Às 5h30 da madrugada, lá estava eu em meu táxi, estacionado em frente ao
prédio, aguardando somente o cliente descer.
Averiguei o aroma das axilas. Tudo OK.
Foi aí que o portão do prédio bateu em um estrondo. E eu pulei para fora do
táxi, imaginando que meu cliente se aproximava. Fiz-me então em continência, imediatamente, como se estivéssemos, eu e meu batalhão invisível, em plena visita
surpresa de general.
O que vi, entretanto, não era general, coronel, cabo-armeiro, nem ao
menos um tenentezinho; era sim um pequeno macaco bastante elegante, arrastando
placidamente em minha direção uma mala com rodas. Trajava um paletó cinza muito
bem passado e assobiava a música de abertura dos Trapalhões.
Ele deslizou até
meus pés uma enorme mala, sem dirigir-me palavra alguma, nem ao menos um olhar. Depositei então sua bagagem estranhamente pesada no porta-malas do táxi,
como quem deita um bebê de colo em um berço, iniciando a prestação de mais
um serviço incriticável.
O símio ajeitou no rosto uns chamativos óculos escuros de haste vermelho
caqui e entrou no táxi em um pulinho lépido.
“Deve ser mais um desses artistas afeminados”, falei para mim, no
silêncio da minha cabeça, e assenti com a formulação: “com certeza, cara, um
macaquinho afeminado”.
Adentrei meu táxi e ele indicou seu destino: Rodoviária Novo Rio.
Vai pegar o ônibus, ó curioso animal?, falei para mim mesmo,
novamente, mas perguntando para ele, telepaticamente. Procurava testar minha capacidade
de refletir sobre as informações que me eram dadas. Estava me saindo bem, até
então, em minha opinião.
Enquanto os pneus esfarelavam-se sobre o espinhoso asfalto carioca, procurei
lembrar-me se já havia tido um passageiro macaco em meu táxi. Não, nunca tive.
O macaco permanecia em silêncio, conforme contornávamos as sinuosas e
desertas curvas da Linha Amarelam em uma velocidade imbecilmente alta. Depois
de sermos quase ensanduichados por dois ônibus conduzidos por motoristas tão ou
mais inconsequentes que eu, ele se virou e olhou-me na cara, mastigando os
dentes de tensão. Imaginei que ele pediria para descer, como faz boa parte dos
meus clientes. Mas não.
- Não se lembra de mim, Clóvis, seu cretinão?
- Oi?
- Sou eu, o Silvinho, o macaco do circo.
- Opa! Fala aí, Silvinho!
- Fala aí, cara, tudo bom?
- Não, não muito, na verdade. Mas e sua pessoa, vai bem?
- Mas é claro que não, porra! Você deveria estar preso depois de tudo o que fez
comigo e com meus colegas naquele circo imundo. Durante anos fomos humilhados,
obrigados a usar batom, peruca, vestidos cor de rosa, de noiva, de paquita,
fazer malabarismo com ovo, comer banana. Eu não gosto de banana, cara. Clóvis, hoje
nos vingaremos de você!
- Foi mal, Silvinho. Mas vocês mereceram! Se não fossem os macacos, não existiriam
os humanos e não existiriam táxis, e assim não existiriam passageiros de táxi
nem buzinas ou faróis de trânsito. Assim, eu não estaria em um táxi de madrugada
levando um macaco a uma rodoviária. Vocês vieram com esse papinho frouxo de
evoluir e tal, e aí viraram atração de circo. Não se faça de vítima.
- Basta! – ordenou o primata enfezado.
- Silvio, qual o problema em se vestir de mulher? Todos adoravam vocês
lá – disse o motorista ex-treinador, tentando acalmar a súbita revolta do mamífero
de óculos.
- Olha, desde que o circo faliu estamos a sua procura. Vejo que não tens
arrependimento em sua alma. Vamos para Ipanema, então! Temos uma pequena surpresa!
Aí Silvinho assobiou e da mala depositada no porta-malas pularam uns
trinta pequenos macaquinhos, todos igualmente elegantes, perfumados e
emputecidos.
- Todos esses aí? – perguntou assustado Clóvis. Vai ficar caro, já vô
avisando. E outra, eu não posso levar mais de quatro pessoas no táxi, alguém aí
vai precisar descer, viu?
- Clóvis, você parece não entender, nós estamos te sequestrando, você
fará o que nós mandarmos a partir de agora.
- Ahh tá... Entendi. Onde em Ipanema?
- Posto 9.
- Hummm... Eu sabia, Silvinho...
Entretanto, alguns macacos quiseram buscar pó na Rocinha, de modo que
chegamos quando já era meio dia em Ipanema. Um sol de arder a alma do asfalto.
Estacionei o táxi sobre o meio fio da avenida e eles vieram com uma historinha
esquisita.
- Durante a tarde toda você vai vestir esse biquíni fio dental e
caminhar pela areia. Para você sentir na pele o que nós sentíamos diante do respeitável
público, e não pense em fugir, se não a gente zoa seu táxi, tá me ouvindo,
cumpadi?
- Poxa, Silvinho, mas que macaquinho boiola cruel que você é, hein?
- Sou mesmo, tá?!
Seis horas depois encontrei-os no táxi. Eu tinha boas novas. Fui um
sucesso absoluto na praia, me adoraram por lá, fiz amizades que resistem até
hoje e arrecadei uma boa grana dos turistas que acharam que eu era algum tipo
de retardado. Pedi desculpas aos macacos por tudo o que tinha feito e ofereci-lhes a ideia de abrir uma sociedade para explorarmos o mercado GLS carioca.
Hoje eu e Silvinho temos uma agência internacional especializada em
turismo gay e vamos nos casar em Buenos Aires ao fim deste ano. Já compramos nosso
apartamento na Barra e, quando retornarmos, adotaremos um bebê. Eu quero muito uma
menininha japonesa; ele, um pequeno mico-leão-dourado.
Ele tende a vencer a disputa.