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Peyote, Gravidez e Timothy Leary, meu filho.

Imaginei a aurora despontando e a luz vazando por entre a muralha irregular dos prédios de apartamento já que não pude ver realmente o nascer daquele dia. Tudo porquê naquela manhã eu acordei enrolado em quatro cobertores de lã, trancafiado em um baú posto maldosamente dentro de um armário também trancado, com as portas escoradas por um sofá, o qual, por sua vez, tinha sobre si um bumbo laqueado de 22x20 de uma bateria Pingüim 1971.

- É por causa daquele filme! – pensei, e, enquanto tratava de me livrar daquele monte de tecido empoeirado, espirrei repetidas vezes, mergulhado no breu sem horizontes.

Só havia um único mau caráter na casa capaz de concatenar uma atrocidade desumana como aquela que vivia. Seu nome: Timothy Leary, o meu engenhoso e facilmente influenciado filho de seis primaveras.

Além do desespero absoluto, havia algo a mais naquela aurora que eu acreditava estar nascendo. Ela sinalizava o início de um dia bastante especial para mim, pois naquela manhã eu iria defender minha tese de doutorado em farmacologia diante de uma banca composta por livres docentes vindos especialmente da Universidade de Hermosillo. Na plateia estariam os grandes entusiastas do peyote - galera da mais pura finesse. Gente como eu.

De dentro do baú, berrei:

- Leary, seu filho de uma puta. Que horas são? Eu vou me atrasar! Abre isso aqui!

Então ouvi sua voz embaralhada por uma estática agudíssima. Tinha um gravador dentro da minha cueca.

“Vamos jogar um jogo?” – disse a voz do gravador - a voz do meu filho.

- É por causa do filme – reafirmei internamente aquela certeza. - Aquele filho da puta.

Arrependia-me mais e mais conforme minha estadia na escuridão alongava-se. Arrependia-me por ter tido um filho, mas, principalmente, por ter tido uma esposa que, grávida, tomava chá de peyote no café da manhã e durante a novela. O resultado foi terrível: um filme genial, completamente louco e egocêntrico.

A gravação seguia:

“Devido aos acontecimentos de ontem você encontra-se agora preso em um complexo e mortal maquinário criado por mim”

A voz na gravação tossiu.

“Opa, perdão. Você, caso deseje apreciar as cores deste dia que apenas engatinha e colher os frutos de seu esdrúxulo trabalho, deverá, então, ser merecedor de tal. E para isso, a partir de agora você irá participar de um meticuloso jogo de perguntas por mim elaborado; se responder satisfatoriamente as questões, poderá se ver liberto e assim prestará contas comigo.”

Tossiu de novo.

“E quando sair, se sair, por favor, me dê uma colher de sopa de melagrião. Tô com tosse.... Que os jogos comecem”.

Houve uma pausa.

“Pergunta número um. Porque você não me deixou ver o filme até o fim? Faltava pouquinho pra terminar...”

Nem precisei pensar na resposta:

- Olha, Leary, meu filho, primeiro que esse filme aí não é pra criança, e depois, era tarde pra caraco e eu tinha que dormir, oras!”

- Pô!

- Um filme que tem um cara prendendo gente e fazendo joguinho com a vida dos outros não é pra criança, isso influencia vocês. A situação não me permite estar errado.

- Mas todos meus amigos viram "Jogos Mortais", menos eu.

- E daí, hein?!

- Receio que você mandou mal, meu pai. Receio também que este seja o fim. Adeus.

Os lados do baú começaram a ventilar uma fumaça tóxica. Tentei me proteger embaixo dos cobertores, mas comecei a espirrar. O baú já estava repleto do gás tóxico e eu mal podia manter o raciocínio. Não havia jeito, era o fim.

- O que você quer que eu faça? – eu gritava. A fumaça já invadia os pulmões.

- Me deixa ver o filme, e vê comigo até o fim, eu tenho medo de assistir essas coisas sozinho.

-Tá bom! Combinado! Me tira daqui então! – implorei, quase perdendo a consciência.

A tampa do baú destrancou-se, as do armário rangeram quando foram abertas e eu respirei aliviado, vivo. A luz tomou o interior do armário e eu rolei para fora, alcançando a liberdade.

Estava ali, paradinho, com o pijama do Zé Colméia: o menino, meu filhinho maquiavélico.

- Me escute, homem fraco, e escute com atenção – ele disse, segurando-me pelas golas. -Quem manda a partir deste segundo nessa casa aqui sou eu. Aí de você se as coisas continuarem como as de antes. É um novo tempo. Se eu quiser ver filme, eu vou ver e você vai ver comigo. Esse amanhecer marca uma mudança no eixo político dessa residência. Ouve? Vai lá pegar o Melagrião.

Continuou:

- Olhe: deixei sua escova na pia, ela já está com pasta. Seu terno está passado e pendurado, e exala uma doce e suave fragrância cítrica de um perfume que eu mesmo estou desenvolvendo. O carro já está ligado; o tanque, cheio. Acho melhor você evitar a Brigadeiro. Aconselho seguir pela Nove de Julho até a São Gabriel. Há uma vaga à sua espera colada ao saguão principal. Você deverá chegar lá em 31 minutos.

- Obrigado, Leary.

- Acho melhor tratar de tomar seu caminho. Só mais uma coisa – ele hesitou. - Você promete ver hoje o filme comigo até o fim e depois terminar de ler a historinha do Tio Patinhas pra mim na cama?


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O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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