Chovia para o caralho. Pesado e barulhento e frio e minhas
meias frias e meus bolsos prontos para um mergulho esportivo. A roupa gelada dos outros sobre as minhas. O
chão empapado de sangue e água e as ruas barulhentas tomadas de buzinas e
reclamações de motores irritados e o murmúrio ensopado de lamento daquele
ônibus petrificado sobre um rio cujo leito é asfalto. Enquanto minha barriga pesava sobre meu pênis
encolhido e medroso, meus óculos embaçavam com a respiração fétida dessa imensidão
de seres humanos cansados e suados dividindo o mesmo e miserável metro quadrado.
Do lado de fora, a respiração pútrida de
um rio morto. Eu estava quase incontrolavelmente feliz. Dentro do celular de um
velho mais nojento que eu, uma voz afirmou: - Essa chuva tem tudo para foder
com a vida de toda a população dessa cidade. Ao que ele retrucou (o cheiro de merda quente
vindo por trás): - Pois é. (Quem vai foder com a vida da população não é
essa chuva, pelo menos não nesse ônibus). Tinha quase certeza que o velho
havia mijado nas calças. Não só pelo cheiro. Mas também porque ele havia parado
de tremer. Chovia há dois dias. Eu estava no ônibus há umas 4 horas. Não sei ao
certo porque estava sem relógio. Metade desse tempo devo ter passado com a
virilha desse homem pressionando minhas nádegas – não podia constatar o fato de
ele ter realmente urinado enquanto forçava seu corpo contra o meu, em nossa divertida
luta secreta, sem perspectiva de fim. E
minhas roupas não secavam. E chovia ainda mais. E aquilo era terrivelmente
engraçado e excitante. E as pessoas entravam e poucas saiam. Antes, mas não
muito, um homem tirou uma arma ensopada de sua mala. Duvido que funcionasse. Ele
a apontou para mim e eu passei meu guarda-chuva. Passei também o relógio, para
mostrar pró-atividade. Ele pegou seu novo bem e desceu do ônibus. Idiota. Aquele
guarda-chuva estava todo quebrado. As hastes murchas feito uma bexiga vazia babada. Quando ele entrou no ônibus de novo, eu
o esfaqueei. Pedi para o cobrador pedir para o motorista abrir a porta, enquanto
guardava novamente minha arma em minha maleta de couro marrom. Reavi meu
guarda-chuva e então o arremessei à rua, com certo respeito. O relógio eu me esqueci de pegar. Tudo bem,
pois identifiquei olhares aprovadores ao voltar à frente do velho. Sempre
gostei de ordem. Estiquei o pescoço o
quanto pude enquanto a conversa no celular prosseguia e vi o semáforo apagado
como o brilho da esperança daquele grupo de miseráveis condenados. O rio ao lado parecia ofegante, pois sua respiração horrenda soprava a fragrância de mil mortos para dentro das janelas. Cogitei
assassinar mais algumas pessoas para meu mero entretenimento. Havia comprado uma semana antes uma Permissão para Matar em
um site de compras coletivas. Aquilo me deixou feliz demais, pois poderia
finalmente pôr em prática aquele impulso a muito represado sem sofrer os
costumeiros castigos criados pela sociedade. Agora tenho a faca à mão novamente. E como em
uma livraria, não sei para o que olhar, o que ler. O que matar? O que degolar e
perfurar? O velho fétido atrás? Não. O
motorista. Ele mesmo. Conforme peço licença em meu caminho até a dianteira do ônibus,
ouço reclamações insensíveis. O que faz com que eu esfaqueie pelo menos umas 13
pessoas durante minha gloriosa, triunfante caminhada. Deposito o corpo do motorista no chão. Carlos é
seu nome. Igual ao meu. Isso me entristece. Mas por pouco tempo. Pois entre os
ganidos e miados dos feridos e daqueles que poupei, ergue-se uma risada gostosa
e completamente infantil – a minha própria. Em minha frente, a direção do ônibus e a
possibilidade de guiar aquilo, a vida de todos, para onde quisesse. E com a lembrança do hálito do velho, sou
guiado até o enorme Rio entre avenidas apinhadas de cores brancas e vermelhas.
E mergulho todos ali. Isso sim é um mergulho esportivo.
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O Pardal Imoral
O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.
Por Guilherme Abati.

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