Não poderia estar mais errado quem afirmava que Mardônio não passava de um madraço irrecuperável, que nada mais era que outro largado componente da desmesurada massa de ociosos. Afinal, aquilo não era uma questão de vagabundagem. Realmente não era.
Nascido na aurora do novo século, Mardônio viu as primeiras cores da vida terrestre somente após um hercúleo esforço. Sua mãe, por não mais respirar e poder auxiliar no parto, deixou ao infante toda a tarefa de vir à luz.
Não se nega que até o termo de seus cinqüenta e quatro
anos, Mardônio tenha se divertido pacas e se preocupado pouco. É verdade que
vivia em um espaçoso e sossegado palacete com seu misericordioso tio. Também
não se pode negar que estudou o necessário quando ainda mancebo e relacionou-se como
seus semelhantes o tanto suficiente já na vida adulta. Suas atividades, de
fato, nada tinham que lembrassem a horrenda labuta. Gostava era de ler
Aristófanes em grego, espraiado em seus aposentos; de trocar a água da
dentadura da Vó Guiomar por gim; e de andarilhar, enquanto sonhava com o que o
futuro podia trazer-lhe, pelas imensas plantações de laranja-lima que
anteriormente haviam sido de seu avô.
Foi então que em 1954, seu tio aconchegou-se em um
lado na cama de Mardônio, enquanto este já estava pelas últimas linhas de Lisístrata,
pela quinta vez. O borrego irmão mais jovem de sua mãe trazia nos olhos um pesar
inédito, uma tristeza notória, e aquilo o assustou imensamente; seus modos, que
haviam sido sempre um pouco borrelos, tinham dado lugar a uma senilidade
atordoante.
Disse o tio, acompanhado por um esterto arrastado:
"Mardônio, em pouquíssimos instantes eu estarei morto..." E, dito
isso, caiu morto, para a completa surpresa do menino Mardônio, que precisou
ainda ler as últimas letras da comédia grega para então clamar por socorro.
Dias depois, Mardônio veio entender aquilo que seu tio
viera compartilhar. As laranjas-limas já não eram boas o suficiente para o
gosto dos paulistas da capital. Eles as estavam trocando por outras, provenientes
de Matão, as quais diziam ser mais proveitosas, mesmo ante sua qualidade
notadamente inferior.
Mardônio então atinou. Aquilo haveria de ser o fim da
centenária lavoura, o ocaso da doce e mansa vida que levara até então.
O primeiro caminhão a passar pela estrada diante de
Limeira levava Mardônio, uma quantia irrisória de papel-moeda em sua maleta, e
também a ânsia do homem em trabalhar. O caminhoneiro, por perceber aquela
ansiedade latente, pôs Mardônio em frente ao amplo volante, incumbindo-o de
direcionar o veículo e sua provavelmente valiosa carga, e então passou a dormir
pesadamente até chegar à capital paulista.
Foram duas as semanas que Mardônio levou para
encontrar seu primeiro emprego. Na manhã do seu primeiro dia, ele, de fato,
havia acordado contrariado; não gostaria de deixar sozinha aquela dama tão
companheira, aquela coberta tão quentinha e maleável. Mas o fez. E feito,
encaminhou-se obstinado. Mas ao lá chegar, seus olhos incrédulos tinham à
frente apenas uma massa cinzenta e ainda chamuscante. O almoxarifado havia sido
consumido pelas chamas desavisadamente durante a madrugada anterior, o que
punha Mardônio novamente no time dos indolentes.
Foram mais seis semanas sem desempenhar atividade
remunerada até o dia em que um senhor um tanto afetado pela idade o aceitou
como cozinheiro de sua lanchonete. Mas, outra vez, ao chegar contrariado ao
comércio de seu novo empregador na manhã seguinte, avistou o local em plenas chamas, deitando uma abaçanada fumaceira pelas ruas adjacentes.
Nos próximos dezoito anos, período em que Mardônio
sofreu em decorrência dos parcos recursos e arranjou-se como deu, a cidade de São
Paulo computou cerca de 112 incêndios - número que, curiosamente, coincidia com
o número de empresas em que Mardônio havia arranjado, porém jamais exercido,
algum cargo ou atividade.
Com claras dificuldades, guinchando um som metálico e
arrastado, um dos elevadores do Edifício Andraus escalava 22 andares . E enquanto ascendiam, Mardônio imaginou o obscuro
corredor que o conduziria até a entrada da firma de papéis fotográficos onde
começaria como atendente naquela mesma manhã - em sua fantasia, a porta tinha a aparência de uma porta enferrujada dessas de cadeias. Mas no mesmo instante em que pôs
seus calçados maltratados para além das portas descortinadas do elevador, notou que pelo ar dançavam miúdos pedaços de papel esturricado, e que mais adiante, a própria
porta da firma, que nada tinha de metálico, já se encontrava devorada pelo fogo, revelando as entranhas da firma em processo de incineração.
E durante os vindouros dois anos, Mardônio não
encontrou alternativa exceto alugar gratuitamente um espaço embaixo de um
viaduto perto da Praça das Bandeiras, enquanto, pertinaz como somente ele,
ainda vasculhava a metrópole em busca de uma atividade remunerada.
Atividade que encontrou somente em 1974, quando, na
cálida manhã de sexta-feira do primeiro dia de fevereiro, ele, então com
73 anos, viu-se sentado na mesa da Agência de Turismo Gastão, localizada no décimo terceiro andar do suntuoso Edifício Joelma. Mardônio, finalmente,
viu-se, naquele instante, a trabalhar! E foi somente naquele instante, pois no instante seguinte o teto em chamas do andar superior despedaçou-se e esmagou toda a área da
sala onde ele ainda sorria, imaginando a felicidade do falecido tio em
vê-lo finalmente a trabalhar.

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