Visitas

Subscribe via email

Enter your email address:

Delivered by FeedBurner

FeedBurner FeedCount

Mil Carvalhos Tombados

Para me fazer honesto, como tento em toda situação, deveria também relatar a ausência de recordações referentes a qualquer outro lugar além da cabana de meu pai.

Lembro-me sem margem alguma para erro que a cabana silenciosa atrás do portão foi a imagem primeira a ser desenhada nos cadernos das minhas lembranças, de modo que o dia em que cheguei à cabana poderia muito bem ser o dia em que nasci.

Papai falava pouco na maioria do tempo, mas para a noite, quando o relento caia fino sobre as ralas gramas do entorno, ele resolvia compartilhar suas opiniões rancorosas e odiáveis.

Nesses momentos a história da cabana era contada. Dizia que mil carvalhos tombaram para que sua cabana fosse erguida e então, um pontilhado tremulo brilhava tímido ao fundo dos olhos sempre que se dava a lembrar.

E assim as noites seguiam-se, muito semelhantes a essas. E enquanto ele, sentado ao fim da mesa, compartilhava seus pensamentos embaralhados, em frases com sílabas negligenciadas, a casa envelhecia assim como o frio relento que cercava a cabana esquecida.

Não tínhamos vizinhos e as trilhas haviam sido consumidas pela sofrida vegetação rasteira .O próprio Sol havia desistido de nos encontrar . Uma constante e intransponível camada de nuvens escuras pairava sobre nosso telhado e castigava os corpos das árvores e dos poucos animais impedindo que a luz os alimentasse.

O choro dos animais, os desorientados vôos das aves, as árvores que se transformavam em fuligem sob o mais inocente vento e a decadência moral e física de meu progenitor eram de uma tristeza tão notável e inebriante que jamais poderia abandonar aquele lugar. Em nenhum outro sítio ou recanto, estaria abraçado com a verdadeira existência humana. Espontânea. Desmascarada. Dolorosamente sem sentido.

Então, certa manhã, defrontei-me com o incontrolável e igualmente incompreensível desejo de entender a energia que move tudo rumo ao vazio definitivo; de compreender o momento esperado e implacável em que a dor de respirar e a crueldade da verdade violentam nossa consciência e aguardamos esperançosos pela escuridão incurável.

E então, como se me presenteasse, a existência e seus mistérios resolveram fazer meu corpo e mente envelhecer rapidamente e preservar os de meu pai.

Nos campos próximos, os animais pereciam conforme a camada de nuvens crescia em escuridão; o ar, mesmo durante a claridade dos poucos raios de sol que diluíam-se ao romper a barreira nebulosa, ganhava peso e o frio limitava qualquer movimento ou pensamento.

As frases de meu pai ressoavam ainda mais ameaçadoras, seu ódio ganhava tanta densidade quanto a imobilidade do ar dos campos desolados, e seu rosto ganhava traços amedrontadores.

Os açoites endereçados ao gado eram mais freqüentes e seu sorriso, como conseqüência, ainda mais largo.

Curiosamente, percebia que sua face carrancuda e os músculos espasmados pela vida cultivada pela insatisfação não mais se abalavam com a continuidade dos dias e noites que perdiam gradualmente sua velocidade, dando a impressão que o tempo negar-se-ia a passar e a vida continuaria presa em uma noite infinita.

O meu corpo, porém, sucumbia gritantemente. Em uma única tarde, que teimava em alongar-se, eu tinha a sensação de envelhecer anos. O vento mais inocente que fazia fuligem das madeiras das retorcidas árvores, levava centenas dos meus grisalhos fios; minha coluna curvava-se como uma frágil vara de pescar em plena batalha pela vida.

Minhas frases, tímidas pela manhã e pela tarde, davam suas caras durante a noite, também essencialmente cruéis, insatisfeitas e ansiosas por conflito.

Meu rosto retorcido assemelhava-se ao do meu pai. Agora nossos corpos pareciam ter vindo à luz no mesmo dia. Tínhamos, de fato, a mesma idade.

As silabas embaralhadas por mim eram as mesmas. O copo era bebido com a mesma sede, quase no mesmo instante, o brilho perturbado ao fundo dos olhos cintilava a mesma crueldade. A preguiça dos animais e o secura dourada dos arbustos e pastos me irritava incontrolavelmente. A palma de minha mão estalava sobre o couro castigado e magro do gado para meu deliciosamente

Éramos iguais.

Permanecemos iguais enquanto as nuvens cobriram o céu e resolveram tomar a terra para si. Conforme a massa nebulosa escura engolia a luz do sol e devorava o ar que a separava da nossa cabana, percebia o quanto meu pai me odiava.

Percebi suas reações envergonhadas por minhas palavras puramente invejosas. Sentia suas tentativas de esquivar-se dos meus olhos, assim como eu fiz durante toda a vida naquele minúsculo cubículo.

Sei como ele ironizava internamente minhas lembranças, como ele ria silenciosamente após ouvir sobre os grandes feitos empreendidos na construção daquela miserável cabana e como os derrotados carvalhos cediam frente sua grandeza.

Ver ele, corroído pela vida de erros, era me ver perfeitamente, era saber exatamente o que eu era.

A ébana nebulosa baixou e impediu, agora sim, qualquer luz de tocar a cabana. A escuridão era absoluta.

Abri os olhos, deitado na minha cama. A luz permanecia fraca, a escuridão havia recuado para os céus. Andei pela casa sem encontrá-lo. Saí e caminhei através do gramado doente, o gado ainda magro, tudo como sempre foi. As coisas pareciam apenas levemente mais claras. A nuvem ainda me observava com seus olhos escuros e raivosos. Mas nenhum sinal daquele homem desprezível.

Um garoto estava junto ao portão. Tinha meu antigo rosto, um olhar radiante que dentro de pouco não mais me olharia e um sorriso que em breve se esconderia. Em breve suas feições se fechariam diante das minhas. Mas antes eu contaria como derrubei mil carvalhos para construir aquela cabana.

O Nosso Sarkozy

Na varanda, do outro lado da rua, o nosso Sarkozy latiu


E mais uma vez.

E outra.

Entre os latidos agudos e ritmados, escutei vozes em um conversa tranqüila

Sarkozy latiu outra vez, com raiva agora.

Levantei da cama e não praguejei como faria em outra situação - somente por tratar-se do Sarkozyzinho. Pus minhas pantufas.

Da janela vi dois homens.

Afastavam-se da varanda de onde Sarkozy latia, com o focinho entre as barras da grade, e iam embora descendo a rua enquanto alguns pássaros revelavam os sonhos uns aos outros, em pleno vôo

Fui até a cozinha. Já era fim de semana?

Dia 11?

Não era 12.

Era 13.

Era sexta-feira. Sexta.

Que horas eram?

Não havia relógio em parte alguma da casa.

Passei pela porta, desci as escadas frias de mármore e abri o portão, que gritou incomodado.

Alcancei a rua calma, os pássaros, em silêncio, já haviam confidenciado seus sonhos.

Resolvi tocar a campainha do sobrado número onze. O sobrado onde o nosso Sarkozy passava alguns dias.

A dona abriu a porta e um delicioso cheiro escapou de dentro da casa. Já devia ser hora do almoço.

Perguntava as horas para ela quando Sarkozy, latindo, veio correndo para saber quem importunamente batia em sua porta em horário tão importante. Era a dona dele!

Era meio dia quando ele cheirou minhas pantufas, desinteressou-se e voltou para o almoço.

Agradeci sem tirar os olhos do nosso cão.

Sarkozy era um pequeno Cocker que gostava de observar o movimento da rua pela manhã, geralmente latindo para o quer fosse: para pássaros, para os garotos apressados, para as senhoras nada apressadas, para as nuvens - que o privavam do calmo sol matinal-, e para a umidade que se desprendia das calçadas.

II

Os pássaros permaneciam calados, alguns petrificados sobre os magros galhos das poucas árvores, outros igualmente inertes sobre os fios de eletricidade; só se escutava minha respiração acelerada e a sola da pantufa raspando sobre a aspereza do asfalto, enquanto eu voltava para casa, arrastando minha perna direita.

O portão gemeu de novo, querendo permanecer esquecido como toda aquela rua, e jamais ser incomodado.

Mas como eu faria para sair de casa, sem incomodá-lo?

Se eu fosse um pássaro... Pousaria toda a manhã sobre a grade da varanda do Sarkozy. Enquanto ele tinha que ficar na vizinha da frente.

Talvez ficasse ali todo o dia. A noite dormiria e sonharia, e pela manhã antes de pousar de novo na varanda contaria todos os belos vôos que sonhei para os pássaros da rua.

Mas jamais poderia me aproximar do Sarkozyzinho. Cães adoram mastigar pássaros.

Será que os cachorros gostariam de ser pássaros e poder voar para além desses portões negros, para algum gramado verde com árvores e sombras, sob um céu sem nuvens?

Fervi água e bebi. Três copos. Lavei uma maçã, puxei da gaveta minha faca de cabo de madeira, a única que ainda resistia do inicio do meu nosso casamento e fui até o quarto.

Ao fim do corredor no segundo andar, ficava o quarto dele, escuro. Paredes frias não recebiam o calor da luz que viajava trilhares de centenas de quilômetros, porque eram obstruídas pelas janelas nunca abertas.

Ele, assim como a rua, inerte; como os pássaros, petrificado. Há anos assim.

Vi seu rosto indiferente graças à luz do abajur, amarelada e distante. A respiração dele, imperceptível, debaixo dos cobertores de lã, seu corpo jazia adormecido. Seus dois olhos faiscavam, refletindo aquele brilho vazio da lâmpada envelhecida, conforme encostei a porta do quarto e me aproximei. Era a única parte dele que espelhava vida; além dos olhos, só havia vazio e escuridão, assim como o quarto que quase esquecido ficava ao fim do corredor.

A enfermeira dizia com bastante certeza que o distúrbio o impedia de se movimentar, apesar de continuarem funcionando os sentidos e as funções vitais. Disse, antes de ir embora, repetidas vezes, mencionando exatamente essas palavras, precisamente nessa ordem. Completava, diariamente, a caracterização do quadro clínico do meu filho. Citava a imobilidade do paciente, indicava com a ponta dos dedos gordos a falta de rigidez dos membros do menino.

Quando ela foi embora a casa ficou ainda mais escura, o ar mais gélido e as paredes pareciam crecer para dentro do corredor, onde, ao fim dele, o menino estático vivia aquela vida.

III

Numa outra manhã, parecida com a anterior e provavelmente identica a posterior, ouvi a mesma tranquila conversa vinda da rua, segundo depois, os latidos agudos e exatos, como se obedecessem as marcações de um metrônomo.

E da janela, de pantufas, olhando a revolta daquele pequeno animal, enquanto os homens saiam descontentes, fumando seus minguantes cigarros, rua abaixo, resolvi que era hora do Sarkozy voltar para nossa casa. Voltar para o meu filho.

Tomei minha água, cortei a maçâ com a velha faca de cabo de madeira. Beijei meu menino e fiz minha primeira ligação telefonica em três anos.

- Oi. Sou eu, a vizinha da frente. Como vai?- disse com a voz certa.

- Vou bem – resmungou a mulher, no outro lado da linha e da rua.

- Escuta minha querida, sou eu, a vizinha da frente...

- Sim, eu sei – respondeu, com propriedade.

- Mas como? – perguntei, boquiaberta.

- Como o quê?

- Como você sabe que eu sou eu?

- Hum, eu sei dessas coisas, sempre sei quem está me ligando – confidenciou, com um incompreensível riso abafado

Eu estava maravilhada, não sabia desse tipo de capacidade,mas mantive a calma e voltei a tratar do assunto que me interessava.

- Escuta, minha querida, aqui é a vizinha da frente e já é hora do Sarkozy voltar aqui pra casa

- Quem?

- Gostaria que você devolvesse o cachorro para mim! O meu filho está sentindo falta.

-Meu cachorro?

- Exatamente moça! Fará um bem danado pro meu filho!

- Que filho?

- Ora, escute, vou até aí pra pegar ele. O Sarkozy não gosta de ficar aí, a senhora ainda não percebeu? Aqui em minha casa ele se sentirá feliz realmente! Já estou indo!

Desliguei.

Atravessei mancando os 3 metros e meio do asfalto ingrato que arranhava a sola gasta das pantufas que ganhei do meu falecido marido. E encontrei a senhora minha vizinha já ao pé de sua porta me aguardando.

- Nem chegue perto está ouvindo, sua velho maluca! - ela avisou, apontando o indicador ameaçadoramente.

- Vamos, nos duas sabemos que o Sarkozy quer ficar comigo e com meu filho na nossa casa. Meu filho adora cachorro, sempre gostou e o Sarkozy vai fazer um bem danado para a gente.

- Mas, do que você está falando? Que filho?? Quem é Sarkozy?

-Meu filho é meu filho, oras. Sarkozy, o meu cachorro que late toda a manhã, que está na sua casa, enquanto meu filho se recupera.

- Sarkozy? – ela disse antes de gargalhar, caçoando de mim, revoltantemente. “O nome da minha cachorra é Sarkozy?”

- Sim. Vamos, meu filho não está bem, ver o Sarkozy alegre em casa causará ótimos efeitos no meu menino. Ele sempre gostou de cachorro!

- Olha, eu respeito tudo o que aconteceu com a senhora, mas isso já é demais. O meu cachorro é meu! A senhora, por favor, volte pra casa e caia na real!

- Me dá o cachorro agora! Agora! – precisava falar assim, firmemente, notadamente violenta.

Mas mesmo assim, não funcionou.

Então precisei mostrar pra ela a minha única faca. E fui à direção da mulher que não mais roubaria meu cachorro e o bem estar do meu menino doente. Não encontrei alternativa depois de vê-la caindo sangrando em meus braços, ela chorava sem parar, e tossia. Seu choro me incomodava muito.

O nosso Sarkozy estava no quintal preso, já de coleira, esperando o retorno para sua casa e para meu filho. E em meio ao choro e gritos de umas crianças que estavam naquela casa também, eu o peguei e o guiei até o meu filho.

Ele latia descontrolado, dominado pela felicidade de voltar para o nosso sobrado.

No fim do corredor das enormes paredes frias, abri a porta, e encontrei uma luz saltando dos olhos do meu menino, cintilando brevemente um brilho branco agradecido.

Depois invadiram a casa, homens berrando portando armas e as mesmas pessoas que choravam na casa da vizinha, ainda chorando. Levaram-me embora.

Disseram absurdos para mim no lugar onde me mantiveram. Fiquei lá muito tempo. Perguntavam sobre o acidente do meu marido e do meu filho. Escutei gente que nem conhecia, falar que meu marido tinha morrido junto com meu filho e com nosso cachorro, Sarkozy, em um acidente de carro, e que nesse acidente tinha quebrado minha perna em quatro lugares e que por isso ainda mancava e que mancaria para sempre. Eu ria daquele absurdo, e eles me olhavam espantados.

Não deixaram ver meu filho nem o Sarkozy. Mas sabia que eles deveriam estar em casa, muito felizes.

E toda noite, enquanto alguns pássaros tinham pesadelos, sonhando terem perdido as asas e encontrando-se agora humanos, eu permanecia acordada, revivendo o momento em que o brilho dos olhos do meu menino dissolveu as trevas daquele quarto e esquentou as enormes paredes frias do corredor do nosso sobrado.

O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






O Pardal Imoral Headline Animator