Levava sobre o colo a pipa – alisava a fina haste de madeira e o corpo magro de papel gretado como quem afaga alguém próximo do sono. No rosto sábio levava um sorriso seguro, o qual as oito horas de trânsito para alcançar a praia jamais poderiam subtrair.
Desceu a serra em ansiosa alegria. Era levada contente pela imaginada felicidade que iluminaria o rosto do netinho ao ver sua pipa correr os céus do litoral.
Mas maldito o vento que, sem prestar contas a ninguém, apagou como uma onda a linha arqueada do sorriso do netinho traçada nas areias imaginárias da vovó; raptou das enrugadas mãos tremelicantes de amor o presente maravilhoso, e arrastou a vítima indefesa pelo ar, rumo um cativeiro misterioso.
Engano seu, porém, se tens como certa a desistência da senhora.
Ventinho mixuruca nenhum carregaria impunemente o presente muito estimado e a alegria do rosto do netinho.
Então a vovó se pôs a correr em velocidade espantosa atrás da pipa avoada. Veloz como um guepardo faminto ou como um garanhão selvagem liberto finalmente de suas tortuosas amarras; a vovó saltava em seu maiô verde esperança as elaboradas cidades medievais de areia, serpenteava banhistas curiosos e salva- vidas prestativos, driblava carrinhos de milho, de coco, de raspadinha, de churros. Deixou para trás uma constelação de perigosos obstáculos, os quais apontavam afiado gume contra a garganta de seu objetivo de vovó.
A pipa refém tentava desvencilhar-se das mãos cruéis do desalmado e invisível seqüestrador, debatendo-se insanamente pelo ar, sonhando voltar às mãos da doce velhota.
Talvez, então, aquele ventinho sem vergonha tenha tomado conhecimento do ímpeto inabalável das vovós, pois resolveu mudar sua rota de fuga, começando a carregar a pipa em direção ao mar.
E quando já adentrava poucos metros dos domínios de Netuno, a nossa furibunda vovó, com uma assombrosa rapidez de raciocínio, e utilizando uma prancha de boadybord momentaneamente esquecida como trampolim, catapultou-se aos céus, ganhando rapidamente uma altitude considerável.
Tocou ávida a pele fina da seqüestrada e as hastes de pau em cruz, correu as mãos pela rabiola abaixo e, acometida pelas vontades gravitacionais, mergulhou derrotada nas águas gélidas do oceano.
Diante de tal cena, um vendedor aproximou-se da senhora, quando esta já se arrastava pelas areias, e ofereceu, por preço de ocasião, uma frota infindável de pipas, balões, papagaios, e até chapéus de palha.
A vovó não lhe deu atenção alguma. Endireitou o corpo, inabalada, e bateu a areia agarrada ao maiô.
Olhou a pipa, que já ia alto, e esta pareceu lhe acenar pela última vez, ciente de seu trágico destino.
Quando reencontrou o guarda-sol da família, a vovó trazia um gigantesco churros de chocolate, e redesenhava intimamente o sorriso imaginado.
Contudo, o netinho sequer a olhou; seus olhos acompanhavam o poder de destruição que o carrinho de seu amigo do guarda-sol vizinho infligia a uma muralha de latinhas de cerveja, aos pés dos homens que dormiam sob o sol, aos baldes de água de meninas de topless precoce.
Sequer os pedidos ou súplicas chorosas da vovó ganharam sua atenção; e, em reação ao aviso da nora sobre o rápido derretimento que o alimento invariavelmente sofreria, comeu-o ela mesma.
E talvez tenha sido esse churros que causou a diarréia aguda na pobre vovó e que acabou com o feriado de toda a família na paradisíaca Mongaguá.
Desceu a serra em ansiosa alegria. Era levada contente pela imaginada felicidade que iluminaria o rosto do netinho ao ver sua pipa correr os céus do litoral.
Mas maldito o vento que, sem prestar contas a ninguém, apagou como uma onda a linha arqueada do sorriso do netinho traçada nas areias imaginárias da vovó; raptou das enrugadas mãos tremelicantes de amor o presente maravilhoso, e arrastou a vítima indefesa pelo ar, rumo um cativeiro misterioso.
Engano seu, porém, se tens como certa a desistência da senhora.
Ventinho mixuruca nenhum carregaria impunemente o presente muito estimado e a alegria do rosto do netinho.
Então a vovó se pôs a correr em velocidade espantosa atrás da pipa avoada. Veloz como um guepardo faminto ou como um garanhão selvagem liberto finalmente de suas tortuosas amarras; a vovó saltava em seu maiô verde esperança as elaboradas cidades medievais de areia, serpenteava banhistas curiosos e salva- vidas prestativos, driblava carrinhos de milho, de coco, de raspadinha, de churros. Deixou para trás uma constelação de perigosos obstáculos, os quais apontavam afiado gume contra a garganta de seu objetivo de vovó.
A pipa refém tentava desvencilhar-se das mãos cruéis do desalmado e invisível seqüestrador, debatendo-se insanamente pelo ar, sonhando voltar às mãos da doce velhota.
Talvez, então, aquele ventinho sem vergonha tenha tomado conhecimento do ímpeto inabalável das vovós, pois resolveu mudar sua rota de fuga, começando a carregar a pipa em direção ao mar.
E quando já adentrava poucos metros dos domínios de Netuno, a nossa furibunda vovó, com uma assombrosa rapidez de raciocínio, e utilizando uma prancha de boadybord momentaneamente esquecida como trampolim, catapultou-se aos céus, ganhando rapidamente uma altitude considerável.
Tocou ávida a pele fina da seqüestrada e as hastes de pau em cruz, correu as mãos pela rabiola abaixo e, acometida pelas vontades gravitacionais, mergulhou derrotada nas águas gélidas do oceano.
Diante de tal cena, um vendedor aproximou-se da senhora, quando esta já se arrastava pelas areias, e ofereceu, por preço de ocasião, uma frota infindável de pipas, balões, papagaios, e até chapéus de palha.
A vovó não lhe deu atenção alguma. Endireitou o corpo, inabalada, e bateu a areia agarrada ao maiô.
Olhou a pipa, que já ia alto, e esta pareceu lhe acenar pela última vez, ciente de seu trágico destino.
Quando reencontrou o guarda-sol da família, a vovó trazia um gigantesco churros de chocolate, e redesenhava intimamente o sorriso imaginado.
Contudo, o netinho sequer a olhou; seus olhos acompanhavam o poder de destruição que o carrinho de seu amigo do guarda-sol vizinho infligia a uma muralha de latinhas de cerveja, aos pés dos homens que dormiam sob o sol, aos baldes de água de meninas de topless precoce.
Sequer os pedidos ou súplicas chorosas da vovó ganharam sua atenção; e, em reação ao aviso da nora sobre o rápido derretimento que o alimento invariavelmente sofreria, comeu-o ela mesma.
E talvez tenha sido esse churros que causou a diarréia aguda na pobre vovó e que acabou com o feriado de toda a família na paradisíaca Mongaguá.

=(
ResponderExcluir