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O Rapaz das Coxas Marrons


- Que pesadelo de vida essa vida minha, nossa boa senhora do céu! Haverá, além deste pobre e castigado hombre que vos fala, outra alma tão desafortunada? Questionei tal membro do elenco divino a respeito da natureza do meu padecimento, enquanto reprovava a triste e lastimosa figura refletida pelo espelho oval do banheiro.

- Há sim, homem viril e bem desenhado! – disse uma mulher idosa, que de sopetão surgiu detrás de mim, após dar a descarga e abrir rapidamente o box da cabine mais afastada do banheiro. - Uma pá de cidadãos com o brioco frouxo está a caminhar pelas ruas neste décimo de segundo, homem defecado.

- Ohh! És tu a tal da nossa senhora do céu, aquela que por sobre as nuvens deita- nos maternalmente os olhos atentos e cuidadosos? – perguntei, virando-me para aquela misteriosa presença que vinha caminhando em minha direção, ao mesmo tempo em que eu tentava esconder o cheiro do esguicho quente que momentos antes havia vazado da minha bunda incontrolável.

- Pois sou eu sim, rapaz das coxas marrons. Olhe bem, expulse de seu rosto essas lágrimas indignas, não há necessidade de esconder seu pesar. Sei de tudo o que ocorreu na cerimônia de seu casamento, instantes atrás. Nutro por ti carinho infindável e indefecável, e que cresce e agiganta-se desde o dia em que soube de sua história. Ser refém de caganeiras desavisadas é algo de um horror inescrupuloso. Eu mesmo sei disso.Oro por ti. Agora vou indo. Aquele abraço.

E assim a idosa virou fumaça de festinha infantil, daquelas que dão tosse, e sumiu de minha frente.

Fiquei só novamente, acompanhado apenas da envergonhada mudez da minha calça italiana feita sob medida, que se via agora empapada pelo mais aquoso dos cocos já feitos.

“O problema é que não é desavisada. É que eu não posso apertar as mãos dos outros”, disse para mim mesmo, tirando as inundadas calças italianas e arrebitando minhas nádegas na esperança de atingir meu exausto cu com a água corrente e gelada da torneira.

“Eu sempre soube disso, oras bolas. Desde infante tenha a ciência de que sempre que aperto a mão de outro ser humano minha bunda é alvejada pela mais pura e implacável vontade de defecar”.

A porta do banheiro foi então, enquanto atirava H2O em meu esfíncter amarronzado, escancarada por um chute destruidor, e minha noiva/ esposa adentrou trazendo ainda no corpo o vestido outrora branco. Ela me olhou. Estava acabada.

- Como podes, Jeffrey Rubens? Cagou de montão em mim durante nosso próprio casamento...snif...

Até as primeiras palavras do padre tudo caminhava perfeitamente. Podia ver nos olhos vesgos dela que o desenrolar daqueles acontecimentos superava todas as elaborações que ela criara desde meninotinha miudinha emelecada de ranho e baba .

Os tais sonhos começaram a ir água abaixo momentos antes de o padre começar a falar, afinal eu não poderia deixar de cumprimentar meu sogro enquanto ele a entregava, perto do altar. Sua mão estendeu-se para receber meu aperto respeitoso e implorou de mim aquilo que foi um tipo de suicídio. Apertei sua mão e ali soube que estava tudo perdido. 

Diante do padre, de Jesus, de mamãe, do nonagenário Don Araquaquecetúbal e de sua distinta esposa, mademoiselle Lambrusca, eu haveria de defecar as tripas.

Pensei, enquanto meu estomago tremia feito céu antes de tormenta e o padre falava dos laços sagrados do matrimonio, em encostar o rabo perto do vestido de minha esposa e rezar para que o discurso cristão ainda pudesse angariar a atenção de nós pecadores. Abaixei imperceptivelmente a calça e deixei o líquido se entender com a gravidade. Virei para a mulher que em minutos seria, diante de Deus, minha esposa; mirei dentro de seus olhos engraçados e disse:

– Disfarça, depois eu te explico.

Até que as palavras do padre ganhavam a atenção dos convidados, pois quem percebeu o que ocorria foi mademoiselle Lambrusca, aquela atéia desgraçada de uma figa.

E enquanto eu fugia pelo corredor, lembrei de todas as vezes em que apertei as mãos de outrem e precisei tratar de correr para algum banheiro ermo. Lembrei das vezes em que fingi ter quebrado os dois braços apenas para evitar indesejados apertos de mãos. Lembrei entristecido dos amigos que deixei de fazer por evitar tal amistoso gesto. Tentei visualizar as oportunidades que esvaíram por entre meus dedos apenas por que estes não resistem aos contatos de mãos alheias e assim me põe a fazer coco numa febre diarréica incrível.

Mas então, no banheiro, a nossa boa senhora do céu retornou, saiu da cabine e falou apressada, enquanto minha noiva perguntava-se quem haveria de ser aquela mulher esquisita: - A situação aqui era tão tensa que até esqueci-me de te falar, existem fraldas aí que resolvem este tipo de problema. Você terá uma nova chance, fera indomável, guerreiro cagalhão!

Tive uma nova chance. Aquele incidente foi apagado da memória dos convidados, exceto da mademoiselle Lambrusca, que anos depois ainda teimaria incansavelmente em repetir o incidente para quem quer que fosse, mesmo esses jamais acreditando.

E foi assim que eu finalmente me casei. Trajando uma fralda geriátrica importada, cumprimentei novamente o pai da noiva, e, com a fralda cheia, entre um borrifar e outro do frasco de Azzaro que trazia no bolso da calça italiana, ouvi as muito aguardadas palavras do padre finalmente confirmar a união de nossas almas.

Um comentário:

  1. mutante di amsterdam16 de abril de 2011 às 15:15

    Pobre Jeffrey Rubens, ainda bem que conseguiu uma solução, esse problema de caganeira é mesmo uma merda.

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O Pardal Imoral

O Pardal é pardal vivido, sofrido, calejado, e "impenetrável", como ele mesmo afirma. Pardal já era pardal quando boa parcela dos meninões ainda queria ser jogador de futebol, mas brincava de Barbie escondida no banheiro. O Pardal já hipnotizou peixes-bois com "sucesso parcial", como ele mesmo gosta de salientar; já comeu o próprio RG ante a mais das irremediáveis fomes; já fracassou hérculeamente ao tentar amamentar uma anão para angariar fundos para um excursão à Cabreúva e gosta de adjetivos feminos.

Por Guilherme Abati.






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