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A Diarista Guatemalteca

Garry Bronhovitch jamais deixou de carregar nos bolsos das calças ao menos duas caixas de fósforos, seis pares de luvas de látex descartáveis, quatorze tabletes de manteiga sem sal e, ao menos, uma edição capa dura do Antigo Testamento versão pocket com folhas de papel jornal.

Quem via Bronhovitch saindo da Blockbuster ou espiando com seus olhos negros as revistas adultas nas bancas da cidade logo se assustava e tratava de segurar o riso. Ele tinha dois braços delgados, compridíssimos e, nas extremidades destes, dois finos punhos impressionantemente flexíveis - sendo capaz de girar simultaneamente com muita agilidade suas duas mãos em sentidos opostos enquanto reproduzia à beira da perfeição o som das ferozes turbinas de um avião supersônico em dia de exibição.

Quando requisitados, especialistas e numerosas baterias de testes e exames (Garry sofreu uma inesperada convulsão durante a retirada de uma unha encravada na clínica podológica do Instituto de Depilação Vanessa) ratificaram sua ampla capacidade respiratória, constataram suas taxas de colesterol em níveis satisfatórios e contaram números regulares e esperados de hemácias e plaquetas a boiar pelo seu sangue grosso de origem caucasiana.

Por mais que enfiassem objetos pontiagudos por toda a extensão de seu corpo esguio durante os poucos mais de quatro dias de internação, os médicos do hospital de San Diego, Califórnia, Estados Unidos,  não encontraram tumor, diabetes, câncer, otite, gastrite, gonorreia ou uretrite aguda nenhuma em Garry- e ainda aproveitaram para retirar por conta própria aquela pontinha de unha afiada ainda mergulhada na carne dura do seu dedão esquerdo.

E essas boas notícias alegraram Garry ainda mais quando ele relembrou, tendo recebido alta e sendo levado de volta para casa depois dessa arrastada passagem pelo hospital, que mantinha vinte e um pares de meias brancas cheirosas na segunda gaveta da cômoda de seu quarto; que guardava secretamente quatro Penthouse’s bastante castigadas embaixo dos seus livros de escola, e que, diariamente, independentemente de onde estivesse ou da ocasião, punha seu blackberry para despertar às quatro horas da manhã para comer três paçocas e anotar num bloco de notas timbrado da IBM suas recentes vivências oníricas.
Sabia que ainda guardava em algum canto de sua casa um grosso cobertor tricolor que o reconfortaria e manteria seu calor corporal inalterado mesmo ante a mais polar frente fria vinda de Vladvostok. Sabia ainda que, ao chegar à sua residência, ligaria sua televisão de oito polegadas e não teria dificuldade em encontrar algum programa que o agradasse; que seu blue-ray e suas imensas duas caixas de som stereo estariam implorando para serem utilizadas e que - e isso era o mais importante-, era sexualmente ativo e conseguia criar mirabolantes narrativas pornográficas em um estalar de dedos.

Seus batimentos cardíacos amansaram quando ele ouviu o ranger familiar da porta da entrada da sua casa, e, depois de acender as luzes dos lustres da sala de estar, Garry pôde fechar seus olhos serenamente, sentindo o saudoso e fraterno silêncio que finalmente o circundava.

Pelo horário avançado da noite, Juanita, a diarista guatemalteca, já deveria estar descansando no quarto dos fundos e, se nada ocorresse fora do esperado, só a encontraria ao fim da próxima manhã.
Seu rosto, combalido pelo distanciamento repentino do lar e pelo desgaste das horas de ásperos sonos nos leitos das camas magras do hospital, aparentou preencher-se com cálidas cores e ele, como sempre fazia quando sentia a dita felicidade formigar em seu corpo, aproveitou o ermo cômodo para peidar solenemente - como se este gesto, que em outros momentos poderia ser acertadamente interpretado como deselegante, o libertasse das indesejáveis pestilências que sofrera no hospital e o assustara como nada antes havia ousado.

Partiu para seu quarto, incontido, quase alcançando ritmo de corrida; os batimentos acelerando-se em um ritmo perigoso e os músculos retesando-se ansiosos. Gotículas de suor brotavam da testa e reluziram sob os lustres da escada, conforme escalava-a e depois dirigia-se para o fundo sinuoso do corredor.

O disco prateado Rocco Goes to Montreal foi inserido no leitor de mídia do blu-ray pela mão tremente de Garry; e das caixas despontou um rumor suave que, conforme teve o volume aumentado, transformou-se em um hipnotizante blues americano. 

Um sorriso nasceu em seu rosto, dilatando-se gradativamente, e ele pôde então ouvir o som tímido e quase esquecido de seu próprio riso.

Garry, antes de livrar-se das calças, sacou o tablete de manteiga e o par de luvas dos bolsos; com dois palitos retirados da caixa de fósforos acendeu uma rotunda vela vermelha aromatizante e deixou-a consumir-se lentamente sobre o criado-mudo.

Da gaveta da cômoda pescou dois pares de meias.

Abriu o Livro Sagrado em uma página aleatória. Deteve-se por minutos no seguinte trecho, enquanto lágrimas vertiam de seus olhos: “Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito; os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram pela água; no qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão”.

Buscou depois as edições sobreviventes da Penthouse e também as abriu sobre a coberta tricolor, disponibilizou-as de modo que pudesse vislumbrar todas as quatro antigas capas ao mesmo tempo.
Finalmente para a televisão de oito polegadas passou a lançar olhares transbordantes de lascívia. Sorridente, Rocco abordava uma mulher de biquíni branco, à beira de uma banheira.

Vinte segundos depois, saiu arfando do quarto. Tinha o corpo lavado de suor e uma sede sufocante. O olhar ardente e a furiosa rigidez do corpo pareciam agora domados de certa forma.

Afinal, para ele - assim como deve ser para inúmeros cidadãos, sobre quem muito ouvimos falar- quatro dias sem punheta é um castigo que não desejamos nem aos nossos piores inimigos.

Com isso em mente, Garry Bronhovitch adentrou sua cozinha e tomou três copos de Catuaba em três rápidos goles. Verteu metade de um saco de amendoim de quinhentas gramas para dentro da bocarra aberta e mastigou tudo aquilo com sérias dificuldades; depois demorou-se em uma extensa inspiração e foi acordar Juanita. 

Tinha ainda mais quatro dias de atraso pra tirar das costas.

Jamais voltarei a chorar por Otto Von Schwintzger

Ele acordou de pé. Já em vias de sentar-se. Ou seja, nem lá nem cá. Se bem que, deixa-me ver,  bom, sim, agora ele se sentou mesmo.  Então, sim, agora ele se encontra sentado, de fato.

Deixe-me ver mais de perto. Está olhando para uma xícara de chá agora. Olha lá, sai uma fumacinha de lá, e ela parece cheirosa e quentinha. Tenho certeza que ele deve estar pensando alguma coisa como “que fumacinha cheirosa e quentinha essa desse chazinho”.

Ele acordou já sentando, no meio do movimento descendente, como falei ali em cima, né?

Certo, então vamos prosseguir.

Acho que ele, sentado e bebericando o chá, deve agora ter pensado alguma coisa como “é ótimo acordar desse jeito, sem ser deitado numa cama ou em alguma coisa semelhante. Já acordar vestido e no trabalho, enquanto estou sentando na minha cadeirinha. Um sonho de americano esse, indiscutivelmente. Que coisa gostosa”.

Eu teria pensado isso, eu acho - ou será que não? - não, provavelmente sim.

Mas olha lá, ele começou a uivar. De felicidade, acho. Não sei. Agora parou. Que maluco. Deu uma ganida, e agora, enquanto esse frêmito ainda sacoleja seus interiores, resolveu pegar o telefone.

Lá vai, ele vai falar.

Leva o telefone à orelha e diz, se dirigindo como se interagisse com uma entidade invisível posicionada sobre sua cabeça, no alto da sala, entre o lustre e a janela enorme que se abre para a paisagem mais famosa do mundo, nesse começo de setembro.

“Bom dia, meu assessor maravilhosamente competente. Tu és esplendido, ó profissional estonteante! És ou não és?”

“Sou sim, sim sou, sim, acho.” respondeu uma voz sincera e tímida, vinda do outro lado da linha, precisamente do andar 93.

“Ora, então és como suspeitei. Esse ponto já me é bem claro agora.”

“Sim, parece que está claro que lhe parece claro.“

“E como vai seu dia? Digo, pessoalmente.”

“Estou com um pouco de dor de cabeça. Mas hoje é terça-feira, Mister Schwintzger, e tem uma festinha ali no West Upper Village”.

“Ora, ora, ora, meu garoto, ora! Ora! Mas que bela notícia. Não tem como não notar que você trabalha todos os dias, de manhã até o fim da tarde, e às vezes até de noite, e de madrugada, e também de manhã, de novo. É bom sair um pouco, ir atrás das raparigas, não é, hein?”

“Sim! Mil sins! E hoje acordei meio putão, sabe?”

“Sei sim. Sim sei. Opa, como sei. Eu próprio já fui muito putão nessa vida. E, sabe de uma coisa?, meu menino, ainda tenho meus dias de putão.”

“Ora, mas isso é legal demais, Mister Schwintzger. Gostaria muito de um dia ter a honra de acompanhá-lo em uma dessas mirabolantes putarias pela nossa New York City. Alias, seria ótimo se o senhor me acompanhasse esta noite, pois eu realmente estou precisando lhe comunicar uma coisa o quanto antes. Infelizmente, não é algo muito legal. Mas é extremamente importante”

“Mas que história esquisita é essa, meu querido assessor? Justo durante essa manhã inestimável, quando ainda mal fulgura um dia tal qual este que desabrocha defronte nossas faces , tão intenso e radiante, tu me vens com essa muito esquisita conversa de “coisa não muito legal?”.

“À noite podemos conversar melhor, meu querido mestre Mister Otto Von Schwintzger. Olha, você é como um segundo pai para mim. Eu não poderia viver sem sua presença a me guiar pelas áridas veredas de nossa existência. Se acontecesse uma tragédia horrível, tipo, sei lá, se um avião batesse aqui e explodisse uma quantidade infindável de gasolina exatamente sobre essa sala, e eu não estivesse nela, e estivesse apenas o senhor - eu não poderia sobreviver!. Sabe? Sem sua gentileza a me guiar, seria como se eu mesmo morresse no momento desse improvável acidente que usei como esdrúxulo exemplo!”

“Obrigado, meu assessor. Mas agora repare as horas aí em seu relógio. São 8:30! Já é hora do meu pastel de queijo de terça-feira, hein? Não é? Pode ir pegar lá para mim? Sem pressa, ok? Eu não vou sair daqui.”
Bom, agora ele recolocou o telefone no gancho. Levantou, abriu a janela. Ligou o rádio (toca La Bamba, Richie Valens).

Assobia, acompanhando a levada gostosa. Remexe as cadeiras contidamente. Anda até a porta. Abre, antes de fechar, antes de abrir de novo, enquanto ouve as lamúrias da madeira da que acaba de fechar mais uma vez.

Esquenta mais um pouco de água. Sobe o vapor. Assobia. Vai até a janela. Para de assobiar.

Nas mãos, apenas a caneca esfumaçante.

Está parado, inconfortavelmente paralisado. E  há um zunido crescente, engordando aos poucos, esganiçando por fim um berro metálico vindo de lá de fora, além da janela, que preenche toda a sala e faz vibrar toda a estrutura do prédio.

Ele parece meio assustado. Bom, agora é claro que ele está assustado, e muito. Porque ele vê um avião berrando, monstruoso, rasgando o céu da manhã recém-desperta. Lá vem, em sua direção, pronto para engoli-lo em meio aos gritos das turbinas e os guinchos dos metais.

Mas não vai ficar assim, ao que parece. Otto começa a tomar distancia, caminhando para trás, empertigando-se corajosamente, morosamente, ainda mantendo a xícara nas rígidas mãos. Afastasse mais e mais da janela aberta e então parte velozmente em sua direção, tão rápido quanto pode.

E então o hercúleo bico adentra a sala e explode parte do prédio gigantesco. 

Ele - e isso acontece em um brevíssimo instante – consegue adentrar o voo 11 da American Airlines através de uma milagrosa cavidade escancarada na fuselagem, pois, um centésimo de milésimo de segundo antes, os vidros da cabine de pilotos espatifaram-se ao chocar-se com a carcaça do World Trade Center.

E durante um milésimo de décimo de segundo, Mister Schwintzger, filho de um nazista morto em Nuremberg, vocifera: “Toma essa, seu pequeno árabe imundo“, enquanto atira o conteúdo infernal da xícara no rosto do piloto suicida, antes que os dois e mais quase uma centena de vidas sejam incineradas pela explosão das toneladas de gasolina da aeronave.

Se você estivesse lá nesse dia, durante aquela coisa toda desmoronado, poderia ter encontrado o aluído assessor, mantendo nas mãos um pastel murcho e salpicado de farinha de concreto, falando com um monte de tijolos, alvenaria e ferro retorcido, que tinha a curiosa forma de um camelo.

Ele murmurava. “Finalmente quando eu tive coragem de contar que eu tinha engravidado a mãe dele, uma senhora iluminada, que no alto de seus 84 anos mantém uma lucidez invejável, pelo que falam lá na casa de repouso, um avião bate nesse prédio. O cara não viu o Word Trade Center na frente não?  Como isso me é possível, oras?

“Ele era meu segundo pai, e eu queria ser seu segundo pai, também”.

Meses depois, eu, o narrador dessa história, fui convocado para servir o exército durante a invasão ao Afeganistão. Participei de incontáveis combates. Vi centenas de conhecidos perderem a vida. Sem jamais deixar de relembrar o senhor Otto despejando o líquido fervilhante sobre a face do terrorista que pilotava a aeronave.  Relembrar aquele momento, a bravura humana ilimitada, por vezes me fazia chorar, deitado no catre, antes de cair no sono.

Era, até setembro de 2011, apenas uma consciência onipresente e onisciente, que passava sua existência sem limitações, contando histórias para os leitores do mundo. O início de mais um conflito e o derramamento de centenas de litros sobre o chão árido da Ásia transformou-me em um jovem americano de 18 anos, com idade ideal para servir o exército e lutar pelos objetivos estipulados pela bandeira americana. 

Em 2007, adentramos a província de Helmand , onde fomos emboscados pelos poucos remanescentes do Taliban que persistiam a confrontar-nos.  Fui capturado e torturado por alguns meses.

Um dos últimos estágios da tortura, antes de ter o pênis decepado, foi ter o interior de uma xícara de óleo de motor despejado sobre os olhos. Com a visão destroçada e com a cara parecendo um salmão destrinchado, jamais voltei a chorar por Otto Von Schwintzger, não porque havia deixado de admirar seu exemplo de hombridade, mas, sim, porque já não possuía um canal lacrimal adequado para prantear como um bebê indefeso. O que, de fato, eu era. 

Fuzuê na Itália Fascista - Como Dercy Gonçalvez colocou o Brasil na Segunda Guerra Mundial

(Click) - soprou, como um beijo estalado, entrincheirada por detrás de um arbusto bojudo e simpático para o carajo, a Kapsa ostentada com firmeza titânica por mãos inchadas e gordas de dar asco.

Sendo assim, e assim muito era, a máquina mantinha-se inabalável por entre pequenos e frágeis galhos, dirigindo seu olho imortalizante de ciclope para um senhor calvo que acabara de levar os dedos ansiosos à região da virilha e adjacências inferiores.

Ora, mas isso são modos, Benito Amilcare Andrea Mussolini?, perguntou silenciosamente nosso herói Guglielmo Cardinari, postado de cócoras, submerso em meio a folhas secas sem cheiro e besourinhos e joaninhas de fazer cócegas, na Piazza del Duomo, em Milão, em algum momento entre o decepcionante nascer-do-sol e o igualmente triste ocaso do soile do dia da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois de fevereiro de mil novecentos e quarenta e um. Data completamente desprezível para os milaneses senão fosse pelo deselegante e muy ofensivo movimento do bípede europeu.

Benito vivia então raros dias de férias de seus afazeres de ditador e mascava naquele instante, feito um camelo cansado de ser trouxa, um amontoado de três chicles de bola (tutti-frutti, menta e tutti-frutti, de novo), enquanto solfejava uma apaziguante canção de Mário Consiglo e roçava his both hands ao longo da diminuta extensão de sua própria bolsa escrotal deveras enrugada (como confidenciaria a rampeira Giovanna Rabinesca, sua amante titular durante a Guerra, em entrevista à espanhola endiabrada Marieta de las Nieves, do Diário de Zaragoza, duas dúzias de doze meses após o termo do maior conflito visto neste planeta).

Ora, senhor Mussolini, com as mãos nos bagos/bilau em plena movimentada praça, a insignificantes metros do brincar sagrado de nossas crianças? Ora!

(Click) (Click) - espocou então, feito dois estalos de língua e dentes, a máquina fotográfica, guardando aquelas coçadas de saco e ajeitadas de pênis para serem coladas no álbum de recordações dos grandes feitos do homo sapiens de God Almighty.

Tendo dentro da caixa torácica da ferramenta da memória documentação das mais históricas, nosso bom menino Guglielmo tratou de chispar do perímetro tão veloz pôde e instantes depois já iniciava a negociação do material na redação do Corriere della Sera.

As fotos estampadas no jornal na manhã seguinte chacoalharam as bases da Itália fascista, viu, meu nego? Juro-te! Chacoalharam como nádegas em fevereiro.

O ângulo da Kapsa fez vir ao mundo a ilusão de que Mussolini estava a descascar sua banana ditatorial a dois passos de uma menina a brincar de amarelinha. Não era bem assim, entrementes.

Em sua residência, após a leitura da manchete do dia, o comandante dobrou o papel higiênico com o qual limpara o ânus e caminhou placidamente para fora do banheiro para atirar a fina tira suja contra seu assessor pessoal, que estava a sorver uma xícara de chá, sentado sobre o parapeito da varanda.

Benito tinha o claro objetivo de machucar alguém e isso era bastante compreensível para minha pessoa, uma vez que as fotos deveriam causar dano irreparável à sua reputação. Ordenou então, após a agressão covarde, a meu ver, a prisão do fotógrafo, para poder torturá-lo no momento que achasse propício.

Sete horas despúes nosso meninão Cardinari (papai de Claudia Cardinari [então com três anos]) foi engavetado feito uma meia lavada que aperta a ponta dos dedos no Presidio Osped na Via Castelvetro, 32, CEP- 01230-009.

Bennito, após a confirmação do encarceramento do fotógrafo, fez o que eu e mais quatro pessoas em um grupo de cinco fariam depois de mandar um homem para uma sentença de décadas do mais puro sofrimento: sentou-se à cadeira de balanço predileta e obrigou-se a mergulhar no mais profundo dos sonos, aquele do qual poucos têm o real ímpeto de desvencilharem-se. Queria esquecer a existência daquela imagem que agora, muito possivelmente, chocava-se contra os olhos de todos os irmãos italianos.

Algumas horas depois, Il Duce acordou revigorado, sobre o colchão duplo de sua cama king-size de travesseiros de pena de ganso manufaturados por consultoras de RH do sudeste do Brasil, cujo cheiro de almíscar lambido por tilápias adolescentes do baixo Cairo adocicava toda a atmosfera do elegante quarteirão.

Levantou-se, sorrindo, e foi caminhando a passos lentos na direção da cozinha, onde tomou o jornal da manhã com a mão direita. Nada de ofensivo a seu respeito foi lido por seus olhinhos remelentos e pouco acostumados à luz mortiça da manhã milanesa. Então, com certa satisfação, fritou um bife à milanesa, raspou nacos de um gorduroso bacon alemão e, depois, fermentou dois bolinhos de soja para o desjejum. Tentava entender o que havia acontecido com a manchete do jornal que havia lido horas antes, antes de atirar o papel higiênico contra a face de Luigi, seu assessor principal durante toda sua gestão.

Inflou o peito após o término do mergulho entranhas adentro da última lasca de carne e acompanhamentos e empertigou-se. Aquela calma que sentia no corpo podia muito bem ser uma armadilha do destino, pensou, notando a tensão voltar rapidamente ao corpo.

Automaticamente, coçou ampla área calva situada acima da alta testa. Precisava se distrair com o que fosse. Tratou então de cobrir a pele apropriadamente para um passeio relaxante ao longo dos bons metros da praça defronte seu apartamento alugado. Caminhou por longos quilômetros até postar-se diante de um banca de jornal, que expunha costumeiramente todas as manchetes do dia para a leitura gratuita dos transeuntes. Atentou-se demoradamente a cada uma delas. Nada sobre o ocorrido na praça constava nas manchetes e cadernos. Atenuaram-se imperceptivelmente os olhos negros injetados e a feição nervosa petrificada.

Provavelmente algum nobre e competente funcionário fez com que o jornal retirasse as edições primeiras da manhã e, oportunamente, as substituiu por outra, benditamente censurada, pensou consigo mesmo Mussolini, forçando-se a crer nessa possibilidade.

Com toda a certeza, alguém fez o trabalho certo, pensou. Posso ficar tranquilo.

Caminhou, saltitante, sentindo-se feliz e radiante, em direção à área da Plazza. Notou o burburinho cheio de gáudio erigido por um grupo de meninotas que brincava de amarelinha e ria e fazia poses por demais engraçadas enquanto não se envergonhava por levantar o vestido até a altura da testa.

Il Duce se aproximou, dando uns dois, três, quiçá quatro passinhos tímidos e abriu as janelas da alma para receber os estímulos visuais de maneira mais apropriada.  Foi então que um vento gélido soprou vindo do noroeste búlgaro, uma cantiga morosa de Mário Consiglo espocou em seu espírito e por alguma razão desconhecida sua virilha passou a coçar furiosamente.  Mussolini, automaticamente, levou os dedos ansiosos à região da virilha e adjacências inferiores.

E então notou que aquilo já havia acontecido. E seu sangue ferveu com a certeza de que o astuto fotógrafo estava naquele instante sorrindo por detrás de sua câmera, registrando a coçada de saco mais importante da passagem humana pelo globo terrestre.

Benito voltou o corpo com ferocidade e passou a buscar a localização do fotógrafo. Afastou-se apressadamente do grupo de meninas e subiu rapidamente um tênue aclive de pedregulhos que alcançava um trecho infestado de arbustos. Pôs os olhos a esquadrinhar com plena dedicação cada milímetro do perímetro. Não demorou até um arbusto seco tremular. De lá saltou assustado um homem rotundo segurando uma câmera fotográfica.

Benito lançou-se contra ele instantaneamente. O fotógrafo, entretanto, mostrando uma agilidade estranaha para aquela massa de carne que possuia, se desvencilhou e partiu do local correndo.

Mussolini pôs-se atrás do fugitivo, sem perder tempo algum, fazendo valer seu corpanzil atlético e resistente.
Saindo da área da praça, o fotógrafo subiu a Giuseppe Mangoni, cruzou a Santa Margerita e ganhou a Via San Protaso, sem mostrar cansaço algum apesar dos treze quilos que julgava levar a mais no abdômen.

Prosseguindo sua louca escapada, Cardinale cruzou feito um raio a elegante entrada do Victoria Café e, tomando a população transeunte da Via Clerici de assalto, encontrou exílio no Instituto Brasile-Itália, onde, justamente na entrada do edifício, Dercy Gonçalves lambuzava o rígido lábio inferior com a ponta molhada de um batom arroxeado.

Cardinale contou som sua astúcia ao gingar o corpo para a esquerda, evitando um choque frontal contra o corpanzil da humorista, e seguiu subindo em louca escapada a escada, sem parar por um instante sequer.

Já Mussolini atropelou o franzino conjunto de ossos e pele vindo ao mundo na cidade do Rio de Janeiro em 1905, como um trem atropela um pedaço de maria mole.

Dercy foi lançada para dentro do edifício, chocando-se violentamente contra  uma estátua colocada sobre uma mesa de carvalho, e caiu desacordada sobre o tapete que cobria o chão rangente de madeira.

Recuperando-se do impasto, e emputecido com a perda preciosa de tempo, Mussolini agarrou Dercy e optou, sem dar-se conta do crime ultrajante que cometia, em jogá-la contra a parede do vestíbulo.

Ora Mussolini, como ousa empurrar e arremessar a maior atriz da República Federativa do Brasil dessa maneira?

Mussolini prosseguiu empreendendo sua perseguição, satisfeito com o teor da agressão àquela mulher intrometida, e, percorrendo os degraus altos da escada, atingiu o segundo andar do sobrado centenário.

Lá encontrou o fotógrafo caído, com cara de quem tenta suportar uma dor desumana. Ele segurava a ponta do dedão.

- Bati o dedo no degrau - explicou.

- É uma dor lancinante, de fato - respondeu Mussolini. - Deixe-me dar uma olhada, sou bom com ferimentos nos pés.

Mussolini analisou a região e não demorou com o diagnóstico. - Você quebrou esse dedo. E agora eu vou esmagar sua mandíbula.

Mussolini montou sobre o fotógrafo e já se aprontava para enfiar os dedos nos olhos lacrimejantes do homem para que ele jamais batesse outra foto, mas sentiu toques ansiosos de um magérrimo dedo indicador contra suas costas e virou-se irritado para identificar quem lhe interrompia atividade tão prazerosa.

Mussolini virou o pescoço enraivecido, riscado por veias a pulular, e divisou a alguns poucos centímetros nossa querida Dercy Gonçalves brandindo com a mão tremula uma pequena estátua de musa pesando cinco quilos, a qual cintilou com a luz cinza e letal que pairava sobre o local..

- Toma essa, seu gordo filho da puta. Vai toma no cu, porra!, ela disse, desferindo golpe violento contra a careca do ditador, que se abriu vermelha como um teco de picanha mal passada.

Mussolini tombou sobre o piso de madeira como uma geladeira, emitindo um suspiro abafado e agudo.

Seu sangue, borbulhando de sua testa, escorreu sobre o chão até a escada, vertendo por todas as quedas dos degraus até o piso térreo como um pequeno rio rubro a saltitar e quedar pelo litoral inflado de variações de relevo.

Getúlio Vargas dançava tango com as meninas de Carmen Dudalina no Palácio do Catete, Rio de Janeiro, Brasil, quando seu celular fez uma sequência de barulhos curtos e irritantes, vibrando impacientemente.

Todas as terças-feiras de manhã Vargas recebia aulas de danças de salão - e não as interrompia por nada nesse mundo. Mas naquela ocasião ele afastou com um movimento calmo e gentil Maria de Cármen Etccheverria para longe de si, atendeu ao telefone, e, depois, caminhou até seu notebook, com o qual acessou sua conta de email.

Uma mensagem do embaixador brasileiro na Itália despontava no topo de sua caixa de correio. Seu conteúdo era horrendo. Getúlio ficou imóvel por um momento. Parecia concatenar imagens sombrias, as quais singravam livremente por sua mente.

Então ergueu-se e foi até Etccheverria e dançou, mantendo expressão cheia de preocupações, como a de um marinheiro que vê a tempestade se avizinhando.

Com o início da Segunda Guerra Mundial, Getúlio Vargas manteve-se neutro até o dia em que Mussolini resolver atirar nossa amada Dercy contra uma mesa. A atriz mudou tudo o que Getúlia planejara - com uma pancada fatal na calva de Benito.

O Brasil declarou guerra contra o Eixo, como resposta ao anúncio de guerra anunciado pela Itália horas antes.

Dois milhões de jovens soldados brasileiros foram enviados à Itália.

Com o avanço das forças nazista por toda extensão europeia e depois por toda a União Soviética, a Itália ganhou força e apoio militar ilimitado da Alemanha de Hitler, chegando a invadir o Brasil em fevereiro de 1946. O resultado foi desastroso para os brasileiros, com milhões de mortos após a invasão e total destruição do Rio de Janeiro.

Feitos prisioneiros, Getúlio e Dercy foram atirados do alto do Cristo Redentor durante uma manhã de extremo calor, diante dos olhos injetados e exultantes de Mussolini.

Il Duce acordou revigorado em sua cama king-size coberta por um imenso lençol elétrico Bioterm. Tinha ao lado Francesca Freduzeski, ex-coletora de impostos de origem egípcia, que por anos trabalhou no estaleiro de Berna. Francesca havia sofrido de uma forte diarreia durante a madrugada, como resultado do jantar com a delegação brasileira que visitava a Itália do dia anterior. Animada em conhecer aquele grupo festeiro, Francesca passou horas conversando com uma famosa atriz do país, com quem secou o interior de cinco garrafas de champagne e devorou três dúzias de ostras chilenas.

Mussolini levantou-se da cama silenciosamente, não queria acordar Freduzeski por nada desse mundo, e foi caminhando a passos de cágado rumo à cozinha, satisfeito por perceber que a invasão contra o Brasil não passava de um sonho irreal. Não se imaginava passando calor em uma cidade selvagem e abominável como a do Rio de Janeiro.

Tomou o jornal do chão com a mão direita e texto algum a respeito de coçadas de saco foi lido por seus olhinhos remelentos e pouco acostumados à luz mortiça da manhã milanesa. Fritou um ovo de galinha que não cisca, raspou nacos de bacon alemão, fez uma margarita, fermentou dois bolinhos de soja para o desjejum e inspirou profundamente, prazerosamente. Resolveu descer à rua para uma rápida caminhada ao longo da Piazza del Duomo.

Andou com o rosto inclinado para a cortina cinza que vestia o céu. Com os olhos cerrados, Mussolini se sentiu feliz por estar vivo, respirando profundamente um ar alegre e revigorante. Imaginou-se a correr pelas dunas brancas de alguma praia edênica do sul espanhol, acariciando os seios macios de alguma nativa, bebericando gim e urinando sorrateiramente no mar quente.

O som de uma risada por fim o despertou de seu devaneio. Abriu os olhos com presteza e notou duas pessoas caminhando em sua direção. Um hombre e uma pequena menina de uns três anos vinham andando de mãos dadas.

Ao se aproximar, Mussolini fitou o corpo rotundo e as feições daquele homem e imediatamente o reconheceu. Era o fotógrafo de seu mais recente sonho.

Mussolini se pôs à frente do homem e segurou-o pelas golas de sua camisa branca.

- Fotógrafo maldito. Nunca mais vai me fotografar coçando o saco – disse Benito, acionando com um assobio agudo um séquito de policiais na esquina da Rua Tutuca com a Michele Alboreto.

- Me larga! – pediu Guglielmo.

- Onde está a máquina, seu fotógrafo sujo? Deves ser um comuna imundo, só pode,

- Máquina? Jamais bati uma foto em minha vida.

Ver o pai sendo atacado repentinamente por um homem furioso fez com que a menina passasse a chorar copiosamente.

- Fique tranquila, Cláudia. Tudo dará certo, ele mentiu.

Foi a última frase que Claudia ouviu do pai.

Guglielmo Cardinari foi arrastado até o centro militar de Milão naquele mesmo momento. Lá, sem entender a razão do cárcere, dedicou-se a respirar, piscar os olhos e se lamentar pelo inconcebível infortúnio.

Por dois anos ficou ali, como um personagem kafkiano.

Em 1943, Guglielmo encaminhava-se ao lavado da lavanderia da prisão para defecar com segurança e privacidade, quando seus astutos olhos captaram cena para lá de vexatória. Na sala de máquinas, localizada no início do corredor leste, com os dedos ariscos feito patinhas de caranguejo em perigo, o diretor da penitenciária, Manny Bonald, inglês podólatra, dava pequenos beliscos na chapeleta arroxeada de seu minúsculo pênis e, com efeito, dava gargalhadas gostosas de criança, diante de um pedaço balouçante, formato lua minguante, de espelho.

O azar fez-se sobre nosso amigo pai de Cláudia mais uma vez e depois de perceber a invasiva atenção que o prisioneiro dava a seu lazer, Bonald o enviou para se exilado na Ilha de Elba, como cumprimento de pena perpétua.

Para quem não conhece a ilhota, linda de morrer, o local é dividido em oito comunes italianos: a capital Portoferraio, Campo nell'Elba, Capoliveri, Marciana, Marciana Marina, Porto Azzurro, Rio Marina e Rio nell'Elba.

Foi naquele local em que o ilustre Napoleão Bonaparte permaneceu isolado da Europa, após a fracassada
invasão da Rússia. Na pequena porção de terra cercada de água por todos os lados, Gugliemo gostava de passear para coletar amoras silvestres e pedaços de ossos de pássaros mortos, com os quais realizava cerimônias politeístas e sodomizava pequenos repteis não venenosos.

Ao contrário da penitenciária milanesa, Gugliemo podia andar livremente pelo local sem ter de se preocupar com qualquer tipo de intromissão dos guardas da prisão. Passava os dias notando certo contentamento a rondar seu corpo, mesmo que ínfimo diante do horror do encarceramento e da saudade irremediável que sentia da filha Cláudia.

No fim da tarde de uma terça-feira de céu azul sem nuvens, Guglielmo sentiu o estomago vacilar. Havia comido oito obesas jabuticabas logo pela manhã e sentiu que descia-lhe pelo ventre uma boa quantidade de cocô.

Sentou-se tendo o esplendoroso azul do Mar Mediterrâneo desenrolando-se por toda sua frente e sorriu pela última vez. Antes de livrar-se do primeiro tablete de merda, sentiu dos afiados dentes sendo cravados contra seu ânus já semiaberto.

Virou-se sem cagar e viu um mangusto a lhe encarar com os dentes a mostra, pronto para outro ataque. Guglielmo puxou as calças e tratou de trancar as entranhas. Tentou correr até o presídio, mas desfaleceu sobre um descampado, longe dos olhares dos funcionários do presídio, onde o Sol esquentou-lhe a carne.

Horas se passaram até Guglielmo ser levado à enfermaria. Lá, a bactéria proveniente dos dentes do mangusto espalhou-se pelos gânglios linfáticos, onde se multiplicou. Enfim, sete dias após ter o cu mordido, estouraram protuberâncias azuladas na pele de Guglielmo, acompanhado de alta febre.

Pouco depois, as bactérias invadiram a corrente sanguínea, onde se multiplicaram causando peste septicémica. Ao fim, a hemorragia invadiu o pulmão e matou-o.

Neste mesmo instante, quilômetros distantes, Mussolini sentiu um  um vento gélido bater-lhe sobre a careca e por alguma razão desconhecida sua virilha passou a coçar furiosamente, enquanto uma cantiga morosa de Mário Consiglo espocou em seu espírito, e ele acordou sobre o colchão duplo, agora empapado em urina, de sua cama king-size. 

Vai pegar o ônibus, ó curioso animal?

5h30 da madrugada - lá estava eu em meu táxi, estacionado em frente ao prédio, aguardando o cliente descer. Averiguei o aroma das axilas. Tudo OK.

Então o portão do prédio bateu em um estrondo. E eu pulei para fora do táxi. Fiz-me então em continência, imediatamente, como se estivéssemos, eu e meu batalhão invisível, em plena visita surpresa de general. Ao cliente devo agrados mil.

O que vi, entretanto, não era general, coronel, major, cabo-armeiro nem ao menos um tenentezinho. Era sim um pequeno macaco, bastante elegante, arrastando uma mala com rodas. Trajava um paletó cinza muito bem passado, cheiroso que só, e assobiava a música de abertura dos Trapalhões.

Deslizou até meus pés uma enorme mala, sem dirigir-me palavra alguma, nem ao menos um olhar. Depositei sua bagagem, pesada além da conta, no porta-malas do táxi, como quem deita um bebê de colo em um berço. E iniciei a prestação de mais um serviço incriticável.

O símio ajeitou no rosto uns chamativos óculos escuros de haste vermelho caqui e entrou no táxi em um pulinho lépido.

“Mais um desses artistas afeminados”, falei para mim, no silêncio da minha cabeça. Assenti com a formulação: “com certeza, cara, outro macaquinho afeminado”.

Adentrei meu táxi e ele indicou o destino: Rodoviária Novo Rio.

‘Vai pegar o ônibus, ó curioso anima?’, falei para mim mesmo, novamente, mas perguntando para ele, telepaticamente. Procurava com isso testar minha capacidade de refletir sobre as informações que me eram dadas. Estava me saindo relativamente bem, até então, em minha opinião.

Enquanto os pneus esfarelavam-se sobre o espinhoso asfalto carioca, procurei lembrar-me se já havia recebido um passageiro macaco em meu táxi. Não, nunca.

O macaco permanecia em silêncio, conforme contornávamos as sinuosas e desertas curvas da Linha Amarelam em uma velocidade imbecilmente alta. Depois de sermos quase ensanduichados por dois ônibus conduzidos por motoristas tão ou mais inconsequentes que eu, ele se virou e olhou-me diretamente na cara, mastigando os dentes de tensão.

Imaginei que ele pediria para descer, como faz boa parte dos meus clientes. Mas não. Não. Mil nãos!

- Não se lembra de mim, Clóvis?

- Oi?

- Sou eu, porra, o Silvinho, o macaco do circo Vostok.

- Opa! Fala aí, Silvinho!

- Fala aí, cara, tudo bom?

- Não, não muito, na verdade. Mas e sua pessoa, vai bem?

- Mas é claro que não, porra! Seu imundo! Você deveria estar preso depois de tudo o que fez comigo e com meus colegas naquele circo imundo. Durante anos fomos humilhados, obrigados a usar batom, peruca, vestir trajes apertador e cor de rosa, de noiva, de fazer malabarismo com ovo, comer banana. Eu não gosto de banana, cara. Clóvis, hoje nós nos vingaremos de você!

- Foi mal, Silvinho. Mas vocês mereceram! Se não fossem os macacos, não existiriam os humanos e não existiriam táxis, e assim não existiriam passageiros de táxi nem buzinas ou faróis de trânsito. Assim, eu não estaria em um táxi de madrugada levando um macaco a uma rodoviária. Vocês vieram com esse papinho frouxo de evoluir e tal, e aí viraram atração de circo. Não se faça de vítima.

- Basta! – disse o primata enfezado.

- Silvio, qual o problema em se vestir de mulher? Todos adoravam vocês lá.

- Olha, desde que o circo faliu estamos a sua procura. Vejo que não tens arrependimento em sua alma e/ou coração. Vamos para Ipanema, então! Temos uma pequena surpresa!

Aí Silvinho assobiou e da mala depositada no porta-malas saíram uns trinta pequenos macaquinhos, todos igualmente elegantes, perfumados e emputecidos.

- Todos esses aí? – perguntou o assustado Clóvis. - Vai ficar caro, já vô avisando. E outra, eu não posso levar mais de quatro pessoas no táxi, alguém aí vai precisar descer, viu?

- Clóvis, você parece não entender, nós estamos te sequestrando, você fará o que nós mandarmos a partir de agora.

- Ahh...Entendi. Onde em Ipanema?

- Posto 9.

- Hummm. Eu sabia, Silvinho...

Entretanto, alguns macacos quiseram buscar pó na Rocinha, de modo que chegamos quando já era meio dia em Ipanema. Estacionei o táxi sobre o meio fio da avenida e eles vieram com uma historinha esquisita.

- Durante a tarde toda você vai vestir esse biquíni fio dental e caminhar pela areia. Para você sentir na pele o que nós sentíamos diante do respeitável público, e não pense em fugir, se não a gente zoa seu táxi, tá me ouvindo, cumpadi?

- Poxa, Silvinho, mas que macaquinho boiola cruel que você é, hein?

- Sou mesmo, tá?!

Seis horas depois os encontrei no táxi. Eu tinha boas novas. Fui um sucesso absoluto na praia, me adoraram por lá, fiz amizades que resistem até hoje e arrecadei uma boa grana dos turistas que acharam que eu era algum tipo de retardado.

Pedi desculpas aos macacos por tudo o que tinha feito e ofereci-lhes a ideia de abrir uma sociedade para explorarmos o mercado GLS carioca. Hoje eu e Silvinho temos uma agência internacional especializada em turismo gay e vamos nos casar em Buenos Aires ao fim deste ano. Já compramos nosso apartamento no Recreio e, quando retornarmos, adotaremos um bebê. Eu quero muito uma menininha japonesa; ele, um pequeno mico-leão-dourado.


Ele tende a vencer a disputa.

O Açougueiro de Zaragoza

Sobrevoava Ibiza a bordo do meu dirigível movido a energia maremotriz.

Corria os olhos pelas linhas da página quarenta da propositalmente amarelada primeira edição de antologias em capa dura de grandes reportagens publicadas entre os anos de 1964 e 1968 pelo afamado e mui competente folhetim centenário “El Diário de Zaragoza” (presente inestimável recebido das mãos tementes a Deus do louvável Arcebispo François Labatella, catedrático da Arquidiocese de Marseille, na ocasião da belíssima cerimônia na qual fui agraciado com o prêmio de melhor detetive italiano da década), quando uma célere, súbita e desconfortável surpresa ordenou a atenção irrevogável de meu espírito inquisidor, de modo que não pude deixar de dispensar imediatamente os serviços de toda minha atenciosa tripulação.

Ofereci a todos pára-quedas e dezenas de apetrechos necessários para saltos urgentes feitos de imensa altitude e após as despedidas obrigatórias, tomei com as próprias mãos as rédeas da fera oval alada e dirigi-me sem escala para Zaragoza, terra de atraente mistério.

Por horas e longas horas desbravei os céus cintilantes e pontilhados por pedacinhos risonhos de nuvens, navegando em altitude de cruzeiro. Pela janela frontal da aeronave, os montes e rios e vilarejos e seres humanos se apresentavam em dimensão microscópica  Em certo momento, configurei o dirigível no piloto automático, para poder retornar as atenções completas à leitura da bizarra antologia.

Na página de número trinta e nove da supracitada publicação, leem-se os primeiros parágrafos do aguçante artigo intitulado “O Açougueiro de Zaragoza”, assinado por Mariquita De Las Cruzes, mote de meu estranho espanto e razão fundamental de minha não bem sucedida visita a estimulante cidade do nordeste espanhol.

No artigo escrito em formato fluido, cálido e quiçá hipnotizante, De La Cruzes reporta-nos um trágico momento de inconformável loucura por parte da população da cidade. Acontecimento tão trágico quanto improvável, a meu ver.

Na década de 1950, quando contava ainda com pouco mais de duzentos mil habitantes, a calada Zaragoza foi vítima de uma conspiração jamais dantes vista em território espanhol, sendo abastecida meses a fio por “incontáveis toneladas de carne manipulada espiritualmente”.

Chega a meu conhecimento através do punho intrépido de Mariquita, que nas fazendas de gado de corte das cercanias não era raro presenciar sanguinários rituais pagãos de culto ao carnivorismo. Mariquita (de quem assumo não possuir sólidos conhecimentos) escancara então os cruéis meandros de uma engenhosa farsa, desvelando ao longo de sua escrita endiabrada a participação premeditada de Don Abricó Gutierrez, açougueiro bisneto de turcos foragidos, letrado em magia negra e administração de empresas com ênfase em   gerenciamento de bovinos.

Abricó Gutierrez era dono da maioria dos campos de pasto, das fazendas da região e dos principais açougues da cidade espanhola, e manipulando as preferências alimentares dos zaragonezes lucrou imensa fortuna sem jamais ser indiciado ou incriminado; seu castigo veio de outra forma, como veremos em breve.

Graças a investigação astuciosa e destemida de De Las Cruzes (de quem me comprometo a buscar maiores informações assim que for humanamente viável) é possível compreender o efeito dos tais rituais pagãos na alimentação e dieta da população local, a qual, tendo modificada a tradicional estrutura bioquímica do hipotálamo e da matriz ungueal devido aos rituais heréticos, chegava a consumir até catorze vezes a quantidade normal de carne ingerida diariamente pelo homo sapiens comum.

Enquanto tratava de ler o artigo, ainda sobrevoando a estupenda Ibiza, horas antes, acreditava intimamente se tratar apenas de mais uma entre as infindáveis fraudes baseadas em magia negra e consumo abusivo de carne por parte de uma população manipulada bioquimicamente - mas eu não poderia estar mais errado.

Foi na página quarenta e três da antologia que li a conseqüência atroz de tal conspiração. O abate de gado, galinhas, ovelhas, coelhos, esquilos, chinchilas, porquinhos da índia, etc. mesmo produzindo gigantescas quantidades de carne, passou em determinado momento a não ser mais suficiente para alimentar a cada vez mais insaciável população carnívora de Zaragoza, de modo que não houve alternativa frente as práticas canibais que ganharam as ruas e fizeram milhares de mortos.

Em meio aos sangrentos banquetes de carne humana, o imperdoável Don Abricó Gutierrez (que além das fazendas e dos açougues, arcava com o sustento de dez amantes, e talvez o enriquecimento cujo objetivo seja a compra de mimos caros seja o motivo da tragédia sem precedentes) pareceu arrepender-se de sua fome por fortuna, pois decepou seus 10 dedos das mãos, enviou-os via correio para as amantes, caminhou decididamente pelas ruas encharcadas em sangue, invadiu o circo local e foi devorado por um leão de meia idade após ter-lhe chutado os bagos.

Mariquita buscou ouvir uma da dezena de amantes do cruel açougueiro em sua reportagem. E aqui reproduzo pequeno trecho da entrevista realizada: “Ainda guardo o dedo – o mindinho - que ele me enviou dentro de um envelope selado“- diz Manuelita de las Nieves. “ Está em uma garrafa, conservado no formol, entre o pote de sal grosso e o espremedor de alho”.

Encerrei a leitura do brilhante texto quando já me encontrava dentro do espaço aéreo de Zaragoza e entendi que era hora de pousar meu dirigível. Neste mesmo instante lembrei-me de minha imperícia em pousar a aeronave e não pude entender porque demiti sumariamente e obriguei um corpo de excelentes profissionais do ar a realizar um salto em queda livre de quatro mil pés.

Antes do gás do dirigível explodir, choquei-o desesperadamente contra uma lúgubre senhora e seu picolé – que de onde eu estava (gritando dentro da cabine), achei que deveria ser de limão ou de abacaxi, pela cor. Ela, sentada passivamente sobre o banco de uma praça deserta, e que por manter os óculos de grau no bolso da saia de seda curta para uma senhora daquela idade ao invés de pô-lo na cara, não pôde avistar a aproximação da aeronave descontrolada e teve o corpo e o picolé reduzidos a cinzas instantaneamente.

Durante minha permanência na ala de queimados do impecável hospital católico Santa Madre de Díos, enquanto tratava de recuperar os três quartos de meu corpo incinerado, chegou dolorosamente à minha ciência que o instigante relato publicado na Antologia, razão do meu desastre sem precedentes, é na realidade uma obra de ficção configurada escrachadamente pelo outrora pecaminoso poder criativo de um tal satírico francês que deu-se conta do chamado de Deus em território espanhol e que hoje comanda com mãos firmes e tementes Deus a Arquidiocese de Marseille, mas que à época atendia debochadamente pela alcunha de François Laputella y Anús.

E foi da instituição citada acima que recebi dias mais tarde presente de embrulho pomposo. Em seu interior descobri a segunda edição da maldita antologia com as "grandes reportagens" publicadas entre 1969 e 1974. Nas primeiras páginas amareladas do livreto, escrita a mão em letras garrafais, precisas e azuladas, pude ler, depois de muito forçar a única vista que ainda possuía, tal dedicatória:

Amigo Detetive Piercarlo Forlimpopoli,


Espero que minhas estorinhas inocentes em nada tenham contribuído para o triste incidente por ti sofrido


Aguardo, com fé inabalável em Deus, por sua total recuperação


Que Ele esteja contigo


Um abraço,


Arcebispo François Labutella. Arquidiocese de Marseille.

O Sonho de Mussolini

(Click) - soprou como um beijo estalado a Kapsa entrincheirada por detrás de um arbusto bojudo e simpático para o carajo, ostentada com firmeza titânica por uma dupla de mãos inchada e gorda de dar asco.

E sendo assim a máquina mantinha-se inabalável por entre pequenos e frágeis galhos, dirigindo seu olho imortalizante de ciclope para um senhor calvo que acabara de levar os dedos ansiosos à região da virilha e adjacências inferiores.

Ora, mas isso são modos, Benito Amilcare Andrea Mussolini? - perguntou silenciosamente nosso herói Guglielmo Cardinari, postado de cócoras, submerso entre folhas secas sem cheiro e besourinhos e joaninhas de fazer cócegas, na Piazza del Duomo, em Milão, em algum momento entre o decepcionante nascer-do-sol e o igualmente triste ocaso do Soile do dia da Graça do Nosso Senhor Jesus Cristo de dois de fevereiro de mil novecentos e quarenta e um, data completamente desprezível para os milaneses senão fosse pelo deselegante e ofensivo movimento do eminente bípede europeu.

Benito, vivendo raros dias de férias de seus afazeres de ditador, mascava como um camelo com laringite um amontoado de três chicles de bola (tutti-frutti, menta e tutti-frutti, de novo) enquanto solfejava uma apaziguante canção de Mário Consiglo e roçava his both hands ao longo da diminuta extensão de sua própria bolsa escrotal deveras enrugada (como confidenciaria a rampeira Giovanna Rabinesca em entrevista à espanhola endiabrada Marieta de las Nieves, do Diário de Zaragoza, duas dúzias de doze meses após o termo da Segunda Guerra).

Ora, senhor Mussolini, com as mãos nos bagos/bilau em plena movimentada praça, a insignificantes metros do brincar sagrado de nossas crianças? Ora!

(Click) (Click) - hablou com dois estalos de língua e dentes a máquina fotográfica, guardando aquelas coçadas de saco e ajeitadas de pênis para serem coladas no álbum de recordações dos grandes feitos do homo sapiens de God Almighty.

Tendo dentro da caixa torácica da máquina de lembranças documentação das mais históricas, nosso bom menino Guglielmo tratou de chispar do perímetro tão veloz pôde. Instantes depois já iniciava a negociação do material na redação do Corriere della Sera.

As fotos estampadas no jornal na manhã seguinte chacoalharam as bases da Itália fascista, viu, meu nego? Juro-te! Chacoalharam como nádegas em fevereiro.

O ângulo da Kapsa fez vir ao mundo a ilusão de que Mussolini estava a descascar sua banana a dois passos de uma menina a brincar de amarelinha. Não era bem assim, entrementes.

Em sua residência, após a leitura da manchete do dia, o comandante dobrou o papel higiênico com o qual limpara o ânus e deixou o banheiro para atirar a fina tira suja contra seu assessor pessoal, que estava a sorver lentamente uma xícara de chá sentado sobre o parapeito da varanda. O ditador tinha claro objetivo de machucar alguém e isso era bastante compreensível para minha pessoa uma vez que as fotos deveriam causar dano irreparável à sua reputação. Ordenou após a agressão porcalhona a prisão do fotógrafo, para torturá-lo devidamente no momento propício.

Sete horas despúes nosso meninão Cardinari (papai de Claudia Cardinari [então com três anos]) foi engavetado feito uma meia lavada no Presidio Osped na Via Castelvetro, 32.

Após a confirmação do encarceramento do fotógrafo, Benny fez o que eu e mais quatro pessoas em um grupo de cinco fariam depois de mandar um homem para uma sentença de décadas do mais puro sofrimento. Sentou-se a uma cadeira de balanço e obrigou-se a mergulhar em um profundo cochilo do qual poucos teriam o ímpeto de desvencilharem-se. Queria esquecer a existência daquela imagem que agora chocava-se contra os olhos de todos os italianos.

Algumas horas depois Il Duce acordou revigorado em sua cama king-size de travesseiros de pena de ganso manufaturados por consultoras de RH do sudeste do Brasil, de cheiro de almíscar lambido por tilápias adolescentes do baixo Cairo e coberta por uma fronha com algumas freadas misteriosas.

Levantou-se e foi caminhando a passos de cágado à cozinha, onde tomou novamente o jornal da manhã com a mão direita. Nada de ofensivo a seu respeito, entretanto, foi lido por seus olhinhos remelentos e pouco acostumados à luz mortiça da manhã milanesa. Com certa satisfação fritou um bife à milanesa, raspou nacos de bacon alemão e fermentou dois bolinhos de soja para o desjejum enquanto tentava entender o que havia acontecido com a manchete lida horas antes.

Inflou o peito após o término do mergulho entranhas adentro da última lasca de carne e acompanhamentos e empertigou-se. Coçou ampla área calva situada acima da alta testa e tratou de cobrir a pele apropriadamente para um passeio relaxante ao longo dos bons metros da praça defronte seu apartamento alugado. Caminhou por longos quilômetros solfejando cantigas de sua distante infância até postar-se diante de um banca de jornal que expunha costumeiramente todas as manchetes do dia para a leitura gratuita dos transeuntes. Atentou-se demoradamente a cada uma delas. Mas nada sobre o ocorrido na praça constava nas manchetes e cadernos. Atenuaram-se os olhos negros injetados e a feição nervosa petrificada.

Provavelmente algum nobre e competente funcionário fez com que o jornal retirasse as edições primeiras da manhã e, oportunamente, as substituiu por outra, benditamente censurada, pensou consigo mesmo Mussolini.

Desceu saltitante, sentindo-se feliz e radiante, em direção à área da Plazza e notou o burburinho cheio de gáudio erigido por um grupo de meninotas que brincava de amarelinha e ria e fazia poses por demais engraçadas enquanto não se envergonhava por levantar o vestido para quem tivesse olhos para mirar.

Il Duce se aproximou, dando uns dois, três, quiçá quatro passinhos tímidos e abriu as janelas da alma para receber os estímulos visuais de maneira mais apropriada.  Foi então que um vento gélido soprou vindo do noroeste búlgaro, uma cantiga morosa de Mário Consiglo espocou em seu espírito e por alguma razão desconhecida sua virilha passou a coçar furiosamente.  Mussolini, automaticamente, levou os dedos ansiosos à região da virilha e adjacências inferiores.

E então Benny notou que aquilo já havia acontecido. E seu sangue ferveu ao ter certeza de que o astuto e maldito fotógrafo estava naquele mesmo instante sorrindo por detrás de sua câmera, registrando a coçada de saco mais importante da passagem humana pelo globo terrestre.

Benito voltou o corpo com feroz velocidade e dedicou-se a buscar a localização do fotógrafo. Afastou-se apressadamente do grupo de meninas e subiu um tênue aclive de pedregulhos que alcançava um trecho infestado de arbustos. Pôs os olhos a esquadrinhar com plena dedicação cada milímetro do perímetro. Não demorou até um arbusto seco tremular e dê lá saltar assustado um homem rotundo segurando uma câmera fotográfica.

Benito lançou-se contra aquele homem instantaneamente, mas o fotógrafo se desvencilhou surpreendentemente e partiu do local correndo arfando. Mussolini pôs-se atrás do fugitivo, fazendo valer-se de seu corpanzil atlético e resistente.  O fotógrafo subiu a Giuseppe Mangoni, cruzou a Santa
Margerita e ganhou a Via San Protaso sem mostrar cansaço algum apesar dos treze quilos que julgava levar a mais no abdômen.

Prosseguindo sua louca escapada, Cardinale cruzou feito um raio a elegante entrada do Victoria Café e, tomando a população transeunte da Via Clerici de assalto, encontrou exílio no Instituto Brasile-Itália, onde Dercy Gonçalves lambuzava o rígido lábio inferior com a ponta molhada de um batom arroxeado justamente na entrada do edifício.

Cardinale beneficiou-se de sua astúcia mexicana ao gingar o corpo para a esquerda, evitando um choque frontal contra o corpanzil da humorista, e seguiu subindo em louca escapada a escada, sem parar por um instante sequer. O mesmo não pode ser dito sobre o italiano, que atropelou o franzino conjunto de ossos e pele vindo ao mundo na cidade do Rio de Janeiro em 1905, e, emputecido com a perda preciosa de tempo, optou por empurrar nossa Dercy sem dar-se conta do crime que cometia. Dercy foi arremessada contra uma estátua colocada sobre uma mesa de carvalho, caindo desacordada sobre o tapete que cobria o chão de madeira.

Ora Mussolini, como ousa empurrar a maior atriz da República Federativa do Brasil dessa maneira?

Mussolini prosseguiu empreendendo sua perseguição, percorrendo os degraus altos da escada até atingir o segundo andar do sobrado centenário, conseguindo, milagrosamente, aproximar-se do fotógrafo.

No patamar da escada, as mãos sisudas de Benito alcançaram a gola da camiseta branca da Hering com a qual Cardinari cobria o corpo rotundo e neste momento amplamente empapado. Com extrema ira e força, arremessou o fotógrafo contra a janela, a qual o fez quicar como uma bola de tênis para depois tombar sobre o chão, escangalhado, sem energia alguma a restar pelas veias.

Mussolini montou sobre o fotógrafo e já se aprontava para enfiar os dedos nos olhos do homem subjugado para que ele jamais batesse outra foto, mas sentiu toques ansiosos de um magérrimo dedo indicador contra suas costas e virou-se irritado para identificar quem lhe interrompia atividade tão prazerosa.

Mussolini virou o pescoço enraivecido, riscado por veias a pulular, e divisou a alguns poucos centímetros nossa querida Dercy Gonçalves brandindo com a mão tremula uma estátua de musa pesando cinco quilos, a qual cintilou com a luz cinza e letal que invadia o local através da janela.

- Toma essa, seu gordo filho da puta. Vai toma no cu, porra - ela gritou ao desferir golpe violento contra a careca do ditador, que se abriu como um teco de picanha mal passada. Mussolini tombou sobre o piso de madeira como um saco de gelo coberto de cal e lágrimas de ciganos, emitindo um suspiro abafado e agudo, cheio de cansaço por tanto viver. Seu sangue escorreu fervendo sobre o chão até a escada, vertendo por todas as quedas dos degraus até o piso térreo como um pequeno rio rubro a saltitar e quedar pelo litoral inflado de variações de relevo.

Getúlio Vargas dançava tango com as meninas treinadas por Carmen Dudalina, no Palácio do Catete, Rio de Janeiro, Brasil, quando seu celular fez um barulho curto e irritante, vibrando impacientemente. Todas as terças-feiras de manhã Vargas se predispunha a receber aulas de danças de salão e não as interrompia por nada nesse mundo. Mas naquela ocasião ele afastou com um movimento calmo e gentil Maria de Cármen Etccheverria para longe de si, atendeu ao telefone e, sem fazer menção de hablar, correu até seu notebook, com o qual acessou sua conta de email.

Uma mensagem do embaixador brasileiro na Itália despontava no topo de sua caixa de correio. Seu conteúdo era horrendo. Getúlio ficou imóvel por um momento. Parecia concatenar imagens sombrias, as quais singravam livres por sua mente. Então ergueu-se e foi até Etccheverria e dançou, mantendo expressão cerrada.

Com o início da Segunda Guerra Mundial, Getúlio Vargas manteve-se neutro até o dia em que Mussolini resolver empurrar nossa amada atriz contra uma mesa. Dercy mudou tudo o que Getúlia planejara - com uma pancada fatal na calva de Benito. O Brasil declarou guerra contra o Eixo, enviando dois milhões de jovens soldados à Itália. Com o avanço das forças nazista por toda extensão europeia e depois por toda a União Soviética, a Itália ganhou força e apoio militar ilimitado, chegando a invadir o Brasil em fevereiro de 1946. O resultado foi desastroso para os brasileiros. Por fim, com milhões de mortos após a invasão e total destruição do Rio de Janeiro, Getúlio e Dercy foram atirados do alto do Cristo Redentor durante uma manhã de extremo calor.

Il Duce acordou revigorado em sua cama king-size coberta por um imenso lençol elétrico Bioterm. Tinha ao lado Francesca Freduzeski, ex-coletora de impostos  de origem egípcia que por anos trabalhou no estaleiro de Berna. Francesca havia sofrido de uma forte diarreia durante a madrugada, como resultado do jantar com a delegação brasileira que visitava a Itália do dia anterior. Francesca passou horas conversando com uma famosa atriz do país, com quem secou o interior de cinco garrafas de champagne e devorou três dúzias de ostras chilenas.

Mussolini levantou-se da cama e foi caminhando a passos de cágado rumo à cozinha, satisfeito por perceber que a invasão contra o Brasil não passava de um sonho irreal. Tomou o jornal do chão com a mão direita e texto algum a respeito de coçadas de saco foi lido por seus olhinhos remelentos e pouco acostumados à luz mortiça da manhã milanesa. Fritou um ovo de galinha que não cisca, raspou nacos de bacon alemão, fez uma margarita, fermentou dois bolinhos de soja para o desjejum e inspirou profundamente, prazerosamente. Resolveu descer à rua para uma rápida caminhada ao longo da Piazza del Duomo.

Andou com o rosto inclinado para a cortina cinza que vestia o céu. Com os olhos cerrados Mussolini se sentiu feliz por estar vivo, respirando profundamente um ar alegre e revigorante. Imaginou-se a correr pelas dunas brancas de alguma praia edênica do nordeste brasileiro, acariciando os seios macios de alguma nativa, bebericando água de coco e urinando sorrateiramente no mar quente. O som de uma risada por fim o despertou de seu devaneio. Abriu os olhos com presteza e notou duas pessoas caminhando em sua direção. Um hombre e uma pequena menina de uns três anos vinham andando de mãos dadas.

Ao se aproximar, Mussolini fitou o corpo rotundo e as feições assustadas do homem e imediatamente o reconheceu. Era o fotógrafo que causara toda dor e sofrimento de seu mais recente sonho. Mussolini se pôs à frente do homem e segurou-o pelas golas de sua camisa branca.

- Fotógrafo maldito. Receberá o que mereces. Nunca mais vai me fotografar coçando o saco – disse Benito, acionando com um assobio agudo um séquito de policiais na esquina da Rua Tutuca com a Michele Alboreto.

- Me larga! – pediu Guglielmo.

- Onde está a máquina, seu fotógrafo sujo? Deves ser um comuna imundo, só pode – esbravejou Mussolini.

- Máquina? Jamais bati uma foto em minha vida – disse o pobre diabo.

Ver o pai sendo atacado repentinamente por um homem furioso fez com que a menina passasse a chorar copiosamente.

- Fique tranquila, Cláudia. Tudo dará certo - ele mentiu.

Foi a última frase que Claudia ouviu do pai. Guglielmo Cardinari foi arrastado até o centro militar de Milão naquele mesmo momento. Lá, sem entender a razão do cárcere, dedicou-se a respirar, piscar os olhos e se lamentar pelo inconcebível infortúnio.

Por dois anos ficou ali, como um personagem kafkiano.

Em 1943, Guglielmo encaminhava-se ao lavado da lavanderia da prisão para defecar com segurança e privacidade quando seus astutos olhos captaram cena para lá de vexatória. Na sala de máquinas, localizada no início do corredor leste, com os dedos ariscos feito patinhas de caranguejo em perigo, o diretor da penitenciária, Manny Bonald, inglês podólatra, dava pequenos beliscos na chapeleta arroxeada de seu minúsculo pênis e, com efeito, dava gargalhadas gostosas de criança diante de um pedaço balouçante, formato lua minguante, de espelho.

O azar fez-se sobre nosso amigo pai de Cláudia mais uma vez e depois de perceber a invasiva atenção que o prisioneiro dava a seu lazer, Bonald o enviou para se exilado na Ilha de Elba, como cumprimento de pena perpétua.

Para quem não conhece a ilhota, linda de morrer, o local é dividido em oito comunes italianos: a capital Portoferraio, Campo nell'Elba, Capoliveri, Marciana, Marciana Marina, Porto Azzurro, Rio Marina e Rio nell'Elba . Foi lá onde o ilustre Napoleão Bonaparte permaneceu isolado da Europa, após a fracassada
invasão da Rússia. Na pequena porção de terra cercada de água por todos os lados, Gugliemo gostava de passear para coletar amoras silvestres e pedaços de ossos de pássaros mortos, com os quais realizava cerimônias politeístas antes de sodomizar pequenos repteis não venenosos. Ao contrário da penitenciária milanesa, Gugliemo podia andar livremente pelo local sem ter de se preocupar com qualquer tipo de intromissão dos guardas da prisão. Passava os dias notando certo contentamento a rondar seu corpo, mesmo que ínfimo diante do horror do encarceramento e da saudade irremediável que sentia da filha Cláudia.

No fim da tarde de uma terça-feira de céu azul sem nuvens, Guglielmo sentiu o estomago vacilar. Havia comido oito obesas jabuticabas logo pela manhã e sentiu que descia-lhe pelo ventre uma boa quantidade de cocô.

Sentou-se tendo o esplendoroso azul do Mar Mediterrâneo desenrolando-se por toda sua frente e sorriu pela última vez. Antes de livrar-se do primeiro tablete de merda, sentiu dos afiados dentes sendo cravados contra seu ânus já semiaberto.

Virou-se sem cagar e viu um mangusto a lhe encarar com os dentes a mostra, pronto para outro ataque. Guglielmo puxou as calças e tratou de trancar as entranhas. Tentou correr até o presídio, mas desfaleceu sobre um descampado, longe dos olhares dos funcionários do presídio, onde o Sol esquentou-lhe a carne.

Horas se passaram até Guglielmo ser levado à enfermaria. Lá, a bactéria proveniente dos dentes do mangusto espalhou-se pelos gânglios linfáticos, onde se multiplicou. Enfim, sete dias após ter o cu mordido, estouraram protuberâncias azuladas na pele de Guglielmo, acompanhado de alta febre.

Pouco depois, as bactérias invadiram a corrente sanguínea, onde se multiplicaram causando peste septicémica. Ao fim, a hemorragia invadiu o pulmão e matou-o. Neste mesmo instante, quilômetros distantes, Mussolini sentiu um  um vento gélido bater-lhe sobre a careca e por alguma razão desconhecida sua virilha passou a coçar furiosamente, enquanto uma cantiga morosa de Mário Consiglo espocou em seu espírito.

The Whereabouts of the Spanish Magician Who Ejaculated on the Whisky of a U.S senator


Chapter One

Marivalda’s Arms

Marivalda and Wallace were in love in that warm Brazilian summer of 2015. Full of love. Love floating from the ears and noses and covering their sweaty bodies and old clothes. Love, love, love. Love in the air. Love in the land. But at that precious moment, love was is the water, few centimeters above the surface, as Marivalda and Wallace were touching each other with passion and without any shame, inside an inflatable boat, sailing in the direction of a small portion of land, some miles away from Marajo Island.
The merciless sun was melting the top of their heads when the bottom of the boat touched the sand floor, and then, exiting toward the beach, the couple, spotted a breathless and scared black lady, naked, disheveled hair and rotten teeth, wondering, madly, while shaking Marvivalda’s arms:
 - Where is he? Where is that magician?

Chapter Two

A bar in Dallas 

After another cold day with the feeling that his life evaporated as he analyzed the euro exchange rate on the Mac Book Air, Donald McDonald pushed the door of the Frederick’s and sat down heavily on a padded bench on the edge of the counter. He ordered a beer and looked at the TV. The journalist, alarmed, spoke in torrents. But he could not listen. The TV was mute. He looked down and read the text written below the screen: Michelle Obama is found in Brazil after three years missing.

Chapter Three

Nothing to do with Kelly McGrabin

No doubt about that. Kelly McGrabin really was one of the members of the infamous but also glamorous dish washers gang from the east side of the San Francisco Bay that suddenly started to flew around orchids plantations like that ancient smelly witches did in the early days of the struggling between the cats of Auntie Dida and the butterflies of her foster parents Elijah and Pontiac McDonald.

However, McGrabin, that started her life as a baby and have never worried about the absence of vitamin C in her blood, usually preferred to study the history of the sudden cases of coprophagia among elderly in Belgians asylums during the First World War until late at night (sited over her sleeping parents, remembering the salty taste of the thousand nails of penguins corpses that she licked after Carlin McFrancis came back from the Gozaldos Island in march of 2012) and rarely flew around orchids plantations with the other members of that hilarious and dearly missed group. Thus, she was protected and dry when the thirty ex-dishwashers were gunned down by the police force of San Francisco on a cold and rainy April morning, while the gang and their neon wings flew over the orchids and daisies’s plantation of the deputy mayor Toby Manning.

But this story is not about McGrabin and the penis that started to grow in her forehead two weeks before her marriage. Also, this touching story is not about the man that pretended to be a mailman and got free buses rides for almost twenty years until the date in which a school bus run over him and destroyed the tumor that was starting to grow inside his brain.

This story has to do with a dangerous sickness that silently started to destroy one of the greatest empires that existed on Earth, forty years ago. That menace attended to the name of Juan de la Rosa. A Spaniard. A magician. A plague. A tumor. Perhaps an ex-google employee made in some Al Qaeda’s laboratory to destroy the freedom and the American way of life. Maybe we are talking here about witchcraft, sorcery or wizardry. Or maybe we are talking shit. But maybe not. Maybe not. Maybe this is real. And you, Brasil, is the next victim.

Let’s begin with a simple question: Can you imagine how difficult it is for a Texas-born husband to see his wife sucking a huge european cock right in front of him, as he realize  that he has no way of stopping her because he is linked against a chair on a stage in front of all his family on his 90th birthday?

(No, you can’t. Obama can, as we soon will see.)

Franco de la Monica didn’t imagine that anything like that could happened to him until the day in which his 79th years old  wife Monica de la Monica actually sucked a Spanish magician’s cock in front of all her family while cradled her grandson in her arms.

After called Franco to take the stage and tie him to a chair, Rosa walked down towards Monica putting out his already rigid dick while all the presents stared, petrified, the vexing, nasty moment. Until the end of life, the senator struggled to believe that his wife had been taken by some unscrupulous spell. But he would never be  sure of that.

Chapter Four

The whereabouts of the man who ejaculated on the whisky of a U.S senator

Shortly after the horrific event, the ninety years old U.S. senator did not hesitate and immediately started using his entire political arsenal to discover the whereabouts of that Spaniard magician that, after ejaculating inside the glass of whiskey that he himself gladly sipped before being invited to attend to a supposed not dangerous magic number, turned into smoke and leaked through the reception’s window tilting, getting away from the Macadamias Studios Plaza in New York without being caught by the U.S. Secret Service guarding the place.

After the party at Macadamias Studios, the poor senator could no longer look into the eyes of his wife. Whenever she came near him, while he was drinking yogurt in the kitchen or watching Top Chef in their bedroom, the senator remembered the nauseating scent of the Spanish’s cock being pumped inside his wife’s mounth - a mixture of saliva, cherry lipstick and sour cock long maintained within shorts in summer.
Gradually, as the investigations and searches for the damn Spanish continued with full force, the vitality of Senator decay remarkably. Months later, after his wife committed suicide sticking a baseball bat down her own throat, the senator called a meeting with his party’s members in Washington, in which we would communicate that he was leaving politics to die alone and, hopefully, soon, flooding his lungs with liquid content expunged by his own punished retinas.

What happened at the meeting, however, was unexpected. Not only senator de la Monica appeared with the shattered health, on the verge of a fatal collapse. Senators James Kellogs, Sammy Sakuraba, Vinny O'Toole and Claudio Perdigoto also looked like shit sitting around the ancient oak table at the Congress. There was communicated, in extreme confidence, that what happened with de la Monica also happened with all the leading members of the Republican Party of the United States of America.

Mysteriously, without even getting hired, a strange hispanic magician attended to politicians festivities, acting as the catalyst of pure perversion scenes. The Spanish magician obligated Kellogs’s father to fuck Kellogs’s wife ass while Kellogs was also tied to a chair, having nothing to do against that horrible moment in the human history.

- My case was not so bad – thought de la Monica, after hearing Kellogg’s story.

The truth is that their lives were over as they were strapped into the chair by the mysterious magician, which they neither knew would attend the party. Consequently, the politician’s energy, which has accompanied them since their youth, faded away. Soon, the Republican Party would end.

A year later, the FBI was caught off guard. At a birthday party for Michelle Obama, a magician Spanish suddenly materialized in the White House. Even the hundreds agents could do nothing to prevent the magician to do the dreaded presentation –they were petrified. Obama, even aware about what happened in the previous year with key members of his party, walked toward the magician, whose eyes sparkled. The president seemed dominated by a strange force as he walked, as if under a spell. Obama did not fight, even knowing what would happen next, and meekly allowed himself to be tied to a chair. The magician left the president behind and walked toward the first lady, lowering his pants.

The rest is history. Obama stuck a bullet against his head after Michele, like the wives of other politicians who didn’t kill herselves, left him and fled with the magician to an unknown location. Actually, that was what the evil force behind the magician wanted us to think. The reality is that the politician’s wives, who had their will controlled by a spell of the magician, were taken to small and isolated islands scattered across the globe to die as their husbands, dry and bitter in the loneliness of our incomprehensible world.

Chapter Five 

The equilibrium of the Earth

In the following years, no president has managed to stay in office for long. Thus, men who assumed command of the largest global power were increasingly disqualified and worked immersed in an atmosphere of tension and fear.

Cases and more cases of magical Spaniards were reported in the country months after the suicide of President. Now the target was common families, which were destroyed one after another. Shortly after, the United States were on the verge of an unprecedented civil war. Thus began the decline of the American empire.

What happened in America in the distant decade of 2010 was not an isolated event in human history. And it would not be the last.

The mysterious force that demoralizes every major global power, causing it to enter into decline and eventually perish, according to scholars, who found rare documents hidden within small fossilized feces, has been responsible for similar events in Greece and Rome, shortly before the birth of Christ.

The next target, logically, would be Brazil, the current world power today, in 2044. Curiously, is scheduled for today the sixty years anniversary of the current president, Fabio Saar. His wife, a lovely lady, is now passing lipstick on her thin and dry lips, not knowing what to expect in a few hours. History repeats itself, and the fall of another mightiness nation starts with a blowjob.

O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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