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Orgia no Necrotério

Uma sucessão de imbecilidades péssimas e terríveis constituiu aquela quinta-feira.  Para começar, eu acordei. O que já indicava que o dia seria péssimo. Depois perturbou-me uma incômoda impressão de que minha presença era obrigatória em um local distante do meu lar. Obrigação é a precaução ao castigo. Não existe obrigação. Existe punição. Mas como não há punição maior do que deixar de dormir, eu ignorei com determinação a sensação e virei para o outro lado da minha cama, onde dois olhos inertes apontavam um brilho quase petrificante em minha direção, enquanto me ajeitava no travesseiro. A cama inteira se fez fria como uma forma de gelo e foi como se o quarto escuro tivesse se tornando uma sala de necrotério iluminada e perturbante. Achei estar deitado sobre uma mesa de autópsia, coberto por algum tipo de lençol branco recém-lavado na lavanderia de um necrotério. Então me lembrei que era aquilo mesmo. Que eu dormia, dias após dia, sob uma cama gélida junto a um cadáver durante o fim da madrugada, quando os médicos legistas ficavam enfurnados em salas longínquas, onde também deveriam dormir. Aproveitava aquela abençoada ausência de vida e de idiotices desregradas para poder dormir em paz, sem interrupções, sem medo. Mas o que eu senti foi justamente medo naquela hora. E não apenas isso. Senti um dilacerante pavor que pareceu suspender o controle que eu achava possuir sobre meu ânus. Por sorte e para meu momentâneo alívio, havia evacuado antes do meu cochilo. O breve alívio em nada abrandou o terror que crescia em mim. O cadáver deitado ao meu lado estava tão acordado quanto eu.  E parecia contente com aquilo, porque sorria exageradamente diante do meu rosto apavorado. O cadáver agarrou minhas mãos e as beijou. Depois me beijou também na boca, deixando uma gosma transparente e asquerosa sobre meus lábios trêmulos. ‘Bom dia, flor do dia!’, ele desejou, apaixonado, se aconchegando cada vez mais próximo de mim. O que me fez crer que a qualquer momento poderia até sentir uma ereção na altura da região do meu quadril. O que não ocorreu, porque eu velozmente saltei daquela mesa cinza e morta assim faria algo extremamente rápido.  Ao me pôr de pé, senti uma dor na região lombar, como se algo pesado e forte houvesse sido pressionado sobre minhas costas repetidas vezes durante as últimas cinco horas. Senti também uma ardência no ânus e um cansaço impensável. Mas tudo isso foi reduzido ao esquecimento quando vi outros cadáveres levantando-se e me olhando com indisfarçável surpresa. ‘O que foi queridinha? Não está cansada não? ’, perguntou maliciosamente um deles, pouco antes de todos os defuntos preencherem a desnorteante sala com uma risada fetidamente esganiçada, como um riso conjunto grotesco em um vestiário masculino. Notei então que havia algum tipo de conotação sexual pairando no ar. E ao olhar para baixo, em um impulso inexplicável, notei que eu usava uma minissaia quadriculada e uma meia calça preta linda de morrer. Depois disso notei uma curiosa saliência no peitoral. E ao notar isso, notei também a falta do costumeiro volume logo abaixo da virilha. E ao notar tudo isso, fazendo uma breve reflexão, cheguei à conclusão que eu era uma mulher. E que todos aqueles cadáveres excitados queriam me possuir. E foram essas as duas conclusões que me fizeram correr desesperadamente tentando me equilibrar sobre os saltos, segurando uma bolsa minúscula que estava pendurada em um de meus ombros. Ao chegar à porta, tentei abri-la. Mas nem com toda minha força desesperada consegui girar a maçaneta e puxá-la. E então me lembrei da chuva; do som dos carros incontroláveis escorregando pelas ruas encharcadas. Lembrei do impacto surdo do plástico quente que semanas atrás havia rasgando minha pernas; de voar alguns metros dentro da tempestade antes de cair na escuridão e de tudo cessar. E então me puxaram violentamente e eu caí entre muitos deles que agora não mais estavam naquele estado narcoléptico e pareciam repletos de vida. Sobre o chão, abri a bolsa, passei um batom rapidamente e disse, resignada, ‘Um por vez, ok?’.

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O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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