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Roubaram a bicicleta do Da Vinci - Parte 1


Léo. Somente Léo. Terminava aí, na letra "o". Para além da vogal, somente silêncio. Bom, isto é o que dizia Léo. "Mas olha ali, meu, olha aí no RG pra você vê! Olha aí! Tá vendo? Pois então, é Leonardo o nome do cara. Lê mais aí. Viste? Leonardo da Vinci. Esse é o nome do Léo, Perícles!"

Nenhum de nós conseguiu assimilar com presteza aquela desmesurada informação. Ela pareceu oprimir todos no laboratório. Olhei bem ao redor. Todas as sobrancelhas curvadas em plena interrogação. Certamente, longe de qualquer comichosa dúvida, muitos voltaram a vista para algum canto de desktop,a Alguns poucos ousaram pairar o olhar por sobre o acelerador de partículas. Naqueles confusos minutos, uma questão irrespondível era por nós compartilhada: por que ele, durante todos aqueles meses confraternizantes de estágio, ter-nos-ia obliterado seu nome completo de batismo, nome-homenagem demasiado acertado, mui apropriado para um homem da resplandecência intelectual de Léo?

Do silêncio nasceu a ribombante risada de Péricles Arraia - 40 centímetros de circunferência de panturrilhas - recorde medonho. Dois piscar de olhos depois, ruidosas  e desvairadas risadas foram paridas uma a uma, vindas à luz em uma sequência misteriosamente ordenada; como se algo próximo de um terrível efeito dominó tivesse apoderado-se dos físicos dos colegas físicos. Depois, as risadas se foram espraiando, jmas já cavalgavam biliosas, rumando para minha baia. Senti como se tivesse defecado meu almoço nas cuecas de algodão de uma só vez, tamanha havia sido a rumorosa gargalhada que explodira de minha garganta. Ora, era uma felicidade intensa! Aquele nome parecia necessitar-se de escárnios incontidos.

Entretanto, o que houve foi que, para minha completa infelicidade e ruína, eu, de fato, havia defecado a totalidade de meu almoço nas minhas cuecas recém-lavadas de algodão. E isso não contribuiu de forma nenhuma para meu bem-estar ou para a minha planejada ascensão social. Mas vamos nos esquecer desse detalhe, não nos é válido escrutinar com tamanha avidez esta história que lhes conto. Singremos ainda pelo mesmo mar, porém, sem deixar que nossas voláteis atenções vislumbrem litorais de sorridentes terras.

Foi então que no dia seguinte, tanto eu, Euclídes, como o pobre Léo, fomos tornados alvos dos mais impensados opróbrios e também das mais extensas ignomínias. Mas naquele mesmo dia, enquanto almoçávamos escondidos no banheiro, nós dois notamos, como que no mesmo instante, a necessidade de pararmos de ser avacalhados por todos aqueles físicos e matemáticos espertalhões de uma figa.

Com suas hirsutas costas das mãos e seus oblongos e graxos dedos, que eram de uma sordidez tão intragável que ele próprio evitava estendê-los em um costumeiro gesto de cumprimento, cônscio de que seu gesto seria rechaçado peremptoriamente por todo o corpo científico, Léo pôs de lado sua marmita ainda pela metade e me sigilou algo que ainda hoje teimo em compartilhar.

Naquele banheiro diminuto, ainda enquanto Pedrinho permanecia abancado sobre a privada tratando de evacuar de seu interior o tanto que podia, Leonardo da Vinci me assegurou ser capaz de viajar no tempo de uma forma incrivelmente acessível. Revelou-me que dessa forma nos poderíamos encontrar-nos libertos de toda a chacota à qual estávamos sendo expostos desde o dia ulterior. Eu achei ótimo tudo aquilo.

Mais tarde, sob total privacidade, isolados de qualquer contratempo, Léo me confidenciou seu esdrúxulo plano. De acordo com ele, para viajar através do tempo e espaço, bastava subir em uma bicicleta e alcançar a velocidade de 35 quilômetros por hora. Porém, o detalhe que já lhe escapava tornava aquilo apenas um tantinho mais complicado: a velocidade deveria ser alcançada de ré, com o ciclista de costas, ou seja, contra o movimento natural da bicicleta.

Depois da concisa explicação, que no momento não me pareceu carecer de conteúdo adicional, ele olhou bem dentro dos meus olhos. Estávamos jantando lá em casa. Deliciávamos um impecável Fettuccine à Carbonara, receita indicada por Karina Pedrisco, enquanto as luzes das velas que se consumiam lentamente cinzelavam em seu semblante formas ainda mais robustas e irresistíveis... - bom, mas deixemos essas frívolas informações de canto. Urge-nos explicações sobre o propósito da viagem temporal, que segundo Léo era simplesmente matar Leonardo Da Vinci.


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O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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