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Não engravide Tânia


Não engravide Tânia. Era esse o aviso que precisava ser transmitido, delegado. Transmitido para mim mesmo, no passado. Estranhamente, doutor, mesmo tendo informado-me sobre o porvir, em tom de extrema urgência, não fui capaz de alterar o que já aconteceu.  O objetivo era que eu interpretasse a mensagem como uma advertência, como um vaticínio irrefutável, e me afastar de qualquer fêmea alcunhada de Tânia, fosse quem fosse. Não sei o que aconteceu. Apenas sei que agora estou encarcerado, fruto de um mal-entendido completo. Como tentativa de inocentar-me, conto-lhes agora, delegado e policiais desinteressados, como ocorreu o bizarro incidente, o qual me pegou com as calças arriadas, literalmente, e me arremessou inclementemente para o interior deste pardieiro, com vossas senhorias. Já era começo de noite quando ouvi um rumor nascer do casebre à margem oposta da rua onde labutava sofrivelmente – uso o verbo no passado, pois acho que meus empregadores não mais quererão contar com meus serviços. Naquele dia havia sido despertado às onze da manhã pelo estrondo pavoroso de uma broca a perfurar o asfalto da alameda onde residia - uso o verbo no passado, novamente, pois tudo leva-me a crer que, a partir de hoje, passarei a ser morador da cadeia mais próxima. Apesar de ter despertado cedo, somente às 14h30min encaminhei-me com o costumeiro pesar até o prédio de dois andares no qual trabalhava com clara má vontade. A soma dos fatores desagradáveis e grotescos os quais havia experimentado ao longo daquele dia provocava-me um dor inabalável e sufocante - terrível como se fragmentos de vidro raspassem a superfície de meus olhos. Contudo, aquele sofrimento foi momentaneamente aquietado quando um aprazível canto acariciou minha orelha esquerda, a qual dava para a janela, que dava para a rua, que dava, por sua vez, para a casa, e que deveria dar, pensei, para a fonte da cantiga. Como se liberto após séculos encarcerado em uma caverna depositada nas entranhas do mundo, descolei os olhos da tela do 386 (era o Ano da Graça do Senhor Hare Krishna de 2012) e como um idoso de músculos atrofiados, ergui-me do banco de madeira sem estofamento ao qual meu corpo era mantido pregado por 8 horas todos os dias. As juntas pútridas e ligamentos mofados guincharam ao abandonar o esquelético assento e fui à janela para inspirar o sopro vívido e atraente da noite. Prontamente, cortei a jugular do chefe, sentado ao lado, antes de ganhar a rua deserta e dirigir-me ao portão de onde provinha a canção milagrosa. Sem dar atenção a uma provável morte por atropelamento, cruzei a rua inóspita, como que hipnotizado. Chamei alguém através do interfone instalado no portão de madeira antiga e pedi para falar com o responsável pela música que de lá ganhava a vizinhança. Uma voz respondeu, não pelo interfone - ela vinha de trás do muro. Perguntou-me se havia marcado hora. O portão se abriu inteiramente, convidando-me a entrar, após ter-lhe garantido que a hora marcada era exatamente aquela – para tal, aumentei um tanto minha potência vocálica para que esta pudesse transpor a imponente altura da construção de pedras gastas. Adentrei o terreno, empapado em sombras, dando um passo incontornável rumo à loucura completa. Na escuridão que se abateu logo em meus primeiros passos pelo jardim, consegui divisar uma miúda fresta de luz ao fim do que parecia ser um caminho de terra batida, mas não pude, por mais que tivesse arriscado, encontrar o interlocutor do brevíssimo diálogo anterior. Caminhei na direção da linha imóvel e horizontal desenhada ao fundo da total escuridão. Tateava os pés sobre a trilha improvisada quando a voz chamou-me e senti um calor vulcânico explodir em minha garganta. A voz - era a mesma, podia identificar - soava enfurecida e descontrolada e perdi-me no negror sufocante, sentindo medo pela primeira vez desde que ali havia adentrado. Girei sobre os calcanhares tantas vezes na ânsia de ter a localização daquilo que me dirigiu a palavra que desfaleci, tombando pesadamente sobre a grama úmida da noite infante. Quando despertei, estava à frente do 386, e meu superior, em meio a risadas infantis abafadas, peidava impunemente ao lado. Girei a cabeça na direção da janela e avistei a casa, o portão e a mesma muralha de pedras gastas. Aspirei novamente o teor adocicado da noite, buscando expurgar a produção gasosa daquele que me dava ordens, mas não tive aptidão para tal. Também tentei encontrar algum vestígio da bela melodia a singrar pelo ar próximo, mas também não consegui – o chefe ouvia uma música chamada naquele estágio da evolução humana de sertanejo, estilo musical definido como música clássica pelos estudiosos contemporâneos, e aquilo subjugava qualquer outro som existente. Levantei menos irritado do que instigado pelo que acabara de experimentar minutos atrás e lancei-me novamente à rua. Em seguida, vi-me diante do portão destrancado, o qual, apenas encostado, convenceu-me a entrar por mais uma vez. Confuso como se navegasse um frágil bote por águas desconhecidas e cobertas por névoa espessa e gélida, penetrei novamente o jardim, após empurrar o portão, que gemeu alto, como se gritasse alertando os residentes sobre a covarde invasão. O local permanecia tomado por uma escuridão intensa e desnorteante. Então outra vez ouvi a voz. Ela vinha de algum recanto invisível, “Pai?”, perguntou-me, em tom de surpresa. Corri os olhos por toda a extensa treva, esquadrinhando cada centímetro do breu no qual penetrava. Era uma menina, uma criança que deveria estar brincando quando entrei ali, intempestivamente. O silêncio dominou-me, calando inclusive o som de minha respiração e, estacado no gramado baço, divisei a fresta; uma lua minguante dourada a planar à altura do horizonte. Encaminhei até ela sem medo ou preocupação - só acompanhava-me a curiosidade, o desejo incontrolável de conhecer a identidade daquela menina, a dona da voz que há anos acreditava não ouvir. Enquanto arrastava-me resoluto por sobre aquela escuridão sólida abaixo de meus pés, a fresta curva ampliava-se cada vez mais até que uma lívida explosão englobou-me. Recolhi- me, protegendo os olhos. A claridade perturbante evanesceu-se e a escuridão novamente derrubou-se sobre mim. Vislumbrei a casa na qual havia passado os primeiros e mais deliciosos anos de minha infância. ‘Pai!’, a voz celebrou, encharcada de saudades. E a menina correu para meus braços. Reconheci a face de minha irmã quando ainda uma menina de sete ou oito anos, ao toma-lá sobre o peito. Devolvi-a ao chão, celeremente, em uma mescla de espanto e repulsa, mas, pelas mãos, a menina levou-me ao interior da casa. Nada pude fazer além de acompanhá-la. Sentada à mesa da cozinha, folheando o jornal do dia, reencontrei minha mãe, a qual, após um beijo aliviado, expôs sua preocupação com o inesperado atraso daquele que ela imaginava ser seu marido - o que refirmava, pois já tinha certeza, que naquele momento eu era de fato meu próprio pai. Disse a elas que miríades de obstáculos transpus para sentar-me, extasiado, ao lado de meus dois maiores amores, naquele iluminado momento. Após um sorriso de consternação de ambas, os quais não esconderam certa surpresa pela beleza da minha sincera afirmação, foquei-me no problema que mais me causava aflição e desconforto. Se estava na pele do pai, onde haveria de estar eu mesmo? Pedi licença e deixei-as ali para tratar de encontrar eu mesmo. Por já ser noite, deveria estar de volta da escola e, estimando a idade da irmã, acreditei saber onde e o que estaria fazendo àquela hora do dia. Procurei meu quarto, o qual, lembrava-me muito bem, ficava no andar superior, após o breve lance de escadas que se levantava da sala de estar. Quando adentrei o pequeno quarto ao fim do corredor, após empurrar a porta afobadamente, avistei a mim mesmo deitado na cama, coberto até o pescoço por uma manta de lã, a qual, na altura da cintura, sofria constantes e violentíssimos abalos sísmicos. O menino, de 14 anos, surpreendeu-se com a presença daquele que achava ser seu pai e, em um improviso inútil, parou de masturbar-se para fingir que apenas coçava a virilha. Entretanto, o enrubrecimento, até mesmo para seu pai, caso fosse ele quem estivesse empostado aterrorizado sob o batente daquela porta, o denunciaria sem pestanejo. O menino pareceu tentar formular uma desculpa ou encontrar um assunto súbito que desviasse a atenção do recente acontecimento, mas para nada adiantaria - por vezes revivia aqueles momentos engraçados através dos caminhos turvos da lembrança. Eu tinha pressa em lhe transmitir uma informação vital. Sentei à beira da cama, enquanto um claro aspecto de asco modificava suas feições do menino. “Olha aqui, você precisa acreditar em mim, eu sou você, você sabe disso, e disso sabe por razões que não podem ser esplanadas por causa da estranheza da situação e pelo raro tempo que ainda me resta nesse tipo bizarro de realidade e ..”. “É claro que te entendo, pai”.-  o menino interrompeu.
Amaldiçoei-me por ser burro desde muito pequeno, mas encontrei forças para prosseguir. “Olha, eu sou você daqui vinte anos”, apressei-me em falar. “E eu sou um você de um jeito que você não irá querer ser. Está ouvindo? De jeito algum engravide a Tânia na oitava série e nem no ano seguinte. Ao invés disso, peça pra mudar de escola amanhã mesmo. Isso modificará inteiramente sua vida - pelo menos esta que vivi até agora. Se você engravidar aquela evangélica infeliz, terá que trabalhar desde novo. E então trabalhos cretinos sucederão trabalhos sem sentido e idiotas, chefes despreparados substituirão completos boçais, em um fluxo que só se completará na ocasião de seu completo aniquilamento - algo que eu aguardo com clara ansiedade, para falar-lhe a verdade”. O menino retraia-se, quase se enterrando sobre a suada manta de lã, enquanto expunha-lhe a situação. “Mas tudo isso pode ser mudado se você fizer as escolhas certas a partir de agora...”. Mas então o chefe peidou, o sertanejo invadiu-me a audição e despertei para o pesadelo nosso de cada dia. À minha frente, o 386 e a mesma conhecida e maldita situação. A familiar melancolia servindo-me de alma. Havia informado sobre o futuro, pensei, urrando dentro de minha própria cabeça, mas nada mudou. Possivelmente, eu, um completo cretino, esqueci o incidente ou tomei-o como um sonho constrangedor e alucinado. Enfim, continuava, neste presente inaceitável, enterrado sob uma Cordilheira do Himalaia de Merda, longe de qualquer salvadora missão de resgate. O próximo flato do meu superior hierárquico definiu o restante de minha vida, afundando-me, irremediavelmente, um pouco mais nas profundezas fecais. A nova arrosta foi a gota d’água e decidi pelo suicídio, finalmente. Seria, entrementes, um suicídio bastante diferente. O primeiro sui - homicídio de toda a existência ocorreria após uma nova invasão à misteriosa casa. Lá mataria a mim mesmo, com um vasto e inescrutável sorriso na face, enquanto minha mãe, aturdida e desesperada, tentasse impedir o bestial sufocamento, ao passo que a filha, hipnotizada pela violência repentina do pai, encolher-se-ia contra a parede gélida do corredor, tremelicando diante da absurdidade da cena. Usando com astúcia meu canivete suíço, rasguei lentamente a jugular do meu chefe, como se cortasse uma suculenta peça de picanha mal passada. Instantes depois, estava novamente sobre a escuridão insólita do jardim à procura de mim mesmo. Após penetrar a cozinha vazia, subi o breve lance de escadas, às pressas. Quando invadi o quarto sentia-me muito vivo, mesmo estando a poucos segundos do falecimento. Com a lâmina manchada e os olhos inflamados de rubro, esfaqueei-me ao menos umas duas dezenas de vezes - todas as estocadas com a mesma potência assassina insaciável da primeira. Quando a polícia me algemou e arremessou-me no camburão, antes de aqui chegar, ainda não havia atinado para os eventos recém-ocorridos. Foi só há poucos instantes que compreendi que após assassinar João Gouveia de Medeiros, meu chefe na empresa Bolso Largo Contabilidade Ltda, invadi uma residência cujo proprietário desconheço e assassinei seu filho enquanto este, sozinho na residência, jogava, deitado sobre sua cama de viúva, Call of Duty 3 em seu Xbox 360. Foi exatamente assim que tudo ocorreu, delegado e raivosos policiais.

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O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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