luto, aquela que só poderia haver de ser minha há muito não vista priminha querida, moçoila mui amiga de minha distante meninice. Encontrava-se ela, naquele momento, exatamente como minha persona, creio eu, cumpre afirmar: simulando uma aturdida dor; suas frágeis mãos cobriam parte da nasa sílfide e da tremeluzente boca fulva, enquanto tímidas lágrimas orvalhavam rosto abaixo.

Nossos olhares se encontraram quando o padre já avançava em suas solenes palavras de conforto e quando as senhoras presentes pareciam submergir ainda mais gravemente rumo o profundo leito do oceano do saudoso pesar, em meios aos seus próprios ganidos de incontrolável lamúrio.

Ela produziu um sinal desesperado com seus olhos marejados e nesse instante nossa interação deu-se misteriosamente.   Se cientistas tivessem observado e catalogado minhas atividades corporais, ter-se-ia provado a existência da tal muito comentada comunicação telepática, pois eu entendi perfeitamente o que aquela ansiosa sinalização ocular me dizia.

Encontrei-a fora da sala oprimida pelo choro incansável, pelo calor e pelo enfarado cheiro das murchas coroas de flores. O som agora mais contido das palavras absurdas do padreco ainda pairava sobre nossas cabeças quando ela revelou, com os lábios molhados acariciando as curvas da minha orelha incrédula, sua inapropriada intenção.

Abandonamos o banheiro do velório sem que ninguém tivesse conhecimento sequer de que havíamos entrado, ou que por lá permanecemos por extasiantes e inenarráveis 4 minutos, despedimo-nos e por mais de doze anos ficamos sem jamais esbarrarmos pelos banheiros ermos da existência, até que outra vida de nós tirada foi inadvertidamente.

Pobre tia Maurinha, 98 anos, 98 quilos, velório agendado para pleno sábado de aleluia, data em que lá estava eu, empertigado, pronto a cumprir meus deveres de homem preocupado, idôneo, prontificado para não titubear em instante algum, jamais.

Ora, olhe lá, veja lá, lá!, quem é que acaba de adentrar a minúscula sala - ela, minha prima distante:  os pesos dos anos a curvarem-lhe o dorso;  arrastando-se imperceptivelmente para dentro de meu campo de visão, enquanto outro desses cidadãos vestidos de preto fala insanidades incessantes. 

Acompanha-a dessa vez um homem. É seu marido decerto. Já ouvira falar dele, e ao notar que as descrições são de uma exatidão ímpar , percebo que minhas esperanças de reencontro se esvaem junto da alma da titia.

Porém, sou captado por seus olhos, aqueles que telepaticamente ordenam um novo, furtivo e premente encontro às escondidas.

Conforme percorríamos conjuntamente a linha horizontal dos eventos justapostos da vida humana, encontrávamo-nos aleatoriamente durante as cada vez mais freqüentes ocasiões de luto compartilhado da família– certa vez, foi na cerimônia de seu doente pai; em outro momento, na atroz despedida de minha própria esposa.

Entendemos que aquilo que fazíamos era uma forma de vencer a tristeza da perda - enquanto alguns rezavam para um ente numinoso e insondável, nós nos trancávamos no mesmo ermo banheiro da casa de velórios e procurávamos começar a seguir uma vida da maneira que podíamos.

Décadas e décadas de perdas e encontros experimentamos até que notei a iminência do velório de um de nós. Havia, contudo, um resquício do calor carnavalesco mesmo em pleno julho dos últimos dias terrenos. Tinha em mim que um último encontro no santificado banheiro far-me-ia satisfeito para o mistério post-mortem.

Assim, contratei um capataz e este pôs fim aos dias do marido dela. E lá nós encontramos pela última vez em vida, na mais especial de todas aquelas vezes. Enquanto, aos prantos, seus inúmeros netos se contorciam aninhados sobre o apinhado colo de suas três filhas órfãs de pai, minha envelhecida prima se contorcia aninhada sobre meu corpo esguio e carente de vitalidade, e aos prantos nos beijamos pela primeira e única vez.

Meses depois, quando ela se foi, eu também vivia meus últimos instantes. Na ocasião de seu pouco freqüentado velório – ela se foi em plena véspera da final da copa de 1994, de modo que o velório e enterro se deram exatamente enquanto aconteciam  os dois tempos regulamentares, os posteriores dois tempos complementares de 30 minutos e os nove pênaltis da partida que fez de nossa pátria a maior vencedora da história do esporte mais popular do planeta – então não me foi difícil obrigar os poucos que ali se encontravam a deixarem a casa de velórios por alguns momentos e me abandonarem solitário com o cadáver de minha prima.

Sabendo da iminência de minha finitude, em um último esforço físico, deitei-me com enormes dificuldades sobre o gélido defunto do amor da minha vida, e ali então fechei os olhos para sempre. E entre um estampido e outro dos fogos do tetra a eclodir pelo céu azul daquele decisivo inverno, desejei voltar à minha décima nona sexta-feira de carnaval, enquanto fui-me resignado.

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O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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