Ele se arrastava, buscando auxílio com as mãos pelos portões de cores vivas dos prédios de apartamentos de cinco dormitórios. Acima dos espetos prateados (já próximos da ferrugem) da grade de um dos prédios novos e imensos, soprava a brisa pesada de cloro da piscina apinhada de crianças insolentes. Ele estancou seus passos sob uma mirrada sombra e apoiou o corpo ao pé do casulo de alvenaria branco do prédio que quase rascava a superfície das nuvens longínquas. Sob a opressão daquele dia de verão, que trazia no centro do céu a orbe solar num tom sanguinário alaranjado, o homem suarento lutava para trazer ar aos pulmões debilitados pelo longo caminhar.
Correu os olhos sem pressa pelo longo da rua de poucas almas. Escancarado estava o sofrimento daqueles poucos que, como ele, sentiam a pele derretendo enquanto buscavam sair da vista do calor imperdoável. À sombra do caule de galhos esguios que feneciam diante dos seus olhos semicerrados, o cheiro de cloro lhe penetrava as vias nasais, e sua umidade rançosa foi muito bem vinda pelo seu cansaço, o qual, aos poucos, parecia começar a se debandar.
Acima da alta e verdejante grade que impedia que esfarrapados como ele pudessem amainar o suor que queimava a face com a água oleosa da piscina das crianças, o homem ouviu as vozes suplicantes das mulheres de vocabulário restrito ralhando centenas de ordens por segundo. Tais pedidos, cheios de impaciência, nascidos do batalhão de babás que se postavam à beira da piscina, saltavam a imensa muralha de ferro do prédio e perturbavam-no quase tanto quanto o calor daquele dia incinerante.
Notou um casal de crianças pular de um carro escuro que acabara de encostar bem à frente da portaria onde a sombra da árvore magricela parecia abanar-lhe como um leque. Elas se encaminharam animadas em sua direção. Pressionaram o botão do interfone sem esconder a ansiedade em submergir nas águas redentores da piscina resguardada pela muralha intransponível cor de couve, acessível somente a alguns poucos escolhidos.
"A gente vai à piscina"- comemorou a menina, com a boca quase dentro do ouvido do interfone. "O Michael convidou" - completou o astuto garoto que a acompanhava, notando que aquela informação, àquele instante, poupá-los-ia de alguns segundos extras estorricando sob o Sol inclemente.
A porta também verde se abriu num estalo metálico, que soou ao homem encostado na portaria como as cornetas do paraíso. Ele imaginou a quantidade de ar-condicionado que deveria ser necessária para assegurar o bem-estar dos anjos no céu, e se viu descansando, deitado, imperturbado, sobre uma nuvem umedecida em água gelada, cercado de um ar refrescante a beijar seu rosto fustigado.
O estrépito da porta quando esta bateu e se fechou escandalosamente o trouxe de volta àquele inferno terrestre e ele viu as duas pequenas crianças saltitando prédio adentro, o deixando à mercê da bocarra daquele forno que estava pronta a engoli-lo. Então apertou também o botão do interfone, o qual queimou-lhe a ponta do dedo indicador. Lançou um olhar cheio de pontas ao aparelho pendurado como quem censura o próprio cão que acabou de lhe morder a mão e no breve instante em que aguardou a voz inquisidora do porteiro atrás dos vidros negros, tentou conter seu desespero, o qual era infinitamente maior que a dor que incomodava a ponta do dedo trêmulo. Não conseguiu.
"Não tem nada aqui. Vai dando o fora" - brandiu a voz pelo interfone. "E logo!"
Ele engasgou as palavras, as quais saíram embaralhas de sua boca e soaram para o porteiro como um ganido hediondo.
'Sério. Vai saindo. Tô com o dedo no telefone, em três toques a polícia tá aqui te carregando pra longe... “
Ele, como que em seu último suspiro, pôde se fazer entender: "Estou passando mal. Chama ajuda...". E desabou defronte a porta da entrada do prédio.
Minutos depois ele se viu dentro da área usufruida pelos moradores do edifício. Sob uma sombra protetora, deitado, via um imenso ventilador girando ensandecido, pendendo do alto teto alvo da portaria.
'Você já tá melhor..," - constatou, insatisfeito, o porteiro, agora através de sua própria boca, sem o intermédio daquele aparelhinho desafiador. Sentiu que poderia muito bem se levantar e arrastar a cara daquele porteiro por todo o asfalto incandescente da rua que se estendia horizontalmente ali adiante. "...respira um pouco aí e toma teu rumo antes que alguém te veja aqui" – completou, enquanto levantava o mendigo com quem pesca um saco de lixo de uma caçamba de detritos.
O mendigo soube então que aquele era o momento. Enquanto era pescado do chão, fingiu demonstrar não compreender o que ocorria além das telas reforçadas de vidro do casulo sombrio e então avisou : 'Acho que o carro quer entrar aqui...”. O porteiro, que se encontrava de costas para o portão verde couve da garagem, porque naquele instante se prestava a afugentar imediatamente o esquálido elemento do prédio luxuoso, precisou se virar completamente para atender um dos 112 patrões moradores do local. Mas quando buscou a imagem de um carro embicado através da calçada, viu apenas uma mulher negra esvaindo-se em suor enquanto claudicava até a teto precário do ponto de táxi na calçada do outro lado da rua.
E notando que havia acabado de ser enganado, voltou-se imediatamente à direção do maldito mendigo. Mas ele não estava mais ali.
Enquanto corria, ele sentia que seu cabelo chamuscava e que sua pele pegajosa, fedendo, grudava em suas roupas velhas e carcomidas, empapadas pelos litros de suor produzidos durante aquela tarde interminável. Sob o olhar das babas incrédulas, descreveu no ar uma majestosa trajetória oblíqua até a superfície da água da piscina cheia de crianças estarrecidas. Mergulhou e concluiu que Deus só poderia ser um corpo líquido, aprazível feito um mar calmo, com o qual toda a sede era saciada e todo o corpo permanecia imaculado, mesmo diante da imundice dos Homens. E com um sorriso no rosto, imergiu nas águas revoltas, em meio às crianças paralizadas, e se banhou por longos e redentores segundos. E ao mesmo tempo em que seu pulmão era inundado pelo liquido transbordante da piscina, ele, saciado, perdia a consciência pela última vez, enquanto a incredulidade das babás e a perplexidade das crianças se transformavam em um grito uníssono.
Correu os olhos sem pressa pelo longo da rua de poucas almas. Escancarado estava o sofrimento daqueles poucos que, como ele, sentiam a pele derretendo enquanto buscavam sair da vista do calor imperdoável. À sombra do caule de galhos esguios que feneciam diante dos seus olhos semicerrados, o cheiro de cloro lhe penetrava as vias nasais, e sua umidade rançosa foi muito bem vinda pelo seu cansaço, o qual, aos poucos, parecia começar a se debandar.
Acima da alta e verdejante grade que impedia que esfarrapados como ele pudessem amainar o suor que queimava a face com a água oleosa da piscina das crianças, o homem ouviu as vozes suplicantes das mulheres de vocabulário restrito ralhando centenas de ordens por segundo. Tais pedidos, cheios de impaciência, nascidos do batalhão de babás que se postavam à beira da piscina, saltavam a imensa muralha de ferro do prédio e perturbavam-no quase tanto quanto o calor daquele dia incinerante.
Notou um casal de crianças pular de um carro escuro que acabara de encostar bem à frente da portaria onde a sombra da árvore magricela parecia abanar-lhe como um leque. Elas se encaminharam animadas em sua direção. Pressionaram o botão do interfone sem esconder a ansiedade em submergir nas águas redentores da piscina resguardada pela muralha intransponível cor de couve, acessível somente a alguns poucos escolhidos.
"A gente vai à piscina"- comemorou a menina, com a boca quase dentro do ouvido do interfone. "O Michael convidou" - completou o astuto garoto que a acompanhava, notando que aquela informação, àquele instante, poupá-los-ia de alguns segundos extras estorricando sob o Sol inclemente.
A porta também verde se abriu num estalo metálico, que soou ao homem encostado na portaria como as cornetas do paraíso. Ele imaginou a quantidade de ar-condicionado que deveria ser necessária para assegurar o bem-estar dos anjos no céu, e se viu descansando, deitado, imperturbado, sobre uma nuvem umedecida em água gelada, cercado de um ar refrescante a beijar seu rosto fustigado.
O estrépito da porta quando esta bateu e se fechou escandalosamente o trouxe de volta àquele inferno terrestre e ele viu as duas pequenas crianças saltitando prédio adentro, o deixando à mercê da bocarra daquele forno que estava pronta a engoli-lo. Então apertou também o botão do interfone, o qual queimou-lhe a ponta do dedo indicador. Lançou um olhar cheio de pontas ao aparelho pendurado como quem censura o próprio cão que acabou de lhe morder a mão e no breve instante em que aguardou a voz inquisidora do porteiro atrás dos vidros negros, tentou conter seu desespero, o qual era infinitamente maior que a dor que incomodava a ponta do dedo trêmulo. Não conseguiu.
"Não tem nada aqui. Vai dando o fora" - brandiu a voz pelo interfone. "E logo!"
Ele engasgou as palavras, as quais saíram embaralhas de sua boca e soaram para o porteiro como um ganido hediondo.
'Sério. Vai saindo. Tô com o dedo no telefone, em três toques a polícia tá aqui te carregando pra longe... “
Ele, como que em seu último suspiro, pôde se fazer entender: "Estou passando mal. Chama ajuda...". E desabou defronte a porta da entrada do prédio.
Minutos depois ele se viu dentro da área usufruida pelos moradores do edifício. Sob uma sombra protetora, deitado, via um imenso ventilador girando ensandecido, pendendo do alto teto alvo da portaria.
'Você já tá melhor..," - constatou, insatisfeito, o porteiro, agora através de sua própria boca, sem o intermédio daquele aparelhinho desafiador. Sentiu que poderia muito bem se levantar e arrastar a cara daquele porteiro por todo o asfalto incandescente da rua que se estendia horizontalmente ali adiante. "...respira um pouco aí e toma teu rumo antes que alguém te veja aqui" – completou, enquanto levantava o mendigo com quem pesca um saco de lixo de uma caçamba de detritos.
O mendigo soube então que aquele era o momento. Enquanto era pescado do chão, fingiu demonstrar não compreender o que ocorria além das telas reforçadas de vidro do casulo sombrio e então avisou : 'Acho que o carro quer entrar aqui...”. O porteiro, que se encontrava de costas para o portão verde couve da garagem, porque naquele instante se prestava a afugentar imediatamente o esquálido elemento do prédio luxuoso, precisou se virar completamente para atender um dos 112 patrões moradores do local. Mas quando buscou a imagem de um carro embicado através da calçada, viu apenas uma mulher negra esvaindo-se em suor enquanto claudicava até a teto precário do ponto de táxi na calçada do outro lado da rua.
E notando que havia acabado de ser enganado, voltou-se imediatamente à direção do maldito mendigo. Mas ele não estava mais ali.
Enquanto corria, ele sentia que seu cabelo chamuscava e que sua pele pegajosa, fedendo, grudava em suas roupas velhas e carcomidas, empapadas pelos litros de suor produzidos durante aquela tarde interminável. Sob o olhar das babas incrédulas, descreveu no ar uma majestosa trajetória oblíqua até a superfície da água da piscina cheia de crianças estarrecidas. Mergulhou e concluiu que Deus só poderia ser um corpo líquido, aprazível feito um mar calmo, com o qual toda a sede era saciada e todo o corpo permanecia imaculado, mesmo diante da imundice dos Homens. E com um sorriso no rosto, imergiu nas águas revoltas, em meio às crianças paralizadas, e se banhou por longos e redentores segundos. E ao mesmo tempo em que seu pulmão era inundado pelo liquido transbordante da piscina, ele, saciado, perdia a consciência pela última vez, enquanto a incredulidade das babás e a perplexidade das crianças se transformavam em um grito uníssono.
