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Jamais voltarei a chorar por Otto Von Schwintzger

Ele acordou de pé. Já em vias de sentar-se. Ou seja, nem lá nem cá. Se bem que, deixa-me ver,  bom, sim, agora ele se sentou mesmo.  Então, sim, agora ele se encontra sentado, de fato.

Deixe-me ver mais de perto. Está olhando para uma xícara de chá agora. Olha lá, sai uma fumacinha de lá, e ela parece cheirosa e quentinha. Tenho certeza que ele deve estar pensando alguma coisa como “que fumacinha cheirosa e quentinha essa desse chazinho”.

Ele acordou já sentando, no meio do movimento descendente, como falei ali em cima, né?

Certo, então vamos prosseguir.

Acho que ele, sentado e bebericando o chá, deve agora ter pensado alguma coisa como “é ótimo acordar desse jeito, sem ser deitado numa cama ou em alguma coisa semelhante. Já acordar vestido e no trabalho, enquanto estou sentando na minha cadeirinha. Um sonho de americano esse, indiscutivelmente. Que coisa gostosa”.

Eu teria pensado isso, eu acho - ou será que não? - não, provavelmente sim.

Mas olha lá, ele começou a uivar. De felicidade, acho. Não sei. Agora parou. Que maluco. Deu uma ganida, e agora, enquanto esse frêmito ainda sacoleja seus interiores, resolveu pegar o telefone.

Lá vai, ele vai falar.

Leva o telefone à orelha e diz, se dirigindo como se interagisse com uma entidade invisível posicionada sobre sua cabeça, no alto da sala, entre o lustre e a janela enorme que se abre para a paisagem mais famosa do mundo, nesse começo de setembro.

“Bom dia, meu assessor maravilhosamente competente. Tu és esplendido, ó profissional estonteante! És ou não és?”

“Sou sim, sim sou, sim, acho.” respondeu uma voz sincera e tímida, vinda do outro lado da linha, precisamente do andar 93.

“Ora, então és como suspeitei. Esse ponto já me é bem claro agora.”

“Sim, parece que está claro que lhe parece claro.“

“E como vai seu dia? Digo, pessoalmente.”

“Estou com um pouco de dor de cabeça. Mas hoje é terça-feira, Mister Schwintzger, e tem uma festinha ali no West Upper Village”.

“Ora, ora, ora, meu garoto, ora! Ora! Mas que bela notícia. Não tem como não notar que você trabalha todos os dias, de manhã até o fim da tarde, e às vezes até de noite, e de madrugada, e também de manhã, de novo. É bom sair um pouco, ir atrás das raparigas, não é, hein?”

“Sim! Mil sins! E hoje acordei meio putão, sabe?”

“Sei sim. Sim sei. Opa, como sei. Eu próprio já fui muito putão nessa vida. E, sabe de uma coisa?, meu menino, ainda tenho meus dias de putão.”

“Ora, mas isso é legal demais, Mister Schwintzger. Gostaria muito de um dia ter a honra de acompanhá-lo em uma dessas mirabolantes putarias pela nossa New York City. Alias, seria ótimo se o senhor me acompanhasse esta noite, pois eu realmente estou precisando lhe comunicar uma coisa o quanto antes. Infelizmente, não é algo muito legal. Mas é extremamente importante”

“Mas que história esquisita é essa, meu querido assessor? Justo durante essa manhã inestimável, quando ainda mal fulgura um dia tal qual este que desabrocha defronte nossas faces , tão intenso e radiante, tu me vens com essa muito esquisita conversa de “coisa não muito legal?”.

“À noite podemos conversar melhor, meu querido mestre Mister Otto Von Schwintzger. Olha, você é como um segundo pai para mim. Eu não poderia viver sem sua presença a me guiar pelas áridas veredas de nossa existência. Se acontecesse uma tragédia horrível, tipo, sei lá, se um avião batesse aqui e explodisse uma quantidade infindável de gasolina exatamente sobre essa sala, e eu não estivesse nela, e estivesse apenas o senhor - eu não poderia sobreviver!. Sabe? Sem sua gentileza a me guiar, seria como se eu mesmo morresse no momento desse improvável acidente que usei como esdrúxulo exemplo!”

“Obrigado, meu assessor. Mas agora repare as horas aí em seu relógio. São 8:30! Já é hora do meu pastel de queijo de terça-feira, hein? Não é? Pode ir pegar lá para mim? Sem pressa, ok? Eu não vou sair daqui.”
Bom, agora ele recolocou o telefone no gancho. Levantou, abriu a janela. Ligou o rádio (toca La Bamba, Richie Valens).

Assobia, acompanhando a levada gostosa. Remexe as cadeiras contidamente. Anda até a porta. Abre, antes de fechar, antes de abrir de novo, enquanto ouve as lamúrias da madeira da que acaba de fechar mais uma vez.

Esquenta mais um pouco de água. Sobe o vapor. Assobia. Vai até a janela. Para de assobiar.

Nas mãos, apenas a caneca esfumaçante.

Está parado, inconfortavelmente paralisado. E  há um zunido crescente, engordando aos poucos, esganiçando por fim um berro metálico vindo de lá de fora, além da janela, que preenche toda a sala e faz vibrar toda a estrutura do prédio.

Ele parece meio assustado. Bom, agora é claro que ele está assustado, e muito. Porque ele vê um avião berrando, monstruoso, rasgando o céu da manhã recém-desperta. Lá vem, em sua direção, pronto para engoli-lo em meio aos gritos das turbinas e os guinchos dos metais.

Mas não vai ficar assim, ao que parece. Otto começa a tomar distancia, caminhando para trás, empertigando-se corajosamente, morosamente, ainda mantendo a xícara nas rígidas mãos. Afastasse mais e mais da janela aberta e então parte velozmente em sua direção, tão rápido quanto pode.

E então o hercúleo bico adentra a sala e explode parte do prédio gigantesco. 

Ele - e isso acontece em um brevíssimo instante – consegue adentrar o voo 11 da American Airlines através de uma milagrosa cavidade escancarada na fuselagem, pois, um centésimo de milésimo de segundo antes, os vidros da cabine de pilotos espatifaram-se ao chocar-se com a carcaça do World Trade Center.

E durante um milésimo de décimo de segundo, Mister Schwintzger, filho de um nazista morto em Nuremberg, vocifera: “Toma essa, seu pequeno árabe imundo“, enquanto atira o conteúdo infernal da xícara no rosto do piloto suicida, antes que os dois e mais quase uma centena de vidas sejam incineradas pela explosão das toneladas de gasolina da aeronave.

Se você estivesse lá nesse dia, durante aquela coisa toda desmoronado, poderia ter encontrado o aluído assessor, mantendo nas mãos um pastel murcho e salpicado de farinha de concreto, falando com um monte de tijolos, alvenaria e ferro retorcido, que tinha a curiosa forma de um camelo.

Ele murmurava. “Finalmente quando eu tive coragem de contar que eu tinha engravidado a mãe dele, uma senhora iluminada, que no alto de seus 84 anos mantém uma lucidez invejável, pelo que falam lá na casa de repouso, um avião bate nesse prédio. O cara não viu o Word Trade Center na frente não?  Como isso me é possível, oras?

“Ele era meu segundo pai, e eu queria ser seu segundo pai, também”.

Meses depois, eu, o narrador dessa história, fui convocado para servir o exército durante a invasão ao Afeganistão. Participei de incontáveis combates. Vi centenas de conhecidos perderem a vida. Sem jamais deixar de relembrar o senhor Otto despejando o líquido fervilhante sobre a face do terrorista que pilotava a aeronave.  Relembrar aquele momento, a bravura humana ilimitada, por vezes me fazia chorar, deitado no catre, antes de cair no sono.

Era, até setembro de 2011, apenas uma consciência onipresente e onisciente, que passava sua existência sem limitações, contando histórias para os leitores do mundo. O início de mais um conflito e o derramamento de centenas de litros sobre o chão árido da Ásia transformou-me em um jovem americano de 18 anos, com idade ideal para servir o exército e lutar pelos objetivos estipulados pela bandeira americana. 

Em 2007, adentramos a província de Helmand , onde fomos emboscados pelos poucos remanescentes do Taliban que persistiam a confrontar-nos.  Fui capturado e torturado por alguns meses.

Um dos últimos estágios da tortura, antes de ter o pênis decepado, foi ter o interior de uma xícara de óleo de motor despejado sobre os olhos. Com a visão destroçada e com a cara parecendo um salmão destrinchado, jamais voltei a chorar por Otto Von Schwintzger, não porque havia deixado de admirar seu exemplo de hombridade, mas, sim, porque já não possuía um canal lacrimal adequado para prantear como um bebê indefeso. O que, de fato, eu era. 

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O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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