Dê um tempo para minhas têmporas desincharem e eu retiro dos
cascos do bote do Porto um bom gole de vinho pra você, meu bem, minha
recém-conhecida paixão eterna. Bicaremos volumes miúdos do liquido como boas
pombas que somos. E depois dê um abraço turbulento em mim para que minhas
têmporas se inchem horrorosamente, e aí então podemos começar a fazer tudo isso
novamente. E logo após, cheios de graça e tara, ziguezaguearemos pelas dunas e
holofotes e carros mortíferos e indiferentes desse litoral melado e áspero de
areia agarrada às minhas penas degringoladas. E, bailando em uma frequência
suave e hipnotizante, como aquela onda distante na madrugada, adentraremos respeitosamente,
num fluxo apaixonante, a Igreja do Padre Pardo para perguntar-lhe sobre a
questão fundamental. 'Por qual motivo minha barriga tá fazendo uns barulhos
bizarros?' Questão essa que não produzi, mas sobre a qual reflito desde que a
ouvi, décimos de segundos atrás - tempo estipulado pelo trabalho preciso de cronômetros suiços Tag Hever. Questão essa sobre a qual ainda
reflito, até o momento em que Padre Pardo me confidencia no sigilo morno de
seus edredons, enquanto, nu, massageio suas ancas, que as barrigas fazem
barulhos bizarros quando Deus deixa de nos amar e que para a solução desse mal
só havia uma única e singular saída: voltar a fazer com que ele queira nos
amar. Digo para Padre Pardo, enquanto você me espera cheia de falta de
paciência, distante daquela intimidade inesperada, que quero que Ele me ame em
toda sua magnificência, em todo seu esplêndido esplendor de Homem-Deus barbudo
semelhante a um mendigo sabichão; que quero que Ele me ame tanto, mas não tanto a ponto de
querer fornicar-me. Então Padre Pardo apaga seu cachimbo de crack com um densa e pegajosa cuspida e abre sua
maleta com papéis e documentos dignos de um advogado atuante e preparado para o
enriquecimento rápido e inescrupuloso e diz, olhando para mim com seu olhar
vidrado, típico dos padres prestes a ofertarem uma proposta irrecusável, 'tenho
cá uns papeis que devem te interessar, Monsieur Vômito'. E digo, enquanto você
ainda me espera, sentada no gélido banco de madeira duro feito uma imagem de
Santo Padre, ‘mostre-me logo essa tentadora proposta e deixe-me esquadrinhá-la
por um minuto que seja'. E Padre Pardo fala, mostrando o papel, (um cheque
parcialmente preenchido, faltando apenas uma assinatura) 'dê-me um autógrafo
aqui, e Ele irá amá-lo até o milésimo em que você falecer magro feito um fio de
macarrão pré-cozimento - quebradiço e sem sal. Assino o papel enquanto meu abdômen
tem convulsões orgásticas e quando saio da alcova do Homem de Deus-Mendigo,
vejo você fazendo sexo oral no coroinha de 10 anos. E então, compreendendo
sobre o que se trata o amor de Deus, e caminho até a nave principal, e tomo em
minhas mãos uma enorme vela branca - cujo simbolismo idiota foge-me agora - e,
depois de amordaçá-lo à cama, enfio-a repetidas vezes em Padre Pardo,
acompanhando o badalar do sino da meia noite, que preenche o ar incrédulo e calam
as poucas ondas a chiar, quebrando tímidas, onde o vinho estivemos a bicar.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
O Pardal Imoral
O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.
Por Guilherme Abati.

Nenhum comentário:
Postar um comentário