Atrás do balcão da cozinha, Beneditch - olhos miúdos de brilho vivo; movimentos plásticos e agradáveis, porém, em muito breve, relutantes e inseguros; senhor de pensamentos ágeis, certeiros, porém, talvez em uma dezena de minutos, de clareza indubitavelmente comprometida - está fazendo uma salada.
Ela é exótica, tropical, colorida e pecaminosa como a festa, segundo ele, segundo Beneditch, o homem ali atrás do balcão de granito preto indiano da cozinha de azulejos lisos e engordurados da casa alugada, paga em euros, em 12 vezes, a última para dezembro; um germânico, um ubermensch, irrefutavelmente, fantasiado de grego, com um lençol branco cobrindo-lhe uma pequena fatia do corpo branco e murcho.
Um ubermensch só, de tão ampla quanto inusitada ciência, a qual se desenrola por áreas do conhecimento muitas vezes ignoradas por prostitutas paraguaias como minha persona.
Um bodisatva vindo ao mundo em Rottal-Inn, Baviera, cujos extasiantes conhecimentos - originados de horas de debruçamentos infatigáveis sobre páginas empoeiradas de volumes bronzeados das bibliotecas públicas impecáveis - desdobram-se por temas delicados e de atual importância como, por exemplo, (poucos exemplos): os percalços do comércio de queijo de cabra – e sua qualidade microbiológica – na Lombardia, durante a expansão do Sacro Império Romano de Carlos Magno; Beneditch, um resplandecente bodisatva vindo ao mundo para acelerar nosso processo iluminatório, de ciência jamais titubeante frente à tarefa magnânima de esclarecer a incompreensão dos não doutos ao surgirem questões relacionadas, por exemplo, e apenas mais um, ao vibrante método semiológico de Braund para o diagnóstico anatômico e etiológico das doenças do sistema nervoso de cães, gatos e patativas.
Pois sim, este homem, este ubermensch, claramente distinto de nossos modos rudes, agora, após eficazmente descascar um purulento abacaxi, arranca-lhe os miolos – e aqui os olhos vivos brilham ainda com mais vigor: o relampejar da herança assassina de seus bárbaros ancestrais; os kanis, ali sobre o granito preto indiano de alta resistência à abrasão, já desembalados e lavados, aguardando as mãos iluminadas disporem-nos de maneira inédita sobre a travessa de porcelana comprada ainda em Mite, horas antes do vôo transatlântico. O lambari, tendo as entranhas defumadas no forno, provavelmente regozija-se em um convulsionar escorregadio, deslizando pelas águas eternas do paraíso, e, com certeza, inflama-lhe o coração ter a honra de alimentar o corpo de um ubermensch, de um germânico bodisatva poucas antes visto pela população inculta de Trancoso, Bahia.
Pois em alguns segundos nosso afável Beneditch começará a sentir os efeitos do coquetel de drogas ( o nosso Boa Noite Cinderela) que eu, Tristessa, prostituta paraguaia radicada no sul da Bahia, depositei furtivamente em sua taça de cristal, antes de verter cuidadosamente cerca de 100 ml do precioso Trockenbeerenauslese.
Benê avisa que o lambari em breve estará pronto e me chama para deitar na rede da varanda; seus olhos indicam o cansaço forçado. Puxa a saia de seu vestuário carnavalesco e tomba sobre a rede estendida. Eu deito ao seu lado e ele, com os movimentos prejudicados e fala embromada, confessa seu amor pelo carnaval, pelas praias e pela prostituição de ótima qualidade disponibilizada em todo território brasileiro.
Eu conto o quanto repudio esse acontecimento nojento, esses cinco dias de pura cretinagem consentida e dou-lhe uma noção do número de estrangeiros velhos e murchos que surgem e pedem serviços de crianças e as levam para casas alugadas à beira-mar ou então as carregam mar adentro em suas lanchas brilhantes. No carnaval não há respeito, é isso o que eu acho, permitem a monstruosidade que raramente durante o ano irrompe tímida, mesmo sempre ali, presente em cada peito.
Ele não escuta, ou não entende, já está quase lá.
Vejo seus olhos vivos e maliciosos lutarem contra o peso das pálpebras, contra o desejo de união dos cílios curtos. Sua consciência expandida e valorosa para nada adiantará quando a confusão levantar e o corpo desligar. E, enquanto lá fora, essas malditas buzinas, esse chover de papel picado e essas musicas imbecilizantes incomodarem a paz natural desse cenário edênico, eu, calmante, usurparei alguns bens desse alemão safado e chisparei escorregadia e fleumática, como o pobre lambari, para Encarnacíon, mi ciudad natal, reverei mamacita e descansarei o corpo, como sempre faço durante essa festa maldita, e depois, meses depois,volto renovada, preparada para servir todos os batalhões de turistas sexuais europeus, para comer suas saladas curiosas, para beber champagne, vinho, para passear em suas lanchas e ganhar a vida.

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