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Vespúcio e sua vespa - Parte 1

Muitos ainda hão de lembrar-se da horrenda tragédia ocorrida no dia da inauguração do Instituto de Depilação Vanessa em Vespasiano, Minas Gerais, Brasil, 1989.

Entrementes, pouquíssimos hão de lembrar-se do dia em que Creuza, tendo nos braços seu pequeno recém-nascido e fugindo de meia-dúzia de funcionários de um restaurante, depois de ser abandonada por um misterioso piloto de um  balão movido a gás hélio, número atômico 2 (dois), adentrou a fronteira da tal localidade conhecida como Vespasiano, incrustada timidamente no estado de Minas Gerais, Brasil, no ano de Nosso Senhor de 1974.

É fato também que ninguém além dos envolvidos conhece a verdadeira razão para Creuza chegar a Vespasiano fugindo de furiosos funcionários depois de abandonada pelo dono do balão, ou o motivo pelo qual seu mirrado rebento recebeu a alcunha do destemido Américo Vespúcio, sendo que a ignóbil moçoila jamais teve a menor noção de que existisse para além dos mares de morros mineiros algo como o Oceano Atlântico ou a Europa, e que se pudesse chegar a este através do outro.

Na época em que Creuza deixou sua cidade natal, a mui popularesca novela Roque Santeiro era um sucesso estrondoso de audiência. E talvez inflamado pela narrativa atordoante da produção televisiva, ou pelo excesso de cachaça que já empapava seu fígado degenerado, o insano prefeito de Matosinhos - cidade onde Creuza nasceu e reproduziu-se um bom número de vezes - aprovou a lei que tornava obrigatório registrar todos os nascidos do sexo masculino com a alcunha de Lima Duarte.  

Quase uma dezena de meses depois dessa decisão idiota, a bastante embuchada Creuza deu à luz a dois meninos maravilhosos, belos, e com apenas umas duas ou três verrugas na cara, mas recusou-se peremptoriamente a chamá-los de Lima Duarte ou de qualquer outro nome que não emergisse de sua própria inteligência.

Como ninguém se importou com tal recusa (as crianças vieram ao presente mundo em dia de jogo do Atlético-MG, em um ermo pasto enlamaçado, distante de qualquer par de globos oculares que não pertencesse a ovelhas ou bodes), Creuza pode viver tranquilamente durante algumas boas semanas com os únicos de seus filhos que não foram raptados por nenhum dos inúmeros abutres que circundavam o espeço aéreo da região, e se dedicou a pensar nomes para os meninos.

Mas não conhecia nome algum além de Lima Duarte e Benjamim Constant, e como seus filhos anteriores foram nomeados respectivamente de Benjamim Constant, Constant Benjamim, Benjamim, Constant e Benjamim Constant II, Creuza viu-se sem nome algum para suas mais recentes crias.

Então, em uma manhã dessas daí, Creuza esgueirou-se até o sebo do velho Albino Pinto, ali na praça central de Matosinhos, e perguntou se não haveria de existir por aquelas prateleiras lavadas em poeira uma tal de “Encicropédia Bitranica”.

O velho foi, e voltou com um grosso volume de capa vermelha. Creuza pediu que ele abrisse o livrão em qualquer das páginas e lesse o primeiro nome com os quais seus olhos remelentos topassem.

- Bucéfalo! – vociferou Albino Pinto.

Creuza emputeceu-se, e imediatamente ordenou uma nova tentativa. O velho empertigou-se diante da negação da mulher, e depois de abrir em uma nova página de forma completamente aleatória, a ponta de sua unha recém-lixada achou o nome Américo Vespúcio.

- Hum, esse tá é bom! - conferiu a mulher – Agora outro!
- Amedeo Clemente Modigliani! – vibrou o velho, assim como haveria de vibrar meses depois, quando o salafrário do marido de sua filha marcasse o gol contra mais inexplicável da história do “Casados X Solteiros da cidade.

A mulher inflou-se em dúvidas, mas desistiu de teimar em usar o cérebro em assunto frouxo como aquele e fez a dupla de nomes ser aceita por seu espírito de mãe. Mas antes de sair do sebo plenamente satisfeita,  aplicou uma justa voadora na pilha de livros que guardava a entrada daquele sebo sem razão.

Horas depois, Creuza pegou seus filhotes no colo e subiu até o cume da mais alta montanha daquele geologicamente aturdido perímetro. Sentia-se decidida em chispar daquele lugar e nunca mais reencontrar Albino Pinto, cujo pinto havia sido, nove meses e algumas boas semanas antes, o promotor de todo o embucho e posterior parimento das crianças que ela agora carregava onerosamente por sobre os ombros fustigados.

À beira de uma faminta e profunda garganta, cavada longos quilômetros terra abaixo, nossa querida Creuza fez-se distraída por observar uma pedra que se mantinha calada mesmo quando importunada por musgos e formigas e mulheres em fuga, e foi aí que seu amado Amadeu Modigliani largou de seus braços e mergulhou rumo o breu de onde nascia o pestilento abismo, e depois de deitar-se estrondosamente por entre algumas especialmente afiadas rochas que decoravam o piso do precipício, o menino passou a apresentar um aspecto físico muito parecido com o de uma gostosa sopa de mandioquinha.

Entristecida, Creuza tratou de sinalizar ferozmente, pedindo carona para que as nuvens apressadas que corriam para o poente tirassem-na de lá imediatamente.

E então, para o fascínio dos olhos lacrimosos, indo contra todo o bom senso que permeia esta narrativa, desceu de uma alva nuvem um balão enorme, o qual fez questão de pairar ao lado da mãe enlutada por alguns momentos como um beijo-flor analisando o aroma de um tentador botão. De dentro do veículo alado, uma mão estendeu-se cheia de ternura; aconchegou a mãe e filho sob sua proteção, e partiu por entre as nuvens para Vespasiano, Minas Gerais, Brasil - e isso foi em 1974.

O Tenente-Brigadeiro-do-Ar Hércules Arraia, que pilotava com maestria ímpar o balão imenso, certificou-se que qualquer júri neste planeta lhe daria razão e, sendo unânime sua absolvição diante de um juiz hipotético, estaria de volta aos céus e ao seu balão sem tardar.
Pensou nisso realmente, vislumbrando a possibilidade de arremessar para fora do balão, com um satisfeito sorriso no rosto, aquela mulher e o bebê que não cessavam um instante sequer, respectivamente, de falar e de cagar - apesar de certa hora terem trocando as atividades - mas isto foi uma vez só e queria apagar de sua lembrança a imagem da mulher acocorada, surpreendida pelas primeiras palavras do menino Vespúcio.
O fato desencadeador de todo aquele cruel exercício de imaginação judiciária, que felizmente não foi levado a cabo, e que havia aborrecido sua comumente tranqüila alma, foi perceber que a mulher estava utilizando suas calças oficiais guardadas na mala como fraldas descartáveis para o menino - e para ela também, na ocasião do terrível momento supracitado.
Mas Hércules Arraia sabia que era homem bom e que podia até imaginar uma morte horrenda para aqueles dois pobres coitados, mas empurrá-los daquela altura jamais haveria de acontecer. Tinha outra alternativa em mente.
Pousou o balão no estacionamento de balões do Frango Assado, já a poucos quilômetros da cidade de Vespasiano, e disse, sem deixar de transparecer certa ansiedade “Acho bom comermos alguma coisa. Mas antes preciso validar este ticket. Vá em frente e pegue algo suculento para este meninão desjejuar. Encontro-os logo em seguida”. “Farei isto sim, Tenente- Brigadeiro-do-Ar”, consentiu a mãe do diminuto Américo Vespúcio.
Longos minutos após este breve diálogo, a mãe com o filho em belos sonhos entrou na ampla e bem vigiada área reservada para balões e foi como se uma injeção fosse aplicada diretamente em seu átrio superior esquerdo ver que o balão não maijazia colado à terr, mas planava metros e metros acima dali, demasiado longe, próximo de ser engolido por uma monstruosa nuvem de tormenta. E ela nem tinha ali nos bolsos quantidade suficiente de papel moeda para pagar as coxinhas e beirutes que engoliu durante os longos minutos anteriores.
E foi em frangalhos; a pé; fugindo agora dos funcionários de dura descompaixão da rede rodoviária de alimentos lesada pela burla; carregando sobre si um pesado neném com claros problemas no tubo digestório - que a mulher chamada Creuza atravessou a divisa entre a mística Birirituba e Vespasiano, e deu os primeiros passos na cidade que haveria de ser palco de uma tragédia impensável, a qual seria causada em parte por seu próprio filho, aquele ali dormindo pesadamente em seus braços, 15 anos depois, quando este incendiaria o Instituto de Depilação Vanessa, em pleno dia de inauguração, por terem acidentalmente assassinado sua única amiga, uma frágil vespa.

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O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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