Corria pelos vales afundados no branco espesso, bainhado pelo cinza escuro que se fazia pele de céu, aquele garoto que optou em fugir.
Outros meninos, diante daquilo, talvez preferissem aguardar a lâmina da guilhotina, outros, de fato, assim fizeram.
Mas por naquele tempo não passar na cabeça de menino algum ver sangue e rostos despedaçados ou de ouvir gritos e clemências de senhores de vozes educadas, foi entendida a razão da paralisia. Os animais eles viam com freqüência retorcerem-se em agonia, mas com gente tudo o que se presenciou foi inédito.
Naquele tempo, se acreditava que a pureza do ar revelava a impossibilidade da manifestação da crueldade e que o vento carinhoso, que não poupava afagos e acostumou à tranqüilidade a população reduzida que caminhava em passos lentos pelas ruelas de pedra polida, manteria ausente qualquer distúrbio aos sorrisos e reverências.
Tudo o que se via, caso se visitasse aquela cidadezinha durante uma terça feira à tarde, era senhoras de cabelos longos, branquíssimos tal qual a neve que tudo cercava, indo apreciar a branquitude que também coloria a terra até as margens do horizonte; via-se também os homens com suas grossos casacos manchados pelo arco íris, compartilhando suas visões sobre o porvir, debruçando-se sobre as mesas das praças e buscando os significados ocultos dos sonhos alheios.
Desvendar as simbologias oníricas era tarefa masculina naquela comunidade, às mulheres bastava a beleza criativa, as situações impensadas e estranhas.
Mas então ninguém mais sonhou, nem homem, nem mulher.
E as reuniões nas praças ganharam uma tonalidade nebulosa. O futuro que se imaginava era agora delimitado por linhas tremulas e confusas e, em seu interior, pintava-se cores interrogantes; as palavras que antes ecoavam em cada vogal um riso gratificante, eram agora a voz do desespero e da incompreensão do destino.
Então, quando, nas ruas, perdia-se a calma costumaz e os pés respeitosos pisavam apressados e temerosos, e nas praças via-se o amanhecer de discussões, algo começou a surgir durante o sono, mas apenas para os homens. Não eram sonhos. Enquanto dormiam, eles viam suas próprias mortes, sentiam o fogo das entranhas dos subterrâneos submergir, evanescendo a neve e queimando suas peles; cheiravam o vapor incinerado das praças e ruas; escutavam o relincho pavoroso dos cavalos ao avistarem gigantescas serpentes negras arrastarem-se pelas janelas dos estábulos e das casas.
E às mulheres, que agora dormiam sem sonhar, e que quando acordadas presenciavam o horror que aquelas imagens causavam à vigília dos homens, nasceu um sentimento estranho de agradecimento. Apesar de não mais sonharem, preferiam a escuridão vazia da noite ao horror das imagens de carnificina e desolação.
Alguns tentavam resistir à sonolência, fugindo como podiam de assistir a si próprios morrerem cruelmente, ora queimados por um incêndio grotesco, ora devorados por serpentes negras. Mas aquele castigo parecia implacável, estavam fadados às noites de pavor e a dias de conflitos com os mesmos à quem outrora eram tão queridos. O ar refrescante da neve agora ardia como nos trópicos e tudo era mal estar.
Não foi o padre, algum homem sábio ou senhora sensitiva; coube às primeiras palavras de uma pequena criança revelar a reposta messiânica que libertaria a cidade incrustada na face oculta da montanha branca.
A mãe não encontrou razão para orgulhar-se da sua criança quando esta balbuciou a solução impensada, sentada em seu cadeirão, durante o almoço; o horror que a frase sustentava fez a mulher levantar e deixar a menina sozinha, confusa com o som que lhe saia pela boca desdentada da filha
O que a menina afirmou naquele princípio de tarde não correspondia com os sonhos trágicos que arrebataram os homens. Tudo levava a crer que eles morreriam sim, mas não conforme os sonhos mostravam.
E a mãe - que correra até uma janela distante e observava a linha escura que separava neve e céu que começava a acinzentar-se - repetia para si a afirmação recente: “Se querem sonhar com a beleza, matem aqueles que sonham com a tristeza”.
Os sonhos extasiantes que brindavam a vida de todos ali eram a força motriz da calma e da paz que envolvia a cidade. Quando as cores deram lugar ao cinza e a morte tornou-se a canção de ninar, a cidade convalesceu. Os homens tornaram arredios e agressivos, mesmo fracos e magros, e as mulheres, tomadas pelo negro vazio do adormecimento, tornaram-se seres indiferentes e afastadas, e a gratidão inicial ia se transformando em revolta calada.
Porém, quando a menina falou pela primeira vez, a desaparecida esperança voltou a resplandecer no horizonte além da neve. A menção ao retorno dos sonhos apaziguou levemente a alma da mãe, mas a dor só cessaria com o fim daqueles que sonhavam com a tristeza.
Os homens estavam completamente surpresos quando avistaram a presença irrefutável de seu fim, naquele início de dia. Primeiro, pela raiva presente na face das afáveis mulheres e segundo porque aquilo não se assemelhava com o que os sonhos previam.
Todos foram levados para a praça central, o local do compartilhamento dos belos sonhos, agora, porém, eles seriam decapitados pelas guilhotinas antigas dos tempos da revolução. Durante uma manhã, as mulheres deram cabo de todos os homens, e à tarde, foram as crianças que, estupefatas pelos ataques, foram rapidamente exterminadas; exceto um único menino, que prontamente correu através do vale que descia para o sudeste.
Assim, além de se ver morrer toda a noite, tornava a escutar diariamente os gritos de pavor seu pai e revia as inapagáveis poças vermelhas que escorriam pelo gelo. Assim foram pesadelos do menino até sua última madrugada, trinta anos depois de sua fuga
Para as mulheres só restou lidar com o sangue, guardar as guilhotinas e o negro do não mais sonhar que as acompanhou durante três décadas, até certa manhã quando saíram todas as ruas e chorando, contaram que sonharam com o perdão de seus maridos e filhos.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
O Pardal Imoral
O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.
Por Guilherme Abati.

Nenhum comentário:
Postar um comentário