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A Mão que Desceu dos Céus

Dia 21.Terça Feira. 7:00:14. São Paulo. Corredor de um prédio.
A porta range ao abrir. Uma mulher apanha o jornal e lê a manchete: “Milionário é internado após misterioso acontecimento.”

Dia 20. Segunda Feira. 20:04:57. São Paulo. Sala de estar. Mansão de Clóvis Demétrios.
Chiado de estática na sala. A ponta de uma extravagante unha pintada pressiona um botão redondo.
Play.
Na tela da televisão surge a imagem de Tutinha Demétrios.
Ele fala, após uma sutil pigarreada:
Caros colegas e colegas, digo… colegas homens e colegas mulheres;
meu papai e minha mamãe;
vó, que não vai ouvir uma palavrinha sequer, provavelmente;
…Afonso?… Afonso! Sim, Afonso! Caro Don Afonso!;
Miguelita;
Dona Cleide;
Mázinho, meu irmão;
e quem mais tiver acesso a isto:
Se estiverem assistindo este vídeo é porque eu não tive coragem.
Desculpem-me pelo transtorno no dia de hoje, neste dia tão especial para nossa família.
Mas o fato é que tenho algo que (suspiro) preciso muito revelar.
(Pigarreada)
(Pigarreada)
Todos nós já depilamos o saco. Muitos se arrependeram, outros poucos gostaram e mantiveram o hábito até a velhice.
Eu gosto da lisura e do frescor, mas a vergonha causada pelas coçadas irremediáveis é grande.
Mas não é sobre isso que preciso falar, não foi o prazer da refrescância que me fez filmar o vídeo que assistem agora...
Não (suspiro), não é, não. Na-na-não!
Então (suspiro), sobre o quê é?”
(Suspiro)
(Suspiradinha)
“Sabe, mamãe, aquele dia em que eu demorei uma hora no banho, cheguei atrasado ao vestibular e perdi a prova?
Não, eu não estava ansioso. Eu nem tomei banho aquele dia como aleguei - fazia parte da minha estratégia de desmoralização da concorrência
Eu, mamãe, estava masturbando-me. A senhora deve ter sabiamente desconfiado.
Retornando para casa aquele dia - após dar com a cara nos portões fechados e após outra rápida bronha na padaria - passei a refletir sobre minha existência.
Eu estudei com afinco para a prova durante um ano e realmente queria ser aprovado. Mas havia uma bronha no meu caminho. E ela não perdoa
(Suspiro)
(Pigarreada)
Passaram-se 20 anos, e eu, depois de outras quatro tentativas, acabei não sendo aprovado em faculdade nenhuma.
A bronha me sabotava toda a manhã, enquanto me preparava.
Era durante o café; certa vez em meio à prova.
Lembro, mamãe, quando a senhora riu do meu pedido. A senhora riu sem compreender o porquê eu lhe pedia para amarrar minhas mãos.
Era por uma ótima razão. Era pelo meu futuro, mamãezinha.”
(Suspiro)
Precisei arranjar trabalhos ingratos para poder me sustentar, já que a vergonha de ter um punheteiro em casa fez minha família me abandonar.
Não foi fácil viver daquela maneira, sendo um pária, um punheteirozinho mequetrefe e esquecido, desempregado, sem amor algum além do próprio.
A bronha privava-me de muita coisa: de uma família, de um emprego e de uma palma de mão sedosa.
E isso não era fácil para mim, um admirador das mãos, um verdadeiro amante dos dedos e unhas e tal.
Poucos homens amam verdadeiramente a mão. Se não fosse a mão, em qual estágio de desenvolvimento nossa espécie estaria?
Como seguraríamos os controles remotos?
Foi para mim uma fase complicadinha, fase conturbadinha, até que vi, segundos após uma pausa antes do almoço, uma mão descer dos céus.
Ela ordenou que eu prezasse por minhas mãos, e avisou que a lasanha já tinha descongelado lá no microondas.
Eu primeiro almocei e depois entendi o aviso: as mãos seriam minha salva (tosse)..mão, digo salvação!”
(Pigarreada)
“Eu criaria um império, fundaria revistas especializadas, abriria manicures jamais antes vistas, desenvolveria revolucionárias loções hidratantes e também um extenso catálogo para a estética manual, além de uma universidade para assuntos referentes a mãos, com cursos de linguagem dos sinais, fisioterapia ortomolecular e quiromancia!
As mãos me tornaram milionário e tive de volta o amor incondicional de minha família.”
(Supiro)
(Tristeza notável)
“Porém em meio a toda prosperidade material, meu coração permanecia ausente, completamente esquecido de amor.
Até que conheci Manoela durante minha primeira internação… Era uma bela enfermeira. Meu bingulim saltitava apenas por sentir seu doce perfume.
Fui levado ao hospital inconsciente, desidratado e com o ombro direito deslocado. Vocês devem se lembrar.
Já nessa época começava a abusar da masturbação. Recordo ter ficar de domingo a quarta- feira trancado no quarto antes de desmaiar.
Acordei em um quarto de hospital, já apaixonado por Manoela, que me observava ao lado da cama.
Na mesma noite masturbei-me outras doze vezes. Fui transferido para a UTI e jamais voltei a ver aquela enfermeira. Acusaram- na de negligência, malditos médicos. O que eles sabem?
Isso aconteceu há um ano e ainda não consegui me recuperar.
Pois agora cheguei à conclusão.
(Suspiro)
“Minhas mãos proporcionaram todo o bem estar material que poderia desejar. Vocês estão todos muito bem! Mas chegou o momento da decisão. Ahhhh, chegou sim.
Não posso mais conviver com isso, não consigo mais destruir minha saúde, minha vida e minhas mãos.
Eu preciso livrar-me do meu bilau. Ele sim é o problema! Não posso deixar-lo destruir tudo o que conquistei.
Não voltarei a ser aquele homem envergonhado de seus atos íntimos!
Preciso me livrar disso!! Para sempre!!”
(Pigarreada)
(Silêncio)
“Por isso preciso de vocês. Preciso que alguém venha até aqui para cortar meu bilau, porque eu sozinho não consigo!
Venham dois: papai e Don Afonso, e tragam também uma caixa de 12 nuggets.
Da tela borbulhou estática. A fita havia chegado ao fim.


Dia 20. Segunda Feira. 20:35:33. Cobertura de Tuta Demétrios.
A porta range ao abrir. Demétrios está ali, nu, com uma ameaçadora faca na mão. Cumprimenta o pai e o cunhado, Don Afonso.
Os olhos de Tuta estão firmes, decididos. 
Não há hesitação em seus movimentos. Seu bilau está encolhido como se tentasse se esconder. Parece saber o que virá. 
Dentro da enorme sala os três se encontram parados, petrificados pela estranheza da situação.
“Vamos lá.”
“Tuta, tens certeza disto?”
“Tenho, Don Afonso. É a única maneira. Ah!, e me perdoe por incomodá-lo justamente no dia de suas bodas.”
“Não se preocupe, Tutinha. Miguelita não se importa - aquela vagabun...digo,errr, tens certeza mesmo disso?”
“Sim, Don”
“Bom, então é isso?” - perguntou o pai, aproximando-se do filho.
“É agora, Don Afonso!”
Os dois pulam sobre Tutinha, conseguindo arrancar a faca de sua querida mão direita.
“O que vocês estão fazendo? Não vão me impedir, se vocês não cortarem eu mesmo corto!” grunhia Tutinha, agora caído no chão.
O pai imobilizou Tutinha com o peso do corpo e com suas mãos segurou os punhos dele, fazendo as mãos do filho ficarem estendidas sobre o carpete que cobria boa parte do chão de madeira norueguesa.
Dom Afonso apanhou a faca e relembrando seus dias de açougueiro em Zaragoza deu dois golpes secos.
A vista de Tutinha escureceu. Sua luta havia chegado ao fim.


Dia 21. Terça Feira. 08:09:10. São Paulo. Hospital Albert Einstein.
Tutinha acordou ainda mais apaixonado por Manoela, que estava ao lado da cama.
Ela, olhando com pesar, disse:
“Eu li no jornal. Como está se sentindo?”
“Estou bem! Estou feliz por te ver, porque eu te amo pra xuxú, minha gata!”
A enfermeira sorriu. Seu perfume estava por todos os lados, e aquilo o animava bastante.
Atrás dela, também sorrindo, estavam Dom Afonso, seu pai, Miguelita, Mázinho seu irmão, sua vovó surda e sua mamãe. Dona Cleide não estava, deveria estar tratando da louça da festança malograda do dia anterior.
“Ainda bem que Dom Afonso cortou suas mãos, meu querido. Como poderia haver amor entre nós se tivesse cortado aquilo que você desejava. O que seria de um homem sem seu pinto para guiá-lo por esta vida?”
“O maior bem de um homem é o próprio bingulinho.” - disse a mãe, tirando os olhos das unhas e escancarando-o com um carinhoso sorriso.
E Tutinha sorriu também, sentindo-se duplamente animado com o doce aroma de Manoela

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O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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