Para aqueles que acreditam piamente na redenção post mortem e nas maravilhas que o falecimento trará - acho que ainda devem formar boa parcela dos ainda vivos daí da Terra - envio notícias alarmantes.
Peço apenas que ponderem as informações que seguem, já que creio que deverão agradar aqueles em paz com sua verdadeira essência e desagradar mortalmente aqueles que não sabem ser o que verdadeiramente são.
Faço aqui pausa respeitosa para saudar o trabalho do médium que, sempre disposto em ocasião de contato, psicografa este texto sobrenatural.
Logo ao chegar, ainda atordoados e buscando focalizar algo familiar em meio a toda a claridade cegante, somos recepcionados por sorridentes e belas mulheres que encaminham os recém-chegados para os locais apropriados, após educadas boas-vindas.
Somos então separados em grupos e nos dão intruções para o famoso julgamento, que não é assim tão rígido quanto imaginam por aí.
Leva-se em conta neste julgamento, principalmente, a qualidade, quantidade de pecados cometidos e o modo como tratou a mãe durante sua passagem terrena; depois, algumas imagens são exibidas para a apreciação dos serafins. Não posso deixar de informar que nesse momento, quando duas cansadas figuras angelícais assistiam meus feitos, sofri de uma vergonha que jamais havia passado nos meus dias de prostituta. Fui repreendida pelos anjinhos apressados por causa de atos que confesso terem sido inapropriados e que, sob os olhares azuis de recatados anjos, dão impressão de serem ainda mais imperdoáveis.
Os alvos seres alados, tenho certeza, não gostaram de ver como fazia a vida; olhando agora sei que poderia ter feito melhor. Passei boa parte dos anos acima do peso e agora me pergunto como era tão requisitada.
Há depois uma entrevista com um garboso serafim. Foi então que deitada no divã pedi a ele perdão total por meus anos passados nos meios fios das calçadas da cidade e pelos passeios muitas vezes bizarros dentro de automóveis infestados por uma número indeterminado de adolescentes ensebados.
Faremos um parenteses aqui para detalhar minha morte e em breve retornamos aos assuntos referentes aos céus. Foi por causa de minha atividade mal remunerada de prostituta de rua que acabei por estas bandas celestiais.
Estava, como de praxe, com as pernocas para fora, na tentativa de atrair o olhar e a líbido não saciada de um pobre solitário, em plena tarde de um domingo de Páscoa (domingos de Páscoa sempre são fracos, mas tardou menos do que o comum), quando um lustroso Uno Mille sinalizou com o farol a intenção de estacionar. Aprontei-me internamente para aguentar mais um rapazote enquanto a janela baixava.
E não é que ali estava ele, Clodoaldo, meu maior cliente, e responsável direto por meu falecimento. Entrei no veículo que tremia ao som de um motor engasgante. Havia nem ajeitado o cinto de segurança e o odor inconvivível do Clodoaldo já se fazia presente. Rezei para que tudo chegasse ao fim o quanto antes.
Já no quarto, tratei de abrir todas as janelas que podia afim de atenuar aquele colônia de axila. Em vão. No leito, preparando-me para seduzi-lo, levantei-me sobre a cama para tirar meu top de seda e uma haste particularmente afiada do ventilador bambo decepou minha cabeça e atirou-a precisamente para além da janela aberta. Ficaram no quarto meu corpo e a expressão horrorizada do sujeitinho fedido.
De volta ao chamado paraíso.
Após responder sim às repetidas perguntas sobre se estava arrependida da vidinha desregrada e infeliz que havia levado, fui obrigada a prestar um juramento.
Jurei jamais me render à putaria, à boêmia ou ao vício, seja lá à qual modalidade esse pertencer, enquanto estiver por ali. Assim, fui perdoada pelos céus. Simples. O perdão me fez sorrir e respirar tranquilamente, mas essa vivência intensa pela qual começei a passar nesta minha recém-iniciada vida pós morte estava me cansando deveras; afinal, os mesmos que acreditam nesse lugar, afirmam também que o ócio reina soberano por sobre as nuvens.
Mas não era assim, e se meu esgotamento prosseguisse neste nível por toda a eternidade, teria começado a desejar retornar aos dias de prostituição. Por sorte, posteriormente, tive momentos bastantes serenos e que ajudaram-me a enfrentar os terríveis acontecimentos que seguiriam.
O número de pessoas que aqui aporta é de se espantar e o trabalho constante e rápido empreendido pelos querubins também é.
Observá-los voando de um canto a outro, separando contingentes intermináveis em filas, carimbando papeladas e documentos fartos, xerocando cpfs e atestados de óbito em meio à sons que em nada lembravam as harpas por aí citadas, me fazia pensar se é vantagem ter como profissão a de anjo.
Eu achava que não, apesar da existência de um trabalho particularmente interessante: o de "chamada", o qual consiste trazer para cá as pessoas aí estão. Tudo controlado minuciosamente por um computador que seleciona, sob as ordens de um anjo especializado, de dentro de uma sala restrita, a " Sala de Chamada", os convidados a se retirar da vida terrena.
Mas não apenas os anjos formam o corpo de trabalhadores desse paraiso esquisito. Nós, não anjos, também somos postos ao trabalho, desempenhando as mais variadas atividades. Tenho certeza que este relato não lhe agrada e que começa a temer por saber que pode ter de trabalhar após seu falecimento.
Pois não é verdade que muita gente morre só para escapar do trabalho?
Pois é verdade que meu dia a dia no céu era igual ao da Terra, ao menos, sentia-me igual: acordava deprimida e levantava por obrigação; trabalhava num emprego desumano, fingindo me preocupar com o bem-estar alheio enquanto tratavam meu corpo assim como um tratam jornal velho abandonado ao léu; voltava para minha alugada e pequena nuvem e dormia para não mais acordar.
Sentia uma intensa atração para que voltasse àquela sórdida vida, mas o juramento feito por mim, e também pelos outros, impossibilitava qualquer modalidade de safadeza.
E além disso, toda manhã, ao contrário dos demais hospédes que alegram-se com o desjejum farto que era servido, eu descia as escuras escadas que levavam para um região cavernosa coberta por enormes rochas escuras e cercada por altas e raivosas labaredas.
Ali a temperatura era notadamente elevada, mas ao atravessar a porta da sala e adentrá-la, o ar condicionado refrescava e fazia-me esquecer o sufocante calor lá de fora.
A sala estava sempre deserta se não fosse a presença de uma dúzia de querubins pervertidos que ficavam pedindo para que eu contasse minhas histórias escabrosas e mostrasse as panturilhas. Eles riam desgovernados, envergonhados e acho que certa vez vi de relance uma ereção angelical.
Mas não era isso que me irritava, o chato era sofrer abusos dos antigos clientes que aqui reencontrava. E eu, que havia sido escalada para trabalhar de hostess da seção Latino-Americana dos recém- chegados, encontrava-os a todo o instante.
Comecei a perceber que as coisas eram iguais às da Terra, pois certo dia nos foi comunicado que um forte crash em nossa economia iria prejudicar a vida de toda a população celestial.
Alguns falavam em perdas massivas de salários, outros estavam certos de que demissões coletivas estavam por vir. Deus falava que era só uma marolinha e que não iria surtir efeito nenhum e nossas vidas prosseguiriam da mesma maneira.
Mas ele estava enganado. Então recebemos, perplexos, a notícia da demissão coletiva e logo uma putaria insana tomou os céus.
Os anjinhos, fartos dos trabalhos extenuantes, livravam-se de suas lisas vestimentas brancas e voavam ensandecidos com seus míudos pênis em riste na direção dos que ali estavam ou chegavam - deve ser um experiência traumatizante morrer e logo depois visualizar anjos nús, com pênis eretos, perseguindo pessoas, dentre elas você.
Mulheres, já não mais convivendo com a abstinência, roçavam as bundas nas harpas e demais objetos roliços e se enganchavam com outras igualmente descontroladas. Adolescentes deitavam-se sobre as nuvens e masturbavam-se chorando de alegria.
Corpos de homens e mulheres confundiam-se em uma única massa carnal e gemidos e gritos eram agora a trilha sonora daquele paraiso. Em certo momento, Deus foi cercado por idosas fervorosas que, decepcionadas com sua incompetência, ataram Suas mãos, surraram-O e atearam fogo em Seu corpo.
Nietzche sorriu sob o espesso bigode e agora podia gabar-se de estar certo.
"Deus está, agora sim, morto"- disse, satisfeito. E eu também sorria.
Esperava ver as beatas, crentes, padres e sacristãos contemplarem o verdeiro céu, e então corri à "Sala de Chamada" e tratei de selecionar todo o corpo eclesiástico do Vaticano de uma só vez.
Voltei correndo, já nua, claro, para a seção Européia dos recém- chegados, e não pude conter minha diabólica risada quando vi caminhando, liderando a fila pálida, o santo padre.
"Mas que zona é essa, minha filha?" - perguntou ele, sem esconder sua felicidade."Sempre achei que o céu deveria ser uma putaria brava" - completou, abandonando suas vestes e caminhando firmemente rumo à perdição.
Peço apenas que ponderem as informações que seguem, já que creio que deverão agradar aqueles em paz com sua verdadeira essência e desagradar mortalmente aqueles que não sabem ser o que verdadeiramente são.
Faço aqui pausa respeitosa para saudar o trabalho do médium que, sempre disposto em ocasião de contato, psicografa este texto sobrenatural.
Logo ao chegar, ainda atordoados e buscando focalizar algo familiar em meio a toda a claridade cegante, somos recepcionados por sorridentes e belas mulheres que encaminham os recém-chegados para os locais apropriados, após educadas boas-vindas.
Somos então separados em grupos e nos dão intruções para o famoso julgamento, que não é assim tão rígido quanto imaginam por aí.
Leva-se em conta neste julgamento, principalmente, a qualidade, quantidade de pecados cometidos e o modo como tratou a mãe durante sua passagem terrena; depois, algumas imagens são exibidas para a apreciação dos serafins. Não posso deixar de informar que nesse momento, quando duas cansadas figuras angelícais assistiam meus feitos, sofri de uma vergonha que jamais havia passado nos meus dias de prostituta. Fui repreendida pelos anjinhos apressados por causa de atos que confesso terem sido inapropriados e que, sob os olhares azuis de recatados anjos, dão impressão de serem ainda mais imperdoáveis.
Os alvos seres alados, tenho certeza, não gostaram de ver como fazia a vida; olhando agora sei que poderia ter feito melhor. Passei boa parte dos anos acima do peso e agora me pergunto como era tão requisitada.
Há depois uma entrevista com um garboso serafim. Foi então que deitada no divã pedi a ele perdão total por meus anos passados nos meios fios das calçadas da cidade e pelos passeios muitas vezes bizarros dentro de automóveis infestados por uma número indeterminado de adolescentes ensebados.
Faremos um parenteses aqui para detalhar minha morte e em breve retornamos aos assuntos referentes aos céus. Foi por causa de minha atividade mal remunerada de prostituta de rua que acabei por estas bandas celestiais.
Estava, como de praxe, com as pernocas para fora, na tentativa de atrair o olhar e a líbido não saciada de um pobre solitário, em plena tarde de um domingo de Páscoa (domingos de Páscoa sempre são fracos, mas tardou menos do que o comum), quando um lustroso Uno Mille sinalizou com o farol a intenção de estacionar. Aprontei-me internamente para aguentar mais um rapazote enquanto a janela baixava.
E não é que ali estava ele, Clodoaldo, meu maior cliente, e responsável direto por meu falecimento. Entrei no veículo que tremia ao som de um motor engasgante. Havia nem ajeitado o cinto de segurança e o odor inconvivível do Clodoaldo já se fazia presente. Rezei para que tudo chegasse ao fim o quanto antes.
Já no quarto, tratei de abrir todas as janelas que podia afim de atenuar aquele colônia de axila. Em vão. No leito, preparando-me para seduzi-lo, levantei-me sobre a cama para tirar meu top de seda e uma haste particularmente afiada do ventilador bambo decepou minha cabeça e atirou-a precisamente para além da janela aberta. Ficaram no quarto meu corpo e a expressão horrorizada do sujeitinho fedido.
De volta ao chamado paraíso.
Após responder sim às repetidas perguntas sobre se estava arrependida da vidinha desregrada e infeliz que havia levado, fui obrigada a prestar um juramento.
Jurei jamais me render à putaria, à boêmia ou ao vício, seja lá à qual modalidade esse pertencer, enquanto estiver por ali. Assim, fui perdoada pelos céus. Simples. O perdão me fez sorrir e respirar tranquilamente, mas essa vivência intensa pela qual começei a passar nesta minha recém-iniciada vida pós morte estava me cansando deveras; afinal, os mesmos que acreditam nesse lugar, afirmam também que o ócio reina soberano por sobre as nuvens.
Mas não era assim, e se meu esgotamento prosseguisse neste nível por toda a eternidade, teria começado a desejar retornar aos dias de prostituição. Por sorte, posteriormente, tive momentos bastantes serenos e que ajudaram-me a enfrentar os terríveis acontecimentos que seguiriam.
O número de pessoas que aqui aporta é de se espantar e o trabalho constante e rápido empreendido pelos querubins também é.
Observá-los voando de um canto a outro, separando contingentes intermináveis em filas, carimbando papeladas e documentos fartos, xerocando cpfs e atestados de óbito em meio à sons que em nada lembravam as harpas por aí citadas, me fazia pensar se é vantagem ter como profissão a de anjo.
Eu achava que não, apesar da existência de um trabalho particularmente interessante: o de "chamada", o qual consiste trazer para cá as pessoas aí estão. Tudo controlado minuciosamente por um computador que seleciona, sob as ordens de um anjo especializado, de dentro de uma sala restrita, a " Sala de Chamada", os convidados a se retirar da vida terrena.
Mas não apenas os anjos formam o corpo de trabalhadores desse paraiso esquisito. Nós, não anjos, também somos postos ao trabalho, desempenhando as mais variadas atividades. Tenho certeza que este relato não lhe agrada e que começa a temer por saber que pode ter de trabalhar após seu falecimento.
Pois não é verdade que muita gente morre só para escapar do trabalho?
Pois é verdade que meu dia a dia no céu era igual ao da Terra, ao menos, sentia-me igual: acordava deprimida e levantava por obrigação; trabalhava num emprego desumano, fingindo me preocupar com o bem-estar alheio enquanto tratavam meu corpo assim como um tratam jornal velho abandonado ao léu; voltava para minha alugada e pequena nuvem e dormia para não mais acordar.
Sentia uma intensa atração para que voltasse àquela sórdida vida, mas o juramento feito por mim, e também pelos outros, impossibilitava qualquer modalidade de safadeza.
E além disso, toda manhã, ao contrário dos demais hospédes que alegram-se com o desjejum farto que era servido, eu descia as escuras escadas que levavam para um região cavernosa coberta por enormes rochas escuras e cercada por altas e raivosas labaredas.
Ali a temperatura era notadamente elevada, mas ao atravessar a porta da sala e adentrá-la, o ar condicionado refrescava e fazia-me esquecer o sufocante calor lá de fora.
A sala estava sempre deserta se não fosse a presença de uma dúzia de querubins pervertidos que ficavam pedindo para que eu contasse minhas histórias escabrosas e mostrasse as panturilhas. Eles riam desgovernados, envergonhados e acho que certa vez vi de relance uma ereção angelical.
Mas não era isso que me irritava, o chato era sofrer abusos dos antigos clientes que aqui reencontrava. E eu, que havia sido escalada para trabalhar de hostess da seção Latino-Americana dos recém- chegados, encontrava-os a todo o instante.
Comecei a perceber que as coisas eram iguais às da Terra, pois certo dia nos foi comunicado que um forte crash em nossa economia iria prejudicar a vida de toda a população celestial.
Alguns falavam em perdas massivas de salários, outros estavam certos de que demissões coletivas estavam por vir. Deus falava que era só uma marolinha e que não iria surtir efeito nenhum e nossas vidas prosseguiriam da mesma maneira.
Mas ele estava enganado. Então recebemos, perplexos, a notícia da demissão coletiva e logo uma putaria insana tomou os céus.
Os anjinhos, fartos dos trabalhos extenuantes, livravam-se de suas lisas vestimentas brancas e voavam ensandecidos com seus míudos pênis em riste na direção dos que ali estavam ou chegavam - deve ser um experiência traumatizante morrer e logo depois visualizar anjos nús, com pênis eretos, perseguindo pessoas, dentre elas você.
Mulheres, já não mais convivendo com a abstinência, roçavam as bundas nas harpas e demais objetos roliços e se enganchavam com outras igualmente descontroladas. Adolescentes deitavam-se sobre as nuvens e masturbavam-se chorando de alegria.
Corpos de homens e mulheres confundiam-se em uma única massa carnal e gemidos e gritos eram agora a trilha sonora daquele paraiso. Em certo momento, Deus foi cercado por idosas fervorosas que, decepcionadas com sua incompetência, ataram Suas mãos, surraram-O e atearam fogo em Seu corpo.
Nietzche sorriu sob o espesso bigode e agora podia gabar-se de estar certo.
"Deus está, agora sim, morto"- disse, satisfeito. E eu também sorria.
Esperava ver as beatas, crentes, padres e sacristãos contemplarem o verdeiro céu, e então corri à "Sala de Chamada" e tratei de selecionar todo o corpo eclesiástico do Vaticano de uma só vez.
Voltei correndo, já nua, claro, para a seção Européia dos recém- chegados, e não pude conter minha diabólica risada quando vi caminhando, liderando a fila pálida, o santo padre.
"Mas que zona é essa, minha filha?" - perguntou ele, sem esconder sua felicidade."Sempre achei que o céu deveria ser uma putaria brava" - completou, abandonando suas vestes e caminhando firmemente rumo à perdição.
