Na
esquina da Rua das Maritacas com o Beco do Boquete, eu, Michel Brochmann (judeu
praticante não muito respeitado pela comunidade de Higienópolis), caminhava
apressado e atrasado para o serviço de salafrário que presto em um sobrado
alugado ao lado da sinagoga que por muito pouco não arranha a alva pele das
nuvens, quando fui interpelado abruptamente por um mendigo estirado sobre
fragmentos de um pôster, onde vislumbrei rapidamente uma bundinha magra dessas
mulheres não judias de revistas.
Esse
morador de rua, que claramente não era judeu como sou eu, mamãe e Hannah,
tinha a pele lisa e escorregadia de tão oleosa e negra, e, Deus me perdoe, era
tal qual uma foca dessas da televisão, sem a graça das focas que equilibram
aquelas bolinhas no focinho mas com o mesmo olhar enraivecido das focas quando
estão prontas para aplicar uma bela dentada nos mamilos das suas presas e
prejudicar seu sono durante algumas longas semanas.
-
Quer ser feliz, barbudão? – berrou o maltrapilho, junto dessa minha orelha
esquerda escolhida por Deus que no momento, por convenções sociais,
encontrava-se ilhada entre minha longa barba desgrenhada e os esvoaçantes e
ensebados cabelos encaracolados de semita que pendem nojentamente para além das
bordas do boné do New York Giants enterradas sobre meu crânio e que afanei no
último Natal dum desses muitos cristãos bobalhões, ali perto do caixa da
padaria do Vitão.
-
Gostaria deveras, meu homem imundo – respondi surpreso, insuflado por uma fugaz
esperança – Qual o esquema? Vá falando logo, tenho meus assuntos de salafrário
ali próximo da sinagoga!
O
mendigo levantou-se com dificuldade do chão e aproximou-se de mim, o judeu - um
dos inúmeros que teve um vovô perspicaz, prontificado a deixar os móveis e os
cofres para trás, abandonando a pátria tão logo o primeiro galo cantasse.
-É
bastante simples!- ele me assegurou.
- O
quê? – perguntei, cheio de uma curiosíssima curiosidade e também bastante
atraído pelo hálito natural dos homens pré-históricos, pré Oral-B,
pré-fio-dental explosão total sabor menta de 5 metros.
-
Do que você tá falando, cara? – ele questionou.
-
Você disse que era bastante simples, não?
-
Sim. É muito simples - ele assegurou ainda mais seguro do que antes, quando já
me parecia seguro o suficiente.
-Sim.
Mas o que é simples?
-
Fazer as coisas acontecerem - dizia tudo com uma voz saltitante de alegria
satisfeita. - Veja: ontem mesmo eu era um mendigo, desses aí que vivem bem sem
trabalhar e são mantidos pelas boas almas dos solidários transeuntes dessa São
Paulo de meu Deus. Porém, essa vida mansa não me agradava, carinha. Não me
agradava em momento algum. Absolutamente. Então, ontem, meu último dente de
leite caiu e eu
pedi
para a fada do dente que em vez das costumeiras cinco pedras de crack como presente,
eu preferia acordar sendo Adolf Hitler…
E,
de fato, aquele homem era Adolf! E eu, de fato, um homem não muito respeitado
pelo povo judeu, podia ver aquilo com uma clareza inquestionável.
Eu,
Brochmann, mantenedor de assuntos escusos no sobrado de número 57 imediatamente
ao lado do suntuoso portão da Sinagoga Talmud Thorá Lubavitch, notei que estava
diante de Adolf e também fui capaz de notar meu sangue elevar-se, fervilhar,
gaseificar-se, solidificar-se e, depois, por fim, correr pelo interior de
minhas veias judaicas no sentido contrário ao usual - como podem notar, eu
estava notando coisas demais. E ao notar isso, notei também que aquele famoso
bigode era indubitavelmente uma obra de arte das mais esplêndidas deste mundo -
indubitavelmente era um genocida de modos ímpares, como pouquíssimos assassinos
em massa tiveram a competência de ser.
Mas
isto não bastava, distinto e caro leitor.
Aprendi
desde muito infante, quando já era judeu, circuncidado e com uma aplicação
bancária rendendo 11% ao mês, a odiar aquele homem independente de ter aquele
fantástico grupo de pêlos minuciosamente desenhados debaixo do nariz fino de
psicopata.
Ora,
bem em minha frente, eu tinha o homem que exterminou seis milhões de judeus -
aí concluí que algo deveria ser feito.
E
então, eu, que de modo algum represento esse distinto e muito afável povo,
possuído por um desespero extremo e por um grotesco e incontrolável fluxo de
raiva, comecei a enforcá-lo, apertando-lhe o fino pescoço do ditador genocida,
que paralelamente é morador de rua, por entre minhas mãos e dedos e anéis e
unhas e aliança. E depois, precisos vinte e três segundos depois, abandonei o
pescoço nazista e esganado de Adolf e seu corpo desfalecido caiu sobre o pôster
do outrora mendigo.
Olhei
novamente para a bunda magra estampada no pôster antes de correr veloz como
pude, e como um guepardo endiabrado cruzei a frente do sobradinho verde de
onde, inegavelmente, ludibrio a lei e engano meus semelhantes.
E
feito um raio divino nascido do único Deus que há, prestes a iluminar e
confortar meus irmãos comunicando-lhes a justa vingança de nosso povo, adentrei
escandalosamente a imensa sinagoga. Por seu refrescante interior minha frase
ecoou, engordou, e intensificou-se de uma maneira tão espessa que estava a
ponto de ser quase palpável:
“Fui
eu, galera! Eu matei Adolf Hitler.”
Junto
às longas barbas do Rabino estava Illana, esposa do digníssimo Jacó, mãe de um
moleque com não mais de trinta quilos e ainda proprietário de um quase
insignificante prepúcio; mulher de mão certeira para a gastronomia iídiche como
raramente se viu; desejada por toda comunidade, apesar dos grossos fios negros
do buço umedecidos por um sempre presente suor.
O
Rabino, que afirmava chamar-se Isaac e que respondia mesmo por tal nome quando
chamado, veio apressado para junto de minha pessoa. Seus olhos, que também se
dirigiam em minha direção, vinham quase que pipocando para fora das órbitas e,
dos cantos dos lábios constringidos, os quais seguiam os passos dos olhos e
vinham também em minha direção, descia uma líquida e esbranquiçada baba que
borbulhava e que, quando explodia, fazia “ploc-ploc”.
-
Seu demônio! Monstruoso! Monstruoso demônio! –ele vociferou, enquanto dava-me
tabefes estalados e ardidos.
-
Mas que porra é essa, Rabino? - resolvi educadamente questionar, já que não
atinava patavinas. - Matei Hitler e tu tratas esse judeuzinho herói aqui com
palavras e gestos tão vis e impróprios para um homem em sua posição?
-
És o próprio Satã! Ora, o nazista miserável ousa postar-se diante de mim!
Essa
última frase, entorpecida de ferocidade e, acima de tudo, questionável, feita
por dona Illana, quase não foi ouvida por minhas orelhinhas, já que essa dona
já fazia questão de me aplicar um justíssimo mata-leão, deitando-me contra o
chão gelado da sinagoga e depois atingindo minha face com um afiado e
destruidor ground-pounding.
De
modo que só fui perceber que estava morto muito tempo depois. E não só me
assustei ao perceber minha própria morte, como um abismal terror correu potoda
a extensão de minha coluna vertebral quando vi no reflexo de um espelho (que
agora não necessita explicar de onde veio) que era eu também o tal Adolf
Hitler, e que talvez por isso eu tenha sido espancado, morto, violentado
sexualmente - tudo me leva a crer que por Rabino Isaac- e posteriormente
estripado, em minha própria sinagoga.
Mas
não só pela dor este relato é constituído.
Logo
após minha horrorosa morte, os dois criminosos - os assassinos do Adolf(eu) que
havia anteriormente enforcado Hitler(o mendigo) - resolveram dar uma bimbada
ali mesmo no chão gelado da sinagoga ao lado do meu corpo destroçado - ato de
natureza comemorativa, ouso crer-, jogar meu corpo num container qualquer e
depois ir cada um para seu canto.
Naquela
mesma noite, porém, qual não foi a aterrorizada reação de Jacó e de seu pequeno
filho ao verem, petrificados, que quem punha a louça polonesa na mesa era
ninguém menos que Hitler vestindo um surrado avental de cozinha?
E
qual não foi o terrível choque da família de Jacó, de Illana e dos amigos
convivas algumas semanas depois durante o Bar Miztvah do filho do casal, quando
viram o Rabino Isaac, exibindo um aparadíssimo e reluzente bigode quadrado
sobre o sorriso demoníaco, cortar o prepúcio do tremente menino enquanto a
ensandecida mãe Illana, então transfigurada em ditador (cuja face cadavérica
apresentava um bigode tão quadrado e lustroso quanto a do rabino), chorava um
pranto de alegria e consternação, já planejando incendiar a própria casa enquanto
o marido e o filho dormiam , para depois fugir e se casar com o Rabino em
Israel?
E
qual não foi a reação das autoridades e da população israelense quando
avistaram esse casal apaixonado deixando o Aeroporto Ben Gurion em Tel Aviv,
carregando seus pertences agilmente em carinhos de bagagem?
E
qual não foi a reação do taxista ao ver os pombinhos com o braço estendido e com os dedos erigidos sobre a palma da mão direita, ordenando com grande
impaciência que encostasse o veículo imediatamente?
E,
leitor, qual não foi a felicidade insondável daquela meia dúzia de ensandecidos
israelenses quando surraram e depois incineraram os corpos castigados do casal,
instantes antes de notarem com grande assombro que algo de muito estranho se
passava em suas faces?

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