Visitas

Subscribe via email

Enter your email address:

Delivered by FeedBurner

FeedBurner FeedCount

A Diarista Guatemalteca

Garry José Bronhovitch jamais deixou de carregar nos bolsos das calças duas caixas de fósforos, seis pares de luvas de látex descartáveis, quatorze tabletes de manteiga sem sal e, ao menos, uma edição capa dura do Antigo Testamento versão pocket com folhas de papel jornal.

Era assim.

Quem via Bronhovitch saindo da Blockbuster ou espiando com seus olhos negros as revistas adultas nas bancas da cidade logo se assustava e tratava de segurar o riso. Afinal, ele tinha dois braços delgados, compridíssimos e, nas extremidades destes, dois finos punhos impressionantemente flexíveis - sendo capaz de girar simultaneamente com muita agilidade suas duas mãos em sentidos opostos enquanto reproduzia à beira da perfeição o som das ferozes turbinas de aviões supersônicos em dia de exibição.

Quando requisitados, especialistas e numerosas baterias de testes e exames (Garry sofreu uma inesperada convulsão durante a retirada de uma unha encravada na clínica pedológica do Instituto de Depilação Vanessa) ratificaram sua ampla capacidade respiratória, constataram suas taxas de colesterol em níveis satisfatórios e contaram números regulares e esperados de hemácias e plaquetas a boiar pelo seu sangue grosso de origem caucasiana.

Por mais que enfiassem objetos pontiagudos por toda a extensão de seu corpo esguio durante os poucos mais de quatro dias de internação, os médicos do hospital de San Diego, Califórnia, Estados Unidos, não encontraram tumor, diabetes, câncer, otite, gastrite, gonorreia ou uretrite aguda nenhuma em Garry - e ainda aproveitaram para retirar por conta própria aquela pontinha de unha afiada ainda mergulhada na carne dura do seu dedão esquerdo.

E essas boas notícias alegraram Garry ainda mais quando ele relembrou, tendo recebido alta e sendo levado de volta para casa depois dessa arrastada passagem pelo hospital, que mantinha vinte e um pares de meias brancas cheirosas na segunda gaveta da cômoda de seu quarto; que guardava secretamente quatro Penthouse’s bastante castigadas embaixo dos seus livros de escola, e que, diariamente, independentemente de onde estivesse ou da ocasião, punha seu blackberry para despertar às quatro horas da manhã para comer três paçocas e anotar num bloco de notas timbrado da IBM suas recentes vivências oníricas.

Sabia que ainda guardava em algum canto de sua casa um grosso cobertor tricolor que o reconfortaria e manteria seu calor corporal inalterado mesmo ante a mais polar frente fria vinda de Vladvostok.
Sabia ainda que, ao chegar à sua residência, ligaria sua televisão de oito polegadas e não teria dificuldade em encontrar algum programa que o agradasse.

Sabia que seu blue-ray e suas imensas duas caixas de som estéreo estariam implorando para serem utilizadas e que - e isso era o mais importante-, era sexualmente ativo e conseguia criar mirabolantes narrativas pornográficas em um estalar de dedos.

Seus batimentos cardíacos amansaram quando ele ouviu o ranger familiar da porta da entrada da sua casa. Depois de acender as luzes dos lustres da sala de estar, Garry pôde fechar seus olhos serenamente, sentindo o saudoso e fraterno silêncio que finalmente o circundava.

Pelo horário avançado da noite, Juanita, a diarista guatemalteca, já deveria estar descansando no quarto dos fundos. Caso nada ocorresse fora do esperado, só a encontraria ao fim da próxima manhã.

Seu rosto, combalido pelo distanciamento repentino do lar e pelo desgaste das horas de ásperos sonos nos leitos das camas magras do hospital, aparentou preencher-se com cálidas cores e ele, como sempre fazia quando sentia a dita felicidade formigar em seu corpo, aproveitou o ermo cômodo para peidar - como se este gesto, que em outros momentos poderia ser acertadamente interpretado como deselegante, o libertasse das indesejáveis pestilências que sofrera no hospital.

Partiu para seu quarto, incontido, quase alcançando ritmo de corrida; os batimentos acelerando-se em um ritmo perigoso e os músculos retesando-se ansiosos. Gotículas de suor brotavam da testa e reluziram sob os lustres da escada conforme escalava-a e depois dirigia-se para o fundo sinuoso do corredor.

O disco prateado Rocco Goes to Montreal foi inserido no leitor de mídia do blu-ray pela mão tremente de Garry. Das caixas despontou um rumor suave que, conforme teve o volume aumentado, transformou-se em um hipnotizante blues americano.

Um sorriso nasceu em seu rosto, dilatando-se gradativamente, e ele pôde então ouvir o som tímido e quase esquecido de seu próprio riso.

Garry, antes de livrar-se das calças, sacou o tablete de manteiga e o par de luvas dos bolsos; com dois palitos retirados da caixa de fósforos acendeu uma rotunda vela vermelha aromatizante e deixou-a consumir-se lentamente sobre o criado-mudo.

Da gaveta da cômoda pescou dois pares de meias.

Abriu o Livro Sagrado em uma página aleatória. Deteve-se por minutos no seguinte trecho, enquanto lágrimas vertiam de seus olhos: “Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito; os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram pela água; no qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão”.

Buscou depois as edições sobreviventes da Penthouse e também as abriu sobre a coberta tricolor, disponibilizou-as de modo que pudesse vislumbrar quatro fotos que, na sua maneira de observar as coisas, eram as mais estimulantes visualmente.

Finalmente para a televisão de oito polegadas passou a lançar olhares transbordantes de lascívia.

Sorridente, Rocco abordava uma mulher de biquíni branco, à beira de uma banheira.

Vinte segundos depois, Garry saiu arfando do quarto. Tinha o corpo lavado de suor e uma sede sufocante. O olhar ardente e a furiosa rigidez do corpo pareciam agora domados de certa forma.

Afinal, para ele - assim como deve ser para inúmeros cidadãos, sobre quem muito ouvimos falar- quatro dias sem punheta é um castigo que não desejamos nem aos nossos piores inimigos.

Garry José Bronhovitch adentrou sua cozinha e tomou três copos de Catuaba em três rápidos goles. Verteu metade de um saco de amendoim de quinhentas gramas para dentro da bocarra aberta e mastigou tudo aquilo com sérias dificuldades.


Depois demorou-se em uma extensa inspiração e foi acordar Juanita. Tinha ainda quatro dias de atraso pra tirar das costas. 

Avante, Dênis Curto!

Dênis Curto foi demitido do emprego por ter bafo de bosta.

O senhor tem bafo de bosta, disse a mulher do RH.

Bafo de quê? - Curto não estava prestando atenção.

De bosta, replicou a moça.

Bosta. Podemos falar bosta aqui no emprego?

Pode falar. Com parcimônia, obviamente.

Compreendo. Contudo, preferiria que você, moça do R.H, ao se referir ao odor do meu hálito, dissesse cocô. Pode ser assim?

Ok.

Então, diga lá.

Senhor Curto, o senhor tem bafo de cocô.

 E daí?

o senhor está sendo demitido por isso.

Compreendi. Mas que péssima notícia. De qualquer forma, obrigado por falar comigo. Abraço.

Igualmente.

Curto já ia escapulindo quando veio-lhe a mente um questionamento que julgou digno de ser exposto naquele momento. 

Quer dizer então, disse antes de deixar a sala, que as pessoas que têm cheiro de cocô na boca estão sendo demitidas?

Não é uma política institucionalizada, senhor Curto. Não ainda. Veja bem. Mas é uma prática recomendada pela OMS desde setembro deste ano.

A OMS aconselha as empresas a demitirem os funcionários cujas línguas cheiram feito cocô?

Sim. Tenho inclusive o paper aqui, publicado na Conferência de Illinois. Veja só.

Curto esticou seus dedinhos e trouxe a publicação até sua vista. "Stinky breaths can lead your company to bankruptcy – Why, if the toothbrush can resolve the issue, you need to step up and act like a bloody man - By Malachias Passareye".

I see.

Publicação e tanto. É um problema de saúde corporativa - explicou a moça do R.H.

Mas esse meu problema vem sendo motivo de reclamações há tempos?

Não. Começou há três meses.

Curto gargalhou. Ora, mulher idiota. Porque és tão cretina?

Ora, não faço ideia.

Não vês que na verdade não és minha boca que fede a merda, mas sim minha cara?

No compreendo – disse a moça do R.H, alarmadíssima.

Não vês que na minha cara há um tipo de substância amarronzada feito merda?

Sim.

Pois é merda. A pura merda.

Oh! Achei que fosse algum problema de pele.

Oh! Não, não é problema, são fezes mesmo. Veja só.

Curto esticou o dedo e esfregou a ponta contra a testa, retirando um tanto de material fecal da face.

Apontou o dedo para a moça do R.H.

Prove!

Ela olhou para Curto um pouco abismada. Hesitante. Por fim, pôs a língua para fora.

Curto depositou o cocô do dedo na língua ansiosa da mulher.

Sim, é merda mesmo o que tens na cara – disse ela, degustando demoradamente.

Não é um problema de bafo de bosta – explicou Curto.

Mas, ora, o que é então?

É um problema trabalhista.

Tente explicar-me isso aí – pediu a moça do R.H.

Ao chegar ao trabalho, todas as manhãs, encontro dois amplos tabletes de merda sobre os teclados de meu computador. Pendurado na ponta do palito de dente, sobre um desses pedaços, há sempre um bilhete, cuja mensagem invariavelmente é “Esfregue-me na cara, logo, antes de eu seque, estou quentinha”.

Ora, que horror. Mas quem é o autor disso?

Nunca descobri.

Será seu chefe?

Não faço ideia. Apenas vou até o banheiro, para ter mais privacidade e esfregar com mais cautela. Mas pode ser qualquer um. Um faxineiro. Um colega.

Porque você obedece a esse pedido absurdo?

Ora, obedeço porque tenho medo.

Medo. Eu também tenho – confessou a moça do R.H.

Esqueci de comentar que depois da parte que diz ‘Esfregue-me na cara, logo, antes de eu seque, estou quentinha’, está escrito sempre, ‘senão você está demitido”. 

Não posso crer nisso que conta. Não posso crer que tenhas permitido isso, senhor Curto. Deverias ter combatido essa ação indecorosa, esse abuso.

Ora, de que vale? Estou demitido de qualquer jeito. Esfregando ou não. No fim, sempre sairemos, não é? Da vida. Do trabalho. Esfregando merda na cara ou não. O resultado é sempre igual.

A moça do R.H, Richelle do Rego, olhou o homem com cocô na cara levantar-se cabisbaixo e deixar a sala. 

Disse ela, antes da porta bater, Avante, Dênis Curto! Avante! Levante essa cabeça, Dênis Curto!

A porta fechou-se num estalo. E então ela gargalhou.

Pobre idiota, disse Richelle, antes de coçar o cu. 

Cagaria no teclado de quem na manhã seguinte?

Desgraça no Largo da Pólvora


O ônibus estava escuro e repleto de pobres e feios cretinos cansados após um dia dedicado à atividades completamente irrelevantes para a continuidade e melhoria da condição da espécie humana no Planeta Terra.

Superei a catraca após encostar meu Bilhete Único num aparelho cujo nome nunca tive a curiosidade nem necessidade de saber e cumprimentei com um leve meneio de cabeça o mano com a jaqueta da Torcida Independente. Ele não reagiu, provavelmente sonhando com as pernas do Kaká, e continuou dormindo pesadamente com a cabeça apoiada no vidro gorduroso entreaberto por onde uma brisa agradável feito um peido soprava para o interior do veículo lastimável.

Grandes cobradores. Sempre nos dando novas razoes para que não sejam trocados por máquinas de última geração que, além de menos dispendiosas, poderiam realizar o trabalho de forma muita mais rápida e eficaz.

Analisei os assentos disponíveis no ônibus. Não havia nenhum. Quer dizer, havia meio. Uma senhora gorda ocupava 1,5 assento ou 75% de dois assentos na fileira do meio, logo após a porta localizada na parte intermediária do ônibus.

Uma filha da puta. Olhava para as pessoas caminhando pelas ruas. Mergulhada em algum pensamento que a reconfortava deveras. Sorria e tinha os olhos brilhantes e vivos.

Arranjei-me no corredor. Empurrando massas e massas de carne humana suada, impossibilitando o fluxo e impedindo o direito de ir e vir de todo o cidadão. Não havia muito o que ser feito além de ser chacoalhado e empurrado, pisoteado, cutucado, cuspido; rezando para que o trânsito não atrasasse demais a viagem até o ponto onde eu por fim desceria alquebrado, um pouco menos esperançoso quanto a vida e um futuro menos horrendo que o presente.

Faltando apenas três pontos para me ver livre daquele espaço claustrofóbico, mais uma leva barulhenta de homo sapiens invadiu o ônibus. Uma leva irrelevante para a prosseguimento da história humana, um grupelho asqueroso que poderia muito bem ser apagado sem nenhum prejuízo para a felicidade geral da nação. Tornaram o ar respirável ainda mais exíguo, espremendo minhas costelas quase ao ponto de quebrá-las ao se acomodarem em meio ao mar de corpos inertes.

Rangendo perigosamente a cada balanço, o ônibus sôfrego arrastou-se por mais alguns metros como um soldado que acaba de perder as pernas ao pisar sobre uma mina terrestre e busca, desesperado mas impotente, alcançar um refúgio seguro na trincheira mais próxima, deixando para trás apenas um rastro de sangue escuro e restos de tecido, osso e músculos destroçados. O que o ônibus deixava como rastro era a dignidade humana.

Uma boca se aproximou do meu ouvido. - Meu nome é Klaus, sou claustrofóbico - disse.

Virei em sua direção: - Meu nome é Eutanásio, a vida é sagrada.

Ele concordou com um movimento de cabeça e encostou um canivete suíço contra meu rim direito. Passei-lhe minha carteira, meu Motorola com antena e dois Tridents. Ele desceu no próximo ponto. Deu uma longa respirada sobre a calçada. Mastigava um dos chicletes. Estava longe daquele ambiente opressor.

“Boa, Klaus. Vá, amigo. Cuide bem de meus pertences, longe de ambientes claustrofóbicos como esse”.

Acenei timidamente. Ele não notou.

No próximo ponto, o último antes do meu, uma menina pediu passagem para conseguir saltar. Dei educadamente dois passos para trás, disponibilizando amplo espaço para ele se enveredar rumo ao mundo exterior.

Ela, talvez por ter calculado errado, roçou sua bunda magra sobre meu pênis, que jazia naquele momento meio inconsciente dentro da minha Zorba alviverde.

Ela disse alto, rindo, descendo os degraus. "Que pinto pequeno".  

Meu rosto formigou. Os rostos mortos foram inflados por um sopro animador, o sopro criado sempre que alguém passa ser humilhado publicamente. As bocas murchas ganharam contornos de um riso zombeteiro. Até um japonês me tinha como diversão. Todos me olhavam.  Que desgraça. 

Saltei no meu ponto, no Largo da Pólvora. O coração esgotado. Os risos persistiram até a porta do ônibus se fechar atrás de mim.

Pensei em arroz e em salmão. Trabalhava em um restaurante japonês. Meu dia mal havia começado. 

Latrocínio no Setor de Laticínios

Acabei de chegar ao baile de formatura da minha prima Geovânia Pires do Rego.

Passei o dia inteiro me maquiando. Coloquei meus melhores brincos, arrumei o cabelo no salão, depilei a virilha, pernas e axilas, passei o vestido no ferro Walita da vizinha, escovei os dentes duas vezes, e tantas outras coisas. E, finalmente, cá estou. Linda. Preparada para curtir muito esta noite, que é muito especial para mim e para todos os meus familiares.

Ansiosa como sou, mal cheguei e já esquadrinhei o perímetro da Eric Leonardo Salão de Festas. Fiz isso para que eu não tenha de perder minutos preciosos da festividade na fila que se formará inevitavelmente ao servirem a janta.

Já averiguei também as condições dos banheiros caso a comida não caia bem. Também fui ver se os seguranças tinham corpos bonitos.

Alguns sim, outros não. Mas quem sou eu para ficar escolhendo, né?

Agora estou aqui na mesa com o pessoal da minha família, somos em 32, entre irmãos, primos, tios e agregados. Legal demais rever meu primo Washington, que só pôde estar aqui graças ao indulto do Dia das Mães. Curioso ele estar aqui, sendo que estamos em setembro. Mas acontece, né?

Na mesa ao lado, uma família de 12 chineses se aglomera. Ouço um deles perguntando se vai ter pastel. A chinesa idosa que veste um casaco de lã levanta os olhos pesados, balança demoradamente a cabeça e responde: vai, senti um cheilinho de flitula.

De fato, o ambiente está dominado por uma profusão estonteante de odores. Muitos perfumes cortam o ar e se chocam contra minhas narinas sempre atentas. Muitos Axe e shampoos Monange.

Pois é, meu bem, trabalhar no Boticário há quase dois meses e meio acentua nossa capacidade de identificar fragrâncias. Recomendo.

E, olha, ter esse sentido apurado não é exclusividade minha, não, meu bem. Meu finado avó, o seu Gurgel, esfaqueado aos 31 anos de idade durante uma partida de truco, trabalhou como faxineiro no banheiro da estação rodoviária do Tietê e sempre gabava-se do poder olfativo que possuía.

Sabia reconhecer, dizia, pelo – ai, que vergonha falar isso, cara! - pelo cheiro do cocô (pronto, falei!) o que havia sido consumido nas refeições e as possíveis doenças dos usuários do sanitário.

Infelizmente ele próprio não foi capaz da antever, com suas narinas sobrenaturais, que uma faca Ginzu viria a penetrar seu crânio através das têmporas enquanto ele gritava “truco, ladrão”.

Além de não conseguir prever sua própria morte, ele foi incapaz de vaticinar que minha mãe havia sido infectada com Ebola na época em que trabalhou como assessora de imprensa na Tanzânia.

Perdi mommy, o anjo da minha vida, quando eu tinha apenas onze anos. E ela, com 20 - mas 20 anos muito bem vividos! -, deixou um gap irreparável in my life (vocês vão ter que me desculpar, mas ando fazendo aulas de inglês no OpenEnglish, com professores americanos 24 horas por dia, e quero utilizar um pouco do vocabulário).

A estrela da noite, a Geovânia, minha prima, sempre foi uma guerreira. Aos 45 nos ela finalmente está se formando no ensino fundamental.

Minha avó, quem esfaqueou meu avô na partida de truco, sempre lembra os familiares que Geô só aos 27 anos aprendeu a escrever o nome do cachorro dela. O nome do cachorro dela era I. Escolheram o nome justamente para facilitar e motivá-la a aprender a escrever. Deu relativamente certo.

Alguns têm a impressão que se o cão se chamasse Io ela ainda estaria no processo. Mas o que importa é que ela é uma batalhadora. Hoje sabe reconhecer umas 20 letras e balbucia algo próximo de 32 palavras.
Parece pouco, mas foi o bastante para conseguir o diploma do ensino médio aqui em São Paulo.

De modo que não preciso dizer para vocês como hoje é um dia especial.

Mas quer saber? Estou um pouco com inveja dela, não vou negar.

Ainda não me formei.

Precisei largar tudo (estudo, Facebook) quando surgiu a chance de trabalhar no Bob´s. A partir daí foram só conquistas na minha vida, e passei a descrever uma trajetória digna dos grandes seres humanos desse planeta. Do Bob´s para o Burguer King. Do Burguer King para o McDonalds. Do McDonalds para o Subway. E agora no Boticário.

Nessa correria doida do dia a dia, deixei os estudos de lado. Mas tudo bem. Ainda leio muito. Código da Vinci. Padre Marcelo Rossi. Guia de Viagens do Zeca Camargo. Dicionário de Sinônimos e Antônimos.

Um dia pretendo voltar a estudar. Mas não tenho certeza total, é uma certeza média, digamos assim. Muitos dos meus ídolos nunca estudaram e olha onde estão, poxa! O Latino, muitos dos meus MCs favoritos, o Mc Gui, o Mc Donalds, o Mc Guime -  hoje estão todos entre os brasileiros mais influentes do século XXI, segundo me contam quando vou ao salão.

E outra, se formar nem sempre é uma boa. Lembro-me da formatura do meu primo Abidal. Quando ele subiu ao palco para pegar o diploma na colação de grau, o lugar se transformou num pandemônio, repentinamente. Todos gritando “Ô Abidal, pega no meu pau”.

Algumas pessoas não têm respeito. Não tem Deus no coração. Credo.

Vi que algumas moças e moços do buffet (se diz bife, né? ou bifê?- ah, sei lá, meu!) começaram a trazer imensas travessas fumegantes com muita comida e coisas assim.

Levantei da mesa, empurrei um chinês, corri, agarrei meu prato e já me adiantei para receber a primeira colherada.

Tudo isso com muita agilidade para meus 130 quilos. Tô um pouquinho acima, sim, mas já perdi 300 gramas desde o ano passado. Falam que o mais difícil é começar a perder. Que depois vai rápido. Bom, eu já comecei a perder. Agora só falta a parte de emagrecer.

Como primeira da fila, estiquei o prato para receber a primeira colherada de fettuccine ao funghi. O prato pesou com a quantidade de macarrão depositada ali e quase veio ao chão. Olhei para o menino do buffet, equilibrando o prato, e ele riu.

Pedi mais uma colherada pro danadinho, já que o macarrão parecia delicioso. Ele colocou. Ui!

Não tirei os olhos do rosto dele durante a segunda colherada, de forma que ele poderia ter colocado merda ali e eu jamais teria percebido.

Ele era lindo, o servidor de macarrão.

Bem escurinho. Com um bigode negro, lustroso. Tinha alguns pontos brancos de pus de espinha na cara, que lhe davam um aspecto parecido ao dos cookies de chocolate com gotículas de chocolate branco que andavam vendendo no Subway quando trabalhei lá.

Ainda hipnotizada pela beleza daquele mancebo, automaticamente empunhei minha colher, enchia-a de comida e engoli sem pensar uma boa parcela do macarrão depositado no prato, o que deveria equivaler ao peso de um saudável recém-nascido.

Foi um impulso comer ali, ainda na fila, na frente de todos aqueles formandos do Ensino Médio. Mas aconteceu. Não sou dessas que ficam se martirizando pelos erros. Aconteceu e pronto, meu!

Quando a comida desceu, após dar uma arranhada um pouco esquisita nas proximidades da faringe, passei a notar que o garoto agora me olhava com um ar de incredulidade, um pouco assustado, com nojo até. Estava sobressaltado e olhava repetidas vezes para o pulso da mão esquerda.

Que menino idiota, meu, pensei de mim para mim mesma.

A fila já começava a se impacientar. Resolvi ir embora, equilibrando o pesado prato com as duas mãos, e deixar aquele menino pateta para trás.

Mas antes de voltar à mesa, voltei a mirá-lo, por curiosidade.

Ele continuava com os olhos colados em mim. Ainda com uma expressão assustada, como se acabasse de ter sido assaltado. De vez em quando, olhava para o pulso.

Que garoto esquisito.

Mas era gato.

Depois de comer aquela quantidade absurda de massa e dar uma provadinha na sobremesa, resolvi dançar com a tia Marlúcia, que já peidava sem parar.

Tocava então “Gostava tanto de Você”, do Tim Maia –  que saudades do Tim, meu! Salve, salve, Tim! Mestre da nossa música popular do Brasil.

E então ele apareceu ali na pista de dança, com o uniforme da Eric Leonardo Buffets e Festas – uma holding da Eric Leonardo Enterprises.Chegou perto. Temerário. Mas já um pouco safado.

Passou a apalpar-me carinhosamente o abdômen, os tríceps murchos e o papo. Em verdade vos falo, fiquei excitadinha.

Durante a dança, ele permaneceu ao meu lado. O interessado meninão me desejava claramente. Ora! Queria possuir-me por completo.

E não só ele.

Infinidades de outros bípedes pluricelulares me olhavam incrédulos, dominados pela lascívia, subjugados pelo despudor e pelo sentimento empreendedor masculino de concatenar orgias em ambientes não indicados como velórios e reuniões de funcionários.

Ele me beijou depois que a tia Marlúcia retornou para a mesa sob o pretexto de tomar um remédio para gases. Apalpou minha bunda. Mas contidamente. Achei bem esquisito. Mas já estava caidinha.

Criei coragem e levei-o para conhecer minha família.

Apresentei-o a meu pai, um pouco encabulada.

O gato, ao contrário, pareceu desabrochar-se com a interação. Contou, para minha completa surpresa, que havia trabalhado no ramo de franquias, em um hospital para idosos e na fábrica da Bauducco de Guarulhos, sendo o responsável, nesta última empresa, em colocar a quantidade exata de açúcar na mistura que posteriormente viria a se transformar num panetone.

Em todos esses casos, ele, usando de sua lábia marota e irresistível, sempre traia a confiança da chefia, inventando histórias críveis, tais como ir à reuniões para assinatura de contratos ou realizar visitas técnicas, para, na verdade, beber cerveja pelos botecos de Interlagos com seus amigos travestis filiados ao Partido Verde. 

Ele falava, contando suas peripécias nesta existência, e eu, cada vez mais excitada. Apesar de, notei então, seu corpo exalar um cheiro similar ao da superfície do Rio Pinheiros.

Finalmente, belisquei o cabeçote de seu pinto e lhe falei, ao pé do ouvido. “Vamos ao botel?”

Ele perguntou, “onde?”.

“Ao botel”, respondi.

“Que?”.

“Botel, porra. Para drepar”.

“Ah, sim”.

Despedi-me triunfantemente de minha família e da Gêo, e chispei veloz como qualquer mulher há treze meses sem sexo dirige-se para um motel ensebado. Ali no quilômetro 8 da Anhanguera, perto de Caieiras, deparamo-nos com o lugar ideal. Foi uma noite de amor intenso, por módicos 70 reais.

Apesar de sentir que ele não estava inteiramente à vontade, satisfiz-me como mulher.

Dormi e sonhei que era a Demi Moore. 

Pela manhã precisei aliviar um pouco de peso resultante da farta janta. Meu garanhão descansava de seus heroicos e delirantes feitos. Na ponta dos dedos, como Ayrton Senna nas voltas finais, fui dar uma defecada no banheiro da suíte.

Tudo certo. Dois toroços (forma informal para se referir a fezes de tamanho não muito comum devido à grossura e ou tamanho) boiavam na água, como um casal de férias nos mares de Ibiza.

Ao sair do toalete, enquanto ainda ressoava da privada castigada o rugido decrépito da descarga, deparei-me com meu menino junto à porta.

Olhava-me como que febril.  Suava abundantemente e, com as mãos a tapar as vias nasais, parecia completamente fora de si. 

- Você deu a descarga ali, mina? Foi? O que tinha lá?

- Só cocô, meu amô – respondi, rindo.

Depois de aparentemente controlar um jato de vômito que lhe subiu das entranhas, ele se acalmou.  Suas feições afrouxaram-se e ele perguntou se eu havia sentido algo de diferente durante a noite. Intestinalmente falando.

Disse que não, que estava tudo nos conformes. Aproveitei o diálogo para comunicar-lhe meu irrefreável desejo de ingerir alguma gororoba doce e/ou gordurosa o quanto antes.

Ele acatou e lá nós fomos desjejuar na padaria mais próxima.

Era de manhã, de modo que não era de tarde e muito menos de noite.

Na padaria, ainda trajando meu vestido da noite anterior, pedi uma porção de torresmo consideravelmente oleosa, uma de minhas favoritas, apenas para despertar por completo.

Ele sentou-se ao meu lado, pediu um suco de melancia. Parecia esperar por alguma coisa, ansioso, muito incomodado. Suspeitei que seu estado de nervosismo quando me interceptou na saída do banheiro estava começando a retornar.

Alegrei-me ao ver o garçom vindo com os pedidos.

Ao aninhar o alimento servido com meu braço esquerdo, agarrei, com a mão direita, um pote graúdo de Doriana ali na vitrine ao lado e deixei-o ali sobre a mesa, para poder mergulhar os pequenos torresmos na manteiga. 

Ele ficou imóvel, apreciando, talvez, eu desjejuando. Pareceu-me que sua feição ganhava cada vez maiores contornos de asco. Misterioso aquele homem. Manteria trancado no peito um coraçãozinho de ajudante de formatura perfeitamente triste e revoltado?

Aquilo me entristecia. Porque aquele homem estava tão diferente após nossa noite tórrida de amor? Onde estava aquele calor que eu havia conhecido na pista de dança? Onde estaria escondida aquela energia?

Aquelas questões eram-me obscuras demais, e respostas eram insuficientes naquele instante.

Estava próxima de cair em prantos, e molhar meus preciosos torresmos. Antes de a segunda porção chegar (dessa vez pedi frango a passarinho - outra porção das minhas favoritas), decidi retirar-me momentaneamente para o sanitário mais próximo para que assim escondesse minhas lágrimas de desolação.

Enclausurei-me em uma cabine e, aproveitando a placidez do sanitário, resolvi excluir de uma vez por todas o saudoso jantar de meu organismo. E assim fiz, tortuosamente.

E assim feito, ouvi um tilintar esquisito.

Oh! Havia um belíssimo relógio dourado, um Rolex, boiando ali em meio das bolotas de cocô de médio calibre.

Deveria valer um bom dinheiro aquele relógio, imaginei. Como havia parado ali? Não tinha nada na privada antes de eu sentar. Ou havia?

Tirei-o cuidadosamente da privada, tratando de não esbarrar em nada. Depois de secar, o coloquei cuidadosamente, enrolada em papel higiênico, no fundo da bolsa. 

Aquele mistério fez-me esquecer dos problemas que passava a enfrentar com o bonitão do Buffet de formatura, cujo nome, realizei então, nem sequer havia perguntado. 

Quando abri a porta, ora bolas, lá estava ele novamente! Olhava-me furiosamente, os olhos ardiam em duas labaredas.

Informei-lhe que aquela maneira de agir estava me deixando assustada e que não podia acreditar que, além disso, ele havia deixado minha meus pedidos à mercê de qualquer famintinho surrupiador de porções.
Desesperada, tratei de me apressar, saindo em busca de meus estimados franguinhos. Contudo, ele me segurou pelo braço, com força desmedida. 

- Perdi a paciência, sua gorda. Cadê o relógio que você comeu?

- Que relógio?

Silêncio. Ele estremecia. As palavras não saiam de sua boca.

- Como eu poderia comer um relógio? Isso é impossível! – disse.

 - Meu relógio! Você comeu o meu relógio na festa ontem. Escorregou para o prato, para dentro do macarrão e você comeu. Nem tive tempo de impedir.

 - Você está louco, garoto do buffet.

 Comecei a chorar, ganindo, desamparada, esperneando, totalmente entregue à louca crueldade da crueldade louca daquele louco e cruel homem.

 - Porque és tão cruel e louco? Não percebe que me encontro totalmente entregue à sua louca crueldade? – perguntei.

 - Percebo! Mas não percebes, gordinha, que o relógio me é importante demais?

Saí do banheiro, desvencilhando-me de suas mãos, correndo, ganindo meu choro faminto. Ele veio atrás.
Quando voltei para a mesa, um homem entrou na padaria.

Tinha na mão uma pistola.

Era um assalto, ele declarou apontado a arma para os funcionários e clientes. Pensei nos frangos. E então no relógio de ouro.

O malfeitor discutiu com o gerente. Deu um murro na boca de uma senhora. Puxou o celular de um menino jovem e, então, veio na minha direção.

“Minha comida jamais, seu vagabundo”, gritei. E empurrei o cara do buffet para cima dele.

Peguei a travessa com os frangos a passarinhos, que eram tantos e tão suculentos, e corri para a parte de trás da padaria.

Precisava esconder meus pertences valiosos em algum local, para que o meliante calhorda de uma figa jamais os encontrasse. Depositei a travessa no chão, escondida atrás de caixas empilhadas de leite desnatado. O setor de laticínios me pareceu o lugar perfeito. Era geladinho. E eu suava abundantemente.
Busquei identificar onde se encontrava o ladrão.

Não o vi. Talvez tivesse desistido de me perseguir. Ou, quem sabe?, o buffet boy (meu inglês está tinindo) o havia desarmado.

Era a hora de tirar o relógio e escondê-lo ali entre duas embalagens de Philadelphia. 

Pesquei o papel com o objeto do fundo da bolsa e, quando estiquei o braço para depositá-lo ali na vitrine, ouvi sua voz horrenda.

- Que tá fazendo ai, sua gorda escrota?

Ser chamada daquela forma me aborreceu deveras.

- Nada. Estava pegando o leite pra conferir a data de validade.

- Pode passar esse papel ai.

Entreguei o relógio para ele. Os frangos a passarinho permaneciam longe de sua atenção escondidos atrás da pilha de leite.

Ele desembrulhou o papel higiênico e então seus olhos brilharam. Não esperava que havia um relógio caríssimo sob o papel.

De repente, o malfeitor foi empurrado contra a estante de laticínios. Era o misterioso buffet boy de volta.
Começou uma briga brutal. Com socos e pontapés. O bandido então puxou a arma da cintura e apontou para o menino da festa. Disparou.

Foi chocante para mim ver o corpo tombar no chão, já inerte, tenda a ida escapulido décimos de segundo antes.  Horas atrás aquele corpo quente me penetrava o ânus e, agora, estava branco feito um queijo prato.
O assaltante apontou a arma para o teto e atirou diversas vezes para o alto, gritando: “não quero mais nenhuma gracinha aqui”.

As balas chocaram-se contra as luminárias, as quais vomitaram vidro partido das lâmpadas. Já sem o relógio, pulei sobre meu prato de frango a passarinho, para protegê-los dos objetos cortantes. Nenhum de nós foi ferido.

No chão, abraçando a travessa, vi que os franguinhos estavam pálidos, assustadiços com aquela violência tão comum no mundo dos humanos.

 O assaltante veio ao meu encontro, lentamente.  - O que esconde ai agora, obesa do caralho?

Abri os braços, revelando minha querida porção de frango a passarinhos, supercrocante.

Ele riu e pegou a travessa com a mão, na outra, a arma que havia matado o garotinho do buffet.

Olhou bem para mim. Recarregou seu revólver. E arremessou a porção no chão. Depois pisou sobre os franguinhos, feito o Seu Madruga.

Não havia necessidade alguma daquilo. Ele era um monstro.

Não só havia matado um jovem inocente de pênis avantajado, como roubado o relógio que eu havia comido e, por sinal, tentado roubar também. Mas, não feliz com essas monstruosidades todas, resolvera ainda jogar meu desjejum no chão.

- Mostro! – urrei contra ele.

Resolvi que era hora de agir.

Iria desarmá-lo em nome daquelas dezenas de vida (do meu amante e dos franguinhos que foram abatidos à toa) perdidas.

Tentei levantar rapidamente para agredi-lo. Mas ele me alvejou com cinco balas no estômago antes - bem antes vamos dizer - de eu me aproximar dele.

Tombei no chão como um boi depois de tropeçar num cupinzeiro.

Notei que estava morrendo. Não havia saída. Vítima de um roubo. Depois assassinada.

Tombada no chão, vi que um dos frangos a passarinho estava próximo de mim.

Tentei agarrar um.

Com a ponta dos dedos, belisquei a pele fria e gordurosa. Puxei o pedaço, com a mão tremendo, já fria. Mordi a carne deliciosa. Mastiguei uma, duas, três vezes. Engoli. Morri.


Regurgito Textual

As pendências balouçavam em meu papo inflado como provetas aladas destituídas dos rumores do bater de asas das flores estacadas na terra lamacenta e lamuriosa e queijos coalhos vendidos por caolhos cheirando a couves-flores de Parma misturavam-se ao fedor do suor rançoso do milho e das estripulias femininas capazes de trazer um estado de semi-rigidez temporal ao meu pênis carente de afagos e beijos babados. 
.
“E todas essas meninas”, pensei comigo, enquanto descabaçava a casca danada de um pistache com os dentes podres, “bamboleando as bundas rumo o trabalho, para sentá-las contra cadeiras semi-estofadas por horas enquanto açoitam suas retinas com frases venenosas as quais reportam minuto a minuto nossa vexatória atuação sobre a face de Terra. Centenas de milhares de belas nádegas, embaladas em vestidos suaves, que nasceram para escutar o som bronzeando de suas bochechinhas rubras e lisas sendo torradas com carinho maternal pelo Soile, sendo sufocadas até a semi-consciência contra um produto de terceira”.

Ô, negada linda de meu deus, feita com pinceis novos, tinta importada de Florença e esporrado num gemido gutural contra  tela trançada com pelos pubianos de rainhas e princesas, vamos nos aconchegar together e construir caiaques resistentes para remar contra a quilométrica queda d’água que nós separa da tranquilidade alucinada, do cérebro fervilhantes de informações e conexões, das histórias que revelam nossa origem, destino e razão.

Uma pina colada com rum é o que basta para esse regurgito textual. Um brinde.

Vamos para Poá?

Minúsculos por parte de Espanha e devaneios açucarados em flancos triangulares. Temíveis e recôncavos.

Saudades de mim, não é?

Mas não me queixo - e jamais irei - de deixar de afirmar que me nego em queixar-me disso aí. Disso mesmo!

Verão que no verão são os patos de sapatos que atravessam a rodovia sem queimar as patas.

E por que não consegue conceber consigo próprio nada além disso e anda todo o dia, e tento, viu?

Os passos passam-se em lugares específicos, a quase todos os instantes ali, acolá, aqui também!, estalando por sobre pedrinhas fatiadas por um trio escamoteador de cozinheiras cuidadosas - uma mãe!

Um bolo quente agora prejudicaria minha tarde amanhã, e talvez até a manhã da vida inteira que estou a desperdiçar.  E, além disso, considerando a suavidade do frio do ar que se movimentava, as coisas caminhavam de maneira impecável.

Pois andava atravessando destemido o frio do ar que se movimentava.

Sabes tu que o inverno dificilmente erra e seus comentários calculados são de uma sobriedade impar?

Sei que sabes, cossaco, curioso comuna com mula. Alias, simulas mamilinhos das girls ad exaustum?

Se faz, és erro retumbante, coisa que Vernon God Little e seu séquitos de bilhetes únicos e gororobas de goiaba jamais invejariam.

Haveria de haver, com H, alguma voz ali dentro, dentro do cemitério micmac, onde talvez enterrem Gage?Haveria anjinhos chineses, que agora fabricam chinelos brancos Nike made in Heaven, tomando um sorvete no dedo sujo,  lambendo-se com suas linguinhas nojentas?

Sim, sim a tudo, e seria inesquecível até a manhã seguinte, caso na sorte dum lance factual, meus milhos e seu milho mamassem milímetros do mel matinal. Sorvete e bolo e meia dúzia de tenras pedritas de gelo diáfanas que liquefazem-se enquanto venta os suspiros novalgínicos.

Porém, me é caro deveras os insultos exuberantes direcionados para as portenhas, possuidoras de portentosas peneiras plásticas e de pormenorizados paquidermes palestinos, pseudo-pára-polenta.

Poá!

Vamos lá....para Poá.

Vamos para Poá?

Não. E outro não.

O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






O Pardal Imoral Headline Animator