Após a missa das sete, fui acometido pela vontade arisca de minha
memória e passei a lembrar-me de Tia Marlene discursando sobre como Deus fica
triste sempre que deixamos de apertar a descarga.
As asserções da professora ressoavam tão solenes, cristalinas e carregadas por um ameaçador tom através dos caminhos turvos da minha memória, que pude relembrar detalhadamente do instante em que ouvi aquilo pela primeira vez, quando ainda era um jovem banguela, dono de cuecas amareladas e de um couro cabeludo polvilhado por caspas graúdas.
Sentado à minha escrivaninha, imerso na tristeza só da minha profissão, revi diversas e saudosas passagens de Tia Marlene: observava-a, mesmo com quatro décadas nos separando, tomando os dez primeiros minutos do recreio, problematizando apaixonadamente os grandes dilemas comportamentais de nossa espécie, mencionando o Inferno, que aguardava faminto as almas dos pecadores, dos subversivos e dos petistas, reforçando a responsabilidade gerada pela benção do livre-arbítrio, lembrando-nos da salvação pela caridade, pregava a sumária partilha do lanchinho com o colega que esqueceu a lancheira na perua, e, por fim, ordenava que jamais, nunca, sob hipótese alguma, nos esquecêssemos de apertar a descarga.
Sentado à escrivaninha de minha alcova, algo, então, começou a me incomodar. Não sabia, pois, se havia cumprido totalmente aquele último mandamento ao longo dos recentes anos.
Minha alma inflou-se em incertezas. Será que em algum momento, por pura distração, eu havia me esquecido de apertar a descarga ao utilizar um desses banheiros da vida?
Por toda a noite aquela dúvida zunzunou em minha cabeça e se calou apenas depois que li o nome Marlene Assis de Sá no obituário do jornal, na manhã seguinte.
Enquanto atravessava a nave principal da Igreja onde habitava, acenei rapidamente para as senhoras que ao brilho do primeiro raio solar já se postavam sobre a madeira fria dos enormes bancos da Igreja, à espera da missa inicial do dia. Ouvi alarmados “Aonde vai, Padre Isidoro?”. Mas não havia tempo de informá-las, aquelas velhas surdas, seria necessário repetir três vezes a horrenda informação. Passei por elas, fingindo não vê-las. Precisava chegar ao velório. Era-me premente.
Pois quando lá cheguei, um homem veio ter comigo. Tinha cravado na pele um forte cheiro de tabaco, que contaminava todo seu redor. Ele me perguntou se eu era o Padre Larousse, que faria a cerimônia. Respondi que não, e só ali notei que ainda vestia a batina.
Respondi ao homem, com aquela minha característica bondade. Disse que fui batizado com a alcunha de Isidoro Ludovico e Araújo, e que tinha sido aluno da Tia Marlene, décadas atrás, no colégio Nossa Senhora Virgem Maria das Causas em Tramite. Informei-lhe também que era padre, sim, mas estava lá apenas para me despedir daquela mulher de tamanha importância em minha formação humanitária.
Ele abriu um amplo sorriso, como se ouvisse um sincero elogio à sua agradável fragrância, e fez questão de me guiar até o salão onde o caixão estava depositado.
Morta, ela continuava igual à de antes. Já carregava durante a vida aquela pálida rigidez de todo o cadáver. A única diferença realmente perceptível é que, agora, ela pouco falava.
Sentei-me ao lado do caixão, guardando o local, tomando cuidado para que
nada de errado acontecesse durante a realização da cerimônia. Sentia que minha
presença tranquilizava tudo e todos ao redor. Falei com alguns dos presentes,
gente da mais pura educação e humanidade. Não deixei de elogiar Tia Marlene sempre
que pude, confirmando aos meus interlocutores que suas aulas e ensinamentos me
guiaram em direção à cidadania responsável. “Se hoje sou este padre incrível
que sou, devo muito a ela”, disse um bom par de vezes. Notava os olhos das
velinhas iluminando-se sempre que rememorava o passado da falecida. Algumas,
durante os diálogos, apertavam meu braço; outras corriam a mão sobre meu
peitoral; outra chegou até a escorregar o ventre murcho sobre minha virilha.
Sorri, mas me afastei, perdoando-a pelo pecado. Sempre fui bom em perdoar.
Conforme as horas foram passando, notei certo desconforto entre os
presentes. O homem do cheiro de cigarro aproximou-se de mim com certo incomodo.
“Padre, o Padre Larousse foi parado numa Blitz aqui perto e se recusou a fazer
o teste do bafômetro. Ele e a Honda Biz dele estão retidos na delegacia. Parece
que você terá que fazer a cerimonia. E ai, topas?”, perguntou e ofereceu-me uma
bala de café.
“Lógico. Topo. Será uma honra para mim. E posso pôr no currículo. Isso
conta muito na hora de achar uma paróquia melhor”, informei-o, com o drops a
derreter sobre minha língua afiada.
Cheguei novamente ao lado do esquife e pigarreei. “Rám-Rá” – foi o som
do pigarro, lembro-me bem. Pigarreei novamente. Saiu um “Rúmmm-Ah-arú” dessa
vez. Os presentes se aproximaram, ombro a ombro, olhando-me encantados,
ansiosos em ascultar minha oratória irretocável.
“Hoje estamos reunidos aqui para honrar a querida lembrança da Tia
Marlene. Uma professora, uma irmã, uma amiga, uma mãe, uma santa”. Mal terminava
essa frase de abertura e já captava o espocar incontido dos choros na audiência
atenta. “Esta mulher aqui...”, continuei e apontei para o caixão. Mas, ora, vejam
bem, atenção aqui, não havia corpo algum. O caixão tinha apenas algumas coroas
de flores e nada mais.
Olhei automaticamente para as pessoas ali diante de mim. Mas seus
olhares apenas vagam pelo salão. Perdidos em outro tempo e espaço. Olhei de
novo em direção ao caixão. Ele continuava vazio. E ao olhar de novo para quem
me escutava notei que alguns olhavam com dó para o caixão. Para onde o corpo deveria
estar. Eles olhavam para o corpo. Então apenas eu não o via? Antes de poder
responder aquilo, vi Tia Marlene entre a senhora que roçou a virilha sobre mim
e o homem que havia me oferecido a bala de café. De pé, ela ria de mim,
debochadamente.
Senti meu estomago se liquefazer, gélido. Precisei ir ao banheiro. Pedi licença
antes e disse que tinha esquecido uma coisa no carro. E então, no meio do meu
discurso fúnebre, abandonei o local, suando, em meio a palavras sinceras.
No banheiro, entretanto, o problema era maior do que supus inicialmente. Meu intestino sacolejava feito um barco de papel em um oceano feroz. Não havia alternativa por mais que tentasse me convencer que era apenas um problema com gases. Puxei as saias da batina e sentei-me sobre o frio assento da privada. Gritei ao mesmo instante que os primeiros tabletes de fezes mergulhavam ruidosamente na água sanitária da privada da única cabine do toalete.
Minutos depois, nascia ali, sem aviso algum, uma dúvida aterradora entre apertar ou não a descarga. Nesse instante, surgiu de dentro do banheiro, saindo do interior de um secador de mãos automático e sobrevoando a posta trancada da cabine, o espírito de Tia Marlene, claramente incomodado pelo forte odor.
“E então, não vai puxar?” – ela questionou-me, testando meu nobre espírito, planando a centímetros do teto encardido do sanitário.
“Lógico que vou, eu jamais deixei de puxar descarga alguma, ora!” afirmei, tentando me convencer daquilo.
“Pare de se enganar. Nós dois sabemos da inverdade dessa sua afirmação, menino Isidoro. Você jamais apertou uma descarga em toda a sua vida, meninote traiçoeiro!“
“Isso é mentira, tia Marlene” – esbravejei, engasgado pelo choro que nascia.
“Não é, Isidoro. Aceite.”
Atordoado pelas convulsões do choro, desistindo de manter aquela mentira que eu teimava em crer, disse aflito: “Desculpe, Tia Marlene. É que eu adoro imaginar a cara de nojo de quem entra no banheiro”.
“Acalme-se, meu menino.” Ela me abraçou, tentando domar minha alma pecadora.
“Perdoe-me, faz favor.”
“Eu não posso te perdoar, Isidoro. Tu é que tens que se salvar.”
“Mas como, Tia?”
“Pense em algo. Agora deixe-me partir. Aqui a coisa está complicada”. E se transformou em fumaça, sendo sugada novamente pelo secador de mãos;
O dia do enterro da Tia Marlene marcou também o termo da minha vida como padre. Ao sair do banheiro notei que boa aparte daquilo havia sido uma alucinação, terrível alucinaçação, oh!, horrível, sim. O padre Larousse terminava sua fala quando voltei ao salão. Brilhantemente ele relembrava a passagem de Tia Marlene. Eu em momento alguma havia tomado a palavra. Naquele dia mesmo deixei de ser um mediador entre Deus e os homens e resolvi buscar a salvação da minha própria alma.
Hoje, trabalho dez horas diárias nos banheiros da Rodoviária do Tietê em São Paulo e outras seis no banheiro masculino da estação de metrô da Sé - e sempre que posso visito as instalações sanitárias dos postos de gasolina das rodovias.
Desde o velório, jamais deixei de apertar a descarga e comecei a cultivar o inabalável hábito de averiguar a limpeza de todos os vasos sanitários que posso, mesmo das privadas não utilizadas por mim.
E, muitas vezes, enquanto estou sentado no banheiro lá em casa, Tia Marlene aparece e conta como Deus fica feliz da vida sempre que me vê a apertar uma descarga.
No banheiro, entretanto, o problema era maior do que supus inicialmente. Meu intestino sacolejava feito um barco de papel em um oceano feroz. Não havia alternativa por mais que tentasse me convencer que era apenas um problema com gases. Puxei as saias da batina e sentei-me sobre o frio assento da privada. Gritei ao mesmo instante que os primeiros tabletes de fezes mergulhavam ruidosamente na água sanitária da privada da única cabine do toalete.
Minutos depois, nascia ali, sem aviso algum, uma dúvida aterradora entre apertar ou não a descarga. Nesse instante, surgiu de dentro do banheiro, saindo do interior de um secador de mãos automático e sobrevoando a posta trancada da cabine, o espírito de Tia Marlene, claramente incomodado pelo forte odor.
“E então, não vai puxar?” – ela questionou-me, testando meu nobre espírito, planando a centímetros do teto encardido do sanitário.
“Lógico que vou, eu jamais deixei de puxar descarga alguma, ora!” afirmei, tentando me convencer daquilo.
“Pare de se enganar. Nós dois sabemos da inverdade dessa sua afirmação, menino Isidoro. Você jamais apertou uma descarga em toda a sua vida, meninote traiçoeiro!“
“Isso é mentira, tia Marlene” – esbravejei, engasgado pelo choro que nascia.
“Não é, Isidoro. Aceite.”
Atordoado pelas convulsões do choro, desistindo de manter aquela mentira que eu teimava em crer, disse aflito: “Desculpe, Tia Marlene. É que eu adoro imaginar a cara de nojo de quem entra no banheiro”.
“Acalme-se, meu menino.” Ela me abraçou, tentando domar minha alma pecadora.
“Perdoe-me, faz favor.”
“Eu não posso te perdoar, Isidoro. Tu é que tens que se salvar.”
“Mas como, Tia?”
“Pense em algo. Agora deixe-me partir. Aqui a coisa está complicada”. E se transformou em fumaça, sendo sugada novamente pelo secador de mãos;
O dia do enterro da Tia Marlene marcou também o termo da minha vida como padre. Ao sair do banheiro notei que boa aparte daquilo havia sido uma alucinação, terrível alucinaçação, oh!, horrível, sim. O padre Larousse terminava sua fala quando voltei ao salão. Brilhantemente ele relembrava a passagem de Tia Marlene. Eu em momento alguma havia tomado a palavra. Naquele dia mesmo deixei de ser um mediador entre Deus e os homens e resolvi buscar a salvação da minha própria alma.
Hoje, trabalho dez horas diárias nos banheiros da Rodoviária do Tietê em São Paulo e outras seis no banheiro masculino da estação de metrô da Sé - e sempre que posso visito as instalações sanitárias dos postos de gasolina das rodovias.
Desde o velório, jamais deixei de apertar a descarga e comecei a cultivar o inabalável hábito de averiguar a limpeza de todos os vasos sanitários que posso, mesmo das privadas não utilizadas por mim.
E, muitas vezes, enquanto estou sentado no banheiro lá em casa, Tia Marlene aparece e conta como Deus fica feliz da vida sempre que me vê a apertar uma descarga.

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