Nesta cela onde vivo os últimos
dias de minha velhice, tenho a agradável companhia de uma média de doze
respeitosos homens, os quais muito se importam quando o assunto é minha saúde e
tranquilidade.
Não há quem passe alguns minutos
por aqui e, ao sair, não carregue a certeza irrevogável de que estes jovens
nutrem por mim um emocionante e verdadeiro afeto.
Não haveria de ser de outro
modo.
Sempre que podem, esses bondosos
seres humanos fazem festa em meus fios ralos e grisalhos, que escorrem
empastados em óleo dos cantos do meu crânio, e, quando já me encolho sob os
fartos cobertores de lã tricotados por suas esposas, esses adoráveis homenzarrões, ao
pé do meu ouvido vacilante e eternamente agradecido, cantarolam ternamente
as adocicadas melodias de minha juventude distante.
Creio que tudo isso ocorra devido
ao fato de eu ser o homem mais velho do planeta a cometer um assassinato, consumindo uma vida humana justamente no dia em que completava meu centésimo
vigésimo quarto aniversário. Creio, repito, creio que seja este o real motivo
de tanta amabilidade, mas não posso afirmar nada a esse respeito sem sentir a
presença de uma dúvida a pairar ameaçadoramente sobre mim.
O assassinado era um empresário
pervertido, afeito a joguinhos esquisitérrimos e teve por mim o corpo empalado
merecidamente, quando eu adentrei sua região lombar com a ponta terrível de uma
prateada espada samurai.
Espero justificar através da
passagem que segue a razão pela qual caracterizei tal angustiante morte de
“merecida”.
Toda primeira segunda feira do
mês, enquanto muitos olham seus saldos bancários com algum tipo de
contentamento no rosto, o diretor-fundador de uma insignificante empresa
fabricante de freios para locomotivas convocava os mais quistos
funcionários à uma ampla e encarpetada sala de reuniões para que lá
pudesse atirar pontiagudos dardos em suas assalariadas bundas desnudas.
E eu, sim, eu era o proprietário
de um desses pobres bumbuns mensalmente alvejados.
Esclarecendo mais a questão: era
dever do funcionário levar sua própria tinta para que sua lomba tivesse, ao fim
dos preparativos pré-lançamento de dardos, um aspecto bastante próximo ao de um
alvo concêntrico multicolorido. E só depois disso os doentis jogos era
iniciados.
Esclarecendo um tiquinho mais a
questão: o fiofó atingido valia 100 pontos - a mais alta pontuação devido à
clara dificuldade de se acertar um dardo em localidade de tão difícil acesso.
Então, com o bumbum em riba, o
funcionário rezava para que os dados fossem enterrados profundamente em seus
esfíncteres, já que o funcionário que tivesse a bunda atingida nos locais de
menor valor, e assim somasse o menor número de pontos, era sumariamente
demitido - sim, demitido, sumariamente.
Pois então era costume disseminado
abrir o cu o tanto quanto fosse possível para que este expandisse sua área de
contato e garantisse mais um mês de labuta e salário para seu dono.
Em uma dessas doloridas segundas-feiras, após cinco décadas tendo a bunda feita de alvo, tive o desprazer de atingir a pontuação mais
baixa entre meus concorrentes/colegas e fui enviado para o olho da
rua veloz e certeiro como muitos daqueles dardos que iam para o olho
do meu fiofó inocente.
Contaram-me logo depois de minha
demissão, que o Filipe Oliveira tinha tomado cinco dardos no rabo e que passou
o dia inteiro a se gabar e menosprezar os outros.
À época, eu já contava cento e
vinte e três primaveras, de modo que me empreguei como morador de rua e aluguei
três excelentes caixotes de papelão no luxuoso Beco do Boquete que neste
momento ainda não tinha tal alcunha.
Conforme os dias sucediam-se e eu
não comia e já me encontrava desesperado de fome, tratei de arrancar meus
dentes e ingeri-los junto de uma sopa à base de minha própria urina.
Desdentado, porém alimentado,
veio-me à cabeça a idéia de oferecer sexo oral a qualquer interessado
em meu próprio domicílio – certo tempo depois meu bequinho passou a ser
denominado de Beco do Boquete pelos costumeiros freqüentadores, algo que me orgulha sobremaneira.
Foi nesse famigerado beco que
reencontrei meu antigo empregador, quando este surpreendentemente apareceu por
ali, procurando uma safadeza qualquer.
Depois, satisfeito com serviço
prestado, ele logo me ofereceu meu antigo cargo de volta e eu obviamente
aceitei, mesmo sabendo da saudade que sentiria daquele lugarzinho tão imundo.
Entretanto, minha bunda prosseguia a não me satisfazer. Logo na primeira segunda-feira de
meu retorno fiquei em último lugar.
As flechas – os dardos tinham
perdido a graça - talvez sentindo um dó lacerante, optaram por não me atingir em
local nenhum, o que adicionou ao humor perturbado do mandatário dos freios de
locomotivas um furor titânico.
Poucos dias depois lá estava eu no
Beco, retornando ao meu cruel labor.
E foram meses horríveis, de
freqüentes e incuráveis dores no maxilar, de sopas duvidosas e de choro
incontrolável junto aos papelões.
Numa dessas noites modorrentas,
precisamente na noite do meu aniversário, enquanto eu lutava contra o
peso das pálpebras, eis que o meu ex-empregador surge novamente.
Não, não estava ali por causa de
meu cumpleanos e para me desejar felicidade e muitos anos de
vida, ou para me dar uma espetada na bunda. Estava sim ansioso,
perguntando se eu sabia a senha do e-mail do Oliveira – ele suspeitava de umas
trambicagens dele.
Eu falei que sabia sim. Que
tinha ela no meu armário ali no escritório – que era de fato um saco de lixo
dentro de uma caçamba de entulho. E mais, o que fui pegar não era senha porra
nenhuma, meu camaradinha. Era sim uma espada samurai afiadíssima que aceitei
como pagamento de um japonês legítimo e que muito me apreciava.
Então, empalei o empresário e me
enfiaram aqui nesta cadeia.
E aqui sou feliz; me afagam, me
ninam, ouvem meus sonhos, dão-me longos banhos de espuma e cuidam de
mim como um idoso realmente merece ser tratado.
Minha única queixa é que por mais
que eu implore, eles não me arranjam dentadura nenhuma,..

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