Dia 21.Terça Feira.
7:00:14. São Paulo. Corredor de um prédio.
Dia 20. Segunda Feira. 20:35:33. Cobertura de Tuta Demétrios.
A porta range ao abrir. Demétrios está ali, nu, com uma ameaçadora faca na mão. Cumprimenta o pai e o cunhado, Don Afonso.
Dia 21. Terça Feira. 08:09:10. São Paulo. Hospital Albert Einstein.
A porta range ao abrir. Uma mulher
apanha o jornal e lê a manchete: “Milionário é internado após misterioso
acontecimento.”
Dia 20. Segunda
Feira. 20:04:57. São Paulo. Sala de estar. Mansão de Clóvis Demétrios.
Chiado de estática na sala. A ponta de uma extravagante unha pintada pressiona um botão redondo.
Chiado de estática na sala. A ponta de uma extravagante unha pintada pressiona um botão redondo.
Play.
Na tela da televisão surge a imagem
de Tutinha Demétrios.
Ele fala, após uma sutil pigarreada:
“Caros colegas e colegas, digo… colegas homens e colegas mulheres;
meu papai e minha
mamãe;
vó, que não vai
ouvir uma palavrinha sequer, provavelmente;
…Afonso?… Afonso!
Sim, Afonso! Caro Don Afonso!;
Miguelita;
Dona Cleide;
Mázinho, meu irmão;
e quem mais tiver
acesso a isto:
Se estiverem
assistindo este vídeo é porque eu não tive coragem.
Desculpem-me pelo
transtorno no dia de hoje, neste dia tão especial para nossa família.
Mas o fato é que
tenho algo que (suspiro) preciso muito revelar.”
(Pigarreada)
(Pigarreada)
“Todos nós já depilamos o saco. Muitos se arrependeram, outros poucos
gostaram e mantiveram o hábito até a velhice.
Eu gosto da lisura
e do frescor, mas a vergonha causada pelas coçadas irremediáveis é grande.
Mas não é sobre
isso que preciso falar, não foi o prazer da refrescância que me fez filmar o
vídeo que assistem agora...
Não (suspiro), não é, não. Na-na-não!
Então (suspiro), sobre o quê é?”
(Suspiro)
(Suspiradinha)
“Sabe, mamãe, aquele dia em que eu
demorei uma hora no banho, cheguei atrasado ao vestibular e perdi a prova?
Não, eu não estava
ansioso. Eu nem tomei banho aquele dia como aleguei - fazia parte da minha
estratégia de desmoralização da concorrência
Eu, mamãe, estava
masturbando-me. A senhora deve ter sabiamente desconfiado.
Retornando para
casa aquele dia - após dar com a cara nos portões fechados e após outra rápida
bronha na padaria - passei a refletir sobre minha existência.
Eu estudei com
afinco para a prova durante um ano e realmente queria ser aprovado. Mas havia
uma bronha no meu caminho. E ela não perdoa”
(Suspiro)
(Pigarreada)
“Passaram-se 20 anos, e eu, depois de outras quatro tentativas, acabei
não sendo aprovado em faculdade nenhuma.
A bronha me
sabotava toda a manhã, enquanto me preparava.
Era durante o café;
certa vez em meio à prova.
Lembro, mamãe,
quando a senhora riu do meu pedido. A senhora riu sem compreender o porquê eu
lhe pedia para amarrar minhas mãos.
Era por uma ótima
razão. Era pelo meu futuro, mamãezinha.”
(Suspiro)
“Precisei arranjar trabalhos ingratos para poder me sustentar, já que a
vergonha de ter um punheteiro em casa fez minha família me abandonar.
Não foi fácil viver
daquela maneira, sendo um pária, um punheteirozinho mequetrefe e esquecido,
desempregado, sem amor algum além do próprio.
A bronha privava-me
de muita coisa: de uma família, de um emprego e de uma palma de mão sedosa.
E isso não era
fácil para mim, um admirador das mãos, um verdadeiro amante dos dedos e unhas e
tal.
Poucos homens amam
verdadeiramente a mão. Se não fosse a mão, em qual estágio de desenvolvimento
nossa espécie estaria?
Como seguraríamos
os controles remotos?
Foi para mim uma
fase complicadinha, fase conturbadinha, até que vi, segundos após uma pausa antes
do almoço, uma mão descer dos céus.
Ela ordenou que eu
prezasse por minhas mãos, e avisou que a lasanha já tinha descongelado lá
no microondas.
Eu primeiro almocei
e depois entendi o aviso: as mãos seriam minha salva (tosse)..mão, digo
salvação!”
(Pigarreada)
“Eu criaria um
império, fundaria revistas especializadas, abriria manicures jamais antes
vistas, desenvolveria revolucionárias loções hidratantes e também um extenso
catálogo para a estética manual, além de uma universidade para assuntos
referentes a mãos, com cursos de linguagem dos sinais, fisioterapia
ortomolecular e quiromancia!
As mãos me tornaram
milionário e tive de volta o amor incondicional de minha família.”
(Supiro)
(Tristeza notável)
“Porém em meio a
toda prosperidade material, meu coração permanecia ausente, completamente
esquecido de amor.
Até que conheci
Manoela durante minha primeira internação… Era uma bela enfermeira. Meu
bingulim saltitava apenas por sentir seu doce perfume.
Fui levado ao
hospital inconsciente, desidratado e com o ombro direito deslocado. Vocês devem
se lembrar.
Já nessa época
começava a abusar da masturbação. Recordo ter ficar de domingo a quarta- feira trancado
no quarto antes de desmaiar.
Acordei em um
quarto de hospital, já apaixonado por Manoela, que me observava ao lado da
cama.
Na mesma noite
masturbei-me outras doze vezes. Fui transferido para a UTI e jamais voltei a
ver aquela enfermeira. Acusaram- na de negligência, malditos médicos. O que
eles sabem?
Isso aconteceu há
um ano e ainda não consegui me recuperar.
Pois agora cheguei
à conclusão.”
(Suspiro)
“Minhas mãos
proporcionaram todo o bem estar material que poderia desejar. Vocês estão todos
muito bem! Mas chegou o momento da decisão. Ahhhh, chegou sim.
Não posso mais
conviver com isso, não consigo mais destruir minha saúde, minha vida e minhas
mãos.
Eu preciso livrar-me
do meu bilau. Ele sim é o problema! Não posso deixar-lo destruir tudo o que
conquistei.
Não voltarei a ser
aquele homem envergonhado de seus atos íntimos!
Preciso me livrar
disso!! Para sempre!!”
(Pigarreada)
(Silêncio)
“Por isso preciso de vocês. Preciso
que alguém venha até aqui para cortar meu bilau, porque eu sozinho não consigo!
Venham dois: papai e Don Afonso, e
tragam também uma caixa de 12 nuggets.
Da tela borbulhou estática. A fita
havia chegado ao fim.
Dia 20. Segunda Feira. 20:35:33. Cobertura de Tuta Demétrios.
A porta range ao abrir. Demétrios está ali, nu, com uma ameaçadora faca na mão. Cumprimenta o pai e o cunhado, Don Afonso.
Os olhos de Tuta estão firmes, decididos.
Não há hesitação em seus movimentos.
Seu bilau está encolhido como se tentasse se esconder. Parece saber o que
virá.
Dentro da enorme sala os três se
encontram parados, petrificados pela estranheza da situação.
“Vamos lá.”
“Tuta, tens certeza disto?”
“Tenho, Don Afonso. É a única
maneira. Ah!, e me perdoe por incomodá-lo justamente no dia de suas bodas.”
“Não se preocupe, Tutinha. Miguelita
não se importa - aquela vagabun...digo,errr, tens certeza mesmo disso?”
“Sim, Don”
“Bom, então é isso?” - perguntou o
pai, aproximando-se do filho.
“É agora, Don Afonso!”
Os dois pulam sobre Tutinha,
conseguindo arrancar a faca de sua querida mão direita.
“O que vocês estão fazendo? Não vão
me impedir, se vocês não cortarem eu mesmo corto!” grunhia Tutinha, agora caído
no chão.
O pai imobilizou Tutinha com o peso
do corpo e com suas mãos segurou os punhos dele, fazendo as mãos do filho
ficarem estendidas sobre o carpete que cobria boa parte do chão de madeira
norueguesa.
Dom Afonso apanhou a faca e
relembrando seus dias de açougueiro em Zaragoza deu dois golpes secos.
A vista de Tutinha escureceu. Sua
luta havia chegado ao fim.
Dia 21. Terça Feira. 08:09:10. São Paulo. Hospital Albert Einstein.
Tutinha acordou ainda mais apaixonado
por Manoela, que estava ao lado da cama.
Ela, olhando com pesar, disse:
“Eu li no jornal. Como está se
sentindo?”
“Estou bem! Estou feliz por te ver,
porque eu te amo pra xuxú, minha gata!”
A enfermeira sorriu. Seu perfume
estava por todos os lados, e aquilo o animava bastante.
Atrás dela, também sorrindo, estavam
Dom Afonso, seu pai, Miguelita, Mázinho seu irmão, sua vovó surda e sua mamãe.
Dona Cleide não estava, deveria estar tratando da louça da festança malograda
do dia anterior.
“Ainda bem que Dom Afonso cortou suas
mãos, meu querido. Como poderia haver amor entre nós se tivesse cortado aquilo
que você desejava. O que seria de um homem sem seu pinto para guiá-lo por esta
vida?”
“O maior bem de um homem é o próprio
bingulinho.” - disse a mãe, tirando os olhos das unhas e escancarando-o com um carinhoso
sorriso.
E Tutinha sorriu também, sentindo-se duplamente animado com o doce aroma
de Manoela

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