Garry Bronhovitch jamais deixou de
carregar nos bolsos das calças uma caixa de fósforos, um par de luvas de látex
descartável, um tablete de manteiga sem sal e, ao menos, uma edição do Antigo
Testamento versão pocket book, com folhas de papel jornal e capa dura azul.
Bronhovitch tinha
dois braços delgados, compridíssimos e, nas extremidades destes, dois finos
punhos impressionantemente flexíveis - sendo capaz de girar simultaneamente com
muita agilidade suas duas mãos em sentidos opostos enquanto reproduzia à beira
da perfeição o som das ferozes turbinas de um avião supersônico em dia de
exibição.
Quando
requisitados, especialistas e numerosas baterias de testes e exames (Garry
sofreu uma misteriosa convulsão durante a retirada de uma unha encravada na
clínica podológica) ratificaram sua ampla capacidade
respiratória, constataram suas taxas de colesterol em níveis satisfatórios
e contaram números regulares e esperados de hemácias e plaquetas a boiar pelo
seu sangue.
Por
mais que remexessem por toda a extensão de seu corpo esguio durante os poucos
mais de quatro dias de internação, os médicos do hospital de San Diego não
encontraram tumor, diabetes, câncer, otite, gastrite, gonorreia ou uretrite
aguda nenhuma em Garry- e ainda aproveitaram para retirar por conta própria
aquela pontinha de unha afiada ainda mergulhada na carne dura do seu dedão esquerdo.
E
essas boas notícias alegraram Garry ainda mais quando ele relembrou, tendo
recebido alta e sendo levado de volta para casa depois dessa arrastada passagem
pelo hospital, que mantinha vinte e um pares de meias brancas e cheirosas na
segunda gaveta da cômoda de seu quarto; que guardava secretamente quatro Penthouse’s bastante
castigadas embaixo dos seus livros de escola e que diariamente, independente de
onde estivesse ou da ocasião, punha seu blackberry para despertar às quatro horas da
manhã para comer três paçocas e anotar num bloco de notas timbrado da IBM suas
recentes vivências oníricas.
Sabia
que ainda guardava em algum canto de sua casa um grosso cobertor tricolor que o
reconfortaria e manteria seu calor corporal inalterado mesmo ante a mais polar
frente fria vinda de Vladvostok; que ligaria sua televisão de oito polegadas e
não veria dificuldade em encontrar algum programa que o agradasse; que
seu blue-ray e
suas imensas duas caixas de som stereo estariam implorando para serem
requisitados ao extremo e que - e isso era o mais importante: era sexualmente
ativo e conseguia criar mirabolantes narrativas pornográficas em um estalar de
dedos.
Seus
batimentos cardíacos amansaram quando ele ouviu o ranger familiar da porta da
entrada da sua casa, e, depois de acender as luzes dos lustres da sala de
estar, Garry pôde fechar seus olhos serenamente, sentindo o saudoso e fraterno
silêncio que finalmente o circundava.
Pelo
horário avançado da noite, Juanita, a diarista guatemalteca, já deveria estar
descansando no quarto dos fundos e, se nada ocorresse fora do esperado, só a
encontraria ao fim da próxima manhã.
Seu
rosto, combalido pelo distanciamento repentino do lar e pelo desgaste das horas
de ásperos sonos nos leitos das camas magras do hospital, aparentou
preencher-se com cálidas cores e ele, como sempre fazia quando sentia a dita
felicidade formigar em seu corpo, aproveitou o ermo cômodo para peidar
solenemente - como se este gesto, que em outros momentos poderia ser
acertadamente interpretado como deselegante, o libertasse des indesejáveis
pestilências que sofrera no hospital e o assustara como nada antes havia ousado.
Partiu
para seu quarto, incontido, quase alcançando ritmo de corrida; os batimentos
reacelerando-se em um ritmo perigoso e os músculos retesando-se ansiosos.
Gotículas de suor brotejavam da testa e reluziram sob os lustres da escada,
conforme a escalava e depois dirigia-se para o fundo sinuoso do corredor.
O
disco prateado Rocco Goes to Montreal foi inserido no leitor de
mídia do blue-ray pela
mão tremente de Garry; e das caixas despontou um rumor suave que, conforme teve
o volume aumentado, transformou-se em um hipnotizante blues.
Um
sorriso nasceu em seu rosto, dilatando-se gradativamente, e ele pôde então
ouvir o som tímido e quase esquecido de seu raro riso.
Garry,
antes de se livrar das calças, sacou o tablete de manteiga e o par de luvas dos
bolsos; com dois palitos retirados da caixa de fósforos ele acendeu uma rotunda
vela vermelha aromatizante e deixou-a consumir-se lentamente ao lado de sua
cama. Da gaveta da cômoda pescou dois pares de meias. Abriu o Novo Testamento
em uma página aleatória. Deteve os olhos por minutos em um único trecho, orando
e agradecendo pelo seu restabelecimento, até que uma lágrima escorreu dos olhos
cerrados. Buscou as edições sobreviventes da Penthouse e
também as abriu aleatoriamente sobre a coberta tricolor, a qual já o cobria
maternalmente, e disponibilizou-as de modo que pudesse vislumbrar todas as
quatro antigas capas ao mesmo tempo. Finalmente para a televisão de oito
polegadas passou a lançar olhares transbordantes de lascívia…
Vinte
segundos depois saiu arfando do quarto. Tinha o corpo lavado de suor e uma sede
sufocante. Porém o olhar ardente e a furiosa rigidez do corpo pareciam agora
domados de certa forma.
Afinal,
para ele - assim como deve ser para inúmeros cidadãos, sobre quem muito ouvimos
falar- quatro dias sem punheta é um castigo para quem nem aos nossos inimigos
mais odiados nos desejamos.
Com
isso em mente, Garry Bronhovitch adentrou sua cozinha e tomou três copos de
Catuaba em três rápidos goles. Verteu metade de um saco de amendoim de
quinhentas gramas para dentro da bocarra aberta e mastigou tudo aquilo com
sérias dificuldades; depois demorou-se em uma extensa inspiração e foi
acordar Juanita.
Tinha
quatro dias de atraso pra tirar das costas.

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