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Jamais voltarei a chorar por Otto Von Schwintzger

Ele acordou de pé. Já em vias de sentar-se. Ou seja, nem lá nem cá. Se bem que, deixa-me ver,  bom, sim, agora ele se sentou mesmo.  Então, sim, agora ele se encontra sentado, de fato.

Deixe-me ver mais de perto. Está olhando para uma xícara de chá agora. Olha lá, sai uma fumacinha de lá, e ela parece cheirosa e quentinha. Tenho certeza que ele deve estar pensando alguma coisa como “que fumacinha cheirosa e quentinha essa desse chazinho”.

Ele acordou já sentando, no meio do movimento descendente, como falei ali em cima, né?

Certo, então vamos prosseguir.

Acho que ele, sentado e bebericando o chá, deve agora ter pensado alguma coisa como “é ótimo acordar desse jeito, sem ser deitado numa cama ou em alguma coisa semelhante. Já acordar vestido e no trabalho, enquanto estou sentando na minha cadeirinha. Um sonho de americano esse, indiscutivelmente. Que coisa gostosa”.

Eu teria pensado isso, eu acho - ou será que não? - não, provavelmente sim.

Mas olha lá, ele começou a uivar. De felicidade, acho. Não sei. Agora parou. Que maluco. Deu uma ganida, e agora, enquanto esse frêmito ainda sacoleja seus interiores, resolveu pegar o telefone.

Lá vai, ele vai falar.

Leva o telefone à orelha e diz, se dirigindo como se interagisse com uma entidade invisível posicionada sobre sua cabeça, no alto da sala, entre o lustre e a janela enorme que se abre para a paisagem mais famosa do mundo, nesse começo de setembro.

“Bom dia, meu assessor maravilhosamente competente. Tu és esplendido, ó profissional estonteante! És ou não és?”

“Sou sim, sim sou, sim, acho.” respondeu uma voz sincera e tímida, vinda do outro lado da linha, precisamente do andar 93.

“Ora, então és como suspeitei. Esse ponto já me é bem claro agora.”

“Sim, parece que está claro que lhe parece claro.“

“E como vai seu dia? Digo, pessoalmente.”

“Estou com um pouco de dor de cabeça. Mas hoje é terça-feira, Mister Schwintzger, e tem uma festinha ali no West Upper Village”.

“Ora, ora, ora, meu garoto, ora! Ora! Mas que bela notícia. Não tem como não notar que você trabalha todos os dias, de manhã até o fim da tarde, e às vezes até de noite, e de madrugada, e também de manhã, de novo. É bom sair um pouco, ir atrás das raparigas, não é, hein?”

“Sim! Mil sins! E hoje acordei meio putão, sabe?”

“Sei sim. Sim sei. Opa, como sei. Eu próprio já fui muito putão nessa vida. E, sabe de uma coisa?, meu menino, ainda tenho meus dias de putão.”

“Ora, mas isso é legal demais, Mister Schwintzger. Gostaria muito de um dia ter a honra de acompanhá-lo em uma dessas mirabolantes putarias pela nossa New York City. Alias, seria ótimo se o senhor me acompanhasse esta noite, pois eu realmente estou precisando lhe comunicar uma coisa o quanto antes. Infelizmente, não é algo muito legal. Mas é extremamente importante”

“Mas que história esquisita é essa, meu querido assessor? Justo durante essa manhã inestimável, quando ainda mal fulgura um dia tal qual este que desabrocha defronte nossas faces , tão intenso e radiante, tu me vens com essa muito esquisita conversa de “coisa não muito legal?”.

“À noite podemos conversar melhor, meu querido mestre Mister Otto Von Schwintzger. Olha, você é como um segundo pai para mim. Eu não poderia viver sem sua presença a me guiar pelas áridas veredas de nossa existência. Se acontecesse uma tragédia horrível, tipo, sei lá, se um avião batesse aqui e explodisse uma quantidade infindável de gasolina exatamente sobre essa sala, e eu não estivesse nela, e estivesse apenas o senhor - eu não poderia sobreviver!. Sabe? Sem sua gentileza a me guiar, seria como se eu mesmo morresse no momento desse improvável acidente que usei como esdrúxulo exemplo!”

“Obrigado, meu assessor. Mas agora repare as horas aí em seu relógio. São 8:30! Já é hora do meu pastel de queijo de terça-feira, hein? Não é? Pode ir pegar lá para mim? Sem pressa, ok? Eu não vou sair daqui.”
Bom, agora ele recolocou o telefone no gancho. Levantou, abriu a janela. Ligou o rádio (toca La Bamba, Richie Valens).

Assobia, acompanhando a levada gostosa. Remexe as cadeiras contidamente. Anda até a porta. Abre, antes de fechar, antes de abrir de novo, enquanto ouve as lamúrias da madeira da que acaba de fechar mais uma vez.

Esquenta mais um pouco de água. Sobe o vapor. Assobia. Vai até a janela. Para de assobiar.

Nas mãos, apenas a caneca esfumaçante.

Está parado, inconfortavelmente paralisado. E  há um zunido crescente, engordando aos poucos, esganiçando por fim um berro metálico vindo de lá de fora, além da janela, que preenche toda a sala e faz vibrar toda a estrutura do prédio.

Ele parece meio assustado. Bom, agora é claro que ele está assustado, e muito. Porque ele vê um avião berrando, monstruoso, rasgando o céu da manhã recém-desperta. Lá vem, em sua direção, pronto para engoli-lo em meio aos gritos das turbinas e os guinchos dos metais.

Mas não vai ficar assim, ao que parece. Otto começa a tomar distancia, caminhando para trás, empertigando-se corajosamente, morosamente, ainda mantendo a xícara nas rígidas mãos. Afastasse mais e mais da janela aberta e então parte velozmente em sua direção, tão rápido quanto pode.

E então o hercúleo bico adentra a sala e explode parte do prédio gigantesco. 

Ele - e isso acontece em um brevíssimo instante – consegue adentrar o voo 11 da American Airlines através de uma milagrosa cavidade escancarada na fuselagem, pois, um centésimo de milésimo de segundo antes, os vidros da cabine de pilotos espatifaram-se ao chocar-se com a carcaça do World Trade Center.

E durante um milésimo de décimo de segundo, Mister Schwintzger, filho de um nazista morto em Nuremberg, vocifera: “Toma essa, seu pequeno árabe imundo“, enquanto atira o conteúdo infernal da xícara no rosto do piloto suicida, antes que os dois e mais quase uma centena de vidas sejam incineradas pela explosão das toneladas de gasolina da aeronave.

Se você estivesse lá nesse dia, durante aquela coisa toda desmoronado, poderia ter encontrado o aluído assessor, mantendo nas mãos um pastel murcho e salpicado de farinha de concreto, falando com um monte de tijolos, alvenaria e ferro retorcido, que tinha a curiosa forma de um camelo.

Ele murmurava. “Finalmente quando eu tive coragem de contar que eu tinha engravidado a mãe dele, uma senhora iluminada, que no alto de seus 84 anos mantém uma lucidez invejável, pelo que falam lá na casa de repouso, um avião bate nesse prédio. O cara não viu o Word Trade Center na frente não?  Como isso me é possível, oras?

“Ele era meu segundo pai, e eu queria ser seu segundo pai, também”.

Meses depois, eu, o narrador dessa história, fui convocado para servir o exército durante a invasão ao Afeganistão. Participei de incontáveis combates. Vi centenas de conhecidos perderem a vida. Sem jamais deixar de relembrar o senhor Otto despejando o líquido fervilhante sobre a face do terrorista que pilotava a aeronave.  Relembrar aquele momento, a bravura humana ilimitada, por vezes me fazia chorar, deitado no catre, antes de cair no sono.

Era, até setembro de 2011, apenas uma consciência onipresente e onisciente, que passava sua existência sem limitações, contando histórias para os leitores do mundo. O início de mais um conflito e o derramamento de centenas de litros sobre o chão árido da Ásia transformou-me em um jovem americano de 18 anos, com idade ideal para servir o exército e lutar pelos objetivos estipulados pela bandeira americana. 

Em 2007, adentramos a província de Helmand , onde fomos emboscados pelos poucos remanescentes do Taliban que persistiam a confrontar-nos.  Fui capturado e torturado por alguns meses.

Um dos últimos estágios da tortura, antes de ter o pênis decepado, foi ter o interior de uma xícara de óleo de motor despejado sobre os olhos. Com a visão destroçada e com a cara parecendo um salmão destrinchado, jamais voltei a chorar por Otto Von Schwintzger, não porque havia deixado de admirar seu exemplo de hombridade, mas, sim, porque já não possuía um canal lacrimal adequado para prantear como um bebê indefeso. O que, de fato, eu era. 

Fuzuê na Itália Fascista - Como Dercy Gonçalvez colocou o Brasil na Segunda Guerra Mundial

(Click) - soprou, como um beijo estalado, entrincheirada por detrás de um arbusto bojudo e simpático para o carajo, a Kapsa ostentada com firmeza titânica por mãos inchadas e gordas de dar asco.

Sendo assim, e assim muito era, a máquina mantinha-se inabalável por entre pequenos e frágeis galhos, dirigindo seu olho imortalizante de ciclope para um senhor calvo que acabara de levar os dedos ansiosos à região da virilha e adjacências inferiores.

Ora, mas isso são modos, Benito Amilcare Andrea Mussolini?, perguntou silenciosamente nosso herói Guglielmo Cardinari, postado de cócoras, submerso em meio a folhas secas sem cheiro e besourinhos e joaninhas de fazer cócegas, na Piazza del Duomo, em Milão, em algum momento entre o decepcionante nascer-do-sol e o igualmente triste ocaso do soile do dia da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois de fevereiro de mil novecentos e quarenta e um. Data completamente desprezível para os milaneses senão fosse pelo deselegante e muy ofensivo movimento do bípede europeu.

Benito vivia então raros dias de férias de seus afazeres de ditador e mascava naquele instante, feito um camelo cansado de ser trouxa, um amontoado de três chicles de bola (tutti-frutti, menta e tutti-frutti, de novo), enquanto solfejava uma apaziguante canção de Mário Consiglo e roçava his both hands ao longo da diminuta extensão de sua própria bolsa escrotal deveras enrugada (como confidenciaria a rampeira Giovanna Rabinesca, sua amante titular durante a Guerra, em entrevista à espanhola endiabrada Marieta de las Nieves, do Diário de Zaragoza, duas dúzias de doze meses após o termo do maior conflito visto neste planeta).

Ora, senhor Mussolini, com as mãos nos bagos/bilau em plena movimentada praça, a insignificantes metros do brincar sagrado de nossas crianças? Ora!

(Click) (Click) - espocou então, feito dois estalos de língua e dentes, a máquina fotográfica, guardando aquelas coçadas de saco e ajeitadas de pênis para serem coladas no álbum de recordações dos grandes feitos do homo sapiens de God Almighty.

Tendo dentro da caixa torácica da ferramenta da memória documentação das mais históricas, nosso bom menino Guglielmo tratou de chispar do perímetro tão veloz pôde e instantes depois já iniciava a negociação do material na redação do Corriere della Sera.

As fotos estampadas no jornal na manhã seguinte chacoalharam as bases da Itália fascista, viu, meu nego? Juro-te! Chacoalharam como nádegas em fevereiro.

O ângulo da Kapsa fez vir ao mundo a ilusão de que Mussolini estava a descascar sua banana ditatorial a dois passos de uma menina a brincar de amarelinha. Não era bem assim, entrementes.

Em sua residência, após a leitura da manchete do dia, o comandante dobrou o papel higiênico com o qual limpara o ânus e caminhou placidamente para fora do banheiro para atirar a fina tira suja contra seu assessor pessoal, que estava a sorver uma xícara de chá, sentado sobre o parapeito da varanda.

Benito tinha o claro objetivo de machucar alguém e isso era bastante compreensível para minha pessoa, uma vez que as fotos deveriam causar dano irreparável à sua reputação. Ordenou então, após a agressão covarde, a meu ver, a prisão do fotógrafo, para poder torturá-lo no momento que achasse propício.

Sete horas despúes nosso meninão Cardinari (papai de Claudia Cardinari [então com três anos]) foi engavetado feito uma meia lavada que aperta a ponta dos dedos no Presidio Osped na Via Castelvetro, 32, CEP- 01230-009.

Bennito, após a confirmação do encarceramento do fotógrafo, fez o que eu e mais quatro pessoas em um grupo de cinco fariam depois de mandar um homem para uma sentença de décadas do mais puro sofrimento: sentou-se à cadeira de balanço predileta e obrigou-se a mergulhar no mais profundo dos sonos, aquele do qual poucos têm o real ímpeto de desvencilharem-se. Queria esquecer a existência daquela imagem que agora, muito possivelmente, chocava-se contra os olhos de todos os irmãos italianos.

Algumas horas depois, Il Duce acordou revigorado, sobre o colchão duplo de sua cama king-size de travesseiros de pena de ganso manufaturados por consultoras de RH do sudeste do Brasil, cujo cheiro de almíscar lambido por tilápias adolescentes do baixo Cairo adocicava toda a atmosfera do elegante quarteirão.

Levantou-se, sorrindo, e foi caminhando a passos lentos na direção da cozinha, onde tomou o jornal da manhã com a mão direita. Nada de ofensivo a seu respeito foi lido por seus olhinhos remelentos e pouco acostumados à luz mortiça da manhã milanesa. Então, com certa satisfação, fritou um bife à milanesa, raspou nacos de um gorduroso bacon alemão e, depois, fermentou dois bolinhos de soja para o desjejum. Tentava entender o que havia acontecido com a manchete do jornal que havia lido horas antes, antes de atirar o papel higiênico contra a face de Luigi, seu assessor principal durante toda sua gestão.

Inflou o peito após o término do mergulho entranhas adentro da última lasca de carne e acompanhamentos e empertigou-se. Aquela calma que sentia no corpo podia muito bem ser uma armadilha do destino, pensou, notando a tensão voltar rapidamente ao corpo.

Automaticamente, coçou ampla área calva situada acima da alta testa. Precisava se distrair com o que fosse. Tratou então de cobrir a pele apropriadamente para um passeio relaxante ao longo dos bons metros da praça defronte seu apartamento alugado. Caminhou por longos quilômetros até postar-se diante de um banca de jornal, que expunha costumeiramente todas as manchetes do dia para a leitura gratuita dos transeuntes. Atentou-se demoradamente a cada uma delas. Nada sobre o ocorrido na praça constava nas manchetes e cadernos. Atenuaram-se imperceptivelmente os olhos negros injetados e a feição nervosa petrificada.

Provavelmente algum nobre e competente funcionário fez com que o jornal retirasse as edições primeiras da manhã e, oportunamente, as substituiu por outra, benditamente censurada, pensou consigo mesmo Mussolini, forçando-se a crer nessa possibilidade.

Com toda a certeza, alguém fez o trabalho certo, pensou. Posso ficar tranquilo.

Caminhou, saltitante, sentindo-se feliz e radiante, em direção à área da Plazza. Notou o burburinho cheio de gáudio erigido por um grupo de meninotas que brincava de amarelinha e ria e fazia poses por demais engraçadas enquanto não se envergonhava por levantar o vestido até a altura da testa.

Il Duce se aproximou, dando uns dois, três, quiçá quatro passinhos tímidos e abriu as janelas da alma para receber os estímulos visuais de maneira mais apropriada.  Foi então que um vento gélido soprou vindo do noroeste búlgaro, uma cantiga morosa de Mário Consiglo espocou em seu espírito e por alguma razão desconhecida sua virilha passou a coçar furiosamente.  Mussolini, automaticamente, levou os dedos ansiosos à região da virilha e adjacências inferiores.

E então notou que aquilo já havia acontecido. E seu sangue ferveu com a certeza de que o astuto fotógrafo estava naquele instante sorrindo por detrás de sua câmera, registrando a coçada de saco mais importante da passagem humana pelo globo terrestre.

Benito voltou o corpo com ferocidade e passou a buscar a localização do fotógrafo. Afastou-se apressadamente do grupo de meninas e subiu rapidamente um tênue aclive de pedregulhos que alcançava um trecho infestado de arbustos. Pôs os olhos a esquadrinhar com plena dedicação cada milímetro do perímetro. Não demorou até um arbusto seco tremular. De lá saltou assustado um homem rotundo segurando uma câmera fotográfica.

Benito lançou-se contra ele instantaneamente. O fotógrafo, entretanto, mostrando uma agilidade estranaha para aquela massa de carne que possuia, se desvencilhou e partiu do local correndo.

Mussolini pôs-se atrás do fugitivo, sem perder tempo algum, fazendo valer seu corpanzil atlético e resistente.
Saindo da área da praça, o fotógrafo subiu a Giuseppe Mangoni, cruzou a Santa Margerita e ganhou a Via San Protaso, sem mostrar cansaço algum apesar dos treze quilos que julgava levar a mais no abdômen.

Prosseguindo sua louca escapada, Cardinale cruzou feito um raio a elegante entrada do Victoria Café e, tomando a população transeunte da Via Clerici de assalto, encontrou exílio no Instituto Brasile-Itália, onde, justamente na entrada do edifício, Dercy Gonçalves lambuzava o rígido lábio inferior com a ponta molhada de um batom arroxeado.

Cardinale contou som sua astúcia ao gingar o corpo para a esquerda, evitando um choque frontal contra o corpanzil da humorista, e seguiu subindo em louca escapada a escada, sem parar por um instante sequer.

Já Mussolini atropelou o franzino conjunto de ossos e pele vindo ao mundo na cidade do Rio de Janeiro em 1905, como um trem atropela um pedaço de maria mole.

Dercy foi lançada para dentro do edifício, chocando-se violentamente contra  uma estátua colocada sobre uma mesa de carvalho, e caiu desacordada sobre o tapete que cobria o chão rangente de madeira.

Recuperando-se do impasto, e emputecido com a perda preciosa de tempo, Mussolini agarrou Dercy e optou, sem dar-se conta do crime ultrajante que cometia, em jogá-la contra a parede do vestíbulo.

Ora Mussolini, como ousa empurrar e arremessar a maior atriz da República Federativa do Brasil dessa maneira?

Mussolini prosseguiu empreendendo sua perseguição, satisfeito com o teor da agressão àquela mulher intrometida, e, percorrendo os degraus altos da escada, atingiu o segundo andar do sobrado centenário.

Lá encontrou o fotógrafo caído, com cara de quem tenta suportar uma dor desumana. Ele segurava a ponta do dedão.

- Bati o dedo no degrau - explicou.

- É uma dor lancinante, de fato - respondeu Mussolini. - Deixe-me dar uma olhada, sou bom com ferimentos nos pés.

Mussolini analisou a região e não demorou com o diagnóstico. - Você quebrou esse dedo. E agora eu vou esmagar sua mandíbula.

Mussolini montou sobre o fotógrafo e já se aprontava para enfiar os dedos nos olhos lacrimejantes do homem para que ele jamais batesse outra foto, mas sentiu toques ansiosos de um magérrimo dedo indicador contra suas costas e virou-se irritado para identificar quem lhe interrompia atividade tão prazerosa.

Mussolini virou o pescoço enraivecido, riscado por veias a pulular, e divisou a alguns poucos centímetros nossa querida Dercy Gonçalves brandindo com a mão tremula uma pequena estátua de musa pesando cinco quilos, a qual cintilou com a luz cinza e letal que pairava sobre o local..

- Toma essa, seu gordo filho da puta. Vai toma no cu, porra!, ela disse, desferindo golpe violento contra a careca do ditador, que se abriu vermelha como um teco de picanha mal passada.

Mussolini tombou sobre o piso de madeira como uma geladeira, emitindo um suspiro abafado e agudo.

Seu sangue, borbulhando de sua testa, escorreu sobre o chão até a escada, vertendo por todas as quedas dos degraus até o piso térreo como um pequeno rio rubro a saltitar e quedar pelo litoral inflado de variações de relevo.

Getúlio Vargas dançava tango com as meninas de Carmen Dudalina no Palácio do Catete, Rio de Janeiro, Brasil, quando seu celular fez uma sequência de barulhos curtos e irritantes, vibrando impacientemente.

Todas as terças-feiras de manhã Vargas recebia aulas de danças de salão - e não as interrompia por nada nesse mundo. Mas naquela ocasião ele afastou com um movimento calmo e gentil Maria de Cármen Etccheverria para longe de si, atendeu ao telefone, e, depois, caminhou até seu notebook, com o qual acessou sua conta de email.

Uma mensagem do embaixador brasileiro na Itália despontava no topo de sua caixa de correio. Seu conteúdo era horrendo. Getúlio ficou imóvel por um momento. Parecia concatenar imagens sombrias, as quais singravam livremente por sua mente.

Então ergueu-se e foi até Etccheverria e dançou, mantendo expressão cheia de preocupações, como a de um marinheiro que vê a tempestade se avizinhando.

Com o início da Segunda Guerra Mundial, Getúlio Vargas manteve-se neutro até o dia em que Mussolini resolver atirar nossa amada Dercy contra uma mesa. A atriz mudou tudo o que Getúlia planejara - com uma pancada fatal na calva de Benito.

O Brasil declarou guerra contra o Eixo, como resposta ao anúncio de guerra anunciado pela Itália horas antes.

Dois milhões de jovens soldados brasileiros foram enviados à Itália.

Com o avanço das forças nazista por toda extensão europeia e depois por toda a União Soviética, a Itália ganhou força e apoio militar ilimitado da Alemanha de Hitler, chegando a invadir o Brasil em fevereiro de 1946. O resultado foi desastroso para os brasileiros, com milhões de mortos após a invasão e total destruição do Rio de Janeiro.

Feitos prisioneiros, Getúlio e Dercy foram atirados do alto do Cristo Redentor durante uma manhã de extremo calor, diante dos olhos injetados e exultantes de Mussolini.

Il Duce acordou revigorado em sua cama king-size coberta por um imenso lençol elétrico Bioterm. Tinha ao lado Francesca Freduzeski, ex-coletora de impostos de origem egípcia, que por anos trabalhou no estaleiro de Berna. Francesca havia sofrido de uma forte diarreia durante a madrugada, como resultado do jantar com a delegação brasileira que visitava a Itália do dia anterior. Animada em conhecer aquele grupo festeiro, Francesca passou horas conversando com uma famosa atriz do país, com quem secou o interior de cinco garrafas de champagne e devorou três dúzias de ostras chilenas.

Mussolini levantou-se da cama silenciosamente, não queria acordar Freduzeski por nada desse mundo, e foi caminhando a passos de cágado rumo à cozinha, satisfeito por perceber que a invasão contra o Brasil não passava de um sonho irreal. Não se imaginava passando calor em uma cidade selvagem e abominável como a do Rio de Janeiro.

Tomou o jornal do chão com a mão direita e texto algum a respeito de coçadas de saco foi lido por seus olhinhos remelentos e pouco acostumados à luz mortiça da manhã milanesa. Fritou um ovo de galinha que não cisca, raspou nacos de bacon alemão, fez uma margarita, fermentou dois bolinhos de soja para o desjejum e inspirou profundamente, prazerosamente. Resolveu descer à rua para uma rápida caminhada ao longo da Piazza del Duomo.

Andou com o rosto inclinado para a cortina cinza que vestia o céu. Com os olhos cerrados, Mussolini se sentiu feliz por estar vivo, respirando profundamente um ar alegre e revigorante. Imaginou-se a correr pelas dunas brancas de alguma praia edênica do sul espanhol, acariciando os seios macios de alguma nativa, bebericando gim e urinando sorrateiramente no mar quente.

O som de uma risada por fim o despertou de seu devaneio. Abriu os olhos com presteza e notou duas pessoas caminhando em sua direção. Um hombre e uma pequena menina de uns três anos vinham andando de mãos dadas.

Ao se aproximar, Mussolini fitou o corpo rotundo e as feições daquele homem e imediatamente o reconheceu. Era o fotógrafo de seu mais recente sonho.

Mussolini se pôs à frente do homem e segurou-o pelas golas de sua camisa branca.

- Fotógrafo maldito. Nunca mais vai me fotografar coçando o saco – disse Benito, acionando com um assobio agudo um séquito de policiais na esquina da Rua Tutuca com a Michele Alboreto.

- Me larga! – pediu Guglielmo.

- Onde está a máquina, seu fotógrafo sujo? Deves ser um comuna imundo, só pode,

- Máquina? Jamais bati uma foto em minha vida.

Ver o pai sendo atacado repentinamente por um homem furioso fez com que a menina passasse a chorar copiosamente.

- Fique tranquila, Cláudia. Tudo dará certo, ele mentiu.

Foi a última frase que Claudia ouviu do pai.

Guglielmo Cardinari foi arrastado até o centro militar de Milão naquele mesmo momento. Lá, sem entender a razão do cárcere, dedicou-se a respirar, piscar os olhos e se lamentar pelo inconcebível infortúnio.

Por dois anos ficou ali, como um personagem kafkiano.

Em 1943, Guglielmo encaminhava-se ao lavado da lavanderia da prisão para defecar com segurança e privacidade, quando seus astutos olhos captaram cena para lá de vexatória. Na sala de máquinas, localizada no início do corredor leste, com os dedos ariscos feito patinhas de caranguejo em perigo, o diretor da penitenciária, Manny Bonald, inglês podólatra, dava pequenos beliscos na chapeleta arroxeada de seu minúsculo pênis e, com efeito, dava gargalhadas gostosas de criança, diante de um pedaço balouçante, formato lua minguante, de espelho.

O azar fez-se sobre nosso amigo pai de Cláudia mais uma vez e depois de perceber a invasiva atenção que o prisioneiro dava a seu lazer, Bonald o enviou para se exilado na Ilha de Elba, como cumprimento de pena perpétua.

Para quem não conhece a ilhota, linda de morrer, o local é dividido em oito comunes italianos: a capital Portoferraio, Campo nell'Elba, Capoliveri, Marciana, Marciana Marina, Porto Azzurro, Rio Marina e Rio nell'Elba.

Foi naquele local em que o ilustre Napoleão Bonaparte permaneceu isolado da Europa, após a fracassada
invasão da Rússia. Na pequena porção de terra cercada de água por todos os lados, Gugliemo gostava de passear para coletar amoras silvestres e pedaços de ossos de pássaros mortos, com os quais realizava cerimônias politeístas e sodomizava pequenos repteis não venenosos.

Ao contrário da penitenciária milanesa, Gugliemo podia andar livremente pelo local sem ter de se preocupar com qualquer tipo de intromissão dos guardas da prisão. Passava os dias notando certo contentamento a rondar seu corpo, mesmo que ínfimo diante do horror do encarceramento e da saudade irremediável que sentia da filha Cláudia.

No fim da tarde de uma terça-feira de céu azul sem nuvens, Guglielmo sentiu o estomago vacilar. Havia comido oito obesas jabuticabas logo pela manhã e sentiu que descia-lhe pelo ventre uma boa quantidade de cocô.

Sentou-se tendo o esplendoroso azul do Mar Mediterrâneo desenrolando-se por toda sua frente e sorriu pela última vez. Antes de livrar-se do primeiro tablete de merda, sentiu dos afiados dentes sendo cravados contra seu ânus já semiaberto.

Virou-se sem cagar e viu um mangusto a lhe encarar com os dentes a mostra, pronto para outro ataque. Guglielmo puxou as calças e tratou de trancar as entranhas. Tentou correr até o presídio, mas desfaleceu sobre um descampado, longe dos olhares dos funcionários do presídio, onde o Sol esquentou-lhe a carne.

Horas se passaram até Guglielmo ser levado à enfermaria. Lá, a bactéria proveniente dos dentes do mangusto espalhou-se pelos gânglios linfáticos, onde se multiplicou. Enfim, sete dias após ter o cu mordido, estouraram protuberâncias azuladas na pele de Guglielmo, acompanhado de alta febre.

Pouco depois, as bactérias invadiram a corrente sanguínea, onde se multiplicaram causando peste septicémica. Ao fim, a hemorragia invadiu o pulmão e matou-o.

Neste mesmo instante, quilômetros distantes, Mussolini sentiu um  um vento gélido bater-lhe sobre a careca e por alguma razão desconhecida sua virilha passou a coçar furiosamente, enquanto uma cantiga morosa de Mário Consiglo espocou em seu espírito, e ele acordou sobre o colchão duplo, agora empapado em urina, de sua cama king-size. 

O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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