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A Gorda e o Misterioso Relógio Dourado


Aquele baile afrescurado, aquelas músicas flagelantes e a falta até então de uma alimentação condizente com o meu costumeiro e atroz apetite estavam me incomodando, e isso não é nada gostoso nem legal.

Felizmente, tudo de ruim que perturbava minha cachola desvaneceu depois que fartas colheradas precipitaram para dentro de minha bocarra arreganhada uma quantidade de arroz equivalente ao peso de um saudável recém-nascido.
E se isso não bastasse para causar satisfação e contentamento em minha carcaça, fui logo interpelada por um meninão suado e curioso que trabalhava no buffet da festa, e que por acaso havia me servido aquela esplêndida refeição. Ele, além de não tirar os olhos de meu prato, que era esvaziado em uma velocidade impressionante, apalpava-me carinhosamente o abdômen, os tríceps murchos e o papo.
Em verdade vos falo, seu semblante sofrido, semelhante ao de um idoso caquético, me cativava horrores. Depois completei a refeição ingerindo uma leve sobremesa, um bolo bastante comportado, a meu ver, enquanto senhoras levantavam de suas mesas e se encaminhavam fragilmente para a pista de dança, de onde só sairiam depois de levar as netas, ou sobrinhas-netas, ao extremo envergonhamento.

O creme de avelã que recheava precariamente o tal bolo descarregou em meu corpanzil 220 watts de luxúria, e eu senti que meus exatos 120 quilos estorricados começavam a exalar sensualidade. O interessado e sofrido meninão me desejava claramente, queria possuir-me por completo; e não só ele, infinidades de outros bípedes pluricelulares me olhavam incrédulos, tomados pela lascívia, pelo despudor e pelo sentimento empreendedor masculino de concatenar orgias em ambientes não indicados.

Despedi-me triunfantemente de minha família e de minha irmã formanda, e chispei veloz assim como qualquer mulher há treze anos sem sexo dirige-se para um motel chinfrim e ensebado.

Pela manhã precisei aliviar um pouco de peso, então, enquanto meu garanhão descansava de seus heróicos e delirantes feitos, fui dar uma defecadinha silenciosa.  Ao sair do toalete, enquanto ainda ressoava da privada castigada o rugido decrépito da descarga, deparei-me com meu menino junto da porta. Ele estava nervoso, suava abundantemente e, com as mãos a tapar as vias nasais, parecia completamente fora de si.

- Você deu a descarga ali, Gisela? Foi? E não notou nada de diferente lá?

Ri daquilo e depois de um tempo ele se acalmou. Suas feições afrouxaram-se e ele perguntou se eu havia sentido algo de diferente durante a noite. Disse que não, que estava tudo nos conformes, e aproveitei o diálogo para comunicar-lo meu irrefreável desejo de ingerir alguma gororoba doce e/ou gordurosa o quanto antes. Ele acatou e lá nós fomos desjejuar na padaria mais próxima. Pedi uma porção de torresmo consideravelmente oleosa, uma de minhas favoritas, apenas para despertar; então, quando aninhei o alimento servido entre meus braços, agarrei um pote graúdo de Doriana e comi com os dedos mesmo aquele mescla deliciosamente maravilhosa - não gosto de sujar talheres e dar trabalho aos funcionários logo pela manhã. Ele, cuja feição ganhava contornos de asco, parecia manter trancado no peito um coraçãozinho de garçom de formatura a palpitar cada vez mais timidamente.

Aquilo me entristecia. Porque aquele homem estava tão diferente? Antes de a segunda porção chegar, dessa vez pedi frango à passarinho , uma outra porção das minhas favoritas, decidi retirar-me momentaneamente até o sanitário mais próximo para que assim escondesse minhas lágrimas de desolação. Enclausurei-me em uma cabine e , aproveitando a placidez do sanitário, resolvi excluir de uma vez por todas o saudoso jantar de meu organismo. E assim fiz! E assim feito, ouvi um tilintar esquisito…Oh! Havia um belíssimo relógio dourado boiando ali. Deveria valer um bom dinheiro. Como havia parado ali? Não tinha nada na privada antes de eu sentar... Tirei-o cuidadosamente da privada, tratando de não esbarrar em nada. Depois de secar, o coloquei no bolso. A fome era enorme e implacável. 

Quando abri a porta, ora bolas, lá estava ele novamente! Olhava-me furiosamente, os olhos ardiam em duas labaredas.
Informei-lhe que aquela maneira de agir estava me deixando assustada e que não podia acreditar que, além disso, ele havia deixado minha comida abandonada a mercê de qualquer famintinho surrupiador de porções. Desesperada, tratei de me apressar, saindo em busca de meus estimados franguinhos, contudo, ele me segurou pelo braço e urrou.

-Cadê o relógio que você comeu?

-Que relógio? Como eu poderia comer um relógio? Isso é impossível!

- Meu relógio! Você comeu o meu relógio na festa ontem, ele escorregou pro prato, para dentro do bolo e você comeu ele. Ele é mó caro…  

- Você está louco, Roberval.

E comecei a chorar, ganindo, desamparada, esperneando, totalmente entregue à louca crueldade da crueldade louca daquele louco e cruel garçom.

-Porque és tão cruel e louco? Não percebe que me encontro totalmente entregue à sua louca crueldade?

-Percebo! Mas não percebes, gordinha, que o relógio me é importante demais?

Saí do banheiro, correndo, ganindo meu choro faminto.

Quando voltei para a mesa, vi um homem entrar pela porta da padaria, tinha na mão uma pistola.

Ele começou a atirar em todos. Tentei pular e agarrar o prato da porção, para depois pensar em me proteger.

Mas um tiro explodiu em minha barriga e tombei sobre a mesa. O prato esfarelou-se sobre o piso sujo daquela padaria. Caí no chão, fraca e com muita fome. Tirei do bolso o relógio do Roberval que eu havia expelido instantes antes.

Ele marcava 15h33min. A hora da minha morte.

Morri com fome, muita fome, vendo os deliciosos franguinhos jogados, abandonados, que assim como eu, esfriavam solitariamente no chão

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O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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