Dali do alto dos seios do manequim, o sutiã assistiu a
passagem arrastada do tempo; notou com atenção as transformações nos gostos das
clientes e das modas que seguiam; chorou durante longas noites, depois que as
funcionárias apagavam as luzes e o deixavam sozinho no escuro indomável; nos manequins
da loja de esporte defronte da vitrine onde era exposto, contou o aumento das
estrelas sobre o distintivo sagrado do Sport Club Corinthians Paulista - as
quais multiplicaram-se rapidamente pelos últimos anos do último século.
Um dia,
então, finalmente um par de olhos de brilho jovem, totalmente distintos
daqueles que por longo tempo apenas o percebiam com desinteresse, notaram-no de
verdade e ficaram por observá-lo, adorando suas formas e cores, e sonhando com
ele posto em seu corpo de menina, suportando as aguardadas mudanças que trazia
orgulhosamente em si.
Segundos depois o sutiã foi levado num contentamento ainda
maior que o da menina, e assim rumou para a casa onde serviria dignamente o
corpo daquela que o escolheu.
Todo o pesar por amargar o esquecimento por sobre aqueles
seios inanimados e pálidos, por experimentar repetidamente o repúdio nos olhos
daquele contingente de madames, não seria nada diante dos próximos anos que ele
e a menina tinham pela frente.
Foi o primeiro a ter a honra de tocá-los e aceitou
corajosamente tarefa de tão vital importância. Mas não suportava afastar-se
deles e da menina que tanto amava, e que havia tirado-o da vista das mesquinhas
transeuntes daquele shopping, aninhado-o sobre o cálido pulsar de um coração
que apenas se ajeitava naquele início de vida.
Conforme os dias passavam e mais mulher havia naquele corpo
de antiga menina, o sutiã notava que o fardo lhe era pesado demais e que antes
de ser tomado como inútil seria jogado num canto escuro de alguma gaveta empoeirada, e que
aí então seria de fato esquecido como se nunca houvesse sido ele o primeiro em
sua vida.
E então durante aquele que provavelmente seria seu último
serviço, o sutiã agarrou-a para nunca mais deixá-la ir; desesperado, queria acompanhá-la
por quanto tempo sua vida perdurasse, até o desolador instante em que seu calor
daria lugar ao frio cadavérico que a todos espreita.
E assim foi feito. A menina, depois mulher, e depois já
senhora, jamais livrou-se daquele sutiã. Usou-o primeiro, nos dias de menina,
com muito orgulho, mas depois só pôde carregá-lo como castigo que nem depois de
ter a vida esgotada livrou-se.
Não gerou filhos, pois não havia como; e também, como ela
fez questão de repetir para si até o último dia, a estranheza daquele objeto
que sugava sua vida a afastou dos poucos homens que se mostraram a ela.
Foi enterrada com ele. E enquanto sua carne esvaia-se, ele
lá permaneceu. Mas depois de nada lá restar, quando somente como companhia
havia o esquecimento e a escuridão, ele pôs-se para fora do caixão, arrastou-se
até a antiga vitrine e por lá ficou, esperando outra menina fresca de vida para
suga-la por completo.

meu deus.
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