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Caríssimo Senhor Gorraba

Caríssimo Senhor Gorraba, 

envio-lhe esta carta pois sei que o senhor já atravessou situação semelhante.

Hoje acordei com uma forte dor na região escrotal. Talvez eu tenha dormido com a perna sobre ela. Talvez tenha exprimido-a com a parte interna de minhas coxas durante um terrível pesadelo. Ou, quem sabe?, um agressor vingativo tenha socado-a durante meu pesado sono e eu nada reparei. Não sei ao certo. O que é certo é que segui todas as indicações médicas. Tomei litros de água quente sentado sobre um cupinzeiro. Participei de duas sessões da polêmica técnica terapêutica chamada de Transfusão Fecal.  Por fim, orei aos céus. Nada disso funcionou. Encaminhei-me com a alma vazia de esperança até a catedral na rua Guillaume. Lá perguntei ao sacerdote se aquela dor escrotal irrefreável poderia ser uma espécie de castigo divino. Ele disse que não poderia opinar até manusear a região enferma com as mãos. Rapidamente, no alto de sua graça, o sacerdote revelou-me que saliva humana era a única cura para tal moléstia. Não me contive de felicidade. Planejava chegar a minha residência e, através de um método ainda não determinado, aplicar minha própria saliva no local. Mas não era essa a solução, disse-me o homem de Deus. O sacerdote me confidenciou que apenas saliva de terceiros surtem efeitos em casos assim e que devem ser aplicados com a língua. Ele me olhou. Levantou as hirsutas sobrancelhas. E então eu entendi tudo.

Foi assim também como aconteceu contigo, Caríssimo Senhor Gorraba?

Ass: Malaquias Passarôlho

Vai pegar o ônibus, ó curioso animal?


Às 5h30 da madrugada, lá estava eu em meu táxi, estacionado em frente ao prédio, aguardando somente o cliente descer.

Averiguei o aroma das axilas. Tudo OK.

Foi aí que o portão do prédio bateu em um estrondo. E eu pulei para fora do táxi, imaginando que meu cliente se aproximava. Fiz-me então em continência, imediatamente, como se estivéssemos, eu e meu batalhão invisível, em plena visita surpresa de general.

O que vi, entretanto, não era general, coronel, cabo-armeiro, nem ao menos um tenentezinho; era sim um pequeno macaco bastante elegante, arrastando placidamente em minha direção uma mala com rodas. Trajava um paletó cinza muito bem passado e assobiava a música de abertura dos Trapalhões.

Ele deslizou até meus pés uma enorme mala, sem dirigir-me palavra alguma, nem ao menos um olhar. Depositei então sua bagagem estranhamente pesada no porta-malas do táxi, como quem deita um bebê de colo em um berço, iniciando a prestação de mais um serviço incriticável.

O símio ajeitou no rosto uns chamativos óculos escuros de haste vermelho caqui e entrou no táxi em um pulinho lépido.

“Deve ser mais um desses artistas afeminados”, falei para mim, no silêncio da minha cabeça, e assenti com a formulação: “com certeza, cara, um macaquinho afeminado”.

Adentrei meu táxi e ele indicou seu destino: Rodoviária Novo Rio.

Vai pegar o ônibus, ó curioso animal?, falei para mim mesmo, novamente, mas perguntando para ele, telepaticamente. Procurava testar minha capacidade de refletir sobre as informações que me eram dadas. Estava me saindo bem, até então, em minha opinião.

Enquanto os pneus esfarelavam-se sobre o espinhoso asfalto carioca, procurei lembrar-me se já havia tido um passageiro macaco em meu táxi. Não, nunca tive.

O macaco permanecia em silêncio, conforme contornávamos as sinuosas e desertas curvas da Linha Amarelam em uma velocidade imbecilmente alta. Depois de sermos quase ensanduichados por dois ônibus conduzidos por motoristas tão ou mais inconsequentes que eu, ele se virou e olhou-me na cara, mastigando os dentes de tensão. Imaginei que ele pediria para descer, como faz boa parte dos meus clientes. Mas não.

- Não se lembra de mim, Clóvis, seu cretinão?

- Oi?

- Sou eu, o Silvinho, o macaco do circo.

- Opa! Fala aí, Silvinho!

- Fala aí, cara, tudo bom?

- Não, não muito, na verdade. Mas e sua pessoa, vai bem?

- Mas é claro que não, porra! Você deveria estar preso depois de tudo o que fez comigo e com meus colegas naquele circo imundo. Durante anos fomos humilhados, obrigados a usar batom, peruca, vestidos cor de rosa, de noiva, de paquita, fazer malabarismo com ovo, comer banana. Eu não gosto de banana, cara. Clóvis, hoje nos vingaremos de você!

- Foi mal, Silvinho. Mas vocês mereceram! Se não fossem os macacos, não existiriam os humanos e não existiriam táxis, e assim não existiriam passageiros de táxi nem buzinas ou faróis de trânsito. Assim, eu não estaria em um táxi de madrugada levando um macaco a uma rodoviária. Vocês vieram com esse papinho frouxo de evoluir e tal, e aí viraram atração de circo. Não se faça de vítima.

- Basta! – ordenou o primata enfezado.

- Silvio, qual o problema em se vestir de mulher? Todos adoravam vocês lá – disse o motorista ex-treinador, tentando acalmar a súbita revolta do mamífero de óculos.

- Olha, desde que o circo faliu estamos a sua procura. Vejo que não tens arrependimento em sua alma. Vamos para Ipanema, então! Temos uma pequena surpresa!

Aí Silvinho assobiou e da mala depositada no porta-malas pularam uns trinta pequenos macaquinhos, todos igualmente elegantes, perfumados e emputecidos.

- Todos esses aí? – perguntou assustado Clóvis. Vai ficar caro, já vô avisando. E outra, eu não posso levar mais de quatro pessoas no táxi, alguém aí vai precisar descer, viu?

- Clóvis, você parece não entender, nós estamos te sequestrando, você fará o que nós mandarmos a partir de agora.

- Ahh tá... Entendi. Onde em Ipanema?

- Posto 9.

- Hummm... Eu sabia, Silvinho...

Entretanto, alguns macacos quiseram buscar pó na Rocinha, de modo que chegamos quando já era meio dia em Ipanema. Um sol de arder a alma do asfalto.

Estacionei o táxi sobre o meio fio da avenida e eles vieram com uma historinha esquisita.

- Durante a tarde toda você vai vestir esse biquíni fio dental e caminhar pela areia. Para você sentir na pele o que nós sentíamos diante do respeitável público, e não pense em fugir, se não a gente zoa seu táxi, tá me ouvindo, cumpadi?

- Poxa, Silvinho, mas que macaquinho boiola cruel que você é, hein?

- Sou mesmo, tá?!

Seis horas depois encontrei-os no táxi. Eu tinha boas novas. Fui um sucesso absoluto na praia, me adoraram por lá, fiz amizades que resistem até hoje e arrecadei uma boa grana dos turistas que acharam que eu era algum tipo de retardado. Pedi desculpas aos macacos por tudo o que tinha feito e ofereci-lhes a ideia de abrir uma sociedade para explorarmos o mercado GLS carioca. Hoje eu e Silvinho temos uma agência internacional especializada em turismo gay e vamos nos casar em Buenos Aires ao fim deste ano. Já compramos nosso apartamento na Barra e, quando retornarmos, adotaremos um bebê. Eu quero muito uma menininha japonesa; ele, um pequeno mico-leão-dourado. 

Ele tende a vencer a disputa. 

O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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