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A Vingança da Irmã Transexual - Episódio 1 : Problemas no Motel


 “Bastardo, adiantou-se na pura sacanagem mais uma vez?” Ele perguntou, com os olhos presos ao incansável giro do ponteiro dos segundos do relógio de parede do outro lado da sala, ao mesmo tempo em que tinha a impressão que seu cérebro estava sendo congelado pelo jato de um extintor de pó químico daqueles vermelhos, sabe?

Levantou-se da mesa, onde gostava de passar as tardes fumando crack e derrubando pratos e copos com as pernas, e se aproximou do relógio de parede mancando - não havia razão alguma para manquejar durante aquele breve trecho, mas o fez por que era um cretino. Ele sabia disso, eu sei disso e você muito em breve vai saber também.

‘Droga!’ ele pensou. ‘A questão de trinta minutos ainda eram cinco horas e quinze minutos da tarde e o dia ainda estava clarinho como um cream-cheese em um temaki superfaturado. Por que é que o tempo se acelera para sacanear as pessoas com fortes tendências a se atrasar?’ perguntou, enquanto contemplava o negrume que adejava além das persianas da janela.

Ele acreditava que a escuridão diária era causada por alguma multinacional do ramo de lavanderias que costurava milhares de jaquetas de couro e as dispunham sob a abóboda terrestre de modo que enquanto as jaquetas se livram de alguma umidade inconveniente com a ajuda da luz, destituem os homo sapiens do calorzinho sempre gostoso que sopra do Soile.

E acreditava também que já deveria ser mais de oito horas da noite. E era. E era também mais de oito e meia e de nove horas. Para falar a verdade, era mais que nove e meia e dez horas. Mas não mais que dez e meia, por que era precisamente dez e quinze.

E ele estava atrasado. E sabia disso. E por estar atrasado, sabendo disso, estava chateado com ele mesmo, comigo, com os relógios, com o Corinthians e com o tempo, principalmente. Mas, naquele dia, estar atrasado o deixou mais irritado do que o de costume, uma vez que isso significava que inevitavelmente chegaria tarde ao único evento em que não deveria atrasar-se: a Conferência Internacional para Pessoas com Fortes Tendências a se Atrasar, onde apresentaria sua aguardada pesquisa sobre os benefícios humanitários da abolição de relógios.

Para seus ouvidos, o som da cega corrida do ponteiro dos segundos do relógio da parede da sua sala ribombava atordoantemente como o fragor dilacerante produzido por um quarteto de cordas composto somente por chimpanzés de fraldas. Ele, ainda fingindo manquejar por ser idiota, se arrastou cheio de dificuldades  até o telefone, onde pressionou o com dedo mindinho o botão intitulado on. Discou um número rápida e violentamente. Seu celular vibrou, ele o tirou das calças e disse “Alô?”. Ele respondeu “Oi, sou eu”. Ele disse “Oi, e aí?” Ele respondeu “Ah, vamos indo”. Ele disse “Sei como é”.  E ele falou “Olha parece que estamos atrasados. Mas tudo bem. Precisamos pegar sua noiva em sua casa e depois iremos à Conferência. Antes disso, porém, troque as cuecas e borrife abundantemente um perfume qualquer sobre as novas. Assim ficaremos bem”. Ele disse “Ok” antes de desligar.

Ignorou o farol vermelho, atravessando o movimentado cruzamento a bordo Ford Ka de sua irmã gêmea, sob o som das buzinas dos ônibus e dos carros que freavam e se esparramavam desordenadamente pela rua e pelas calçadas. Não ouviu nenhuma dessas buzinas e também não notou os guinchos dos pneus, ou o rumor daquelas latarias todas sendo amassadas, ou sequer os últimos berros das dezenas de vidas que se perdiam naquele instante, pois estava dirigindo impropérios para sua futura sogra, ao celular. Esta lhe dizia que ele já havia apanhado sua filha, trinta minutos atrás, e teimava em perguntar se aquilo haveria de ser mais uma das brincadeiras do rapaz. Ele falou que aquilo não brincadeira porra nenhuma. Ligou para o celular da noiva e ela atendeu, e da outra ponta da linha pôde ouvir aqueles invejáveis risinhos que florescem somente em um clima de efervescente teor sexual, sabe?

 ‘Onde você está, Carmelinha?’
‘Ora, mas quem és?’
‘Eu, oras bolas, seu noivo!’
‘Há-Há’.
Ela afastou a boca do telefone e informou alguém ao seu lado enquanto ria: ‘Tem um cara aqui no celular dizendo que é você, Miele!’ Mas aí sua voz ganhou preocupação. ‘E está ligando do seu número.’
‘Carmelinha, só pode ser mais um engano, desligue, é melhor, já estamos entrando aqui no motel’ – pediu a voz do outro lado.
E ela desligou.

Todos os pensamentos desordenados sobre aquilo que acabara de acontecer logo foram nublados por uma raiva incrivelmente incontida que começou a jorrar por dentro suas veias, e ele afundou os dois pés no pedal do freio do Ka e voltou de ré pelo mesmo cruzamento, fazendo com que novos carros, e dessa vez até duas ambulâncias, que vinham em resgate, se juntassem à massa disforme de metal, gasolina em chamas e sangue espraiado sobre o asfalto.

Ele pensou, tristonho como um recém-nascido, que ninguém lá de cima e também cá embaixo se importava com a extrema dor que naquele momento lhe machucava tanto quanto se graúdas saúvas carnívoras fossem soltas pelo interior de meus alvéolos pulmonares. E agora, além de seu atraso, vinha a seu conhecimento que ele mesmo já havia apanhado sua noiva Carmela e que neste momento ela e ele mesmo (?) deveriam estar apresentando seus documentos de identidade e escolhendo uma suíte barata para passar a próxima meia dúzia de horas em um motel borrifado pela fragrância afrodisíaca do vapor do rio Tietê.

Então veio à sua cabeça, enquanto, de ré, desviava dos veículos que cresciam e das estridentes buzinas que corriam em sua direção, que Carmela só poderia estar neste tal motel à beira do mefítico Tietê. Afinal, com 13 anos de idade, quase nenhum estabelecimento deste tipo permitia a entrada dela, com exceção do River of Love, onde o casal tinha um esquema firmeza.

Jogou o carro sobre o meio fio e subiu a breve rampa do River of Love numa corrida asmática, desviando dos muitos e trepidantes carros que formam uma fila enorme e ansiosa. Agarrou-se à cabine, arfando reimas, tossindo salivas, as quais, juntas, misturavam-se com o ar que entrava e saia. E quando notou que o ar entrava e saia rapidamente de si, ficou enojado de uma forma que quase perdeu a consciência, pensando na atual situação em que Carmelinha devia se encontrar.

Depois que seus olhos começaram a dar sentido às formas desfocadas e linhas desencaixadas do ambiente circundante, viu à sua frente o aspecto desmotivado e pouco propício a se solidarizar com o próximo que fluía da recepcionista. Ele tentou de tudo para convencê-la que estava sendo vítima de um ato de traição a poucos metros dali e que precisava entrar. Mas quando as buzinas impacientes da infindável fila cresceram e quase incineraram o parco ar que o mantinha em pé, ele começou a sentir sua nuca ensopada. Virou-se com curiosidade e nojo e viu uma Kombi decorada com motivos de uma banda de axé-music, onde um mínimo de seis amorenados homens junto a um número incontável de fêmeas se acotovelava por detrás das janelas para tentarem acertar seu olho ora com chicletes melados com um liquido viscoso e esbranquiçado, que ele rezou que fosse saliva seca, ora com cuspes certeiros, debilitantes e pegajosos– e foi aí, sem vislumbrar possibilidade de êxito, e tendo a face escarrada pelos interiores daquele grupo pestilento, que ele resolveu abandonar-se e desistir da vida e tudo o mais.

Coxeava pelo longo caminho de volta, arrastando a sola dos pés pelo áspero asfalto da rampa que agora descia, quando sentiu o ar ficar um pouco leve e confortável depois que abaixaram suavemente o vidro fosco de um dos carros de motor rosnante.  Levantou os olhos e viu um par de seres humanos que jamais pensou compor uma fila longa em um motel. Abancadas nos assentos de um Doblô castigado, estavam duas gentis freiras sorrindo-lhe um riso maternal, pedindo-lhe que ele se aproximasse prontamente. Ver aquelas figuras cheias de graça, talvez prontas para lhe erradicar todas as infinitas dores que perpassavam seu corpo, fez com que ele, por um momento, se esquecesse que ele mesmo estava traindo a si próprio.
Adiantou-se quase de joelhos até elas, pronto para receber algum tipo de benção redentora, e ouviu da primeira freira:

‘Que porra você estava fazendo ali, meu filho? Não sabe que todos aqui têm pressa em conseguir um quarto?’
‘Desculpe, mas eu... ’
‘Filho! Todos são iguais diante Dele. Todos querem um quarto. Aguarde a sua vez, tá ok?’

Ele abaixou os olhos quando notou seu sangue ferver como uma pastilha de vitamina C.  E não agüentando a nova desonra imerecida, com os dedos das mãos afastados uns dos outros e com as pernas arqueadas para fora como uma rã lançada de uma catapulta,  saltou através da janela do carro e passou a esganar sem dó os pescoçinhos finos das religiosas enquanto solfejava a música tema de A Noviça Rebelde em sua cabeça.

Foi tudo muito rápido. Vestiu-se com os respeitosos trajes de uma das freiras. O corpo desta, nu, ele rapidamente desmembrou usando uma faca descartável de plástico que guardava na meia esquerda. Pôs alguns trechos do corpo da monja no porta-luvas. As orelhas, dedos e nariz, ele conseguiu alocar com eficiência no case de CDs. Mas a maioria do corpo ele jogou com certa displicência para debaixo dos bancos. A fila em sua frente andava. Sua vez estava próxima. A outra freira permaneceu intacta, no banco do passageiro. Ele deixou-a como se ele dormisse, com o rosto apoiado na janela, placidamente.

‘Olá! Boa noite’ – rosnou a recepcionista.
‘Boa noite. Queremos um quarto’ – respondeu, caprichando nos agudos.
‘Qual tipo de quarto?’
‘O mais barato mesmo, minha cristã. ’
‘Como assim?’ - seus olhos cresceram, querendo pular fora das órbitas.
‘O que foi? Não me diga que odeia a Igreja e que por isso não nos deixará entrar. ’ – respondeu, imitando com exatidão os trejeitos de um homem travestido de freira.
‘Imagina, Freira Freire. Estou brincando com a senhora. A suíte para o exorcismo de hoje já está preparada desde a tarde!’
‘Suíte?’
‘Sim, prontíssima. Vejo que hoje vocês terão muito trabalho. O sujeito aí no banco de trás parece estar bastante debilitado pelas forças do mal.’

Miele olhou pelo retrovisor, olhou de novo e não acreditou no que via e nem na força de seu azar: amarrado e amordaçado, o sujeito cujos traços e formas em nada agradavam o encarava com um sorriso demoníaco.

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O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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