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O Sorriso de Sarita

Sarita.

Exagerada maquiagem - o rosto enevoado tal qual um "donut" coberto de açúcar.

Mistura agressiva de perfumes nos pontos estratégicos do corpo - distintos frascos pegos repetidamente ao acaso para cobrir o suor recente.

Meia calça detêm heróicamente os malvistos excessos das pernas roliças - a pobrezinha caminha incomodada,  faz questão de mostrar a pele áspera das coxas só depois de fisgar a presa.

E ainda, contudo, um alvo sorriso, decerto o mais espetacular entre as meninas da casa.

Não nego que os sorrisos merecedores de outros sorrisos não sejam escassos aqui neste estabelecimento e nos outros parelhos.
Mas este, o de Sarita, fulguroso e sadio, infelizmente não combina com suas outras partes, exibidas quase diariamente na casa antiga e esfumaçada por cigarros e gelo seco.

Ela não precisa nem sorrir, basta a espressão de dor descobrir os dentes e satisfazer-me completamente.

Mas Sarita privou-me de seus dentes.

Não estava mais no balcão do bar ou na bancada afastada. Também não esteve no dia posterior e nem esteve mais em canto algum.

Após perde-la, passei a visitar raramente a casa mas quando ia, mantinha meu tom alegre e cordial com as outras moças, agradando-as com dinheiro justo. Mas dinheiro algum as faria sorrir os dentes de Sarita.

Cheguei a animar-me com a dentição de uma novata,  só que o destino que a aguardava me pôs novamente atrás da real mulher dos dentes perfeitos.

Sorrio agradecido por minha sorte quando lembro que esta moça, dias depois de nos conhecermos - e eu tendo avaliado positivamente sua dentição -, veio a praticamente explodir a boca quando chocou-se contra o vidro de um táxi, poucas ruas distante de seu flat.

Os dentes quase bons se foram, assim como seus traços aceitáveis.

Caso o acidente não ocorresse minha vida desenrolaria-se por outras bandas, porque depois de ouvir o destino cruel da novata decidi que não deveria mais buscar sorrisos naturalmente bem dispostos em lugares como os que frequentei exaustivamente.

Conclui contente que investiria essa inesgotável ânsia pelos dentes de Sarita em algo digno como trabalho e bem estar público.

Neste momento, ainda jovem e mesmo satisfeito com a faculdade de Direito, optei, sem hesitação, por cursar Odontologia e por dedicar-me à criação de dentições tão perfeitas quanto a de Sarita.

Quando meus netos já mostravam seus sorrisos para suas namoradas adolescentes, eu difícilmente relembrava os dentes que haviam deixado uma horrorosa cicatriz na minha memória.

A cicatriz já estava completamente apagada graças aos inúmeros sorrisos que forjava diariamente em meus pacientes.

Mas quando li Sarita em minha agenda, aqueles dentes esquecidos reluziram e começaram a triturar novamente meu coração.

Caminhei até a sala de espera balbuciando uma lingua poucas vezes ouvida, murmurada apenas por homens diante da real felicidade.

- Sarita? - soluçei.

Ela virou o rosto branco bastante envelhecido e eu indiquei a direção da sala. Ela passou sem sorrir - aquela confusão de fragrancias - frágil feito um dente de leite.

Ajudei ela a sentar, dei bom dia e mencionei minha insatisfação com a falta de chuvas.

Ela concordou sem exibir dente algum; eu respirava ofegante como se acabasse de correr bons quilometros de uma estrada enlamaçada sobre o sol enfurecido.

Então ela me ameaçou:

- É a primeira vez que vou a um dentista. Não gosto que mexam nos meus dentes.

Seus lábios magros ainda cobriam a dentição, como se protegessem uma santidade da multidão fanática

- Pode confiar. Se há alguém que cuidará bem deles, esse sou eu. Acredite em mim.

Houve um silencio mútuo.

Apoie-me sobre o couro da cadeira, e então curvei-me sobre Sarita, que parecia vencida pela frase mais sincera que disse em minha vida.

E aí ela puxou os finíssimos lábios para cima das gengivas e mostrou-me, finalmente, os dentes.

Contei 28 cáries, vi a necessidade de canais e da implantação de duas coroas, fora a periodontite avançada

Antes de sair da sala, Sarita agradeceu pelo serviço - sessenta anos atrás os papéis eram opostos.

Então eu precisei pressionar o indicador e o polegar contra as pálpebras que cobriam meus olhos para evitar que as lágrimas escapassem e para que a escuridão apagasse aquele amarelo repulsivo.

O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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