No dia
em que revelaram algumas necessárias verdades um para o outro, os dois acordaram
precisamente na mesma hora e no mesmíssimo minuto: 07:07.
Pois
às 07:13, os dois sorriram o mesmo riso gostoso ao verem suas esposas vertendo
um fumegante líquido preto em suas xícaras rasas, e sentaram-se famintos às
cabeceiras das mesas redondas cobertas por panos brancos em avançado estado de
desintegração.
Alimentaram-se
os dois exatamente das mesmas coisas durante os longos desjejuns: um prato de
Fruit Loops inundado por leite gelado desnatado, seguido de meio pão francês
amanhecido, este depois de um arrotinho tímido calado sem sucesso por um
guardanapo amarrotado.
Os
dois, depois das abluções matinais, despediram-se das respectivas companheiras
- eram 08:12- cada qual em sua casa, e partiram para o dia que jamais haveriam
de esquecer.
Pois
ao atravessar os portões de suas residências (que eram da mesma cor branca e
que rangeram arrastadamente da mesma forma, como se já lamentassem o futuro
obscuro que haveria de ser vivido por aqueles a quem serviam), foi-se a época
de calmaria; das noites bem dormidas; dos desjejuns demorados; dos extensos
banhos com as respectivas patroas; das plácidas inalações de ar recém desperto
à varanda enquanto o sol erguia-se preguiçoso acima do ronronar das asas dos
beija-flores.
Foi-se,
de ter ido e não querer voltar mais, a época em que os dois prefeitos daquelas
cidades ainda estavam em pleno início de mandato e os escândalos de corrupção,
os favorecimentos ilícitos e as usuais tramóias ensinadas nas cartilhas de
gerenciamento público ainda não haviam vindo à tona, e que, muito por isso, não
havia sossego de modo algum perturbado pelos entremeios e partes circundantes
das duas cidades vizinhas e certas vezes imperceptivelmente distintas.
Os
dois prefeitos das cidadezinhas, as quais tinham quase o mesmo número de
habitantes, a mesma base econômica (prostituição infanto-juvenil) e que também,
de fato, tinham as Igrejas centrais com o mesmo nome, se abraçaram durante
confortáveis dez segundos em um prostíbulo de luxo à beira de uma erma estrada
bastante afastada das duas cidades, e entre palmadas nas costas alheia e
apertões nos tríceps frouxos, riram satisfeitos por pôr fim à longa época de
obrigatório afastamento.
Confirmaram
sentir saudades um do outro – o que era de fato verdade – e logo dirigiram as
conversas aos assuntos do dia-a-dia político, abrindo a primeira das garrafas
de Juanito Caminante.
Abelardo
atualizou o outro homem sobre as novas formas criadas pelo seu gabinete para
extorquir dinheiro de dois pipoqueiros e em seguida contou como atirou a panela
transbordante de milho de um deles para além da ponte quando resolveram não
pingar os 20 reais mensais de custo pela permissão para exercer o comércio no
local.
Caio,
por sua vez, contou com as mãos trementes e os olhos explodindo em cores feito
fogos de Reveillon, como fez a mãe de sua secretária particular cortar as dez
unhas dos dedos dos seus pés e depois a obrigou, sob ameaça da demissão
sumária da filha. que pagasse a irrisória quantia de 50 reais pelo serviço
irrecriminável que ela mesma havia prestado.
Pouco
depois das 12:43, depois de empanturrarem-se
sem descanso de miojo Nissin Lamem sabor galinha caipira,
resfolegaram, espreguiçaram e espalharam seus membros para além das
cadeiras estofadas, contentes pelo reencontro, pelas lembranças dos fatos
recentes divididos há pouco, pelo promissor porvir e pediram sem polidez alguma
que mandassem outra garrafa.
O quê
os dois não sabiam, porém, era que alguns problemas vinham em um galopar
frenético, envoltos, sem serem notados por eles, em uma névoa de um silêncio
mordaz, a qual já se preparada para despontar dolorosamente de dentro do pouco
de humano que ainda restava a um deles, impactando-lhes, porém, irremediavelmente.
E esse
intenso impacto - digno de fazer nuvem cheia d’água estourar fácil como uma
bexiga cutucada por agulha - ocorreu momentos depois, quando Abelardo, o mais
jovem e mais bem votado prefeito da história da cidade de Jurerêaçu, resolveu
ser sincero com seu irmão gêmeo cinco minutos mais moço, Caio, prefeito mais
jovem e mais bem votado da cidade de Jurerêaçu Mirim.
Havia
chegado o momento que acontecia uma vez por mês: os dois trocariam novamente de
papéis e, assim, um assumiria a função do outro junto à prefeitura e à esposa.
Mas Abelardo endureceu as feições que até outrora estavam vivas e repletas pela
satisfação nascida das ações cruéis para as quais vinha dedicando-se com
afinco.
Disse
ao irmão que dessa vez não iriam em frente.
O
irmão riu debochado. Disse que estava com saudades das coxas da outra mulher e
de sua disposição irrevogável ao coito, coisa que essa mulher pecava amiúde. E
que iriam continuar com aquele joguinho divertido e que jamais deveriam pensar
em desistir.
Abelardo
disse que já bastava aquela palhaçada. Que já era hora de cada um ficar com uma
de uma vez por todas e que não iria trocar de mulher mais não, que iria ficar
com a atual e que Caio que ficasse com a outra. Caio disse que aquilo jamais
iria acontecer. Perguntou enraivecido que motivo fazia o irmão poder escolher a
vagabunda que quisesse primeiro. Abelardo falou, sabendo da inexistência de
qualquer razão válida, que ele tinha cinco minutos a mais nesse mundo e que era
pro irmão acatá-lo antes que ele perdesse a cabeça.
Às
12:56, Caio se levantou, empunhando uma arminha mixuruca que carregava pra
baixo e pra cima e disparou um tiro que perfurou a boca e depois atravessou as
primeiras das vértebras cervicais de Abelardo.
Precisos
cinco minutos depois do disparo, às 13:01, um segurança descarregou um pente de
seis balas calibre 22 no peito de Caio depois que este ameaçou disparar contra
clientes do local.
E foi
como se os relógios de suas existências lutassem para movimentarem-se
sincronicamente, pois os irmãos Caio e Abelardo viveram exatamente ao longo do
mesmo período de tempo aqui nesta terra.

Muito bom!!
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