Em meio à quietude enervante da madrugada abafada de verão, uma fraca lâmpada clareava o chão acarpetado por onde um homem, com as mãos brancas de espuma, caminhava desesperado.
- Não vai dar. Não sai! Que coisa horrível. Vou tomar mais um banho. Aí eu esfrego a mão com a espuma do shampoo no cabelo e na esponja. Vai sair, assim vai sair!
Ele já havia levantado duas vezes da cama. Não podia pregar os olhos. É impossível esquecer-se do mundo com o olfato sendo açoitado por um cheiro asqueroso como aquele.
- Não sai. Não sai! Isso é enlouquecedor! E se eu jogar esse perfume todo na mão e depois sprayzar o desodorante até arder? Aí sim, assim vai sair, assim sai sim.
Maldita hora em que ele resolveu se prestar para alguma coisa. Faria como o pai, o avô e a mãe, se manteria distante da cozinha até o dia de morrer.
- Porra, não! Não sai! Não sai!- Gritava, andando em círculos, descalço pelo quarto.
Dois banhos, sabonetes, perfumes, desodorantes, detergente, água quente, a mandinga de esfregar as mãos na faca, água fria... - mas crescia no homem a certeza de que o cheiro estava ainda mais forte.
Os passos febris estancaram quando seus olhos encontraram a piscina, além da janela. Lembrou-se do cloro. O popular, o furibundo Cl daquela tabela lá. Número atômico três e meio, se não se enganava.
Ele sim arrancaria pela raiz aquele fedor agarrado à pele de suas pobres mãos.
Jogou-se, vestindo ainda o pijaminha rosa - além da esperança, carregava dois tijolos de sapólio, assim esfregaria as mãos enquanto estivesse submerso na água morna da piscina oval.
Depois de esgotadas as forças dos braços flácidos - os quais já doíam tanto quanto as vias olfativas -, o homem arrastou-se por sobre a borda curva da piscina e deitou-se na ardósia seca.
Riu, olhando as seis estrelas que contou no céu, e trouxe a mão encharcada ao nariz – aguardava a evidência inconteste de sua vitória.
- Porra, não! Não! Não saiu!
Virou-se de bruços, esperneando. Estava prestes a perder o último fio de sanidade.
Ainda tinha na mão o que restava de uma das pedras de sapólio – uma camada fina ensaboada. Atirou-a, colérico. Ela quicou duas vezes na superfície da água e atravessou a piscina toda, parando apenas do outro lado, ali perto de uma espreguiçadeira.
Arrastou-se até portão do prédio - o pijama assinalando uma trilha molhada sobre o chão de cimento. Acenou para o porteiro – que cobriu a naroga adunca com a gola do uniforme - e alcançou as ruas mudas.
Todos deveriam estar dormindo em suas camas, com as mãos cheirosas após um banho quente e relaxante. Queria poder dormir, em paz, esquecido tal qual aquela quieta rua.
Então um vento úmido correu por cima de sua cabeça e alvoroçou as árvores, as quais tremularam como se temessem o que estava por vir.
Choveu, e, debaixo das gotas frias, ele notou a cruel aspereza do asfalto.
Sobre aquela superfície molhada e escabrosa, pressionou suas mãos e começou a esfolá-las, bestialmente, cada vez mais forte e com mais raiva enquanto a chuva engrossava.
Elas já sangravam, avermelhavam as águas, mas ele continuou até não mais sentir o horrível odor daqueles três dentes de alho que picou para temperar o arroz empapado que havia jantado horas antes.
Pela manhã, enquanto escapava de suas mãos enfaixadas o forte cheiro do cicatrizante, ele avistou da janela um gordinho falastrão escorregar na pedra de sapólio e rachar a cabeça na borda curva da piscina rica em urina, suor e sabão.
O cheiro do cicatrizante já começava a irritá-lo.
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O Pardal Imoral
O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.
Por Guilherme Abati.

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