As palavras do Agenor (um dos maiores golpista da Cidade Ademar, calhorda de carteira assinada, devedor nato e salafrário de uma figa) me fizeram ir até lá: “Começa a chover, ele começa a tremer, e se troveja,fecha o bar e tudo”; e fui tanto pela curiosidade quanto pela possibilidade de gratuidade de serviços. Escolhi um dia com clara possibilidade de chuva torrencial; de outra forma meu plano se tornaria um fiasco e teria que arcar frustradamente com as despesas.
- Olha, não dá pra acreditar que o senhor ficou em coma por vinte anos e não lembrou que se precisa de dinheiro para comer – disse sinceramente o garçom astrófobo.
Tratei de explicar melhor.
- Moro aqui na região há quarenta anos, cinqüenta anos, sessenta. Amo o bairro!
Cocei a testa suada.
- Está tudo tão mudado. Eu passei primeiro pela padaria do Vitão; está toda modernizada, três caixas, revistaria, café da manhã, cardápio cheio de frescuras. Tinha cada bolo de chocolate lá... Não vi o Vitão...
Dei uma pigarreadinha.
- É Vitão o nome do dono? - ele perguntou, suas grossas sobrancelhas posicionadas em pleno questionamento.
-Sim! Sim! Vitão!... – pigarreei. - Na garagenzinha onde antes funcionava uma Xerox, estão agora vendendo um tipo de iogurte. Três moças cansadas se desdobravam para atender um formigueiro de senhoras famintas por açúcar de mentira. O açúcar de mentira e o bolo imputaram em meu estomago de idoso uma fome detestável. Na próxima esquina tinha esse bar novo, e o melhor: tinha uma mesinha vazia de frente para uma esquina movimentada. Aí pensei em almoçar por aqui e tomar umas em homenagem a minha ressurreição
Dei uma tossida dramática e prossegui:
- Então eu pedi um filé a parmegiana, uma cerveja e fiquei aqui a tarde toda. Minha cabeça ainda não tá boa, só me deixaram sair de casa porque dei meu relógio de ouro pro enfermeiro me deixar sozinho. Cara, eu nem tenho carteira!
A temperatura finalmente baixou, o ar ficou úmido e nuvens escuras decidiram por se reunir sobre as pontas dos prédios.
- Mas é verdade. Eu juro. Eu sou velho, jamais inventaria um absurdo desses. Eu tinha, ou tenho um sítio em Franca. Um raio caiu na minha cabeça enquanto eu empinava pipa e tentava experimentar por conta própria a invenção da eletricidade. O quê, pensando agora, foi muita idiotice, porque os raios têm um estranho tipo de atração por mim acho. Adoram cair em mim, ou por perto...
Nesse momento as feições do sujeitinho tranformaram-se como se ele tivesse ouvido um segredo horroroso.
- Eu não sei nem qual é a moeda que circula atualmente nesse país! – cravei, seguro - el gran finale
O homem riu nervoso; senti sua ansiedade.
- Tá bom! Depois então paga, deu noventa e seis... – disse. Enquanto ajeitava o boné, ergueu os olhos e observou as nuvens ameaçadoras prontas para metralhá-lo com trilhões de watts de pura descarga elétrica. Continuou, depois de passar a me olhar em todo o seu medo.
- Senhor, faz assim, depois você paga! Mora aqui por perto mesmo, não é?
- Sim, moro logo ali, na esquina seguinte, dá até pra...
- Ótimo, pode ir indo então...
Quando já estava distante do bar, olhei para o céu. As nuvens dissipavam-se; via-se um tantinho de azul no céu e alguns corajosos raios solares que driblavam a nebulosidade. Tirei do bolso minha carteira de couro engraxado. Entre o santinho de Santo Expedito e o bilhete único que achei no metrô enquanto vinha pra cá, havia duas notas de vinte reais.
Dá pra comprar dois bolos - ótima sobremesa!-, e ir de táxi para casa, pensei, enquanto sorria satisfeito e entrava na padaria cujo dono eu desconhecia completamente.
- Olha, não dá pra acreditar que o senhor ficou em coma por vinte anos e não lembrou que se precisa de dinheiro para comer – disse sinceramente o garçom astrófobo.
Tratei de explicar melhor.
- Moro aqui na região há quarenta anos, cinqüenta anos, sessenta. Amo o bairro!
Cocei a testa suada.
- Está tudo tão mudado. Eu passei primeiro pela padaria do Vitão; está toda modernizada, três caixas, revistaria, café da manhã, cardápio cheio de frescuras. Tinha cada bolo de chocolate lá... Não vi o Vitão...
Dei uma pigarreadinha.
- É Vitão o nome do dono? - ele perguntou, suas grossas sobrancelhas posicionadas em pleno questionamento.
-Sim! Sim! Vitão!... – pigarreei. - Na garagenzinha onde antes funcionava uma Xerox, estão agora vendendo um tipo de iogurte. Três moças cansadas se desdobravam para atender um formigueiro de senhoras famintas por açúcar de mentira. O açúcar de mentira e o bolo imputaram em meu estomago de idoso uma fome detestável. Na próxima esquina tinha esse bar novo, e o melhor: tinha uma mesinha vazia de frente para uma esquina movimentada. Aí pensei em almoçar por aqui e tomar umas em homenagem a minha ressurreição
Dei uma tossida dramática e prossegui:
- Então eu pedi um filé a parmegiana, uma cerveja e fiquei aqui a tarde toda. Minha cabeça ainda não tá boa, só me deixaram sair de casa porque dei meu relógio de ouro pro enfermeiro me deixar sozinho. Cara, eu nem tenho carteira!
A temperatura finalmente baixou, o ar ficou úmido e nuvens escuras decidiram por se reunir sobre as pontas dos prédios.
- Mas é verdade. Eu juro. Eu sou velho, jamais inventaria um absurdo desses. Eu tinha, ou tenho um sítio em Franca. Um raio caiu na minha cabeça enquanto eu empinava pipa e tentava experimentar por conta própria a invenção da eletricidade. O quê, pensando agora, foi muita idiotice, porque os raios têm um estranho tipo de atração por mim acho. Adoram cair em mim, ou por perto...
Nesse momento as feições do sujeitinho tranformaram-se como se ele tivesse ouvido um segredo horroroso.
- Eu não sei nem qual é a moeda que circula atualmente nesse país! – cravei, seguro - el gran finale
O homem riu nervoso; senti sua ansiedade.
- Tá bom! Depois então paga, deu noventa e seis... – disse. Enquanto ajeitava o boné, ergueu os olhos e observou as nuvens ameaçadoras prontas para metralhá-lo com trilhões de watts de pura descarga elétrica. Continuou, depois de passar a me olhar em todo o seu medo.
- Senhor, faz assim, depois você paga! Mora aqui por perto mesmo, não é?
- Sim, moro logo ali, na esquina seguinte, dá até pra...
- Ótimo, pode ir indo então...
Quando já estava distante do bar, olhei para o céu. As nuvens dissipavam-se; via-se um tantinho de azul no céu e alguns corajosos raios solares que driblavam a nebulosidade. Tirei do bolso minha carteira de couro engraxado. Entre o santinho de Santo Expedito e o bilhete único que achei no metrô enquanto vinha pra cá, havia duas notas de vinte reais.
Dá pra comprar dois bolos - ótima sobremesa!-, e ir de táxi para casa, pensei, enquanto sorria satisfeito e entrava na padaria cujo dono eu desconhecia completamente.
