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O dia em que minha alma pediu demissão

Naqueles dias de calor mal-educado, dias em que nossas sobrecarregadas glândulas sudoríparas, trabalhando em três turnos, chegam a pensar em pedir demissão e ir procurar outra coisa pra fazer dessa enfarada vida, quem abandonou o barco foi outra coisa: peça componente do espírito humano ainda mais importante que glândulas sudoríparas - de acordo com o que costumo ouvir de madrugada na televisão.

Até então, minha pessoa desacreditava com ardor veemente em tal elemento que veio a desertar-se de mim mesmo - e esse ardor veemente era tão irrevogável quanto a incidência solar daqueles dias de esquálido fervor - pode crer, preclaro leitor.

Nessas fustigantes horas de temperatura excedente, conquanto o clima na minha residência alugada não estar dando praia, o exponencial assar de minha batata, aliado ao caso do ventilador, fez com que eu dormisse a noite de domingo trajando minha sunguinha branca all by myself no playground do condomínio onde alugo um apartamento de dois quartos e zero ar-condicionado.

O ventilador eu até tinha, mas depois daquele miserável gol do miserável Valdívia naquele mesmo miserável domingo, eu atirei-o peremptoriamente para além da miserável cerca eletrificada do residencial – minutos depois eu ouviria um sincero “muito obrigado” de um morador vizinho, que julgo carecer previamente de algum desses miseráveis dispositivos amainadores de calor.

Depois de sacar o aparelho ventilador de minha sala feito uma bola de vôlei, já deveras aturdido pela opressão calorífica, e com as orelhas adustas pelo esbravejar intermitente de minha esposa que, até com certa razão, condenava aquele elã futebolístico inconseqüente, digno de um corintiano derrotado, eu fui obrigado a encaminhar-me resignado, acompanhado por uma almofada confortável como um penedo pontiagudo, para o catre feito de plástico de brinquedo de criança, onde pernoitaria deploravelmente. 

Antes de atirar-me aos braços de Orfeu, que, devido ao zunzunar enlouquecedor daquela sauna que era o mundo então, deveria estar envolto em uma catinga dos infernos, pesquei parte da sunguinha que já estava em pleno mergulho por entre minhas nádegas, expirei morosamente e, por fim, pus-me ao sono.

Acordei - como sempre faço algum tempo depois de dormir - quando o soçobrado sol do meio-dia já rasgava o céu, devassando meu hermético e reduzido espaço aéreo. Os pássaros morriam em meio aos seus vôos desesperados, enquanto buscavam a segurança de alguma rara e premente sombra - acho que o astro rei ansiava em ver material orgânico incinerado, feito cabeças de fósforos, e sei que ele se esforçava o quanto podia para isso.  Eu, que deveria estar completamente alquebrado diante daquela configuração inconvivível de mundo, nada sentia de calor, de pertinaz revoltada, de dor ou de ressaca (sim tinha tomado uns engradadinhos de Krill com minha mãe durante a clássica peleja – ela também morava em nosso apartamento alugado, na suíte; eu e minha esposa aceitamos o quartinho do corredor). Mas não, leitor. Pode crer que não! Não experimentava amargura nenhuma, tampouco contentamento pelo dia recém-nascido. Quando levantei, indiferente em face daquela arrosta, encontrei depositado dentro de minha sunga uma carta de demissão escrita por mim mesmo, ou melhor, por aquilo que se auto-intitulou minha insatisfeita alma.

Aceitei a demissão que não envolveria advogados, audiências ou indenizações. Achei justo, apesar de não entender se ele estava demitindo-se ou demitindo minha pobre pessoa. Voltei para minha residência e ali dei-me com minha mãe resmungando desvairadamente, palrando incompreensões contra uma porta fechada, a porta de sua própria suíte. Ela veio e disse-me que um homem gigantesco, forte e enérgico, havia levado minha esposa para dentro do quarto, e que por lá eles permaneciam trancados há horas.

Não reagi diante da informação.

Então um rumor foi trazido pelo corredor e o casal saiu estugado do tugúrio, após destrancar a porta. O homem se apresentou, disse ser minha alma, e depois cingiu a cintura da minha sorridente mulher com meus imensos braços ébanos. Lá estava minha esposa, vibrando como o sol lá de fora, acompanhada por minha alma, um negro de dois metros de altura, sem mais vínculos empregatícios comigo.

Sorri quando passaram, despedindo-se, levando meu carro – receberam a chave depois de pedirem por dinheiro. Achei justo aquilo tudo, então foi-lhes dado a totalidade da  modesta quantia que possui ali na minha esguia carteira, e depois do seco bater da porta de entrada, que agora era uma simples saída de mão única, sentei-me no sofá com minha mãe. Ligamos a televisão e revimos por três vezes o miserável gol do miserável Valdívia, e eu achei realmente justo tudo aquilo.


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O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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