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O Açougueiro de Zaragoza

Enquanto sobrevoava Ibiza a bordo do meu dirigível movido a energia maremotriz, corria os olhos grudados pelas linhas da página quarenta da propositalmente amarelada primeira edição de antologias em capa dura de grandes reportagens publicadas entre os anos de 1964 e 1968 pelo afamado e mui competente folhetim centenário “El Diário de Zaragoza” – presente inestimável recebido das mãos tementes a Deus do louvável Arcebispo François Labatella, catedrático da Arquidiocese de Marseille, na ocasião da belíssima cerimônia na qual fui agraciado com o prêmio de melhor detetive italiano da década.

Foi ali, na página quarenta, que uma célere, súbita e desconfortável surpresa ordenou a atenção irrevogável de meu espírito inquisidor, de modo que, imediatamente, não pude deixar de dispensar os serviços de toda minha atenciosa tripulação. Ofereci à todos os pára-quedas e demais apetrechos necessários para saltos urgentes feitos de imensa altitude e tomando pelas próprias mãos as rédeas da fera oval alada, dirigi-me sem escala para Saragoza, terra de atraente mistério.

Na página de número trinta e nove da supracitada antologia, lêem-se os primeiros parágrafos do aguçante artigo intitulado “O Açougueiro de Zaragoza”, assinado por Mariquita De Las Cruzes: o mote de meu estranho espanto e razão fundamental de minha não bem sucedida visita a estimulante cidade do nordeste espanhol.

No artigo, escrito em formato fluido, cálido e quiçá hipnotizante, De La Cruzes reporta-nos um trágico momento de inconformável loucura por parte da população – acontecimento tão trágico quanto improvável, a meu ver.

Na década de 50, quando contava ainda com pouco mais de duzentos mil habitantes, a calada Zaragoza foi vítima de uma conspiração jamais dantes vista em território espanhol, sendo abastecida meses a fio por “incontáveis toneladas de carne manipulada espiritualmente”.

Chega a meu conhecimento através do punho intrépido de Mariquita que nas fazendas de gado de corte das cercanias não era raro presenciar sanguinários rituais pagãos de culto ao carnivorismo. Mariquita - de quem assumo não possuir sólidos conhecimentos, escancara, então, os cruéis meandros de uma engenhosa farsa, desvelando, ao longo de sua escrita endiabrada, a participação premeditada de Don Abricó Gutierrez, açougueiro bisneto de turcos foragidos, letrado em magia negra e administração de empresas com ênfase em fazendas de corte de gado. Gutierrez era dono da maioria dos campos de pasto, das fazendas da região e dos principais açougues da cidade, e, manipulando as preferências alimentares dos zaragonezes, lucrou imensa fortuna sem jamais ser indiciado ou incriminado – seu castigo veio de outra forma, como veremos em breve.

Sob a investigação astuciosa e destemida de De Las Cruzes – de quem me comprometo a buscar maiores informações assim que for humanamente viável – é possível compreender o efeito dos tais rituais pagãos na alimentação da população local, a qual, tendo modificada a tradicional estrutura bioquímica do hipotálamo e da matriz ungueal devido aos rituais heréticos, chegava a consumir até catorze vezes a quantidade normal de carne ingerida diariamente.

Enquanto iniciava a leitura do artigo, ainda sobrevoando a estupenda Ibiza, acreditava intimamente se tratar apenas de mais uma entre as infindáveis fraudes baseadas em magia negra e consumo abusivo de carne por parte de uma população manipulada bioquimicamente - mas eu não poderia estar mais errado.

Foi na página 40 da antologia que li a conseqüência atroz e carnicenta de tal conspiração: o abate de gado, galinhas, ovelhas, coelhos, esquilos, chinchilas, porquinhos da índia, etc., mesmo produzindo gigantescas quantidades de carne, não foi suficiente para alimentar a cada vez mais insaciável população carnívora de Zaragoza, de modo que não houve alternativa frente as práticas canibais que ganharam as ruas e fizeram milhares de devorados.

Em meio aos sangrentos banquetes de carne humana, o imperdoável Don Abricó Gutierrez – que além das fazendas e dos açougues, arcava com o sustento de 10 amantes, e talvez esse seja o motivo da tragédia sem precedentes – pareceu arrepender-se de sua fome por fortuna, pois decepou seus 10 dedos das mãos, enviou via correio cada um deles para uma de suas amantes, caminhou decididamente pelas ruas encharcadas em sangue, invadiu o circo local e foi devorado por um leão de meia idade após ter-lhe chutado os bagos.

Mariquita buscou ouvir uma da dezena de amantes do cruel açougueiro em sua reportagem. E aqui reproduzo pequeno trecho da entrevista realizada: “Ainda guardo o dedo – o mindinho- que ele me enviou dentro de um envelope selado“- diz Manuelita de las Nieves. “Ele está uma garrafa, conservado no formol, entre o pote de sal grosso e o espremedor de alho”.

Encerrei a leitura do brilhante texto quando já me encontrava dentro do espaço aéreo de Zaragoza e entendi que era hora de pousar meu dirigível. Neste mesmo instante, lembrei-me de minha imperícia em pousar a aeronave e não pude entender porque demiti sumariamente e obriguei um corpo de excelentes profissionais do ar a realizar um salto em queda livre de quatro mil pés.

Antes do gás do dirigível explodir, choquei-o desesperadamente contra uma lúgubre senhora e seu picolé – que de onde eu estava (gritando dentro da cabine), achei que deveria ser de limão ou de abacaxi, pela cor- Ela, que estava sentada passivamente sobre o banco de uma praça deserta, e que por manter os óculos de grau no bolso da saia de seda curta para uma senhora daquela idade ao invés de pô-lo na cara, não pôde avistar a aproximação da aeronave descontrolada e teve o corpo e o picolé reduzidos a cinzas instantaneamente.

Durante minha permanência na ala de queimados do impecável hospital católico Santa Madre de Díos, enquanto tratava de recuperar os três quartos de meu corpo incinerado, chegou dolorosamente à minha ciência que o instigante relato publicado na Antologia, razão do meu desastre sem precedentes, é na realidade uma obra de ficção configurada escrachadamente pelo outrora pecaminoso poder criativo de um tal satírico francês que deu-se conta do chamado de Deus em território espanhol e que hoje comanda com mãos firmes e tementes a Arquidiocese de Marseille, mas que à época atendia debochadamente pela alcunha de François Laputella.

E foi da instituição citada acima que recebi, dias mais tarde, presente de embrulho pomposo. Em seu interior descobri a segunda edição da maldita antologia, com as grandes reportagens publicadas entre 1969 e 1974. Nas primeiras páginas amareladas da antologia, escrita a mão em letras garrafais, precisas e azuladas, pude ler, depois de muito forçar a única vista que ainda possuía, tal dedicatória:

Amigo Detetive Piercarlo Forlimpopoli,


Espero que minhas estorinhas inocentes em nada tenham contribuído para o triste incidente por ti sofrido


Aguardo, com fé inabalável em Deus, por sua total recuperação


Que Ele esteja contigo


Um abraço,


Arcebispo François Labutella. Arquidiocese de Marseille.

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O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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