(Click) - soprou como um beijo estalado a Kapsa entrincheirada por detrás de um arbusto bojudo e simpático para o carajo, ostentada com firmeza titânica por uma dupla de mãos inchada e gorda de dar asco.
E sendo assim a máquina mantinha-se inabalável por entre pequenos e frágeis galhos, dirigindo seu olho imortalizante de ciclope para um senhor calvo que acabara de levar os dedos ansiosos à região da virilha e adjacências inferiores.
Ora, mas isso são modos, Benito Amilcare Andrea Mussolini? - perguntou silenciosamente nosso herói Guglielmo Cardinari, postado de cócoras, submerso entre folhas secas sem cheiro e besourinhos e joaninhas de fazer cócegas, na Piazza del Duomo, em Milão, em algum momento entre o decepcionante nascer-do-sol e o igualmente triste ocaso do Soile do dia da Graça do Nosso Senhor Jesus Cristo de dois de fevereiro de mil novecentos e quarenta e um, data completamente desprezível para os milaneses senão fosse pelo deselegante e ofensivo movimento do eminente bípede europeu.
Benito, vivendo raros dias de férias de seus afazeres de ditador, mascava como um camelo com laringite um amontoado de três chicles de bola (tutti-frutti, menta e tutti-frutti, de novo) enquanto solfejava uma apaziguante canção de Mário Consiglo e roçava his both hands ao longo da diminuta extensão de sua própria bolsa escrotal deveras enrugada (como confidenciaria a rampeira Giovanna Rabinesca em entrevista à espanhola endiabrada Marieta de las Nieves, do Diário de Zaragoza, duas dúzias de doze meses após o termo da Segunda Guerra).
Ora, senhor Mussolini, com as mãos nos bagos/bilau em plena movimentada praça, a insignificantes metros do brincar sagrado de nossas crianças? Ora!
(Click) (Click) - hablou com dois estalos de língua e dentes a máquina fotográfica, guardando aquelas coçadas de saco e ajeitadas de pênis para serem coladas no álbum de recordações dos grandes feitos do homo sapiens de God Almighty.
Tendo dentro da caixa torácica da máquina de lembranças documentação das mais históricas, nosso bom menino Guglielmo tratou de chispar do perímetro tão veloz pôde. Instantes depois já iniciava a negociação do material na redação do Corriere della Sera.
As fotos estampadas no jornal na manhã seguinte chacoalharam as bases da Itália fascista, viu, meu nego? Juro-te! Chacoalharam como nádegas em fevereiro.
O ângulo da Kapsa fez vir ao mundo a ilusão de que Mussolini estava a descascar sua banana a dois passos de uma menina a brincar de amarelinha. Não era bem assim, entrementes.
Em sua residência, após a leitura da manchete do dia, o comandante dobrou o papel higiênico com o qual limpara o ânus e deixou o banheiro para atirar a fina tira suja contra seu assessor pessoal, que estava a sorver lentamente uma xícara de chá sentado sobre o parapeito da varanda. O ditador tinha claro objetivo de machucar alguém e isso era bastante compreensível para minha pessoa uma vez que as fotos deveriam causar dano irreparável à sua reputação. Ordenou após a agressão porcalhona a prisão do fotógrafo, para torturá-lo devidamente no momento propício.
Sete horas despúes nosso meninão Cardinari (papai de Claudia Cardinari [então com três anos]) foi engavetado feito uma meia lavada no Presidio Osped na Via Castelvetro, 32.
Após a confirmação do encarceramento do fotógrafo, Benny fez o que eu e mais quatro pessoas em um grupo de cinco fariam depois de mandar um homem para uma sentença de décadas do mais puro sofrimento. Sentou-se a uma cadeira de balanço e obrigou-se a mergulhar em um profundo cochilo do qual poucos teriam o ímpeto de desvencilharem-se. Queria esquecer a existência daquela imagem que agora chocava-se contra os olhos de todos os italianos.
Algumas horas depois Il Duce acordou revigorado em sua cama king-size de travesseiros de pena de ganso manufaturados por consultoras de RH do sudeste do Brasil, de cheiro de almíscar lambido por tilápias adolescentes do baixo Cairo e coberta por uma fronha com algumas freadas misteriosas.
Levantou-se e foi caminhando a passos de cágado à cozinha, onde tomou novamente o jornal da manhã com a mão direita. Nada de ofensivo a seu respeito, entretanto, foi lido por seus olhinhos remelentos e pouco acostumados à luz mortiça da manhã milanesa. Com certa satisfação fritou um bife à milanesa, raspou nacos de bacon alemão e fermentou dois bolinhos de soja para o desjejum enquanto tentava entender o que havia acontecido com a manchete lida horas antes.
Inflou o peito após o término do mergulho entranhas adentro da última lasca de carne e acompanhamentos e empertigou-se. Coçou ampla área calva situada acima da alta testa e tratou de cobrir a pele apropriadamente para um passeio relaxante ao longo dos bons metros da praça defronte seu apartamento alugado. Caminhou por longos quilômetros solfejando cantigas de sua distante infância até postar-se diante de um banca de jornal que expunha costumeiramente todas as manchetes do dia para a leitura gratuita dos transeuntes. Atentou-se demoradamente a cada uma delas. Mas nada sobre o ocorrido na praça constava nas manchetes e cadernos. Atenuaram-se os olhos negros injetados e a feição nervosa petrificada.
Provavelmente algum nobre e competente funcionário fez com que o jornal retirasse as edições primeiras da manhã e, oportunamente, as substituiu por outra, benditamente censurada, pensou consigo mesmo Mussolini.
Desceu saltitante, sentindo-se feliz e radiante, em direção à área da Plazza e notou o burburinho cheio de gáudio erigido por um grupo de meninotas que brincava de amarelinha e ria e fazia poses por demais engraçadas enquanto não se envergonhava por levantar o vestido para quem tivesse olhos para mirar.
Il Duce se aproximou, dando uns dois, três, quiçá quatro passinhos tímidos e abriu as janelas da alma para receber os estímulos visuais de maneira mais apropriada. Foi então que um vento gélido soprou vindo do noroeste búlgaro, uma cantiga morosa de Mário Consiglo espocou em seu espírito e por alguma razão desconhecida sua virilha passou a coçar furiosamente. Mussolini, automaticamente, levou os dedos ansiosos à região da virilha e adjacências inferiores.
E então Benny notou que aquilo já havia acontecido. E seu sangue ferveu ao ter certeza de que o astuto e maldito fotógrafo estava naquele mesmo instante sorrindo por detrás de sua câmera, registrando a coçada de saco mais importante da passagem humana pelo globo terrestre.
Benito voltou o corpo com feroz velocidade e dedicou-se a buscar a localização do fotógrafo. Afastou-se apressadamente do grupo de meninas e subiu um tênue aclive de pedregulhos que alcançava um trecho infestado de arbustos. Pôs os olhos a esquadrinhar com plena dedicação cada milímetro do perímetro. Não demorou até um arbusto seco tremular e dê lá saltar assustado um homem rotundo segurando uma câmera fotográfica.
Benito lançou-se contra aquele homem instantaneamente, mas o fotógrafo se desvencilhou surpreendentemente e partiu do local correndo arfando. Mussolini pôs-se atrás do fugitivo, fazendo valer-se de seu corpanzil atlético e resistente. O fotógrafo subiu a Giuseppe Mangoni, cruzou a Santa
Margerita e ganhou a Via San Protaso sem mostrar cansaço algum apesar dos treze quilos que julgava levar a mais no abdômen.
Prosseguindo sua louca escapada, Cardinale cruzou feito um raio a elegante entrada do Victoria Café e, tomando a população transeunte da Via Clerici de assalto, encontrou exílio no Instituto Brasile-Itália, onde Dercy Gonçalves lambuzava o rígido lábio inferior com a ponta molhada de um batom arroxeado justamente na entrada do edifício.
Cardinale beneficiou-se de sua astúcia mexicana ao gingar o corpo para a esquerda, evitando um choque frontal contra o corpanzil da humorista, e seguiu subindo em louca escapada a escada, sem parar por um instante sequer. O mesmo não pode ser dito sobre o italiano, que atropelou o franzino conjunto de ossos e pele vindo ao mundo na cidade do Rio de Janeiro em 1905, e, emputecido com a perda preciosa de tempo, optou por empurrar nossa Dercy sem dar-se conta do crime que cometia. Dercy foi arremessada contra uma estátua colocada sobre uma mesa de carvalho, caindo desacordada sobre o tapete que cobria o chão de madeira.
Ora Mussolini, como ousa empurrar a maior atriz da República Federativa do Brasil dessa maneira?
Mussolini prosseguiu empreendendo sua perseguição, percorrendo os degraus altos da escada até atingir o segundo andar do sobrado centenário, conseguindo, milagrosamente, aproximar-se do fotógrafo.
No patamar da escada, as mãos sisudas de Benito alcançaram a gola da camiseta branca da Hering com a qual Cardinari cobria o corpo rotundo e neste momento amplamente empapado. Com extrema ira e força, arremessou o fotógrafo contra a janela, a qual o fez quicar como uma bola de tênis para depois tombar sobre o chão, escangalhado, sem energia alguma a restar pelas veias.
Mussolini montou sobre o fotógrafo e já se aprontava para enfiar os dedos nos olhos do homem subjugado para que ele jamais batesse outra foto, mas sentiu toques ansiosos de um magérrimo dedo indicador contra suas costas e virou-se irritado para identificar quem lhe interrompia atividade tão prazerosa.
Mussolini virou o pescoço enraivecido, riscado por veias a pulular, e divisou a alguns poucos centímetros nossa querida Dercy Gonçalves brandindo com a mão tremula uma estátua de musa pesando cinco quilos, a qual cintilou com a luz cinza e letal que invadia o local através da janela.
- Toma essa, seu gordo filho da puta. Vai toma no cu, porra - ela gritou ao desferir golpe violento contra a careca do ditador, que se abriu como um teco de picanha mal passada. Mussolini tombou sobre o piso de madeira como um saco de gelo coberto de cal e lágrimas de ciganos, emitindo um suspiro abafado e agudo, cheio de cansaço por tanto viver. Seu sangue escorreu fervendo sobre o chão até a escada, vertendo por todas as quedas dos degraus até o piso térreo como um pequeno rio rubro a saltitar e quedar pelo litoral inflado de variações de relevo.
Getúlio Vargas dançava tango com as meninas treinadas por Carmen Dudalina, no Palácio do Catete, Rio de Janeiro, Brasil, quando seu celular fez um barulho curto e irritante, vibrando impacientemente. Todas as terças-feiras de manhã Vargas se predispunha a receber aulas de danças de salão e não as interrompia por nada nesse mundo. Mas naquela ocasião ele afastou com um movimento calmo e gentil Maria de Cármen Etccheverria para longe de si, atendeu ao telefone e, sem fazer menção de hablar, correu até seu notebook, com o qual acessou sua conta de email.
Uma mensagem do embaixador brasileiro na Itália despontava no topo de sua caixa de correio. Seu conteúdo era horrendo. Getúlio ficou imóvel por um momento. Parecia concatenar imagens sombrias, as quais singravam livres por sua mente. Então ergueu-se e foi até Etccheverria e dançou, mantendo expressão cerrada.
Com o início da Segunda Guerra Mundial, Getúlio Vargas manteve-se neutro até o dia em que Mussolini resolver empurrar nossa amada atriz contra uma mesa. Dercy mudou tudo o que Getúlia planejara - com uma pancada fatal na calva de Benito. O Brasil declarou guerra contra o Eixo, enviando dois milhões de jovens soldados à Itália. Com o avanço das forças nazista por toda extensão europeia e depois por toda a União Soviética, a Itália ganhou força e apoio militar ilimitado, chegando a invadir o Brasil em fevereiro de 1946. O resultado foi desastroso para os brasileiros. Por fim, com milhões de mortos após a invasão e total destruição do Rio de Janeiro, Getúlio e Dercy foram atirados do alto do Cristo Redentor durante uma manhã de extremo calor.
Il Duce acordou revigorado em sua cama king-size coberta por um imenso lençol elétrico Bioterm. Tinha ao lado Francesca Freduzeski, ex-coletora de impostos de origem egípcia que por anos trabalhou no estaleiro de Berna. Francesca havia sofrido de uma forte diarreia durante a madrugada, como resultado do jantar com a delegação brasileira que visitava a Itália do dia anterior. Francesca passou horas conversando com uma famosa atriz do país, com quem secou o interior de cinco garrafas de champagne e devorou três dúzias de ostras chilenas.
Mussolini levantou-se da cama e foi caminhando a passos de cágado rumo à cozinha, satisfeito por perceber que a invasão contra o Brasil não passava de um sonho irreal. Tomou o jornal do chão com a mão direita e texto algum a respeito de coçadas de saco foi lido por seus olhinhos remelentos e pouco acostumados à luz mortiça da manhã milanesa. Fritou um ovo de galinha que não cisca, raspou nacos de bacon alemão, fez uma margarita, fermentou dois bolinhos de soja para o desjejum e inspirou profundamente, prazerosamente. Resolveu descer à rua para uma rápida caminhada ao longo da Piazza del Duomo.
Andou com o rosto inclinado para a cortina cinza que vestia o céu. Com os olhos cerrados Mussolini se sentiu feliz por estar vivo, respirando profundamente um ar alegre e revigorante. Imaginou-se a correr pelas dunas brancas de alguma praia edênica do nordeste brasileiro, acariciando os seios macios de alguma nativa, bebericando água de coco e urinando sorrateiramente no mar quente. O som de uma risada por fim o despertou de seu devaneio. Abriu os olhos com presteza e notou duas pessoas caminhando em sua direção. Um hombre e uma pequena menina de uns três anos vinham andando de mãos dadas.
Ao se aproximar, Mussolini fitou o corpo rotundo e as feições assustadas do homem e imediatamente o reconheceu. Era o fotógrafo que causara toda dor e sofrimento de seu mais recente sonho. Mussolini se pôs à frente do homem e segurou-o pelas golas de sua camisa branca.
- Fotógrafo maldito. Receberá o que mereces. Nunca mais vai me fotografar coçando o saco – disse Benito, acionando com um assobio agudo um séquito de policiais na esquina da Rua Tutuca com a Michele Alboreto.
- Me larga! – pediu Guglielmo.
- Onde está a máquina, seu fotógrafo sujo? Deves ser um comuna imundo, só pode – esbravejou Mussolini.
- Máquina? Jamais bati uma foto em minha vida – disse o pobre diabo.
Ver o pai sendo atacado repentinamente por um homem furioso fez com que a menina passasse a chorar copiosamente.
- Fique tranquila, Cláudia. Tudo dará certo - ele mentiu.
Foi a última frase que Claudia ouviu do pai. Guglielmo Cardinari foi arrastado até o centro militar de Milão naquele mesmo momento. Lá, sem entender a razão do cárcere, dedicou-se a respirar, piscar os olhos e se lamentar pelo inconcebível infortúnio.
Por dois anos ficou ali, como um personagem kafkiano.
Em 1943, Guglielmo encaminhava-se ao lavado da lavanderia da prisão para defecar com segurança e privacidade quando seus astutos olhos captaram cena para lá de vexatória. Na sala de máquinas, localizada no início do corredor leste, com os dedos ariscos feito patinhas de caranguejo em perigo, o diretor da penitenciária, Manny Bonald, inglês podólatra, dava pequenos beliscos na chapeleta arroxeada de seu minúsculo pênis e, com efeito, dava gargalhadas gostosas de criança diante de um pedaço balouçante, formato lua minguante, de espelho.
O azar fez-se sobre nosso amigo pai de Cláudia mais uma vez e depois de perceber a invasiva atenção que o prisioneiro dava a seu lazer, Bonald o enviou para se exilado na Ilha de Elba, como cumprimento de pena perpétua.
Para quem não conhece a ilhota, linda de morrer, o local é dividido em oito comunes italianos: a capital Portoferraio, Campo nell'Elba, Capoliveri, Marciana, Marciana Marina, Porto Azzurro, Rio Marina e Rio nell'Elba . Foi lá onde o ilustre Napoleão Bonaparte permaneceu isolado da Europa, após a fracassada
invasão da Rússia. Na pequena porção de terra cercada de água por todos os lados, Gugliemo gostava de passear para coletar amoras silvestres e pedaços de ossos de pássaros mortos, com os quais realizava cerimônias politeístas antes de sodomizar pequenos repteis não venenosos. Ao contrário da penitenciária milanesa, Gugliemo podia andar livremente pelo local sem ter de se preocupar com qualquer tipo de intromissão dos guardas da prisão. Passava os dias notando certo contentamento a rondar seu corpo, mesmo que ínfimo diante do horror do encarceramento e da saudade irremediável que sentia da filha Cláudia.
No fim da tarde de uma terça-feira de céu azul sem nuvens, Guglielmo sentiu o estomago vacilar. Havia comido oito obesas jabuticabas logo pela manhã e sentiu que descia-lhe pelo ventre uma boa quantidade de cocô.
Sentou-se tendo o esplendoroso azul do Mar Mediterrâneo desenrolando-se por toda sua frente e sorriu pela última vez. Antes de livrar-se do primeiro tablete de merda, sentiu dos afiados dentes sendo cravados contra seu ânus já semiaberto.
Virou-se sem cagar e viu um mangusto a lhe encarar com os dentes a mostra, pronto para outro ataque. Guglielmo puxou as calças e tratou de trancar as entranhas. Tentou correr até o presídio, mas desfaleceu sobre um descampado, longe dos olhares dos funcionários do presídio, onde o Sol esquentou-lhe a carne.
Horas se passaram até Guglielmo ser levado à enfermaria. Lá, a bactéria proveniente dos dentes do mangusto espalhou-se pelos gânglios linfáticos, onde se multiplicou. Enfim, sete dias após ter o cu mordido, estouraram protuberâncias azuladas na pele de Guglielmo, acompanhado de alta febre.
Pouco depois, as bactérias invadiram a corrente sanguínea, onde se multiplicaram causando peste septicémica. Ao fim, a hemorragia invadiu o pulmão e matou-o. Neste mesmo instante, quilômetros distantes, Mussolini sentiu um um vento gélido bater-lhe sobre a careca e por alguma razão desconhecida sua virilha passou a coçar furiosamente, enquanto uma cantiga morosa de Mário Consiglo espocou em seu espírito.