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Deus fica triste quando não apertamos a descarga

Após a missa das sete, fui acometido pela vontade arisca da memória e passei a lembrar-me de Tia Marlene discursando sobre como Deus fica triste quando não apertamos a descarga. 

Suas asserções ressoavam tão solenes, articuladas e carregadas por um tom tão ameaçador através dos caminhos da minha memória, que pude relembrar detalhadamente do instante em que ouvi tudo aquilo, quando ainda era um jovem banguela, dono de cuecas amareladas e de um cabelo polvilhado por caspas graúdas.

Revi, então, sentado à minha escrivaninha, diversas e saudosas passagens: Tia Marlene - tomando os dez primeiros minutos do recreio - problematizando apaixonadamente os grandes dilemas comportamentais de nossa espécie. 
Ela citava o Inferno, que aguardava faminto as almas dos pecadores, dos subversivos e dos petistas; reforçava a responsabilidade gerada pela benção do livre-arbítrio; lembrava-nos da salvação pela caridade; pregava a sumária partilha do lanchinho com o colega que esqueceu a lancheira na perua, e, por fim, ordenava que jamais nos esquecêssemos de apertar a descarga.

Algo, então, começou a me incomodar, não sabia, pois, se havia cumprido totalmente aquele último mandamento ao longo dos anos.
 

Minha alma inflou-se em incertezas. Será que em algum momento, por pura distração, eu havia me esquecido de apertar a descarga de algum desses banheiros da vida?

Aquela dúvida zunzunou por toda a noite e se calou apenas depois que li o nome Marlene Assis de Sá no obituário do jornal, na manhã seguinte.
 

Enquanto atravessava a nava princiapal, acenei rapidamente para as primeiras senhoras que acocoravam-se por sobre a madeira fria dos enormes bancos da Igreja, à espera da primeira missa do dia.
  Ouvi alarmados “Aonde vai, Padre Isidoro?”. Mas não havia tempo de informá-las, precisava chegar ao velório, era-me premente.

Pois quando lá cheguei, um homem veio ter comigo. Tinha na pele um forte cheiro de tabaco, que contaminava todo seu redor. Ele me perguntou se eu era o Padre Larousse. Respondi que não, e só ali percebi que ainda vestia a batina.
 

Disse que fui batizado com a alcunha de Isidoro Ludovico e Araújo, e que tinha sido aluno da Tia Marlene, décadas atrás, no colégio Nossa Senhora Virgem Maria das Causas em Tramite. Informei-lhe que era padre, mas estava lá apenas para me despedir.

Ele abriu um amplo sorriso, como se ouvisse um sincero elogio à sua agradável fragrância, e fez questão de me guiar até o salão onde o caixão estava depositado.

Morta, ela continuava igual à de antes - já carregava durante a vida aquela pálida rigidez de todo o cadáver. A única diferença realmente perceptível é que, agora, ela pouco falava. Precisei ir ao banheiro - talvez o cheiro do homem tivesse incomodado meu estômago, ou talvez fosse aquela hóstia meio esquisita da missa das sete do dia anterior.

Entretanto, o problema era maior do que supus inicialmente. Meu intestino sacolejava feito um barco de papel em um oceano feroz - não havia alternativa, puxei as saias da batina e sentei-me na privada.

Minutos depois, nascia ali, sem aviso algum, uma dúvida aterradora entre apertar ou não a descarga. Nesse instante, surgiu de dentro do banheiro, saindo de dentro de um secador de mãos automático, o espírito de Tia Marlene, claramente incomodado pelo forte odor.

“E então, não vai puxar?” – ela disse, testando meu nobre espírito.

“Lógico que vou, eu jamais deixei de puxar descarga alguma!” afirmei, tentando me convencer daquilo.

“Pare de se enganar, nós dois sabemos da inverdade dessa sua afirmação, menino Isidoro. Você jamais apertou uma descarga em toda a sua vida, meninote traiçoeiro! “
 

“Isso é mentira, tia Marlene” – esbravejei, engasgado pelo choro que nascia.

“Não é, Isidoro. Aceite.”- disse, com a voz apaziguadora de uma mãe amorosa.

Atordoado pelas convulsões do choro, desistindo de manter aquela mentira que eu teimava em crer, disse aflito:
 

“Desculpe, Tia Marlene. É que eu adoro imaginar a cara de nojo de quem entra no banheiro”.

“Acalme-se, meu menino.” E ela me abraçou, tentando domar minha alma pecadora.

“Perdoe-me, faz favor.”

“Eu não posso te perdoar, Isidoro. Tu é que tens que se salvar.”

“Mas como, Tia?”

“Pense em algo. Agora deixe-me partir. Aqui a coisa está complicada”

O dia do enterro da Tia Marlene marcou também o termo da minha vida como padre.

Deixei de ser um mediador entre Deus e os homens e resolvi buscar a salvação da minha alma.
 

Hoje, trabalho seis horas diárias nos banheiros da Rodoviária do Tietê em São Paulo e outras seis no banheiro masculino da estação de metrô da Sé - e sempre que posso visito as instalações sanitárias dos postos de gasolina das rodovias.

Desde o velório, jamais deixei de apertar a descarga e comecei a cultivar o inabalável hábito de averiguar a limpeza de todos os vasos sanitários que posso, mesmo das privadas não utilizadas por mim.

E, muitas vezes, enquanto estou sentado no banheiro lá em casa, Tia Marlene aparece e conta como Deus está contente com meu trabalho terreno.

A Cidade e os Sonhos

Corria pelos vales afundados no branco espesso, bainhado pelo cinza escuro que se fazia pele de céu, aquele garoto que optou em fugir.

Outros meninos, diante daquilo, talvez preferissem aguardar a lâmina da guilhotina, outros, de fato, assim fizeram.

Mas por naquele tempo não passar na cabeça de menino algum ver sangue e rostos despedaçados ou de ouvir gritos e clemências de senhores de vozes educadas, foi entendida a razão da paralisia. Os animais eles viam com freqüência retorcerem-se em agonia, mas com gente tudo o que se presenciou foi inédito.

Naquele tempo, se acreditava que a pureza do ar revelava a impossibilidade da manifestação da crueldade e que o vento carinhoso, que não poupava afagos e acostumou à tranqüilidade a população reduzida que caminhava em passos lentos pelas ruelas de pedra polida, manteria ausente qualquer distúrbio aos sorrisos e reverências.

Tudo o que se via, caso se visitasse aquela cidadezinha durante uma terça feira à tarde, era senhoras de cabelos longos, branquíssimos tal qual a neve que tudo cercava, indo apreciar a branquitude que também coloria a terra até as margens do horizonte; via-se também os homens com suas grossos casacos manchados pelo arco íris, compartilhando suas visões sobre o porvir, debruçando-se sobre as mesas das praças e buscando os significados ocultos dos sonhos alheios.

Desvendar as simbologias oníricas era tarefa masculina naquela comunidade, às mulheres bastava a beleza criativa, as situações impensadas e estranhas.

Mas então ninguém mais sonhou, nem homem, nem mulher.

E as reuniões nas praças ganharam uma tonalidade nebulosa. O futuro que se imaginava era agora delimitado por linhas tremulas e confusas e, em seu interior, pintava-se cores interrogantes; as palavras que antes ecoavam em cada vogal um riso gratificante, eram agora a voz do desespero e da incompreensão do destino.

Então, quando, nas ruas, perdia-se a calma costumaz e os pés respeitosos pisavam apressados e temerosos, e nas praças via-se o amanhecer de discussões, algo começou a surgir durante o sono, mas apenas para os homens. Não eram sonhos. Enquanto dormiam, eles viam suas próprias mortes, sentiam o fogo das entranhas dos subterrâneos submergir, evanescendo a neve e queimando suas peles; cheiravam o vapor incinerado das praças e ruas; escutavam o relincho pavoroso dos cavalos ao avistarem gigantescas serpentes negras arrastarem-se pelas janelas dos estábulos e das casas.

E às mulheres, que agora dormiam sem sonhar, e que quando acordadas presenciavam o horror que aquelas imagens causavam à vigília dos homens, nasceu um sentimento estranho de agradecimento. Apesar de não mais sonharem, preferiam a escuridão vazia da noite ao horror das imagens de carnificina e desolação.

Alguns tentavam resistir à sonolência, fugindo como podiam de assistir a si próprios morrerem cruelmente, ora queimados por um incêndio grotesco, ora devorados por serpentes negras. Mas aquele castigo parecia implacável, estavam fadados às noites de pavor e a dias de conflitos com os mesmos à quem outrora eram tão queridos. O ar refrescante da neve agora ardia como nos trópicos e tudo era mal estar.

Não foi o padre, algum homem sábio ou senhora sensitiva; coube às primeiras palavras de uma pequena criança revelar a reposta messiânica que libertaria a cidade incrustada na face oculta da montanha branca.

A mãe não encontrou razão para orgulhar-se da sua criança quando esta balbuciou a solução impensada, sentada em seu cadeirão, durante o almoço; o horror que a frase sustentava fez a mulher levantar e deixar a menina sozinha, confusa com o som que lhe saia pela boca desdentada da filha

O que a menina afirmou naquele princípio de tarde não correspondia com os sonhos trágicos que arrebataram os homens. Tudo levava a crer que eles morreriam sim, mas não conforme os sonhos mostravam.

E a mãe - que correra até uma janela distante e observava a linha escura que separava neve e céu que começava a acinzentar-se - repetia para si a afirmação recente: “Se querem sonhar com a beleza, matem aqueles que sonham com a tristeza”.

Os sonhos extasiantes que brindavam a vida de todos ali eram a força motriz da calma e da paz que envolvia a cidade. Quando as cores deram lugar ao cinza e a morte tornou-se a canção de ninar, a cidade convalesceu. Os homens tornaram arredios e agressivos, mesmo fracos e magros, e as mulheres, tomadas pelo negro vazio do adormecimento, tornaram-se seres indiferentes e afastadas, e a gratidão inicial ia se transformando em revolta calada.

Porém, quando a menina falou pela primeira vez, a desaparecida esperança voltou a resplandecer no horizonte além da neve. A menção ao retorno dos sonhos apaziguou levemente a alma da mãe, mas a dor só cessaria com o fim daqueles que sonhavam com a tristeza.

Os homens estavam completamente surpresos quando avistaram a presença irrefutável de seu fim, naquele início de dia. Primeiro, pela raiva presente na face das afáveis mulheres e segundo porque aquilo não se assemelhava com o que os sonhos previam.

Todos foram levados para a praça central, o local do compartilhamento dos belos sonhos, agora, porém, eles seriam decapitados pelas guilhotinas antigas dos tempos da revolução. Durante uma manhã, as mulheres deram cabo de todos os homens, e à tarde, foram as crianças que, estupefatas pelos ataques, foram rapidamente exterminadas; exceto um único menino, que prontamente correu através do vale que descia para o sudeste.

Assim, além de se ver morrer toda a noite, tornava a escutar diariamente os gritos de pavor seu pai e revia as inapagáveis poças vermelhas que escorriam pelo gelo. Assim foram pesadelos do menino até sua última madrugada, trinta anos depois de sua fuga

Para as mulheres só restou lidar com o sangue, guardar as guilhotinas e o negro do não mais sonhar que as acompanhou durante três décadas, até certa manhã quando saíram todas as ruas e chorando, contaram que sonharam com o perdão de seus maridos e filhos.

Mil Carvalhos Tombados

Para me fazer honesto, como tento em toda situação, deveria também relatar a ausência de recordações referentes a qualquer outro lugar além da cabana de meu pai.

Lembro-me sem margem alguma para erro que a cabana silenciosa atrás do portão foi a imagem primeira a ser desenhada nos cadernos das minhas lembranças, de modo que o dia em que cheguei à cabana poderia muito bem ser o dia em que nasci.

Papai falava pouco na maioria do tempo, mas para a noite, quando o relento caia fino sobre as ralas gramas do entorno, ele resolvia compartilhar suas opiniões rancorosas e odiáveis.

Nesses momentos a história da cabana era contada. Dizia que mil carvalhos tombaram para que sua cabana fosse erguida e então, um pontilhado tremulo brilhava tímido ao fundo dos olhos sempre que se dava a lembrar.

E assim as noites seguiam-se, muito semelhantes a essas. E enquanto ele, sentado ao fim da mesa, compartilhava seus pensamentos embaralhados, em frases com sílabas negligenciadas, a casa envelhecia assim como o frio relento que cercava a cabana esquecida.

Não tínhamos vizinhos e as trilhas haviam sido consumidas pela sofrida vegetação rasteira .O próprio Sol havia desistido de nos encontrar . Uma constante e intransponível camada de nuvens escuras pairava sobre nosso telhado e castigava os corpos das árvores e dos poucos animais impedindo que a luz os alimentasse.

O choro dos animais, os desorientados vôos das aves, as árvores que se transformavam em fuligem sob o mais inocente vento e a decadência moral e física de meu progenitor eram de uma tristeza tão notável e inebriante que jamais poderia abandonar aquele lugar. Em nenhum outro sítio ou recanto, estaria abraçado com a verdadeira existência humana. Espontânea. Desmascarada. Dolorosamente sem sentido.

Então, certa manhã, defrontei-me com o incontrolável e igualmente incompreensível desejo de entender a energia que move tudo rumo ao vazio definitivo; de compreender o momento esperado e implacável em que a dor de respirar e a crueldade da verdade violentam nossa consciência e aguardamos esperançosos pela escuridão incurável.

E então, como se me presenteasse, a existência e seus mistérios resolveram fazer meu corpo e mente envelhecer rapidamente e preservar os de meu pai.

Nos campos próximos, os animais pereciam conforme a camada de nuvens crescia em escuridão; o ar, mesmo durante a claridade dos poucos raios de sol que diluíam-se ao romper a barreira nebulosa, ganhava peso e o frio limitava qualquer movimento ou pensamento.

As frases de meu pai ressoavam ainda mais ameaçadoras, seu ódio ganhava tanta densidade quanto a imobilidade do ar dos campos desolados, e seu rosto ganhava traços amedrontadores.

Os açoites endereçados ao gado eram mais freqüentes e seu sorriso, como conseqüência, ainda mais largo.

Curiosamente, percebia que sua face carrancuda e os músculos espasmados pela vida cultivada pela insatisfação não mais se abalavam com a continuidade dos dias e noites que perdiam gradualmente sua velocidade, dando a impressão que o tempo negar-se-ia a passar e a vida continuaria presa em uma noite infinita.

O meu corpo, porém, sucumbia gritantemente. Em uma única tarde, que teimava em alongar-se, eu tinha a sensação de envelhecer anos. O vento mais inocente que fazia fuligem das madeiras das retorcidas árvores, levava centenas dos meus grisalhos fios; minha coluna curvava-se como uma frágil vara de pescar em plena batalha pela vida.

Minhas frases, tímidas pela manhã e pela tarde, davam suas caras durante a noite, também essencialmente cruéis, insatisfeitas e ansiosas por conflito.

Meu rosto retorcido assemelhava-se ao do meu pai. Agora nossos corpos pareciam ter vindo à luz no mesmo dia. Tínhamos, de fato, a mesma idade.

As silabas embaralhadas por mim eram as mesmas. O copo era bebido com a mesma sede, quase no mesmo instante, o brilho perturbado ao fundo dos olhos cintilava a mesma crueldade. A preguiça dos animais e o secura dourada dos arbustos e pastos me irritava incontrolavelmente. A palma de minha mão estalava sobre o couro castigado e magro do gado para meu deliciosamente

Éramos iguais.

Permanecemos iguais enquanto as nuvens cobriram o céu e resolveram tomar a terra para si. Conforme a massa nebulosa escura engolia a luz do sol e devorava o ar que a separava da nossa cabana, percebia o quanto meu pai me odiava.

Percebi suas reações envergonhadas por minhas palavras puramente invejosas. Sentia suas tentativas de esquivar-se dos meus olhos, assim como eu fiz durante toda a vida naquele minúsculo cubículo.

Sei como ele ironizava internamente minhas lembranças, como ele ria silenciosamente após ouvir sobre os grandes feitos empreendidos na construção daquela miserável cabana e como os derrotados carvalhos cediam frente sua grandeza.

Ver ele, corroído pela vida de erros, era me ver perfeitamente, era saber exatamente o que eu era.

A ébana nebulosa baixou e impediu, agora sim, qualquer luz de tocar a cabana. A escuridão era absoluta.

Abri os olhos, deitado na minha cama. A luz permanecia fraca, a escuridão havia recuado para os céus. Andei pela casa sem encontrá-lo. Saí e caminhei através do gramado doente, o gado ainda magro, tudo como sempre foi. As coisas pareciam apenas levemente mais claras. A nuvem ainda me observava com seus olhos escuros e raivosos. Mas nenhum sinal daquele homem desprezível.

Um garoto estava junto ao portão. Tinha meu antigo rosto, um olhar radiante que dentro de pouco não mais me olharia e um sorriso que em breve se esconderia. Em breve suas feições se fechariam diante das minhas. Mas antes eu contaria como derrubei mil carvalhos para construir aquela cabana.

O Nosso Sarkozy

Na varanda, do outro lado da rua, o nosso Sarkozy latiu


E mais uma vez.

E outra.

Entre os latidos agudos e ritmados, escutei vozes em um conversa tranqüila

Sarkozy latiu outra vez, com raiva agora.

Levantei da cama e não praguejei como faria em outra situação - somente por tratar-se do Sarkozyzinho. Pus minhas pantufas.

Da janela vi dois homens.

Afastavam-se da varanda de onde Sarkozy latia, com o focinho entre as barras da grade, e iam embora descendo a rua enquanto alguns pássaros revelavam os sonhos uns aos outros, em pleno vôo

Fui até a cozinha. Já era fim de semana?

Dia 11?

Não era 12.

Era 13.

Era sexta-feira. Sexta.

Que horas eram?

Não havia relógio em parte alguma da casa.

Passei pela porta, desci as escadas frias de mármore e abri o portão, que gritou incomodado.

Alcancei a rua calma, os pássaros, em silêncio, já haviam confidenciado seus sonhos.

Resolvi tocar a campainha do sobrado número onze. O sobrado onde o nosso Sarkozy passava alguns dias.

A dona abriu a porta e um delicioso cheiro escapou de dentro da casa. Já devia ser hora do almoço.

Perguntava as horas para ela quando Sarkozy, latindo, veio correndo para saber quem importunamente batia em sua porta em horário tão importante. Era a dona dele!

Era meio dia quando ele cheirou minhas pantufas, desinteressou-se e voltou para o almoço.

Agradeci sem tirar os olhos do nosso cão.

Sarkozy era um pequeno Cocker que gostava de observar o movimento da rua pela manhã, geralmente latindo para o quer fosse: para pássaros, para os garotos apressados, para as senhoras nada apressadas, para as nuvens - que o privavam do calmo sol matinal-, e para a umidade que se desprendia das calçadas.

II

Os pássaros permaneciam calados, alguns petrificados sobre os magros galhos das poucas árvores, outros igualmente inertes sobre os fios de eletricidade; só se escutava minha respiração acelerada e a sola da pantufa raspando sobre a aspereza do asfalto, enquanto eu voltava para casa, arrastando minha perna direita.

O portão gemeu de novo, querendo permanecer esquecido como toda aquela rua, e jamais ser incomodado.

Mas como eu faria para sair de casa, sem incomodá-lo?

Se eu fosse um pássaro... Pousaria toda a manhã sobre a grade da varanda do Sarkozy. Enquanto ele tinha que ficar na vizinha da frente.

Talvez ficasse ali todo o dia. A noite dormiria e sonharia, e pela manhã antes de pousar de novo na varanda contaria todos os belos vôos que sonhei para os pássaros da rua.

Mas jamais poderia me aproximar do Sarkozyzinho. Cães adoram mastigar pássaros.

Será que os cachorros gostariam de ser pássaros e poder voar para além desses portões negros, para algum gramado verde com árvores e sombras, sob um céu sem nuvens?

Fervi água e bebi. Três copos. Lavei uma maçã, puxei da gaveta minha faca de cabo de madeira, a única que ainda resistia do inicio do meu nosso casamento e fui até o quarto.

Ao fim do corredor no segundo andar, ficava o quarto dele, escuro. Paredes frias não recebiam o calor da luz que viajava trilhares de centenas de quilômetros, porque eram obstruídas pelas janelas nunca abertas.

Ele, assim como a rua, inerte; como os pássaros, petrificado. Há anos assim.

Vi seu rosto indiferente graças à luz do abajur, amarelada e distante. A respiração dele, imperceptível, debaixo dos cobertores de lã, seu corpo jazia adormecido. Seus dois olhos faiscavam, refletindo aquele brilho vazio da lâmpada envelhecida, conforme encostei a porta do quarto e me aproximei. Era a única parte dele que espelhava vida; além dos olhos, só havia vazio e escuridão, assim como o quarto que quase esquecido ficava ao fim do corredor.

A enfermeira dizia com bastante certeza que o distúrbio o impedia de se movimentar, apesar de continuarem funcionando os sentidos e as funções vitais. Disse, antes de ir embora, repetidas vezes, mencionando exatamente essas palavras, precisamente nessa ordem. Completava, diariamente, a caracterização do quadro clínico do meu filho. Citava a imobilidade do paciente, indicava com a ponta dos dedos gordos a falta de rigidez dos membros do menino.

Quando ela foi embora a casa ficou ainda mais escura, o ar mais gélido e as paredes pareciam crecer para dentro do corredor, onde, ao fim dele, o menino estático vivia aquela vida.

III

Numa outra manhã, parecida com a anterior e provavelmente identica a posterior, ouvi a mesma tranquila conversa vinda da rua, segundo depois, os latidos agudos e exatos, como se obedecessem as marcações de um metrônomo.

E da janela, de pantufas, olhando a revolta daquele pequeno animal, enquanto os homens saiam descontentes, fumando seus minguantes cigarros, rua abaixo, resolvi que era hora do Sarkozy voltar para nossa casa. Voltar para o meu filho.

Tomei minha água, cortei a maçâ com a velha faca de cabo de madeira. Beijei meu menino e fiz minha primeira ligação telefonica em três anos.

- Oi. Sou eu, a vizinha da frente. Como vai?- disse com a voz certa.

- Vou bem – resmungou a mulher, no outro lado da linha e da rua.

- Escuta minha querida, sou eu, a vizinha da frente...

- Sim, eu sei – respondeu, com propriedade.

- Mas como? – perguntei, boquiaberta.

- Como o quê?

- Como você sabe que eu sou eu?

- Hum, eu sei dessas coisas, sempre sei quem está me ligando – confidenciou, com um incompreensível riso abafado

Eu estava maravilhada, não sabia desse tipo de capacidade,mas mantive a calma e voltei a tratar do assunto que me interessava.

- Escuta, minha querida, aqui é a vizinha da frente e já é hora do Sarkozy voltar aqui pra casa

- Quem?

- Gostaria que você devolvesse o cachorro para mim! O meu filho está sentindo falta.

-Meu cachorro?

- Exatamente moça! Fará um bem danado pro meu filho!

- Que filho?

- Ora, escute, vou até aí pra pegar ele. O Sarkozy não gosta de ficar aí, a senhora ainda não percebeu? Aqui em minha casa ele se sentirá feliz realmente! Já estou indo!

Desliguei.

Atravessei mancando os 3 metros e meio do asfalto ingrato que arranhava a sola gasta das pantufas que ganhei do meu falecido marido. E encontrei a senhora minha vizinha já ao pé de sua porta me aguardando.

- Nem chegue perto está ouvindo, sua velho maluca! - ela avisou, apontando o indicador ameaçadoramente.

- Vamos, nos duas sabemos que o Sarkozy quer ficar comigo e com meu filho na nossa casa. Meu filho adora cachorro, sempre gostou e o Sarkozy vai fazer um bem danado para a gente.

- Mas, do que você está falando? Que filho?? Quem é Sarkozy?

-Meu filho é meu filho, oras. Sarkozy, o meu cachorro que late toda a manhã, que está na sua casa, enquanto meu filho se recupera.

- Sarkozy? – ela disse antes de gargalhar, caçoando de mim, revoltantemente. “O nome da minha cachorra é Sarkozy?”

- Sim. Vamos, meu filho não está bem, ver o Sarkozy alegre em casa causará ótimos efeitos no meu menino. Ele sempre gostou de cachorro!

- Olha, eu respeito tudo o que aconteceu com a senhora, mas isso já é demais. O meu cachorro é meu! A senhora, por favor, volte pra casa e caia na real!

- Me dá o cachorro agora! Agora! – precisava falar assim, firmemente, notadamente violenta.

Mas mesmo assim, não funcionou.

Então precisei mostrar pra ela a minha única faca. E fui à direção da mulher que não mais roubaria meu cachorro e o bem estar do meu menino doente. Não encontrei alternativa depois de vê-la caindo sangrando em meus braços, ela chorava sem parar, e tossia. Seu choro me incomodava muito.

O nosso Sarkozy estava no quintal preso, já de coleira, esperando o retorno para sua casa e para meu filho. E em meio ao choro e gritos de umas crianças que estavam naquela casa também, eu o peguei e o guiei até o meu filho.

Ele latia descontrolado, dominado pela felicidade de voltar para o nosso sobrado.

No fim do corredor das enormes paredes frias, abri a porta, e encontrei uma luz saltando dos olhos do meu menino, cintilando brevemente um brilho branco agradecido.

Depois invadiram a casa, homens berrando portando armas e as mesmas pessoas que choravam na casa da vizinha, ainda chorando. Levaram-me embora.

Disseram absurdos para mim no lugar onde me mantiveram. Fiquei lá muito tempo. Perguntavam sobre o acidente do meu marido e do meu filho. Escutei gente que nem conhecia, falar que meu marido tinha morrido junto com meu filho e com nosso cachorro, Sarkozy, em um acidente de carro, e que nesse acidente tinha quebrado minha perna em quatro lugares e que por isso ainda mancava e que mancaria para sempre. Eu ria daquele absurdo, e eles me olhavam espantados.

Não deixaram ver meu filho nem o Sarkozy. Mas sabia que eles deveriam estar em casa, muito felizes.

E toda noite, enquanto alguns pássaros tinham pesadelos, sonhando terem perdido as asas e encontrando-se agora humanos, eu permanecia acordada, revivendo o momento em que o brilho dos olhos do meu menino dissolveu as trevas daquele quarto e esquentou as enormes paredes frias do corredor do nosso sobrado.

O Sorriso de Sarita

Sarita.

Exagerada maquiagem - o rosto enevoado tal qual um "donut" coberto de açúcar.

Mistura agressiva de perfumes nos pontos estratégicos do corpo - distintos frascos pegos repetidamente ao acaso para cobrir o suor recente.

Meia calça detêm heróicamente os malvistos excessos das pernas roliças - a pobrezinha caminha incomodada,  faz questão de mostrar a pele áspera das coxas só depois de fisgar a presa.

E ainda, contudo, um alvo sorriso, decerto o mais espetacular entre as meninas da casa.

Não nego que os sorrisos merecedores de outros sorrisos não sejam escassos aqui neste estabelecimento e nos outros parelhos.
Mas este, o de Sarita, fulguroso e sadio, infelizmente não combina com suas outras partes, exibidas quase diariamente na casa antiga e esfumaçada por cigarros e gelo seco.

Ela não precisa nem sorrir, basta a espressão de dor descobrir os dentes e satisfazer-me completamente.

Mas Sarita privou-me de seus dentes.

Não estava mais no balcão do bar ou na bancada afastada. Também não esteve no dia posterior e nem esteve mais em canto algum.

Após perde-la, passei a visitar raramente a casa mas quando ia, mantinha meu tom alegre e cordial com as outras moças, agradando-as com dinheiro justo. Mas dinheiro algum as faria sorrir os dentes de Sarita.

Cheguei a animar-me com a dentição de uma novata,  só que o destino que a aguardava me pôs novamente atrás da real mulher dos dentes perfeitos.

Sorrio agradecido por minha sorte quando lembro que esta moça, dias depois de nos conhecermos - e eu tendo avaliado positivamente sua dentição -, veio a praticamente explodir a boca quando chocou-se contra o vidro de um táxi, poucas ruas distante de seu flat.

Os dentes quase bons se foram, assim como seus traços aceitáveis.

Caso o acidente não ocorresse minha vida desenrolaria-se por outras bandas, porque depois de ouvir o destino cruel da novata decidi que não deveria mais buscar sorrisos naturalmente bem dispostos em lugares como os que frequentei exaustivamente.

Conclui contente que investiria essa inesgotável ânsia pelos dentes de Sarita em algo digno como trabalho e bem estar público.

Neste momento, ainda jovem e mesmo satisfeito com a faculdade de Direito, optei, sem hesitação, por cursar Odontologia e por dedicar-me à criação de dentições tão perfeitas quanto a de Sarita.

Quando meus netos já mostravam seus sorrisos para suas namoradas adolescentes, eu difícilmente relembrava os dentes que haviam deixado uma horrorosa cicatriz na minha memória.

A cicatriz já estava completamente apagada graças aos inúmeros sorrisos que forjava diariamente em meus pacientes.

Mas quando li Sarita em minha agenda, aqueles dentes esquecidos reluziram e começaram a triturar novamente meu coração.

Caminhei até a sala de espera balbuciando uma lingua poucas vezes ouvida, murmurada apenas por homens diante da real felicidade.

- Sarita? - soluçei.

Ela virou o rosto branco bastante envelhecido e eu indiquei a direção da sala. Ela passou sem sorrir - aquela confusão de fragrancias - frágil feito um dente de leite.

Ajudei ela a sentar, dei bom dia e mencionei minha insatisfação com a falta de chuvas.

Ela concordou sem exibir dente algum; eu respirava ofegante como se acabasse de correr bons quilometros de uma estrada enlamaçada sobre o sol enfurecido.

Então ela me ameaçou:

- É a primeira vez que vou a um dentista. Não gosto que mexam nos meus dentes.

Seus lábios magros ainda cobriam a dentição, como se protegessem uma santidade da multidão fanática

- Pode confiar. Se há alguém que cuidará bem deles, esse sou eu. Acredite em mim.

Houve um silencio mútuo.

Apoie-me sobre o couro da cadeira, e então curvei-me sobre Sarita, que parecia vencida pela frase mais sincera que disse em minha vida.

E aí ela puxou os finíssimos lábios para cima das gengivas e mostrou-me, finalmente, os dentes.

Contei 28 cáries, vi a necessidade de canais e da implantação de duas coroas, fora a periodontite avançada

Antes de sair da sala, Sarita agradeceu pelo serviço - sessenta anos atrás os papéis eram opostos.

Então eu precisei pressionar o indicador e o polegar contra as pálpebras que cobriam meus olhos para evitar que as lágrimas escapassem e para que a escuridão apagasse aquele amarelo repulsivo.

O Inacreditável Relato da Prostituta Decapitada

Para aqueles que acreditam piamente na redenção post mortem e nas maravilhas que o falecimento trará - acho que ainda devem formar boa parcela dos ainda vivos daí da Terra - envio notícias alarmantes.

Peço apenas que ponderem as informações que seguem, já que creio que deverão agradar aqueles em paz com sua verdadeira essência e desagradar mortalmente aqueles que não sabem ser o que verdadeiramente são.

Faço aqui pausa respeitosa para saudar o trabalho do médium que, sempre disposto em ocasião de contato, psicografa este texto sobrenatural.

Logo ao chegar, ainda atordoados e buscando focalizar algo familiar em meio a toda a claridade cegante, somos recepcionados por sorridentes e belas mulheres que encaminham os recém-chegados para os locais apropriados, após educadas boas-vindas.

Somos então separados em grupos e nos dão intruções para o famoso julgamento, que não é assim tão rígido quanto imaginam por aí.

Leva-se em conta neste julgamento, principalmente, a qualidade, quantidade de pecados cometidos e o modo como tratou a mãe durante sua passagem terrena; depois, algumas imagens são exibidas para a apreciação dos serafins. Não posso deixar de informar que nesse momento, quando duas cansadas figuras angelícais assistiam meus feitos, sofri de uma vergonha que jamais havia passado nos meus dias de prostituta. Fui repreendida pelos anjinhos apressados por causa de atos que confesso terem sido inapropriados e que, sob os olhares azuis de recatados anjos, dão impressão de serem ainda mais imperdoáveis.

Os alvos seres alados, tenho certeza, não gostaram de ver como fazia a vida; olhando agora sei que poderia ter feito melhor. Passei boa parte dos anos acima do peso e agora me pergunto como era tão requisitada.

Há depois uma entrevista com um garboso serafim.  Foi então que deitada no divã pedi a ele perdão total por meus anos passados nos meios fios das calçadas da cidade e pelos passeios muitas vezes bizarros dentro de automóveis infestados por uma número indeterminado de adolescentes ensebados.

Faremos um parenteses aqui para detalhar minha morte e em breve retornamos aos assuntos referentes aos céus.  Foi por causa de minha atividade mal remunerada de prostituta de rua que acabei por estas bandas celestiais.

Estava, como de praxe, com as pernocas para fora, na tentativa de atrair o olhar e a líbido não saciada de um pobre solitário, em plena tarde de um domingo de Páscoa (domingos de Páscoa sempre são fracos, mas tardou menos do que o comum), quando um lustroso Uno Mille sinalizou com o farol a intenção de estacionar. Aprontei-me internamente para aguentar mais um rapazote enquanto a janela baixava.

E não é que ali estava ele, Clodoaldo, meu maior cliente, e responsável direto por meu falecimento. Entrei no veículo que tremia ao som de um motor engasgante. Havia nem ajeitado o cinto de segurança e o odor inconvivível do Clodoaldo já se fazia presente. Rezei para que tudo chegasse ao fim o quanto antes.

Já no quarto, tratei de abrir todas as janelas que podia afim de atenuar aquele colônia de axila. Em vão. No leito, preparando-me para seduzi-lo, levantei-me sobre a cama para tirar meu top de seda e uma haste particularmente afiada do ventilador bambo decepou minha cabeça e atirou-a precisamente para além da janela aberta. Ficaram no quarto meu corpo e a expressão horrorizada do sujeitinho fedido.

De volta ao chamado paraíso.

Após responder sim às repetidas perguntas sobre se estava arrependida da vidinha desregrada e infeliz que havia levado, fui obrigada a prestar um juramento.

Jurei jamais me render à putaria, à boêmia ou ao vício, seja lá à qual modalidade esse pertencer, enquanto estiver por ali. Assim, fui perdoada  pelos céus. Simples. O perdão me fez sorrir e respirar tranquilamente, mas essa vivência intensa pela qual começei a passar nesta minha recém-iniciada vida pós morte estava me cansando deveras; afinal, os mesmos que acreditam nesse lugar, afirmam também que o ócio reina soberano por sobre as nuvens.

Mas não era assim, e se meu esgotamento prosseguisse neste nível por toda a eternidade, teria começado a desejar retornar aos dias de prostituição. Por sorte, posteriormente, tive momentos bastantes serenos e que ajudaram-me a enfrentar os terríveis acontecimentos que seguiriam.

O número de pessoas que aqui aporta é de se espantar e o trabalho constante e rápido empreendido pelos querubins também é.

Observá-los voando de um canto a outro, separando contingentes intermináveis em filas, carimbando papeladas e documentos fartos, xerocando cpfs e atestados de óbito em meio à sons que em nada lembravam as harpas por aí citadas, me fazia pensar se é vantagem ter como profissão a de anjo.

Eu achava que não, apesar da existência de um trabalho particularmente interessante: o de "chamada", o qual  consiste trazer para cá as pessoas aí estão. Tudo controlado minuciosamente por um computador que seleciona, sob as ordens de um anjo especializado, de dentro de uma sala restrita, a " Sala de Chamada", os convidados a se retirar da vida terrena.

Mas não apenas os anjos formam o corpo de trabalhadores desse paraiso esquisito. Nós, não anjos, também somos postos ao trabalho, desempenhando as mais variadas atividades. Tenho certeza que este relato não lhe agrada e que começa a temer por saber que pode ter de trabalhar após seu falecimento.

Pois não é verdade que muita gente morre só para escapar do trabalho?

Pois é verdade que meu dia a dia no céu era igual ao da Terra, ao menos, sentia-me igual: acordava deprimida e levantava por obrigação; trabalhava num emprego desumano, fingindo me preocupar com o bem-estar alheio enquanto tratavam meu corpo assim como um tratam jornal velho abandonado ao léu; voltava para minha alugada e pequena nuvem e dormia para não mais acordar.

Sentia uma intensa atração para que voltasse àquela sórdida vida, mas o juramento feito por mim, e também pelos outros, impossibilitava qualquer modalidade de safadeza.

E além disso, toda manhã, ao contrário dos demais hospédes que alegram-se com o desjejum farto que era servido, eu descia as escuras escadas que levavam para um região cavernosa coberta por enormes rochas escuras e cercada por altas e raivosas labaredas.

Ali a temperatura era notadamente elevada, mas ao atravessar a porta da sala e adentrá-la, o ar condicionado refrescava e fazia-me esquecer o sufocante calor lá de fora.

A sala estava sempre deserta se não fosse a presença de uma dúzia de querubins pervertidos que ficavam pedindo para que eu contasse minhas histórias escabrosas e mostrasse as panturilhas. Eles riam desgovernados, envergonhados e acho que certa vez vi de relance uma ereção angelical.

Mas não era isso que me irritava, o chato era sofrer abusos dos antigos clientes que aqui reencontrava. E eu, que havia sido escalada para trabalhar de hostess da seção Latino-Americana dos recém- chegados, encontrava-os a todo o instante.

Comecei a perceber que as coisas eram iguais às da Terra, pois certo dia nos foi comunicado que um forte crash em nossa economia iria prejudicar a vida de toda a população celestial.

Alguns falavam em perdas massivas de salários, outros estavam certos de que demissões coletivas estavam por vir. Deus falava que era só uma marolinha e que não iria  surtir efeito nenhum e nossas vidas prosseguiriam da mesma maneira.

Mas ele estava enganado. Então recebemos, perplexos, a notícia da demissão coletiva e logo uma putaria insana tomou os céus.

Os anjinhos, fartos dos trabalhos extenuantes, livravam-se de suas lisas vestimentas brancas e voavam ensandecidos com seus míudos pênis em riste na direção dos que ali estavam ou chegavam - deve ser um experiência traumatizante morrer e logo depois visualizar anjos nús, com pênis eretos, perseguindo pessoas, dentre elas você.

Mulheres, já não mais convivendo com a abstinência, roçavam as bundas nas harpas e demais objetos roliços e se enganchavam com outras igualmente descontroladas. Adolescentes deitavam-se sobre as nuvens e masturbavam-se chorando de alegria.

Corpos de homens e mulheres confundiam-se em uma única massa carnal e gemidos e gritos eram agora a trilha sonora daquele paraiso. Em certo momento, Deus foi cercado por idosas fervorosas que, decepcionadas com sua incompetência, ataram Suas mãos, surraram-O e atearam fogo em Seu corpo.

Nietzche sorriu sob o espesso bigode e agora podia gabar-se de estar certo.
"Deus está, agora sim, morto"- disse, satisfeito. E eu também sorria.

Esperava ver as beatas, crentes, padres e sacristãos contemplarem o verdeiro céu, e então corri à "Sala de Chamada" e tratei de selecionar todo o corpo eclesiástico do Vaticano de uma só vez.

Voltei correndo, já nua, claro, para a seção Européia dos recém- chegados, e não pude conter minha diabólica risada quando vi caminhando, liderando a fila pálida, o santo padre.

"Mas que zona é essa, minha filha?" - perguntou ele, sem esconder sua felicidade."Sempre achei que o céu deveria ser uma putaria brava" - completou, abandonando suas vestes e caminhando firmemente rumo à perdição.

Aí eu acordei

Eu acordei. Tinha sonhado com uma loira em uma banheira. Eu não estava na banheira com a loira. Levantei da cama já frustrado por não conseguir ao menos ser competente e me pôr naquela banheira ao lado, ou em cima mesmo, da agradável loira. Fui ao banheiro pisando pesadamente a ardósia fria que deixa meu covil ainda mais inóspito. Precisei acender a luz do banheiro para encontrar a pia, o que me fez perceber que ainda não havia amanhecido. E ali, ainda me torturando pela covardia onírica imperdóavel, lavava o rosto, inclinado sobre a pia. A água que respingava de minha face deu a impressão de um banheiro gelado e fez apressar meu retorno à cama. Pois então, ao desligar o interruptor, um pedido educado fez com que eu desistisse momentaneamente de voltar aos sonhos:
- Por favor, não apague a luz.
Reacendi a lâmpada e dei dois passos lentos, reentrando o banheiro.
Dentro da minha banheira, que eu devo ter utilizado umas três vezes no máximo e apenas para banhar meu chiuaua - hoje, já falecido -, estava minha antiga professora de Orientação Sexual, professora Terezinha..
O que foi bastante esquisito, por que ela estava nua, e além disso, ela estava me parecendo bastante receptiva, pois ela fazia-me um convite irrecusável com seu dedo indicador, dobrando-o repetidas vezes. Eu desejava fortemente parar de andar em direção à banheira, mas aquela senhora estava sendo tão receptiva e eu estava tão sozinho desde que meu chiuaua se foi.
Aí eu acordei. Tinha sonhado com uma antiga professora e uma banheira. Eu ,felizmente, não estava na banheira.
Levantei da cama em uma felicidade extrema por ter sido despertado por algum santo antes de adentrar a banheira e fui até o banheiro caminhando sobre o suave carpete que transforma meu covil em um ninho onde o amor reina implacável. O sol já havia despontado e o banheiro recebia exatamente a quantidade de luz que era preciso para deixá-lo esplendoroso. A água morna brindava a inquestionável saúde de minha epiderme facial, e então, enquanto apreciava humildemente a perfeição de meus traços, ouvi a celestial voz de um anjo dourado. Virei, buscando localizar o alado ser, e a encontrei lavando seu corpo perfeito, mostrando sua alva dentição em um sorriso irresistível. Caminhei rápido, sem dar tempo para que qualquer problema interrompesse minha aproximação e então, muito antes do imaginado, estava eu ali, centimetros distante de seu corpo...
Aí eu acordei, tinha sonhado com uma loira e uma banheira. Mas não, eu não estava na banheira com ela. Levantei da cama frustrado e me encaminhei ao banheiro, lavei meu rosto, decepcionado. Então ouvi uma voz, não era suave, nem angelical:
- Porra, Sidney!!
Era minha mulher defecando.
Aí eu não acordei...droga, eu não acordei!

O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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