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Avante, Dênis Curto!

Dênis Curto foi demitido do emprego por ter bafo de bosta.

O senhor tem bafo de bosta, disse a mulher do RH.

Bafo de quê? - Curto não estava prestando atenção.

De bosta, replicou a moça.

Bosta. Podemos falar bosta aqui no emprego?

Pode falar. Com parcimônia, obviamente.

Compreendo. Contudo, preferiria que você, moça do R.H, ao se referir ao odor do meu hálito, dissesse cocô. Pode ser assim?

Ok.

Então, diga lá.

Senhor Curto, o senhor tem bafo de cocô.

 E daí?

o senhor está sendo demitido por isso.

Compreendi. Mas que péssima notícia. De qualquer forma, obrigado por falar comigo. Abraço.

Igualmente.

Curto já ia escapulindo quando veio-lhe a mente um questionamento que julgou digno de ser exposto naquele momento. 

Quer dizer então, disse antes de deixar a sala, que as pessoas que têm cheiro de cocô na boca estão sendo demitidas?

Não é uma política institucionalizada, senhor Curto. Não ainda. Veja bem. Mas é uma prática recomendada pela OMS desde setembro deste ano.

A OMS aconselha as empresas a demitirem os funcionários cujas línguas cheiram feito cocô?

Sim. Tenho inclusive o paper aqui, publicado na Conferência de Illinois. Veja só.

Curto esticou seus dedinhos e trouxe a publicação até sua vista. "Stinky breaths can lead your company to bankruptcy – Why, if the toothbrush can resolve the issue, you need to step up and act like a bloody man - By Malachias Passareye".

I see.

Publicação e tanto. É um problema de saúde corporativa - explicou a moça do R.H.

Mas esse meu problema vem sendo motivo de reclamações há tempos?

Não. Começou há três meses.

Curto gargalhou. Ora, mulher idiota. Porque és tão cretina?

Ora, não faço ideia.

Não vês que na verdade não és minha boca que fede a merda, mas sim minha cara?

No compreendo – disse a moça do R.H, alarmadíssima.

Não vês que na minha cara há um tipo de substância amarronzada feito merda?

Sim.

Pois é merda. A pura merda.

Oh! Achei que fosse algum problema de pele.

Oh! Não, não é problema, são fezes mesmo. Veja só.

Curto esticou o dedo e esfregou a ponta contra a testa, retirando um tanto de material fecal da face.

Apontou o dedo para a moça do R.H.

Prove!

Ela olhou para Curto um pouco abismada. Hesitante. Por fim, pôs a língua para fora.

Curto depositou o cocô do dedo na língua ansiosa da mulher.

Sim, é merda mesmo o que tens na cara – disse ela, degustando demoradamente.

Não é um problema de bafo de bosta – explicou Curto.

Mas, ora, o que é então?

É um problema trabalhista.

Tente explicar-me isso aí – pediu a moça do R.H.

Ao chegar ao trabalho, todas as manhãs, encontro dois amplos tabletes de merda sobre os teclados de meu computador. Pendurado na ponta do palito de dente, sobre um desses pedaços, há sempre um bilhete, cuja mensagem invariavelmente é “Esfregue-me na cara, logo, antes de eu seque, estou quentinha”.

Ora, que horror. Mas quem é o autor disso?

Nunca descobri.

Será seu chefe?

Não faço ideia. Apenas vou até o banheiro, para ter mais privacidade e esfregar com mais cautela. Mas pode ser qualquer um. Um faxineiro. Um colega.

Porque você obedece a esse pedido absurdo?

Ora, obedeço porque tenho medo.

Medo. Eu também tenho – confessou a moça do R.H.

Esqueci de comentar que depois da parte que diz ‘Esfregue-me na cara, logo, antes de eu seque, estou quentinha’, está escrito sempre, ‘senão você está demitido”. 

Não posso crer nisso que conta. Não posso crer que tenhas permitido isso, senhor Curto. Deverias ter combatido essa ação indecorosa, esse abuso.

Ora, de que vale? Estou demitido de qualquer jeito. Esfregando ou não. No fim, sempre sairemos, não é? Da vida. Do trabalho. Esfregando merda na cara ou não. O resultado é sempre igual.

A moça do R.H, Richelle do Rego, olhou o homem com cocô na cara levantar-se cabisbaixo e deixar a sala. 

Disse ela, antes da porta bater, Avante, Dênis Curto! Avante! Levante essa cabeça, Dênis Curto!

A porta fechou-se num estalo. E então ela gargalhou.

Pobre idiota, disse Richelle, antes de coçar o cu. 

Cagaria no teclado de quem na manhã seguinte?

O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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